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Archive for the ‘Opinião’ Category

A Simplificação

É o argumento mais atractivo oferecido pelo “acordo” para os “modernos” dos nossos dias: a simplificação. Ficam boquiabertos de pasmo, os “modernos”, perante a coragem de eliminar letras que não pronunciam. “Que coragem!”, meditam admirados, “Que simplificação!”.

Alguns notam que nem tudo é coerente, outros notam que muita coisa é incoerente, que nem todas as consoantes mudas foram removidas, como o ‘h’ no início das palavras, que a remoção não é respeitada pelo Brasil em casos como “recepção” e “concepção”, que o critério da “norma culta” é obscuro, que é mais fácil resolver uma equação diferencial do que saber onde aplicar um hífen, mas o objectivo da simplificação é demasiado atractivo para que se deixem levar pela correnteza do esgoto, e resistem. “Tudo pela simplificação!”, brada o seu espírito minimalista, “nem tudo é perfeito, é só o primeiro passo!”.

O corte com o passado é também visto, só por si, como uma coisa positiva – um sinal de progresso. Não sabem os minimalistas para onde progridem nem lhes importa tão insignificante detalhe, mas sentem que avançam porque algo muda, porque não há estagnação. Podem dizer-lhes que também o corpo muda com a morte, entrando em decomposição, que se mantêm presos na utopia como um fóssil na rocha. “Ordem e progresso!”, gritam, “ordem e progresso!”.

Ora bem, como rebater tal ânimo? Podem rebater-se argumentos – mas ânimo, ânimo a sério, é difícil. Alguém alguma vez demoveu um estilita de viver sobre uma coluna ou um crente da IURD de dar a dízima? Não, a solução não é rebater: é achar um caminho diferente para eles, um que não se cruze com a Língua Portuguesa e portanto não a afecte.

Podem ter muito mais simplificação usando a língua mais objectiva de todas, feita não pelo povo mas por sábios, como querem: o Esperanto. O Esperanto, simplificadores simplórios, é a vossa verdadeira língua. Passem a falar e a escrever em Esperanto e deixem de tentar “aperfeiçoar” um património que ignoram – deixem a Língua Portuguesa e a sua História de tantos séculos, já tão desgraçada pela revisão de 1911, e a infinita riqueza das suas imperfeições, em paz para que continuem a desfrutar dela os muitos e verdadeiros apreciadores de hoje e do futuro.

Adoptem o Esperanto, criminosos! Senão vejam o que vem a seguir vindo de vós e do vosso insaciável apetite por utopias. Talvez não cheguem ao cúmulo de alisar as paredes do Mosteiro dos Jerónimos para o simplificar (quem sabe!), mas porque o acordo de 1990 não atinge o vosso objectivo chegarão a isto:

– Removerão o “h” no início das palavras: “elicóptero”, “úmido”, “erdar”, “abilitado”, “iato”, “aver”.

– Mudarão “x” por “ch” ou “s” quando têm o mesmo som. Para quê duas formas de escrever o mesmo som? O acordo já dá uma resposta a isso ao determinar a ortografia pela pronúncia. É muito mais simples ter apenas uma forma. Passarão a escrever “chilofone”, “estraordinário”, “estenção”,”echelente”, “esceção”, “chisto”, “chadrez” e “chelim”.

– Mudarão “s” por “z” quando têm o mesmo som: “êstaze”, “pizar”, “ipófize”, “izocromático”, “izento”.

– Acabam com as duplas grafias. Na sequência dos critérios do acordo, para não se chocar a sociedade brasileira, líder do mundo lusófono, optar-se-á sempre pela grafia (mais moderna) desse país: “eletrônico”, “armônico”, “fato”, “intato”, “seção”, “anistia”, “sutil”.

– Mudarão “ss”, ou “s”, para “ç” quando tem este som: “preção”, “fição”, “açolar”, “oço”, “açado”, “çotaina”.

– Mudarão o “o” para “u” quando tem este som e não altera a pronúncia da palavra: “çulução”, “mução”, “pução”, “lutaria”, “pucilga”.

– Removerão a letra “q” do dicionário (25 é mais simples que 26), substituindo-a sempre pelo “k” nas palavras: “kuarto”, “kente”, “kuaze”, “parke”, “pakete”, “keke”, “purke”.

– Para maior simplicidade ainda o “c” será substituído também pelo “k” quando tem este som: “konta”, “kão”, “tako”, “kato”, “makako”.

– Mudarão o “e” pelo “i” quando tem este som.

 

Vejamos como ficarão por exemplo os 3 primeiros artigos da Constituição segundo a futura ortografia simplificada:

 

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Artigo 1.º
Repúblika Purtuguesa

Purtugal é uma Repúblika çuberana, baziada na dignidade da peçoa umana i na vontade pupular i empenhada na konstrução de uma çociedade livre, justa i çolidária.

