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Archive for the ‘Philosophy’ Category

O Banquete

– Limitados e mesquinhos, eis como somos. Se eu fosse fazer um retrato exacto sobre o ser humano que representasse toda a sua essência e esplendor, onde condensasse a sua argúcia e os céus de ouro da sua criação, a sabedoria bebida das estrelas, a coragem edificadora de impérios, e ainda todas as metas que quebrará quando, daqui a milhares de milhões de anos, atingir o cume da sua evolução… [gestos arqueados no espaço com ambos os braços, como tentando impedir sem sucesso a subida de uma monumental bola de sabão] …se eu fosse fazer esse retrato, em que já depositei muitas horas de actividade mental, sabeis que tamanho teria de ter? [Junta a cabeça do polegar à base da unha do indicador] Isto. E já contando com a moldura.

– Akakios, todos te ouvimos com deleite, julgo eu, mas não foi para isso que combinámos este banquete. O que foi, Diodotus, queres dirigir-te à mesa?

– Assim desejo Hermógenes. Apesar de não ser a razão principal desta reunião considero lúdico e interessante o tema levantado por Akakios. Creio que teremos uma boa entrada para esta refeição se o soubermos usar em nosso proveito.

– Ainda não falei e tenho de o fazer, desculpem arrancar-vos de modo tão bárbaro a palavra. Diodotus, tu não me conheces mas conheces o meu pai, Artemidoros de Siracusa. Sabes bem até que fronteira estica o antropocentrismo. Para ele até os astros existem por nossa causa, um deles para nos dar vida e os outros para nos aliviar tornando menos monótono o céu nocturno. E sabes como o seu temperamento impetuoso reagiria ao ouvir as palavras de Akakios, se aqui estivesse.

– Kalistrato, filho de Artemidoros de Siracusa, não é apenas pela presença, mas também pela fama, que te conheço. Diz-nos então como reagiria o teu pai a tais palavras antes de acendermos a lenha da discussão.

– Diodotus, sabes bem como ele reagiria: com a mão direita cumprimentaria Akakios, louvando o seu belo argumento, mas com a esquerda ergueria o seu hoplon e, num golpe circular, surpreendê-lo-ia destroçando-lhe a mandíbula. Isto porque estamos num jantar, porque dessa forma Akakios jamais comeria novamente. O meu pai tem um humor muito próprio.

– Muito próprio, sim… Mas pouco amigo da liberdade.

– Respondo-te, velho Simonides, com palavras do meu pai: “a vida sem liberdade é como um anti-humanista com mandíbula”. Esse grande homem, que nunca me cansarei de louvar, nada mais defende do que a liberdade.

– Muito bem, Kalistrato, mostras que és um fiel e competente embaixador da sabedoria de Artemidoros. Por isso, penso que falo por todos, e porque perguntamos que doce fruto terá amadurecido de tão prolífera árvore, gostaríamos que abrisses o debate, não com o escudo do teu pai, mas com as tuas próprias ideias. Se Akakios não está certo diz-nos, Kalistrato, porquê.

[Todos fixam o olhar em Kalistrato]

– Tenho de vos dar, antes do argumento, uma explicação. Possuo uma filosofia muito própria, desenvolvida por mim em segredo ao longo de muitos anos: a equifilosofia. É esta, e não outra, que rege todos os meus pensamentos e acções. Em resumo consiste em copiar a filosofia de outro e tomá-la como minha, neste caso a do meu pai. [Dizendo isto Kalistrato ergue o vaso do vinho sobre a cabeça e arremessa-o contra os dentes de Akakios, que tomba sem sentidos. Ficam os restantes a meditar sobre o facto]

– Amigo Kalistrato, a tua filosofia mais se assemelha a um desporto como o lançamento do dardo; também ela é exigente em vigor e pontaria e escassa em inteligência e temperança. É a verdade o maxilar de Akakios? Chega longe, mas não à verdade. Não chega sequer à boa educação elitista de que todos aqui nos orgulhamos. Todos menos tu, Kalistrato, semelhante ao teu pai até no irado torpor a que chamas pensamento. E para completar uma crítica justa tenho ainda de apontar a maior falha na tua equifilosofia: não foi um escudo, mas um vaso de vinho, que usaste para quebrar o maxilar do inimigo do humanismo; arremessaste o projéctil logo que pudeste em vez de criar, por manha, a surpresa; e fizeste-o por uma filosofia que não é o humanismo e sim uma imitação. E falhando tudo isto a tua equifilosofia revelou-se mal preparada, incoerente e absurda.

