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Archive for the ‘Minorias étnicas’ Category

Malaca Casteleiro, “pai do acordo”,  para além de ser responsável pela versão “portuguesa” do surrealista dicionário brasileiro Houaiss e coordenador do sinistro dicionário da Academia das Ciências de Lisboa (o tal em que “eau-de-toilete”, só com um ‘t’, é considerada uma palavra portuguesa, tal como “stafe”, “icebergue”, “bué”, “cretcheu” e “guterrismo”…), também é… indiano.

Não tenho nada contra os indianos, nem contra os estrangeiros em geral, e participo dessa mentalidade de intercâmbio positivo do mundo civilizado. Mas as nações existem, como o respectivo património cultural, e todos gostamos que seja assim. Creio que ninguém ignora que existem fronteiras, e que ninguém quer que deixem de existir pelo menos a nível da sua cultura.

Um estrangeiro não pode ocupar qualquer função, em qualquer país. Não se admite um presidente estrangeiro, por exemplo, por razões óbvias. E por razões ainda mais óbvias não se devia permitir que decisões que afectam a língua de um país, património de muitas gerações, estivessem nas mãos de um estrangeiro. Muito menos um estrangeiro muito criticado pela comunidade científica e cuja obra revela desprezo pela língua que tem dificuldade em falar.

Alguém devia explicar que a Língua Portuguesa não é um argumento de Bollywood e que não suporta que se misture tudo lá dentro como acontece nos filmes indianos. Misturar tudo não é o que os portugueses querem e os portugueses é que são donos da sua língua – não os brasileiros e os indianos. Os portugueses é que a usam diariamente para trabalhar, comunicar, fabricar arte – o que é que um estrangeiro percebe disto? Melhor questão ainda: porque é que um estrangeiro terá de perceber alguma coisa disto? E por que apagão mental é que o seu voto terá maior peso na alteração da ortografia do que os de todos os portugueses?

Como é que a Índia, ou o Brasil, reagiriam se os seus políticos confiassem num português para decidir sobre a sua ortografia, contra os seus especialistas e contra o seu povo? É uma pergunta absurda – ninguém de bom senso pondera essa possibilidade. O único país em que algo como isto podia acontecer chama-se Portugal. E se é verdade que aconteceu na maldita “era Sócrates”, uma das mais desgraçadas e anti-patriotas da História, também é verdade que Cavaco Silva deixou que o Atentado entrasse em vigor e que os outros partidos não se opuseram. A culpa desta vez não é sobretudo do PS, é da classe política em geral, uma classe desprovida de vértebras, sem memória, sem amor pela cultura, sempre provinciana, sempre fascinada pelo gigante estrangeiro e encolhida diante dele. Uma classe que não merece ter nascido num país como Portugal… e que Portugal não merece que tivesse nascido.

Há sinais recentes, porém, muito positivos. Talvez tardios, talvez não, mas muito positivamente a alertar para a imbecilidade imposta deste acordo que não é acordo nenhum posto em vigor não só antes de todos os países da lusofonia o ratificarem como à margem de qualquer referendo e contra a maioria dos especialistas. Vasco Graça Moura, um dos poucos que sempre o denunciou publicamente, e na Assembleia, e tem feito quanto lhe é possível pela Língua Portuguesa, ordenou que o AO1990 não se aplicasse no Centro Cultural de Belém. É certo que não pode impedir que ele se aplique nos media, nas escolas, em todo o país, mas colocou o acordo no último sítio que os seus defensores desejariam: no debate público.

http://aeiou.expresso.pt/vasco-graca-moura-acaba-com-acordo-ortografico-no-ccb=f702768

Obrigado V. Graça Moura. Mas também os deputados do PSD Açores levantaram recentemente perguntas ao Governo sobre a utilidade deste AO, defendendo que entrada em vigor do foi apressada e pedindo mesmo a suspensão da coisa. Uma maneira politicamente correcta de mostrar que os Açores não querem engolir o estrume que nos estão a enfiar, a todos, pela boca abaixo.

http://ilcao.cedilha.net/?tag=mota-amaral

Somam-se também notícias e artigos nos blogs de gente comum, invisível, como eu, que lutam para que os filhos não aprendam a escrever nesse estranho e burlesco “acordês” (língua que no futuro será descrita como “variante do brasileiro”). Que lutam, se quisermos, pela liberdade de preservar o seu património contra a imposição estúpida, alheia à cultura e ao bom senso, de uma ortografia estrangeira. E iniciativas como esta: http://ilcao.cedilha.net/ .

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Os indianos

Os indianos são um povo cujo aspecto visual me irrita um bocadinho. Não é por uma razão ideológica ou por um instinto racial – é por uma questão estética. Para mim quase todos os indianos são pirosos. Não diria feios, ou repugnantes. Feios são os esquimós, repugnantes são os aborígenes. Os indianos, como dizer, são foleiros, de mau gosto, kitsh. Pirosos.

Pergunto-me como é que uma civilização tão antiga, com uma cultura das mais ricas do mundo e que remonta a mais de 4000 anos, pode usar aqueles penteados com risco ao lado, o cabelo oleoso e certinho como uma bosta seca, aquelas calças à velho, de fazenda, aquelas chinelas de feira, aquelas camisas de hipermercado, de vez em quando com mais um bigodinho à Cantiflas ou uns óculos desproporcionados – isto em toda a parte, seja em Bombaim, em Londres ou nos Restauradores… Os mais elegantes usam turbante, como se gostassem de ser confundidos com cornetos humanos. As mulheres parecem pinheiros de natal decorados por uma criança demente, mal compostas, cheias de decorações que não se preocupam com a harmonia e sinais enormes no rosto que se assemelham a excrescências cancerígenas. Os indianos mais toleráveis esteticamente são os bebés e os doentes, porque não saem à rua.