Artigo 2.º
Estado de direito demucrátiko

A Repúblika Purtuguesa é um Estado de direito demukrátiko, baziado na çuberania pupular, nu pluralismo de echpreção i organização pulítika demukrátikas, nu respeito i na garantia de efetivação dus direitos i liberdades fundamentais i na çeparação i interdependência de puderes, vizando a realização da demukracia ecunômica, sucial i cultural i o aprufundamento da demukracia participativa.

Artigo 3.º
Çuberania i legalidade

1. A çuberania, una i indivisível, rezide nu povo, ke a exerce cegundo as formas previstas na Konstituição.

2. O Estado çuburdina-se à Konstituição i funda-se na legalidade demukrátika.

3. A validade das leis i dos demais atos do Estado, das regiões autónumas, du puder lucal i de kuaisker outras entidades públikas depende da çua confurmidade com a Konstituição.

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Portanto, exmos. criminosos simplório-progressistas, em vez de estragarem a língua dos outros transformando-a artificialmente por ignorância e decreto – adoptem uma melhor! Não se sintam obrigados a usar uma língua que consideram tão imperfeita como a Portuguesa – usem outra qualquer! Se vos sobra um milímetro de patriotismo, partam daqui para sempre unificados e simples – para o ilhéu das vossas asneiras!

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O Sr. Macaca Pasteleiro

Quem é o sr. Malaca Casteleiro?

Certos homens não foram decerto destinados, de nascença, a participar na memória colectiva que atravessa as eras e que denominamos por História. Um dos mais graves erros da sociedade humana é teimar dar, por vezes, a esses o que a natureza não lhes emprestou sequer, e torná-los subitamente importantes ao ponto de serem tema de conversa ou poderem estragar de facto alguma coisa com a sua atroz inépcia e fraca virtude.

Poder-se ia talvez fazer um tratado sobre a civilização tomando esta observação como ponto de partida e perseguindo a teoria de que a “quantidade de civilização” é inversamente proporcional às oportunidades cedidas aos desprovidos de mérito.

Sim, talvez se pudesse, mas por muito excelente que resultasse esse tratado seria sempre demasiado abstracto para que atingisse o meu alvo como ele merece. Portanto vou falar cirurgicamente, e apenas, de uma instância deste mal: a conjugação desventurada de ausência de talento e excesso de oportunidade que é o sr. Malaca Casteleiro.

O sr. Malaca Casteleiro é sobretudo duas coisas. Primeiro é o responsável pelo “Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea” da Academia das Ciências de Lisboa, que introduz na língua portuguesa palavras como “scanner”, “stand”, “stafe” (do inglês “staff”), “stresse”, “cretcheu” (importado do crioulo caboverdiano), “plafom”, “eau-de-toilette” (assim mesmo), “brífingue”, “icebergue”, “bué”, “croissã” e outras palavras que o sr. Malaca, nas suas jornadas pelo mundo, terá ouvido nas ruas e confundido com o português.

Apresento de seguida alguns excertos seleccionados de um membro da Comissão Científica do Ciberdúvidas que melhor do que eu tece algumas justas e certeiras críticas a esta obra onde o talento do sr. Casteleiro já se esboçava:

 

«St não é reprovável por não estar consagrado na tradição ortográfica; é, repetimos, que não há (nem nunca houve) na língua portuguesa palavras assim começadas, o que é muito mais grave. Stafe enferma do mesmo mal que stresse. Para evitar semiaportuguesamentos deste tipo, reprováveis, como vimos, o único aportuguesamento razoável, em português europeu, seria setresse, setafe e quejandos.»

«Aportuguesamentos do género da terminação inglesa -ing como -ingue são relativamente aceitáveis, nos casos em que tais estrangeirismos (ou neologismos externos, no dizer da ACL) são adoptados, como no famigerado brífingue, quando não se puderem ou quiserem evitar. Já eau-de-toilette é inadmissível num dicionário português; quando muito devia usar-se, como dantes, água de cheiro (uma vez que toilette, assim escrito, nada é na língua portuguesa). E toilete (assim mesmo!) não é português, porque se manda ler oi com o seu valor de em francês, e grafado só com um t, quando nesta língua é com dois!»

«Meter no Dicionário o termo cretcheu é rematado disparate: por um lado por tratar-se de termo do crioulo caboverdiano, por outro por conter o grupo tch, actualmente apenas dialectal, escrevendo-se sempre ch, mesmo que se pronuncie assim esporadicamente. Motivos ambos, pois, para não se dever ter registado num dicionário que se pretende normalizador da língua portuguesa.»

