Feeds:
Artigos
Comentários

Archive for the ‘Reflexões’ Category

A felicidade está para a vida como a vida para a morte. Estamos mortos uma eternidade mas, num brevíssimo período, como se despertássemos de um coma, nascemos, a vida abre-se como uma flor ao Sol e promete coisas magníficas. Rapidamente gostamos do mundo.

E depois vamos progressivamente percebendo que tudo é breve e retornará inevitavelmente ao seu estado natural, que é a morte eterna. Vemos que fomos enganados e não estamos preparados para isso porque o instinto da vida, esse misterioso fogo, não é coisa que se apague facilmente. Olimpicamente resistimos.

Condenados à ilusão trocamos os passos e caímos até ao entendimento de que nem passos havia. O que era antes estrada e arbítrio é agora um rio que nos carrega. Vamos embatendo nas pedras sempre com a consciência aguda de que só pela mentira nos podemos, não salvar, mas aguentar a viagem. É nesse pequeno e ridículo percurso que os deuses nascem, as morais ensinam e a arte floresce.

E não há nenhum “mas” que nos ajude. É somente assim. São mais felizes os que se iludem, aqueles cuja vontade fundamental de viver fala mais alto do que os outros argumentos. Fala, porém, pouco tempo, e nada do que diz ecoa no universo, nenhuma palavra nega o absurdo.

Anúncios

Read Full Post »

Um Pensamento para 5 de Junho

Votar no Sócrates é como engolir um pepino espanhol infectado, todo de uma vez, extraído do ânus de um gorila colérico.

Read Full Post »

Uma Solução

Já me acusaram diversas vezes de apenas dizer mal (“ai achas que não presta o Orçamento de Estado? Então e que Orçamento é que propunhas, diz lá!” – coisas deste género). E têm razão. Quem quer ajudar o seu país não se pode limitar a dizer mal.

Por isso andei a reflectir e creio que, dentro do espírito português, cheguei a uma solução para grande parte dos problemas nacionais. E não é um Orçamento de Estado. A minha solução é mais uma parceria público-privada – com a Johnson:

 

A Solução

A Solução

 

Read Full Post »

As Cerejas

Comi agora mesmo um generoso volume de cerejas, sentado à minha secretária, e abriu-se um portal no tempo. Com prazer regressei a um passado em que era pequeno, sem preocupações, e comia cerejas ao longo de tardes imensas como o rio e quentes como a areia, em casa da minha avó, na janela da sala.

Era a janela de um último andar em estilo águas-furtadas, bem posicionada, com uma excelente vista para a rua e algumas telhas a oferecer privacidade. Eu acreditava que dali conseguia ver o Adamastor dentro da torre de uma igreja e também que o edifício, construído pouco depois das invasões francesas, tinha sido feito com o propósito especial de permitir atirar coisas a quanto se movesse lá em baixo.

Nessas tardes de sol observava muito a humanidade, sempre para cima e para baixo, admirável, incansável no seu impressionante processo de evolução. Depois acertava-lhe com caroços na cabeça. Quando se deslocava em carros atingia-lhes (com estrépito) o capô ou o tejadilho. Se estava vento, que é uma coisa que dificulta a pontaria, juntava muitos caroços numa mão e fazia uma espécie de tiro de caçadeira, arremessando-os todos ao mesmo tempo para aumentar as chances de sucesso. E caso tivesse sorte com o calibre dos caroços podia inseri-los na minha afinada zarabatana e atirá-los com tal força contra os vidros da frente que podia imaginá-los a rachar.

(…)

[O diálogo continua no livro “Diálogos Imbecis”]

 

 

Read Full Post »

Nós, As Ervas

As ervas selvagens, secas, ondulam ao Sol. Chega do fundo o som do mar, como deve ser. Lá em cima as nuvens são levadas pelo vento. Os meus pés caminham sem passado nem futuro.

 

Não é mistério nenhum, a vida, porque todas as perguntas são inúteis. Apenas estamos aqui, como as coisas. Não estamos por razão nenhuma. Não é importante que trilhemos um caminho, não podemos ser verdadeiramente grandes por quaisquer feitos, exemplares por quaisquer virtudes.

 

O nosso espírito, o espírito humano, tão capaz, tão brilhante, acontece num pequeno ponto azul do universo entre triliões de outros pontos. Sabemos isso. Um ponto frágil que em pouco tempo desaparecerá.