– Vês bem, velho Simonides, mas não o essencial. Esses inchaços doentes que giram nas tuas órbitas enganam-te com o acessório. Já que me forçam a ter a palavra, exponho a minha ideia: a filosofia não consiste nos meios, somente nos fins. Quando os aqueus conquistaram Tróia, alguém arrancou cabelos a debater se o engodo se parecia mais com um cavalo, um burro ou uma égua? Pouco interessa o que arremessei e como o fiz; o que importa verdadeiramente é que um comensal inimigo do humanismo deixou de poder articular o maxilar.

– Permitam-me, todos, que responda. Kalistrato, aquilo a que tu chamas “filosofia” o resto da humanidade chama “interesse”. A filosofia pressupõe um tipo específico de interesse, que é o interesse pela verdade, e mais nenhum. Abater inimigos de uma ideia não é filosofia, é obstinação. Mais ainda neste caso, em que a ideia vale poucas palavras, pois nada nos tolhe mais o raciocínio e a visão do que o auto-convencimento de que sabemos algo. Com que fundamento se coloca o Homem no centro do universo? Apenas com o fundamento de ser um homem vaidoso a dar a ideia. Com que interesse se coloca o humano no topo da importância de tudo? Somente pelo da própria vaidade.

– Confundes,  Agamedes, vaidade com razão. O meu pai, além de imenso na filosofia, era também um profundo matemático e os seus cálculos provaram que o centro do universo se encontrava num dos seus pés. Morreu antes de concluir se era no esquerdo ou no direito, mas aqui, diante desta migalha de ouro da grandiosa obra do meu pai, podeis atestar quão frágeis são os vossos argumentos e inúteis as vossas diligências mentais. Porque a vossa filosofia tão facilmente contraria a matemática como um anão rabdomiolítico ergue o Monte Olimpo.

(…)

[O diálogo continua no livro “Diálogos Imbecis”]

 

 

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O Erro de Sísifo

Compara-se a vida ao mito de Sísifo, ou vice-versa. Suspeito, porém, que já não é bem assim.

Sísifo foi condenado a empurrar uma pedra para o cume de uma montanha, continuamente. A pedra nunca chegaria ao topo, rolaria sempre para o fundo outra vez assim que estivesse próxima do seu destino. Não haveria descanso para Sísifo. A sua existência resumir-se-ia a um esforço quotidiano aborrecido, difícil e sem objectivo. Algo que tinha de ser feito, apesar de totalmente inútil.

Nenhum outro castigo seria tão apropriado e tão terrível para Sísifo. Na vida, e depois na morte, Sísifo desafiou criativamente os deuses, deuses poderosos como Zeus e Hades. Quase a morrer, decidiu testar o amor da sua esposa ordenando-lhe que atirasse o seu corpo para o meio da praça pública, deixando-o insepulto. Mérope, obediente, fez isso mesmo: atirou-o para o meio da rua. Sísifo acordou no Tártaro, furioso pela obediência cega se ter sobreposto ao verdadeiro amor, e conseguiu persuadir Perséfone a deixá-lo voltar ao mundo dos vivos por três dias de forma a verificar se tinha sido sepultado. Perséfone deixou-o ir e ele, sentindo-se novamente livre, já não regressou. Foi a última vez que afrontou os deuses. Hermes descobriu-o e devolveu-o ao Tártaro.

Um castigo especial aguardava-o. O livre e rebelde Sísifo, que ludibriava os deuses com uma imaginação que nem diante da morte esmorecia, foi condenado a ser prisioneiro de uma tarefa repetitiva, inútil e desapaixonada. Para sempre.