«Icebergue é aportuguesamento que só permite a pronúncia com i-; se queriam dar ao vocábulo aquela com ai-, só havia duas hipóteses racionais: deixá-lo em inglês, ou aportuguesá-lo de facto (aicebergue). Mais uma vez se nota o perigo dos semiaportuguesamentos!

Outro exagero, de índole muito diferente, é o acolhimento (de braços abertos!) do recentíssimo bué, autêntico monstro dentro do português, muito pior, na verdade, que a adopção do termo quilé, usado vulgarmente em calão, já há bastante tempo. Alguém disse com justa graça, a este respeito, que houve discriminação!»

http://www.ciberduvidas.com/controversias.php?rid=886

 

*

Pois bem, o desprezo pelo património, a ignorância de uma identidade, a falta de rigor científico, o ódio pela estética, em suma, a bandalheira anti-patriótica que se esboçava neste dicionário que não teve uma segunda edição revista, foi apenas o esboço, o primeiro passo, o ensaio, a preparação para a grande catástrofe que se preparava para abater sobre a Língua Portuguesa – a maior desde 1911 -, a que se chamou “Acordo Ortográfico de 1990”.

Apesar de nem o autor insistir no seu polémico e mal recebido dicionário, o visionário Malaca, talvez por vingança, nunca desistiu de atacar a Língua Portuguesa e foi afastado da Academia em 2006 por elaborar “dicionários escolares” conformes a um acordo ortográfio que nem estava em vigor (aqui se vê a tentativa de o empurrar a todo o custo).

O mesmo homem, o homem da “toilete”, Malaca Casteleiro, viria contudo, empurrado pelos interesses económicos e políticos de espíritos tacanhos e com o caminho aberto pelo desinteresse letárgico da população, a conseguir a vingança completa tornando-se o rosto nacional de um acordo ratificado com todos os países lusófonos à excepção de Angola. O pequeno homem da “toilete” tornou-se o pequeno deus da “deceção”.

Pouco interessava a Casteleiro que o acordo se fizesse à revelia dos povos, apenas para satisfazer os futuros caprichos brasileiros na ONU e a sua actual demonstração de liderança absoluta do universo lusófono. Casteleiro chegou até a argumentar que se tiraram as consoantes mudas porque seria demasiado violento, para a sociedade brasileira, deixá-las lá. Isto é a opinião do homem ideal para firmar o acordo com o Brasil. Para os políticos brasileiros era alguém que tinha a mesma noção de “universalidade” e desprezo pela etimologia/identidade, precavendo apenas os choques na sociedade brasileira, aberto a qualquer cedência e qualquer imposição por decreto em Portugal; para os políticos portugueses era ainda mais perfeito: era alguém da mesma espécie com esparguete cozido a substituir a coluna vertebral, obra feita na área e sem reputação a defender.

E Malaca Casteleiro submeteu-se a tudo como foi mandado. Não lhe interessava o acordo, a universalidade da língua e até pouco lhe importavam os interesses dos seus camaradas políticos. Queria, porém, a vingança. A vingança sobre os críticos, a vingança sobre os que o afastaram da Academia e, sobretudo, a vingança sobre a natureza, que o tinha destinado a tão pouco. Casteleiro provou à natureza que merecia ficar na História. Conseguiu essa vitória: fica registado como um dos que mais contribuíram para destruir o património linguístico.

*

Com toda esta “visão linguística” decerto o referido visionário não se importará que actualizemos, simplifiquemos e modernizemos também a ortografia do seu nome, e com o mínimo de alterações – trocando apenas um ‘l’ por um ‘c’ e um ‘c’ por um ‘p’, com o resultado coerente e unificado de “Macaca Pasteleiro”.

“Macaca” aceitará “Maluco” como dupla grafia por compatibilidade com a norma culta de diferentes regiões lusófonas,  e “Pasteleiro” poderá também escrever-se “Trapaceiro”, termo que relativamente a este personagem está devidamente consagrado pelo uso.

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Alguns exemplos em Linguajar Lusófono

Vejamos na prática se é exagerada a afirmação de que o acordo ortográfico não reflecte mudanças naturais na língua e em vez disso impinge, por decreto, brasileirismos grotescos, alheios à história do Português e a tudo quanto podemos assegurar como “consagrado pelo uso” (e pela etimologia) em Portugal.

Quem pode ler as seguintes frases pós-acordo, escritas não na Língua Portuguesa mas no recém-parido Linguajar Lusófono, sem sentir náuseas?

  • «A espetada do espetador estava ótima.»
  • «A adoção do batismo feita pelo ator foi uma deceção em todas as aceções.»
  • «A rececionista fez numa direta uma ata excecional na receção.»
  • «Os tetos cairam sobre os espetadores. Foi dececionante.»
  • «O ator foi à receção refletir sobre contraceção e saiu afetado.»
  • «O ano letivo de arquitetura começa exatamente na segunda.»
  • «No Egito um coletivo de atores projetou um ótimo espetáculo, sem distrações, na redação.»
  • «É atual ter afeto pela seleção.»
  • «Não levantes objeções e ativa o projeto.»
  • «Motor elétrico ou de injeção direta.»
  • «Exato, a rececionista selecionou e ativou uma ação para o colecionador.»
  • «Ele para para quê? Ele para para refletir.»
  • «O tempo não para para nada.»