 

“- Se é raro, é especial. Que importa que rebente já a seguir se as coisas mais belas são também as mais fugazes? Que se foda Platão e os conceitos de eternidade. Bela é a paixão daquele jardim que já não existe, o calor da infância ida, a mãe que me morreu.” – reagem estes.

 

“- Insossa teoria dos descrentes e desapaixonados. Platão tem toda a razão, já conhecemos os deuses e voltaremos a conhecê-los; temos eternidade em nós, a energia que nos move é mais antiga que o universo. Ergo, vai-te foder.” – dizem aqueles.

 

Dizem, ou dizem e registam, ou dizem, registam e ainda atiram a mensagem para o espaço, e assim sobrevivem à verdade. E depois morrem na mesma, desaparecem, igualmente, como as coisas. O planeta majestoso que admiramos e protegemos, com todas as suas qualidades, a beleza impressionante das suas paisagens, a riqueza incontável das suas espécies, tem o mesmo destino de um tinteiro de impressora: o lixo.

 

As ervas, o mar e as nuvens sabem-no bem, e por isso não se impressionam, não têm fé nem escrevem considerações. Face a isso sabem o que vos digo, ervas, mar e nuvens? – Do fundo da minha alma, vão-se foder.

Read Full Post »

Feliz Natal Bom Ano

 

Feliz Natal. Santo Natal. Boas festas. Excelente ano novo. Boas entradas. Um 2010 cheio e promissor. Muito, muito, muito feliz ano novo preenchido com coisas boas. BateosinopequeninosinodeBelémjánasceudeusmeninoparaonossobem.

Como bons autómatos as pessoas repetem estas frases incessantemente nesta época do ano. Sintam-nas ou não, oferecem-nas a qualquer um, desde o familiar próximo ao mecânico da oficina. Não o fazem por bondade – não há nenhum fenómeno estranho que torne as pessoas repentinamente boazinhas em Dezembro, ao contrário dos mitos em que se acredita – mas por automatismo. Apesar do ser humano se caracterizar pela imprevisibilidade e pelo livre arbítrio, a verdade é que a maioria dos comportamentos são os comportamentos do grupo em que se insere, e são previsíveis.

São muito mais parecidas com computadores do que gostariam. Cumprem, com as suas insignificantes idiossincrasias, o algoritmo do grupo. Nenhum homem é uma ilha, sem dúvida, mas raros são tão importantes como o das palavras de John Donne: a maioria dos homens, na qual me incluo, têm a importância de uma sardinha num cardume. Não, maioria, os sinos não dobram por ti. É tão provável dobrarem por ti como esta ideia ser popular.

Quando me dizem “boas festas” eu respondo “igualmente”. No fundo sinto alegria em dizê-lo, porque quando estas palavras se trocam geralmente quer dizer que estamos no fim da conversa, mas não deixo de sentir a estranheza de estar a cumprir um protocolo desnecessário. Ninguém precisa de receber desejos de bom natal e bom ano novo.

Faz algum sentido comemorar uma rotação completa da Terra em torno do Sol? Já é estranho que se comemorem os solstícios e os equinócios. O Natal é, sob todas as máscaras, uma comemoração anacrónica do solstício de inverno. A partir daí os dias começam a crescer, a luz começa a vencer as trevas, e se é assim isto quer dizer que é no mínimo estúpido que se comemore o Natal no hemisfério sul. Mas que se lixe. Junte-se-lhe o Cristo dos apóstolos, o Pai Natal da Coca-Cola, o presépio de Francisco de Assis e a árvore de Lutero, uma troca de presentes em família, e acha-se, ainda que à pedrada, suficientes motivos para comemorar até nos polos.

Em relação à passagem de ano, contudo, que motivos podem existir? A tradição é fazer barulho, partir coisas, beber álcool – porque a Terra completou uma volta em torno do Sol. Não faz qualquer sentido. É um evento periódico, e depois? A rotação da Terra em torno de si própria também é, e as fases da Lua, e não andamos todos os dias ou todas as semanas aos gritos, a estoirar rolhas, a bater com tachos e a partir copos com uma felicidade paralítica na face induzida por uma aberrante obrigação de felicidade. Quem não soubesse que era tradição apanhava um grande susto na noite de ano novo, porque parece que toda a gente entra numa histeria em massa, escravos de uma alegria alienígena que os faz estar prontos a matar, se necessário, para que o novo ano seja melhor.