Quando jovens, o nosso espírito é Sísifo antes de ser condenado. Mas chega depois a altura em que percebemos que não podemos desafiar os deuses, e pela pior das razões: não é por eles serem fortes, mas por nós sermos fracos. A nossa condição, os nossos sonhos, a nossa criatividade, as nossas paixões, são com o tempo ridicularizadas pelas tarefas mesquinhas que temos de fazer se quisermos garantir a nossa sobrevivência e a nossa posição em dada sociedade, em determinada cultura. Pior ainda, se quisermos garantir a imagem que temos de nós próprios.

"É a vida…" – toda a gente conhece esta expressão popular, sublime porque traduz em apenas três palavras todo o desconsolo dos aborrecimentos diários, toda a inutilidade necessária do quotidiano, todas as tragédias obrigatórias que temos de suportar. Não é preciso dizer mais nada, o interlocutor entende o que se quer dizer. "É a vida" : eis a pedra de Sísifo, ubíqua, natural, omnipotente como um deus cruel, a revelar-se.

Obedecer às burocracias, trabalhar para outrém, varrer o chão, aguardar em filas, respeitar horários, ter procupações com dívidas, com o futuro, perder alegrias, esperanças, pessoas… alguma criança pensa, sequer, em tamanho absurdo? Apesar de impossível e inexistente, o mundo que uma criança imagina é superior, mais lógico e mais real. É inalcansável como as mais valiosas pedras preciosas, dura tanto como um sonho, e pode inspirar-nos para toda a vida.

Resistir à pedra é uma empresa impensável, digna apenas de um louco. Construir uma fortaleza em torno da pureza, alheando a tudo o resto, transforma-nos em D. Quixote: um louco mais são que os sãos, absolutamente genial mas também solitário, incompatível, perdido, não-natural, pouco preparado para sobreviver. E embora literariamente seja inquestionável que ser um D. Quixote faz mais sentido, na realidade ser Sísifo é a única hipótese viável.

Apesar disso acredito que Sísifo evoluíu e já não serve de exemplo. Ou que serve, não sei bem (estou com tanto sono que não consigo pensar). Na ode grega, à estrofe e antístrofe segue-se o epodo, que é a união dos contrários. Dessa união nasce a harmonia. De livre e apaixonado, Sísifo passou a prisioneiro e quotidiano. Mas qualquer vida não é nem só uma coisa nem outra – é as duas. Qualquer um, em vez de procurar acomodar-se num ou noutro extremo, tem a tarefa de conciliar esses opostos seja qual for a sua sorte. Sísifo, provavelmente, ri-se do absurdo. Por dentro, contrariamente à vontade dos deuses, será sempre livre, e as suas paixões tiram à pedra o próprio peso. As esperanças, patéticas, moldam-lhe um destino de ouro.

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Sobre a Beleza

Não sabemos o que é a beleza ou porque achamos belas as coisas. Há um vício de pensamento que assume que é somente uma questão de estética. Mas a beleza de uma planta, por exemplo, é tanto das pétalas coloridas como das raizes invisíveis. Vem do todo e não de uma parte, porque a planta é o todo. Isso é muito mais do que a cor, o cheiro ou a forma.

É lógico pensar, portanto, que a beleza não está nas coisas mas sim na relação que temos com elas, ou seja, no significado que elas têm para nós, algo que transcende os sentidos básicos. Tanto que não tem de existir beleza apenas no que é real. Achamos beleza também em possibilidades, conceitos abstractos e coisas passadas. Às vezes isso é fácil de identificar. Por exemplo, o Natal. O Natal lembra-me os natais da infância, quando roubava chocolates da árvore, fazia pilhas de meias para receber mais prendas e encavalitava o burro do presépio com o menino Jesus. A noite, os brinquedos, o dia seguinte, as férias, etc., são peças de um puzzle que já não há mas que se forma, misteriosamente, uma vez por ano, como um fantasma escocês que regressa ao seu castelo. Em resumo, há tesouros de sensações enterrados em nós que de vez em quando se mostram à superfície, e que identificamos bem.