 

(Qualquer semelhança com a Língua Portuguesa é pura coincidência)

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11 Poias Ortográficas

É vagamente incómodo, e certamente irritante, andar num passeio salpicado por cocós de animais. Em vez dos olhos percorrerem o caminho atentos ao que os deleita, recolhendo em imagens a beleza das coisas como abelhas sugando o néctar das flores (para depois, quem sabe, produzirem o mel da arte), são obrigados a navegar rasteiros ao chão entupido de poias para que os pés, bem guiados, não tropecem em merda.

É certo que não é uma fatalidade, com cuidado e sorte chegamos limpos ao outro lado – mas é chato e perturbador. Pensamos: “que bom seria que os donos destes cães tivessem saído da civilização e não de um alfeire”, surge-nos como uma miragem a rua limpa e saboreamos, nesse imaginário pueril, quanto apreciaríamos passear sem matéria fecal entre nós e a beleza do mundo.

Igual sentimento tem o leitor que é obrigado a ler um texto escrito segundo o acordo ortográfico de 1990. Algumas palavras afiguram-se-lhe tão anómalas que tem de as evitar corrigindo-as na sua voz interior. Mas existem tantas, e tão grotescas, que desvia, para impedir os tropeções, toda a atenção destinada à beleza do texto.

Tal como o andante chega ao fim da rua, o leitor da aberração ortográfica chega ao fim do texto com igual irritação e pensamento: “que bom seria que os donos deste acordo tivessem no cérebro amor ao património em vez do buraco do cu”, e sonham com a facilidade impossível de recuperar a própria língua.

Pois aqui fique, para a posteridade, uma colecção de 11 poias ortográficas que já se começam a multiplicar e a chover, como se Zeus tivesse uma diarreia tropical, sobre o nosso já-muito-maltratado-desde-1911 património linguístico:

Poia 1: Adopção -> Adoção. Intuitivamente leremos “adução” e o cérebro tentará corrigir para a palavra mais próxima, “adoçam”. “Adoção” parece “adoçam” escrito por um adolescente descuidado, daqueles que produzem legendas para versões pirateadas dos filmes na Internet.

Poia 2: Acção -> Ação. Leremos “assão”, e o mais próximo será “assam”, um “assam” mal escrito pelo irmão mais novo do adolescente anterior.

Poia 3: Espectador -> Espetador. O que designava antes alguém que assiste a um espectáculo passa a designar alguém que espeta alguma coisa. Poderemos ler coisas como “neste jogo quem ganha é o espetador” ou “os espetadores habituais da Mariza”.

Poia 4: Sector -> Setor. Parece a abreviatura de “senhor doutor” que os alunos aplicam ao professor. O que era antes uma secção passa a ser o masculino de “setora”… Fácil será pisar esta poia antes que se chegue à longíqua conclusão do que realmente significa.

A etimologia de “sector”, do latim “sector”, foi preservada no francês (“secteur”), no espanhol (“sector”), no inglês (“sector”) e no alemão (“sektor”). Entre nós sempre se escreveu de acordo com a etimologia (nem a estuporada revisão de 1911 o alterou). No entanto o farol da língua, para os mestres do acordo, não está na arte destes velhos, bárbaros e atrasados países europeus – está na trunfa do Corcovado.

Poia 5: Activo -> Ativo. Ao deparar-se com isto o cérebro reparará que falta ali alguma coisa, que há um buraco algures na palavra, e irá procurar o que o pode preencher. “Ativo” tanto lembra “activo” como “altivo”, ou “aditivo”, ou ainda “aflitivo”. E chegará à conclusão de que é simplesmente corrosivo.

Poia 6: Excepção -> Exceção. Lê-se “excessão” e parece de imediato “excreção”. Excreção não está longe da verdade.

Poia 7: Acto -> Ato. O acto passa a confundir-se com a primeira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo “atar”: eu ato… Idem para “acta”, que muda para a terceira pessoa do singular do mesmo verbo. Percebe-se que os mestres do acordo levaram a sério o propósito de unificar quando se vê que a sua obra até unifica substantivos com formas verbais.

Poia 8: Há-de -> há de. Sem hífen o “de” vai passar a haver muitas vezes. “Há de” indica-nos que há qualquer coisa misteriosa que se designa por “de”.  Há estrelas no céu, há peixes no mar e agora, com o acordo, também há de.