Pronto. Não consegui publicar isto antes do Natal, mas espero que tenha estragado ao menos as “entradas” a alguém. “Entradas”, que belo termo… Como se se entrasse algures… Entradas na alucinação, talvez. Com os argumentos com que proíbe as drogas leves talvez o Estado, um dia, proíba também certas tradições. Proibir… Que digo? Por Cristo, tive um ataque de optimismo. É contagiante esta alegria. Paro por aqui.

 

Read Full Post »

Ao Homem Comum

Não te desvies, homem comum. Não queiras mais, porque mais para ti significa menos para todos os outros. Não tentes espreitar sobre a multidão: não és alto o suficiente, nunca serás. Queres individualidade? Há já um conceito de individualidade pronto e embalado para ti, leva-o contigo como levas os produtos das lojas, que te oferecem garantia e segurança; desembrulha-o, segue as instruções sem engano e sentir-te-ás especial, terás ideias próprias, saberás finalmente o que Platão quis dizer com a alegoria da caverna, viverás momentos felizes convicto da tua condição de eleito com o privilégio de ver a luz. Tu e todos os teus iguais, homem comum, porque afinal todos têm os mesmos direitos.

Todos têm o direito de ser especiais. Numa sociedade boa como a nossa a igualdade de oportunidades aplica-se a tudo, até ao pensamento individual. É bom ter ideias, homem comum, mas não ideias contrárias a uma sociedade boa como a nossa. Seria imoral. Reprovável. Pior ainda, absurdo. Que seria da colmeia se cada abelha seguisse o seu caminho? É uma questão de sobrevivência do colectivo. Não pode ser. Se um membro não seguir as regras do clube deve ser advertido, ameaçado, expulso se necessário.

O que não quer dizer que não tenhas ideias próprias, homem comum. Tens a sorte de viver numa sociedade que preza a liberdade como um dos seus mais altos princípios. Tu podes, e deves, pensar, queremos que tu penses – dentro dos limites do bom senso. Dentro dos limites podes pensar o que quiseres, ter uma opinião que acredites ser tua, escrever com liberdade. Tudo é bom desde que não ponha em perigo a nossa ideia de sociedade. Entendes? Claro que não. É por isso que te damos respostas de escolha múltipla. Escolhes uma destas e não ocorres, por acidente ou teimosia, em erros graves de pensamento. É como a democracia: podes escolher entre k partidos representativos do povo e das suas formas de pensar. Como não há partidos que defendam formas perigosas de pensar, podes falar sobre qualquer deles e escolher o que quiseres. A ciência e a filosofia (a tua, homem comum) devem seguir o exemplo da política.

Quem defende uma ideia nociva é automaticamente classificado de louco antes de qualquer apreciação racional dos seus argumentos. Isto é muito bom, homem comum. Quando uma sociedade chega a este estádio age como um corpo são, criando defesas contra as doenças em qualquer parte. Uma vez que o tenham interiorizado, as pessoas (e não uma polícia ou qualquer outro mecanismo despótico!) expulsarão naturalmente os pensadores danosos, garantindo a sobrevivência do pensamento popular e saudável.

Repara que os nossos limites são generosos. Podes dizer mal do sistema à vontade desde que não apresentes alternativa credível. Não temos medo de que apontem as falhas, somos humildes, sabemo-nos longe da perfeição – o que não podemos admitir é que destruam os bons conceitos e as boas regras que nos servem de guia e de abrigo, a todos nós. Quem quiser ser individual a esse ponto que faça como Zaratustra e vá viver para a montanha.

Não precisas disso, homem comum. A individualidade tem muitos níveis e és mais feliz no nível 5 do que no 10. Nós zelamos pela tua felicidade e pela sua harmonia com a felicidade de todos. Vês os telejornais, lês os jornais, ouves a rádio? Tens lá muitas opiniões válidas. Escolhe uma hoje, e se te cansares dela escolhe outra amanhã. Defende-a como se fosse tua diante dos teus próximos que, por magia, ela passará a ser mesmo tua. Acredita em nós. E como muitos vêem, lêem e ouvem o mesmo que tu, é impossível que não tenhas apoiantes; sim, muitos escolherão a mesma opinião que tu, com esses sentir-te-ás integrado, enquanto os outros te darão o prazer do debate, a adrenalina da caça ao argumento, a alegre sensação de ter um espírito vivo. É uma cornucópia de felicidade e pensamento, homem comum, e tudo isto sem saíres do teu nível 5. Não precisas de mais, decerto, e menos ainda os outros precisam que precises.