Outras vezes é impossível identificar o significado do que para nós se mostra belo. É impossível porque diz respeito a coisas anteriores à nossa consciência, que não nos lembramos de ter vivido. Talvez seja disto que fala a arte. Há na natureza muitos exemplos. Gosto da água desde sempre e não imagino porquê. Sei que é apenas uma composição de oxigénio com hidrogénio que serve para lavar os pés, mas é muito mais que isso. Posso dizer que gosto de beber água por uma questão de sobrevivência, mas gostar das ondas do mar, do ruído das profundezas e das fontes, é intrigante. Não tem explicação fácil, como muitos outros gostos. Porque é que uma fotografia de um rio, por exemplo, é tão inferior a tirar os sapatos e molhar os pés na água? Porque é que um bebé gosta de certas cores e sons enquanto outros o fazem chorar? Será que o gosto se herda, haverá um "gene do gosto" que se propaga pela espécie, estará na "memória colectiva" de Jung, virá do Espírito Santo, da Deusa-Mãe, doutras vidas, por metempsicose, do grande séquito dos deuses, quando ainda éramos deuses, ou será um resquício no homem de uma alma universal? Falariam disto os Mistérios de Elêusis? Terá a resposta ardido com Alexandria? Não haverá vocabulário para comunicar tal coisa?

Carl Sagan calculou o custo, em termos materiais (composição de carbono, água, sais, etc.), de um ser humano. Lembro-me que era ridiculamente baixo. Valíamos menos, no mercado, que uma retrete. E a verdade é que, sem intenção de fazer oposição à esquerda, há seres humanos que valem menos que retretes. Mas tal comparação é inaceitável para aqueles de quem gostamos. Não se substitui um amigo por uma retrete, apesar de não ter autoclismo. Muito menos um filho.

A ecografia produz uma imagem escura e imperfeita de um ser humano em formação, muito pequeno, com alguns centímetros. Pelas regras de estética tem pouco valor. Provavelmente não me davam, com sorte, mais do que um cubo de açúcar pelas fotografias. Se quisermos subir a um nível poético teremos uma visão mais ampla e poderemos dizer que naqueles poucos centímetros está um espelho do macrocosmo: as grandes leis universais a fazer evoluir um minúsculo ser vivo numa espécie de eternidade, porque o que se torna inesquecível torna-se também eterno, mesmo que dure só um instante.

Mas se assim me expressasse estaria a falar de muitas belezas e não desta. Tal descrição, por muito poética que a conseguisse escrever, nunca se aproximaria da real beleza que habita as fracas imagens a preto-e-branco. Se a poesia é bela é porque recorda, em nós, o significado de imagens como estas. A beleza das coisas não está nas coisas nem nos poemas, mas em nós próprios, pelo que sentimos nestes episódios da vida. Gostamos do que nos lembra ou desperta as maravilhas que já possuímos, e sentimo-nos confortáveis mesmo no meio do grande e inquieto oceano do inexplicável.

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O Circo do Conhecimento

Posso estar enganado, mas isto do conhecimento já deu o que tinha a dar. A ciência, para começar, já não se pode preocupar senão com questões mesquinhas que só interessam a lunáticos: se o universo vai acabar com uma implosão, ou se as estrelas nos mostram que houve vida extraterrestre há milhões de anos atrás, por exemplo. São questões sem qualquer relevância. No fundo, é saber se daqui a milhões de anos estaremos vivos ou não e se há milhões de anos atrás outros estiveram vivos. Isto quando a História, propriamente dita, não abrange mais que 5000 anos, a vida humana não dura muito mais que 80 e o longo prazo, para uma empresa, não vai além de 2.

Alguém tem de parar com este disparate a que se dá a emproada designação de conhecimento. Que colheitas ofereceu à humanidade, para além de entretenimento e génios mal-cheirosos, o estéril campo da filosofia?