Poia 9: Concepção -> conceção. Lê-se “concessão”. A Imaculada Concepção passa portanto a ler-se “Imaculada Concessão de Maria” e a significar algo que a Nossa Senhora autorizou (imaculadamente).

 

Poia 10: Recepção -> Receção

Leremos “recessão”, igual a “recessão” mal escrita… Será uma palavra maldita em qualquer empresa. Imagine-se que bem ficará em letras grandes na recepção do Ministério das Finanças.

Apesar da etimologia (latim receptio), decidiu tirar-se o ‘p’. Apesar desse ‘p’ ser lido no Brasil, decidiu não se dar grafia dupla à palavra. E apesar de não ter grafia dupla a Academia Brasileira de Letras decidiu não respeitar o acordo, continuando a escrever-se com ‘p’ no Brasil.

E assim se salvaguarda que qualquer decisão futura, como obrigar a escrever esta palavra em cirílico ou com as letras por ordem inversa, ou ambas, não causará qualquer estranheza no universo lusófono.

Poia 11: Egipto -> Egito

É das palavras “novas” a que mais se tropeça na RTP. O abrasileiramento de Egipto que acaba, como muitos outros, por entrar para o vocabulário ortográfico sem grafia dupla, é uma palavra feia como uma borra e em desacordo com a etimologia (latim aegyptus).

É interessante ver como o argumento do “consagrado pelo uso” (não-científico, pois em tudo se opta pela simplicidade) usado pelos autores do acordo para justificar excepções como a manutenção do hífen em “cor-de-rosa” (excepção no Brasil mas não em Portugal, bom aluno dos trópicos, exemplo da lusofonia, que obedece a tudo – mesmo ao que não é cumprido pelos que mandam), não se aplica no caso de consoantes mudas que sempre existiram na ortografia portuguesa.

Continua, porém, a escrever-se “egípcio” e “egiptologia”, palavras com a mesma raiz de “Egipto”. Se antigamente, em caso de dúvida, se podia raciocinar pela semelhança ou pela etimologia para assumir a forma certa de escrever, com o acordo em vigor (o tal que afirma simplificar) a fórmula de pensamento terá de ser esta:

– Adivinhar se a consoante se pronuncia numa “norma culta” que nem os especialistas conseguem definir;

– Adivinhar se, apesar disso, o acordo prevê alguma excepção para a palavra;

– Adivinhar se o vocabulário ortográfico em vigor decidiu cumprir o acordo e respectivas excepções ou se decidiu criar uma excepção marginal “consagrada pelo uso” (como nos casos de “cor-de-rosa”, “recepção” e “concepção” no Brasil).

Para os cumpridores do acordo a dúvida será, portanto, mais inteligentemente resolvida dando a um macaco algumas letras e pedindo que as atire ao chão e as baralhe com os pés – tudo menos desperdiçar tempo a raciocinar sobre ortografia moderna.

E desse ponto de vista o acordo de facto simplifica: ninguém que o queira cumprir vai gastar muito tempo a pensar antes de escrever. Claro que me vão responder: “mas vão faltar os macacos!”. Pois eu digo que não.

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Piada

Piada: os socialistas estão chocados com a dívida da Madeira. E querem apurar responsabilidades! Com rosto sério!

<Riso>

Apesar de meio-morto o PS continua a animar o país. Está achada, finalmente, a sua utilidade.

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VITRIOL

VITRIOL

Vou-me arrepender deste texto, e ainda assim…

Não nascemos vazios, não começamos do princípio. O início, se existiu, foi muito anterior – na criatura primordial, no primeiro gene, no cortejo dos deuses, no império dos titãs, quem pode saber?

Não nascemos vazios. Não somos cascas. Estamos programados para este mundo. Sabemos comer, distinguimos cores e cheiros, reproduzimo-nos . Temos a sabedoria a priori de afastar o cu se nos sentarmos num cacto, e tudo isto é tão básico, porque tão comum, que ninguém se espanta ao constatá-lo. Comum não só aos humanos como aos outros animais, à excepção talvez dos que não têm cu.

Mas os humanos têm uma singularidade que os outros não têm: um conjunto de mistérios denominado “consciência”. Apesar de não existir uma explicação da consciência todos nos entendemos quando falamos dela. É, por exemplo, o que me permite pensar no termo e escrever este texto. Não causarei polémica se afirmar que sem consciência isto não seria possível, e que portanto é uma condição, se não suficiente, pelo menos necessária para tal estar a acontecer.

A consciência (muito recente, pelo menos, na História da Terra) permite, entre muitas coisas, a introspecção, que é a consciência aplicada ao subconsciente. A única coisa que me interessa daí, e que me assombra, é que isso possa ser a porta para o mundo de conhecimento oculto que carregamos nos genes (ou, para os menos materialistas, na alma).