Se, pelo contrário, desligares a televisão, calares o rádio, atirares fora o jornal, e inchares a cabeça na tentativa de expelir uma opinião só tua, o mais certo é ficares frustrado – ou por não conseguires nenhuma, ou por conseguires uma considerada absurda pelo público, daquelas que não se pode sussurrar ao mais fiel dos confidentes. Lembra-te que a nossa sociedade é educada e sã: ela reage a opiniões dessas desvalorizando-as e denegrindo justamente quem as profere. No fim ficarás sozinho, frustrado, troglodita, infeliz e convicto de que o teu espírito está mais morto que a pele de urso falsa que usas na sala para aquecer as patas. A tua opinião será como a boina rota aos pés do pedinte – com a diferença de ninguém lhe depositar um cêntimo.

Assim seja. Assim é. Nem se tivesses imaginação imaginarias a sorte que tens. Tristes dos que erram por labirintos intermináveis em nome de sonhos grandiosos ou ideias inovadoras, constantemente a tropeçar no Imprevisto e a bater com os dentes no Desconhecido. Brutos os que, da árvore da literatura, não seleccionam os frutos do seu tempo. Bárbaros os que não se deixam educar. Diz-lhes, homem comum: não é um prazer ler os livros mais vendidos e debatê-los com os amigos? Conta-lhes se não é um desafio mental extraordinário a comparação de preços e de modelos de produtos nas lojas, quase tão grande como o da dialética do desporto. Explica-lhes se não é uma missão elevada a separação do lixo, primeiro em casa, depois no bairro – plástico no amarelo, vidro no verde, papel no azul, pilhas no Pilhão, electrodomésticos no Electrão. Há coisa mais fundamental que a preocupação com o planeta que todos partilhamos e de que todos dependemos? E com os doentes com cancro? E os deficientes? E o racismo? E a pobreza? E a violência doméstica? E a impotência? Prega-lhes, homem comum, se o sentido da vida pode passar ao lado do dia da mãe, do pai, da árvore, da avó e do avô, dos namorados, da mulher, da criança, das bruxas, da Nossa Senhora, ou das ocasiões do natal e da páscoa, do carnaval e da passagem de ano, e todos os rituais que há para organizar, as prendas para comprar, embrulhar e ofertar, os bolos e outras delícias para fazer, a casa para embelezar… E ainda o teu aniversário, e o aniversário dos teus familiares, e o dos teus amigos, o do teu casamento, os jantares, as festas, mais prendas, mais dedicação. E os dias da tua religião, e os dias do teu país, como o da liberdade, em que podes passear todo o dia com alegria e flores, de braço dado com uma causa que é sem dúvida a tua porque estás ali, a gritar palavras de ordem contra o passado. E se apesar disto ainda existir vazio, diz-lhes, é porque procuraram mal. Procurem melhor e acharão uma razão especial para existir em cada dia, porque há dias mundiais, internacionais ou europeus para todas as causas nobres: o dia mundial da meteorologia, o dia internacional de recordação do tráfico de escravos e da sua abolição, o dia europeu sem carros… Muitos, tantos que é impossível alguém se entediar ao ponto de construir uma ideia própria a sério.

Tal como não vale a pena cada um andar a esfregar pedras para fazer fogo, não vale a pena cada um se dedicar a erguer o arranha-céus da moral do nosso tempo. Está tudo feito, só precisas de cuidar do teu apartamento neste imenso edifício. Os altos princípios morais do nosso tempo, homem comum, é deles que falo, sabes como é fácil cumpri-los: está tudo disposto para seres um campeão da moral sem grande esforço, à tua medida. Diz-me se não é simples para ti salvar o planeta: tens caixotes para separar o lixo em toda a parte – no bairro, na praia, nos centros comerciais -, podes comprar os teus próprios caixotes de salvação num hipermercado – juntamente com outros bens essenciais à sobrevivência moral, como os alimentos biológicos e o papel reciclado -, podes comprar artigos biodegradáveis, ter um painel solar no telhado… Podes assinar petições na internet contra a matança de focas e baleias. Podes tomar duches mais curtos para poupar água. São tantas as maneiras que, mesmo sem o saberes, alguma coisa já deves estar a fazer neste momento para salvar o planeta.