É sabido (apenas contrariado por um compreensível chauvinismo de contemporaneadade) que a arte terminou com Monet no século XIX. Para compensar a falta de jeito e o excesso de produção cultural, determinou-se que se pode chamar arte a qualquer coisa, até a um quadro preto ou a uma maçã, se iluminada pela cor mais filosófica na parte mais sublime da casca. A única condição é que não se perceba o que é.

Alguém tem que dizer que é patético. Compatriotas do espírito, amigos, é patético. Não nos enterremos mais.

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Reflexão sobre o final de século

Num mundo corrupto, indiferente e apressado para chegar a lado nenhum como é o deste final de século, resta, distinguindo-se como um farol na noite, uma única salvação: a fé. A fé depende de princípios imutáveis, de uma espécie de inocência universal que só existe no respeito da coisa mais antiga e mais protegida contra a corrupção que jamais foi dada ao homem: a Palavra de Deus. E hoje, se se olhar atentamente em volta, só existe uma religião que se eleva acima da terra, ancorada aos princípios celestes que a definiram desde o seu nascimento: a religião católica.

 

De facto, perdidos os grandes ideais pela democracia de massas, esquecidos os objectivos profundos pela névoa superficial de vidas feitas de pequenas tarefas e dilemas medíocres, abandonado, enfim, o orgulho das nações e a vontade de conquistar e subjugar outros povos, resta-nos uma última coisa: o espírito.

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A SOCIEDADE SEGUNDO R. S.

A SOCIEDADE SEGUNDO R. S.

 

É o Homem que cria aquele que sobrevive, porque uma criação não pertence à espécie, mas somente ao criador. Quando se fala em "cultura de povos", fala-se das repercussões da obra de alguns criadores sobre os não-criadores, vulgarmente denominados por "resto" ou "povo". Há que dividir, no entanto, a palavra "povo" em duas grandes categorias: a de um povo aristocrático, que é o que, sem inventar, preza e conserva os valores da civilização, e a de um povo propriamente dito, que é o aglomerado de seres humanos que não cria e é indiferente a valores civilizacionais, apenas os cumprindo se tal lhes forem incutidos por educação, ou seja, mecanicamente, optando sempre pela solução "mais barata" e tendo por objectivo máximo a sua própria sobrevivência feliz.

 

O povo propriamente dito é então composto pelos menos evoluídos (mais próximos do estado animal) dos Homens, mas é também a maioria, a grande maioria, dos Homens. Por isso, infelizmente, não podem ser desprezados porque 1-são muitos, e juntando-se podem pegar fogo às bibliotecas dos criadores, geradoras práticas de civilização através do povo aristocrata, e 2-são eles a força de braços que constrói para o seu próprio tempo, e logo necessária à sobrevivência da espécie. O povo é pois necessário, por muito que custe admiti-lo, e cabe aos criadores e aristocratas ensiná-lo a servir simultaneamente a espécie, as bibliotecas e a aristocracia.

 

Todo o povo propriamente dito deve ser escravo absoluto dos criadores, sendo educado e governado pelo povo aristocrata, que deve também servir, embora com um papel superior, os criadores. Assim, o título mais alto que deve existir numa sociedade é o de Criador, e os Criadores serão uma espécie de realeza espiritual reinando sobre os impérios da alma, distantes da mesquinhez das relações humanas e do tempo subaproveitado do trabalho de braços.

 