Ninguém sabe exactamente o que vê nesse mundo subterrâneo, ninguém sabe traduzi-lo. Mas muitos tentam ao longo das eras. Mircea Eliade apontou para os mitos comuns a diversas civilizações que vão surgindo, ao longo da História, sob diversas formas mas com raizes e mensagens idênticas, o que me lembrou que talvez a arte, na sua forma menos corrompida, seja só uma linguagem encontrada para descrever o mundo oculto. A menos imperfeita, a menos ineficaz, e por isso a mais universal e poderosa das linguagens inventadas.

Sendo assim um bom poema, por exemplo, terá uma função concreta. A sua função não é a beleza – a beleza surge como um efeito secundário. O poema só é belo porque o mundo subterrâneo tem em si algo de belo que o poema espelha. A sua função nunca será também descrever a superfície. Ainda que possa ser composto por “bocados” da superfície, o objectivo não é falar dela e sim do subconsciente geral.

Sendo assim um poema,  mesmo que sujeito a interpretações diversas, pode ser considerado extraordinário, e arriscaria dizer sentido de forma semelhante, pelos autores dessas interpretações. Porque as interpretações dão-se a um nível racional, ou já demasiado próximo da razão, e a verdadeira mensagem do poema é transmitida a outro nível.

Porque admiramos um poema? No fundo porque aqueles versos, por uma magia que não compreendemos, nos revelam algo do nosso mundo oculto. Espantamo-nos como o autor podia saber coisas tão profundas de nós próprios (que em verdade ele só sabia porque olhou para si mesmo, e só nos conseguiu espantar porque tinha um olhar melhor que o nosso). O próprio termo “profundo”, usado tantas vezes, aponta para algo subterrâneo.

A música, segundo Nietzsche a mais directa das artes, é a melhor linguagem conhecida para o subconsciente. Não me espantaria que aprendêssemos mais sobre nós ouvindo sonatas de Beethoven do que lendo tratados de antropologia. A chatice é não sabermos, ao certo, o que aprendemos quando a música acaba – o que afasta liminarmente o ensino da antropologia através de sonatas.

A bela lenda de Percival e do Rei Pescador. Mircea Eliade faz referência a este episódio para ilustrar que há muito mais do que o que os positivistas afirmam. Uma doença misteriosa paralisa o velho rei, detentor do segredo do Graal. Não só ele sofre como todo o reino: o castelo desmorona-se aos pedaços, os animais não se reproduzem, as árvores não dão frutos, as fontes secam. Inúmeros médicos tentam uma solução mas nenhum consegue curar o Rei Pescador. Cavaleiros chegam todos os dias para perguntar sobre a saúde do Rei, que não se altera. Até um deles, Percival, pobre e desconhecido, ignorar o protocolo e dirigir-se directamente ao rei. Aproxima-se dele e, sem preâmbulo, pergunta-lhe: “Onde está o Graal?”. Tal é suficiente para tudo se transformar: o rei ergue-se do leito em que antes sofria, as fontes começam a jorrar, a vegetação renasce, o castelo restaura-se por milagre. Pode alguém questionar, para si mesmo, a veracidade desta lenda?

O que torna belo o deserto é ter um poço escondido, diz o Principezinho doutra maneira, no livro de Exupéry. Alguém duvida desta frase racionalmente tão frágil? Sim, muitos, e na verdade nenhum, no fundo ninguém, porque é metafórica e fala directamente ao subconsciente. Sabemos que está certa, não sabemos porquê. O homem civilizado ridiculariza o Santo Graal mas sabe, no fundo, que há qualquer coisa ali que faz muito sentido. O Graal, o mito, o sonho, a fé, a imaginação enquanto ligação íntima ao maravilhoso mundo subterrâneo que, sendo uma parte de nós próprios, não pode ser desprezável. Nada disto é, nem pode ser, objectivo ou descrito por uma linguagem objectiva.

O homem moderno e civilizado esforça-se por desprezar tudo o que é invisível ou escapa à sua lógica mas não consegue. Não consegue porque a maior parte de si é invisível e negar-se a si próprio é um paradoxo. Por isso, por não se poder negar em nome de um modelo claro do universo, apesar da sua racionalidade cai facilmente nas armadilhas da superstição e dos vendilhões de sonhos. Despreza os mitos antigos – mas abraça, de forma ingénua, os modernos, muitas vezes cópias primárias e defeituosas dos outros, adaptadas ao mercado dos espíritos simples. “O Segredo” é o exemplo mais aberrante de que me consigo lembrar, mas uma viagem pelas correntes “new age” levantará muitos mais.