E o racismo, esse flagelo da nossa Europa, essa culpa que todos os ex-colonialistas terão de carregar às costas por tantos séculos quantos os que durou a escravatura? Como posso lutar contra o racismo, perguntas tu… É fácil: pegas nuns ténis e participas numa corrida contra o racismo. A única coisa que os racistas receiam mais que a igualdade, acredita, são corridas contra os seus preconceitos.

Vejo, contudo, no teu rosto um esgar de insatisfação com o que eu estou a dizer, como se me estivesse a esquecer de uma coisa importante. Não estou, só a deixei para o fim desta constatação. Sei bem, homem comum, que não queres apenas salvar o planeta – queres salvar também os pobres e dar uma vida melhor aos doentes. Mas também isso está sistematizado, para ti, para todos. Na civilização moderna é tão simples ajudar um pobre ou um doente como jogar no Euromilhões. Vê bem: tens inúmeras organizações a fazer o trabalho de ajudar, tudo o que tens a fazer é ajudar essas organizações. A civilização moderna prova-te que a caridade goza da propriedade transitiva: se A ajuda B e B ajuda C, então A ajuda C. Queres acabar com a fome no mundo? Enche por exemplo um saquinho do Banco Alimentar com arroz e outros alimentos quando fores fazer compras ao hipermercado. Há jovens à porta a dar e a recolher o saco, nem tens de o procurar. Tudo o que tens a fazer é meter embalagens de arroz lá dentro. Resumindo: aceitas o saco, entras no hipermercado, metes o arroz, pagas, devolves o saco, a fome no mundo diminui, és um campeão da moral. Não é fácil?

Se quiseres lutar contra o cancro podes também calçar uns ténis e fazer a mesma coisa que fazes contra o racismo, ou então comprar pinos e autocolantes. Se és daqueles que sai de casa não poderás escapar a uma campanha contra o cancro – não há sítio em que não te lembrem que deves contribuir – pelo que é muito fácil ajudar. Resumindo: sais para qualquer lado e vais andando até alguém te barrar o caminho e pedir a contribuição. Tiras a carteira, dás o que tiveres, recebes o autocolante, o cancro diminui, és um campeão da moral.

Lembrei-te poucas, mas há muitas maneiras de contribuir, cada vez mais. É uma caridade boa para ti porque te protege de doenças e choques culturais: uma caridade remota, abstracta, segura e higiénica. Na verdade não tens de te aproximar das próprias instituições de ajuda. Imagina que és agorafóbico ou não te apetece sair de casa porque está frio ou tens um jogo novo para a PS3… É um direito que tu tens e não deixarás de ser um campeão da moral por causa disso: todas estas organizações te dão um NIB para poderes contribuir através de uma natural transferência bancária. Podes exercer toda a caridade pela internet, no teu computador, enquanto ouves o último MP3 que pirateaste.

Benditos tempos. Por tudo isto, homem comum (e muito estou eu a resumir), sê feliz por duas razões: primeiro porque isso é indiscutivelmente bom, segundo porque não tens outra hipótese. Vai buscar as pipocas à máquina que compraste em promoção, senta-te em frente ao teu LCD de alta definição, observa o telejornal esticado em 16×9 e continua a repetir opiniões sábias, correctas e instantâneas como os teus pares. Mas não percas muito tempo. O Natal está, como dizem eles, “à porta” – organiza-te matematicamente, elabora uma estratégia genial para comprar as prendas antes da confusão da época, debate filosoficamente sobre o que vais escolher, usa toda a tua sublime intuição para acertar na prenda adequada a cada um, investiga os centros comerciais com o teu olhar de águia, faz convergir todos os sentidos nos doces que vais criar – e pelo caminho salva o planeta, os pobres e os doentes. Acredita em ti: fazes embrulhos com o sentido estético de um Michelângelo, és um Sherlock das compras, um Shakespeare dos cartões de boas festas, uma Madre Teresa da ajuda à distância. Aproveita porque a vida, homem comum, é como um carro de luxo: um privilégio.

Força.

 

Read Full Post »

Older Posts »