A camada abaixo na hierarquia deverá ser o povo aristocrata, que, ávido leitor das bibliotecas, será o feitor da civilização governando para tal o povo propriamente dito. Os aristocratas devem ter uma educação superior, composta por filosofia, ciência, arte e todos os outros domínios da sabedoria, ofertando ao povo uma educação de nível mais baixo que lhe ensine apenas aquilo para que serve, isto é, para ser escravo, e a gostar disso. Deverá também, e isto estava implícito, possuir o poder máximo sobre a sociedade em forma oligárquica, dando no entanto a ilusão ao povo de que é livre, que é igual aos seus superiores e que pode escolher inclusivé o seu governo. Para tal tarefa, que é pôr uma máscara de democracia sobre a oligarquia, o aristocrata nunca deverá empregar palavras com conotação negativa na sociedade, ou aprofundar muito qualquer questão, ou falar sobre qualquer problema de uma forma não-abstracta; deverá contudo possuir uma pose de quem sente os problemas do povo, de quem é igual (sem contudo se deixar de vestir bem, ou perderá o respeito), deverá falar com eloquência e convicção e deverá ser perito na arte da retórica, entre outras artes secundárias necessárias ao cumprimento dos seus propósitos que não aprofundarei aqui.

 

Concluindo, e em forma alegórica, a aristocracia deverá ser a cenoura, as palas e o chicote que guia o burro para cumprir a sua função – que é arrastar a carroça sobre a qual se ergue o pedestal dourado dos Criadores.

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O Cristianismo

O CRISTIANISMO

A apologia possível por R. S.

 

"(…) Antes a fidelidade às tradições, por muito rotineiras que sejam, que os perigos sociais engendrados pela modernidade e pela urbanização desenfreadas."

António de Oliveira Salazar

 

 

Fórmula para fazer do cristianismo uma coisa útil

ou Para que serve o cristianismo

 

Agora chega a pergunta fulcral: a nível da humanidade, das sociedades humanas, para que serve o cristianismo? É de consenso geral que, adquirido individualmente, o cristianismo é uma aspiral descendente para a mediocridade, para a dependência dos símbolos fracos, ou, de forma mais literária, uma crosta artificial para as pústulas do espírito. Mas socialmente, socialmente poderá servir para alguma coisa?

 

A resposta é: evidentemente.

 

Há duas razões principais para o cristianismo existir: a primeira, aqueles que, interpretando-o erradamente (isto é, julgando nele a perfeição que têm dentro de si próprios), libertam as suas maiores forças para edificar a chamada "arte sacra", que é uma arte superior ao Homem; a segunda, tão importante como a primeira, é a manipulação do povo.

 

Centremo-nos pois na segunda, dado que a primeira nos faria divergir da utilidade do cristianismo a nível social e porque me apetece mais falar na segunda. Reflitamos para começar na seguinte verdade:

 

"O cristianismo, para os medíocres, é como aquelas luzinhas azuis dos restaurantes para as moscas: atrai-nos e agarra-os para sempre."

            R. S. [SIC]

 

Para os medíocres. Atentemos bem na palavra "medíocres". É sinónimo de "povo". Sendo sinónimo de "povo", o que podemos concluir? Que a nossa Igreja tem um grande poder sobre o povo.

 

Democracia quer dizer, literalmente, "povo no poder". Embora o mal não seja assim tão grande, ainda, a verdade é que a democracia trouxe mais liberdade que a de um escravo ao cidadão comum. Isso é um problema, porque o cidadão comum não sabe ser livre, incorrendo por isso com frequência em acções potencialmente nocivas à sociedade e, pior ainda, às elites superiores que criam e regulam a civilização. No entanto, por paradoxal que pareça, a experiência mostra que esse excesso de liberdade motiva o cidadão comum, não a trabalhar para, mas a não revoltar-se contra a sociedade, o que é um passo significativo para o bem-estar e a segurança dos seres de escol.

 

Destes últimos dois parágrafos adivinha-se uma junção de forças: como seria ideal um mundo que mantivesse simultaneamente um povo calmo, sem revoltas, e ao mesmo tempo um povo trabalhador, obediente – em suma, um mundo de escravos livres, a que se poderia dar a ilusão, até, de poderem escolher os seus senhores. É aqui que entra o cristianismo.

 

O cristianismo tapa, como disse, os buracos existenciais ou traumatizados das psicologias crentes. Sendo assim, cria dependência, como o café, a bebida e a droga, coisas que se crê fazerem parte da felicidade – ou, nos casos mais graves, parte da própria sobrevivência.