As correntes “new age” quiseram unificar aquilo em que o homem moderno acredita, que é a ciência, com aquilo que ele precisa, que é o mito, a sabedoria ancestral, a fé no invisível. No entanto, no meio de toda a sopa intragável que engendraram, esqueceram-se de incluir o próprio homem. São movimentos que, por serem falsos, por não terem raiz subterrânea, não se aproximam do coração – apenas vendem “aspirinas de fé” (ou mesmo placebos) a um homem moderno doente por ter chamado disparates às profundezas da sua alma.

Nesta perspectiva o Oráculo de Delfos brilha de significado. “Conhece-te a ti mesmo” – isto é, eleva à consciência o teu mundo subterrâneo – “ e conhecerás o universo e os deuses” – ou seja, voltarás a ter contacto com a tua vasta sabedoria.

Mas que vasta sabedoria? Bom… Não sei. É apenas uma teoria – talvez nem isso, talvez um sonho ou uma tentativa desesperada de alargar o espectro de leitores deste blog. Posso abordar o assunto pelo caminho da alma, no seu sentido platónico, ou pelo materialista (uma divindade criadora não é um caminho – é um beco sem saída). Vou, para não ser poético, que dá muito trabalho, pelo segundo.

Quase um quarto (23,6%) do genoma humano não é conhecido, isto é, não se desconfia para que serve, e contudo há dessa zona longas cadeias que se conservam no ADN ao longo de milhões de anos, aparentemente tão sujeitas às leis da evolução como os genes. Ou seja, é bem possível que seja importante, isso que não desvendámos ainda, e não “junk DNA” como normalmente se designa.

Os genes, que constituem pouco mais que 1,5% do genoma, codificam as peças com que se constroem estruturas hiper-complexas, capazes de muitas coisas que nos maravilham: as proteínas. Não se pode negar que eles transportam uma grande quantidade de informação. Muita dessa informação, no seu estado final, serve simplesmente para nos manter vivos, automaticamente, sem necessidade de uma consciência: não precisamos de pensar para respirar ou para ter sede. E se a consciência faz parte de nós ela está também codificada, de algum modo, nos genes (ou pelo menos o hardware que permite que ela aconteça).

Pois bem, se concebemos que os genes podem transportar a matéria-prima da nossa própria consciência, é lógico que perguntemos o que podem transportar mais. Descobrimos que são transcendentes e que existe um conjunto limitado destas “peças de Lego” usadas para construir seres vivos. Partes do genoma humano atravessaram milhões de anos – alguns genes serão comuns aos dos dinossauros ou das primeiras algas. 113 genes humanos provêm directamente das bactérias. Está aberta a hipótese do ADN ter vindo do espaço (uma possibilidade por terem sido achados filamentos de ARN em asteróides), e se for assim os genes podem ter pertencido, antes das nossas algas, a espécies de sistemas longínquos.

Estima-se que os humanos possuem entre 30 e 40 mil genes. Mais do que o trigo (13 mil), um verme (18 mil) ou uma planta (26 mil), mas um rato possui apenas menos 300 genes. E a diferença entre o humano e o chimpazé é muito menor que isto. Ora, assumindo que só os humanos possuem consciência, ela poderá estar codificada num número muito pequeno de genes exclusivos ou resultar da própria combinação dos genes. Se a consciência é para nós mágica existirão genes mágicos ou combinações mágicas de genes.

Talvez essa pequena diferença seja a porta de acesso às divisões mais recônditas do complexo edifício que somos e que mais nenhum animal possui – o nosso canal de comunicação, o nosso Hermes com acesso ao Hades. Apesar de um cão carregar consigo informação elaborada ao longo de milhares de milhões de anos, como nós, não pode desconfiar que o faz. Nós podemos, ainda que, regra geral, não o façamos com a noção disso.

Sendo assim não é preciso filosofar sobre a transcendência da alma, nem colocar hipóteses absurdas como a reencarnação, para admitir que uma pessoa não só é o resultado de uma evolução de milhões de anos como contém em si memórias dessa evolução, e suspeitar que desejos, mitos, crenças, sonhos, parábolas, rituais semelhantes estejam de alguma forma relacionados com isso, que sejam formas diversas de expressão sobre algo comum, e não apenas produtos do acaso, endémicos a micro-culturas. Todos absurdos a um nível racional, é certo, mas apenas porque não há uma linguagem clara para falar sobre o que é obscuro.

Juntando agora mais especulação à especulação, arriscaria (o risco é alguém me chamar “Paulo Coelho”) dizer que mitos do género Santo Graal são a expressão de um desejo intrínseco a seres cuja consciência é limitada – contudo não tão limitada que não consiga pressentir que existe algo mais sob o seu chão. A demanda, para os corajosos, é seguir esse impulso e mergulhar nas suas próprias profundezas em busca da sabedoria total. Partir do homem-sociedade, homem-família, homem-do-seu-tempo, para chegar ao homem-universo, o homem-todos-os-homens. Aquele que tem a consciência plena, se tal é possível: uma consciência que abarque desde o instinto básico ao impulso da filosofia.

Olhava para a praia, de cima, e o espectáculo sobre a areia era sempre o mesmo. Centenas de criaturas ocupavam-se numa série infinda de frivolidades: molhar os pés, fazer buracos, jogar à bola, dormir ao sol, dançar, perseguir pombos, atirar areia molhada, rir alto, gritar ainda mais alto, ler o jornal, comer, fumar, conversar… E no entanto cada uma delas, isolada, transportava os mistérios da vida e inconscientemente os pressentia. Cada uma delas, no seu âmago, acreditava em pelo menos um mito, uma lenda, um deus, um fenómeno paranormal, cada uma dessas patetices uma metáfora do Invisível alimentando o fogo do Desconhecido circulante nas veias.

O grunho que joga à bola e arroja a cara na areia, o masmarro que cospe para o chão da esplanada, o apalermado que gesticula ofensas no automóvel, até esses, que se calhar nem a história da família registará, não estão vazios. Se os cortarmos ao meio com uma motosserra saltarão as entranhas, os ossos e outras partes da anatomia que estudamos e consideramos assombrosas peças de engenharia, tão incríveis que só isso, para alguns, chega para provar a existência de um deus criador. Mas se pudéssemos, com uma motosserra especial, cortar-lhes o subconsciente ao meio, creio que ficaríamos ainda mais surpreendidos. Porque talvez víssemos, não o produto acabado das entranhas e dos ossos, mas o que o planeou, codificou e construiu – uma obra monumental que levou milhares de milhões de anos a ser concebida.

A Basílica de São Pedro é um produto acabado. Possui uma cúpula colossal, admirável. Mas o que estava dentro de Miguelângelo podia planear, desenhar, construir um milhão de basílicas de São Pedro. É portanto um milhão de vezes mais admirável.

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Os Resultados Eleitorais

Uma demonstração, muito tardia, de lucidez colectiva.

Portugal teve de se abeirar da bancarrota, depois de multiplicadas mentiras de um governo demente e criminoso, para tomar consciência de que a esquerda, no seu todo, não serve ao progresso e à estabilidade, nem arranja espaço, na sua agenda de luta partidária incessante sem olhar a meios, para o interesse nacional. Mas muito tarde. E se calhar por pouco tempo.

Olhemos entretanto para os resultados destas eleições. A extrema-esquerda no seu conjunto perde 7 deputados. O CDS fica com tantos deputados como o BE e a CDU juntos. É uma derrota esmagadora para o Bloco de Esquerda em particular, que fica reduzido a 8 (não chega a “partido do taxi”, mas passa a ser o “partido da carrinha pão-de-forma”).

O PS, abaixo dos 30%, e ainda que tenha contado mais votos do que merecia, sofre uma derrota histórica e justa. Melhor ainda, Sócrates abandona o cargo de secretário-geral e diz não aceitar cargos políticos nos próximos anos. É claro que as palavras deste senhor exigem sempre alguma desconfiança (ele também dizia “não estar disponível para governar com o FMI” e pouco depois, chamado o FMI, candidatou-se na mesma a primeiro-ministro), mas são um bom augúrio. É o único bom augúrio que Sócrates alguma vez ofereceu ao país. O seu afastamento “voluntário” é a primeira medida deveras capaz de ajudar Portugal.

O PSD consegue mais deputados do que toda a esquerda junta e é o vencedor destas eleições. É uma escolha inequívoca, não digo do povo português porque a abstenção foi novamente elevadíssima (41%), mas dos que votaram e decidiram. Quanto a mim a melhor escolha (e também a única escolha) possível.

A euforia, porém, é triste e ansiosa.

É triste que tenham sido dadas condições ao PS para trazer o país a este estado miserável. É triste que o voto não seja ponderado mas meramente reactivo, o que abre a hipótese de outros retóricos alucinados como estes socialistas que estiveram no governo sejam apoiados e eleitos em futuras eleições, pondo em causa todos os esforços dos portugueses e a qualidade de vida das próximas gerações.

A ansiedade, por seu lado, olha para o próximo governo. Será um governo excepcional como as maiorias de Cavaco Silva? Não sabemos, e se não for, na condição frágil em que estamos, poderemos afundar ainda mais.

Uma última nota para as sondagens: todas falharam. As empresas de sondagens parecem ter embarcado nas ilusões do Partido Socialista, insistindo nas últimas semanas na possibilidade de “empate técnico” entre PS e PSD, algumas dando mesmo a vitória ao PS. Talvez tenha sido azar nas amostragens, talvez tenha sido incompetência, e talvez tenha sido algo pior, como uma tentativa concertada de influenciar as eleições. Seja como for, não terão a mesma credibilidade em próximos actos eleitorais.

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