 

E o cristianismo é, como Nietzsche bem aponta, um culto da fraqueza, da humildade, da piedade – e a maior prova disso é a admiração da bondade sofredora de Cristo, o "tudo pelo próximo, nada por mim", o auto-desprezo, portanto. Isto quer dizer que o povo que entra com a alma numa igreja fica sem ela e sem a sua natureza egoísta. E isto é bom, porque diminui, ou elimina, o ímpeto da revolta. A desgraça, a pobreza, a doença – são convertidas em "bem" pela figura de Cristo, e o povo passa a aceitar a sua condição.

 

Como conclusão, a Igreja deve continuar a pregar o cristianismo – e nos termos mais antigos, sem epístolas, sem participações em debates, sem espaço para discussão. A estrutura da Igreja deve ser a de uma grande pirâmide de aço, em que no topo está o papa, seguido dos cardeais, arcebispos e bispos (para alguma coisa o meu livro está a servir) que deverão comandar à rédea curta todas as figuras eclesiásticas próximas da população. Deve ser inflexível – não permitir nenhuma excepção e punir severamente qualquer "libertino" que julgue ter razão ou costumes diferentes dentro da Igreja. Só assim se tornará sagrada a si e à sua mensagem, que é a de Cristo – porque o sagrado é imutável, necessariamente eterno, e é a única forma de transcendência possível para o povo, dado que é feita de coisas que este já conhece (a fraqueza, portanto).

 

Os Estados que tiverem poder sobre a Igreja, dentro do seu domínio, deverão evitar exercê-lo – porque não são sagrados, e uma coisa que não é sagrada que toca numa que é comete uma profanação, crime a que o povo é muito sensível. Todo o Estado deve, e isto é papel fundamental de todo o político a sério, isso sim, com muito ou pouco poder, é manter sempre a tradição no que diz respeito à Igreja, à conduta religiosa dos cidadãos e à moral cristã, que deve ser ensinada nas escolas primárias. Não deve punir credos diferentes – porque o povo, vendo no Estado um gigante, tem pena de todos os pequeninos que ele atingir – jeovás e mormons inclusivé -, mas deve, isso sim, promover todo o contacto entre a população e a igreja, e até pagar, ou doar, generosos ordenados às figuras eclesiásticas que não se destacarem no cumprimento do seu ofício. Não deve, contudo, abraçar-se a padres diante dos meios de comunicação, dado que tal descredibiliza fortemente os padres e por conseguinte a Igreja, nem deixá-los comandar projectos de ajuda a toxicodependentes, o que faz o povo lembrar-se da dependência que tem da própria religião.

 

Quanto à Igreja, deve manter-se perto de Cristo e de Deus e longe, o mais longe possível, dos problemas mundanos da população. Deve representar o Céu e falar no Apocalipse e na Terra Ideal, e não tentar resolver problemas mesquinhos como a fome ou a miséria, ou dar opiniões políticas sobre a guerra e outros flagelos. Deve evitar, como já se disse, quaisquer debates, nunca permitir diálogo, separar os verdadeiros dos falsos e excomungar todos os falsos. Só assim o cristianismo será só um, a Palavra de Deus única, como é suposto, imagem perfeita da Bíblia e eterna, de aço incorrompível. Só o Vaticano poderá ter autoridade para interpretar a Bíblia – e não os padres, como cada vez mais brejeiramente fazem para cultivar a sua própria individualidade junto do povo. Os padres deverão reproduzir fielmente a mensagem do Vaticano, nada mais e nada menos. Se quisessem ser livres, fossem pedreiros. Porque o Reino de Deus sobre a Terra tem que se manter uno, sem “feudos” nocivos a reclamar poder e popularidade.

 

Sendo assim, para concluir, a chave da harmonia social chama-se “tradição” – que terá de ser fabricada por todas as elites e dada ao povo com muito açúcar por cima. Estado e Igreja, filósofos e elites intelectuais, devem empregar pois todas as suas forças numa grande rotina e uma grande moral a dar ao povo para o tornar escravo, de acordo com a sua natureza, em bem de toda a humanidade.

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