Os filmes e os casamentos indianos são o apogeu da piroseira. Um fenómeno já mau é um indiano medianamente piroso, a viver a sua vida normal; outro pior dá-se quando ele, de propósito, se põe piroso para uma ocasião especial; e o pior dos fenómenos acontece quando se lhe juntam mais umas centenas e se põem todos a cantar e a dançar, num autêntico tsunami de piroseira. Isto só acontece em duas situações: nos casamentos e nos filmes. O cinema indiano é de longe o cinema mais piroso do mundo, com uma estética tão peculiar que apenas os próprios indianos o consomem. Por sorte de uns, e azar de outros, existem mesmo assim mais de mil milhões de potenciais consumidores que garantem a multiplicação dessa catástrofe a níveis astronómicos.

Uma sociedade pode julgar-se pelas figuras que idolatra. Quando se pensa na Índia, pensa-se em Ghandi. Isto revela algo sobre a sociedade indiana, uma vez mais pela negativa. O Ghandi parece-se com aquele miúdo imbecil que todos conhecemos na escola, que até podia ter boas notas mas era pobrezinho e não sabia fazer nada além de levar pancada dos outros. A diferença entre Ghandi e esse rapazinho é que o primeiro continuava feliz depois de lhe baterem. Nunca deu provas de saber governar ou organizar coisa alguma. Destacou-se – pela imobilidade. E pela indumentária. A começar pelos óculos-tipo-tartaruga que lhe assentavam na cabeça-tipo-nabo e pelo lençol que pendurava no esqueleto, semelhante a roupa enrolada num estendal, e a terminar num pau de vassoura que usava como bastão – um estilo minimalista e monocromático que chocava, e ainda contrasta, com os excessos de cor e de enfeites do padrão popular.

De repente tive um sentimento de culpa porque me lembrei do Taj-Mahal. Mas injustificado, porque o Taj-Mahal foi construído pelos árabes. Tudo o que de bom gosto existe na Índia foi construído ou levado por estrangeiros – gregos, árabes, ingleses, até portugueses. A cozinha indiana não era nada sem os portugueses, que levaram para lá as malaguetas. E eles, muito agradecidos, retribuiram-nos – em rosas.

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Passemos o olho do burro para o cigano. Vou a falar de ciganos porque fui desafiado a tanto, não porque goste de pensar nessa minoria étnica, que é o nome politicamente correcto para escumalha.

Mas vamos lá. Leitor ou leitora, antes de mais eu não sei bem do que vou falar porque não consigo definir o que é um cigano. Pensei, a princípio, que um cigano era um nómada vindo de Espanha, em carroças puxadas a burros, com a família, que tipicamente não era inferior a 50 elementos. Além disso, que lia o futuro nas cartas, andava com ponta-e-molas nos bolsos, roubava os transeuntes, era estúpido, cantava como se estivesse a parir, usava correntes e dentes de ouro, vestia roupa escura e não tomava banho (quanto mais velho mais se confundia com a roupa).

Era esta a minha ideia do cigano, negativa e estereotipada, até há alguns atrás ver alguns de perto. Foi quando o país foi invadido por uma praga de ciganos romenos. De um dia para outro, os ciganos começaram a surgir de toda a parte. Não se podia parar num semáforo, em Lisboa, sem que dois nos tentassem limpar o vidro do carro por uns cêntimos. Como em romeno não existe a palavra "não", lavavam mesmo que se recusasse. Não pediam esmola, exigiam, e pegavam-se como carraças.

Lembro-me de uma cigana com uma criança ao colo no Campo Grande a pedir esmola entre os carros. Entre um e outro carro, dava um estalo na criança para ela chorar e o condutor, piedoso, largar uns trocos por pena.

A praga durou apenas uma semana ou duas, mas mostrou-me que os ciganos não eram como pensava. Afinal não vinham todos em carroças. Se viessem haveria cocó de burro nas ruas todas, e tirando os dejectos dos cães e dos cavalos da GNR não havia mais nada. Também não liam o futuro nas cartas, porque senão tinham previsto que as autoridades os expulsariam do país em pouco tempo. Estavam longe de ser estúpidos – espancar crianças para obter esmola revelava uma estratégia habilidosa para influenciar o dador, a qual não poderia ter sido concebida sem uma empatia especial pelo coração mole dos portugueses.

Concluí, em suma, que os ciganos não são espanhóis. O espanhol é mais para o bruto, não é adaptativo. O espanhol é programado por Madrid para falar apenas castelhano, ouvir apenas castelhano e agir sempre como espanhol, seja onde for. O cigano, sendo adaptativo, aproxima-se mais ao português, que mimetiza facilmente outras culturas.

A diferença é que o português se mistura noutras culturas e o cigano se aproveita delas: cola-se como uma carraça e suga quanto pode. Para o cigano não existem sítios estrangeiros – apenas hospedeiros. Chegam, acampam, multiplicam-se, sugam e quando estão a dar demasiado nas vistas vão-se embora. Por isso mesmo não existe uma pátria de ciganos. Seria bem estranho, para usar o mesmo exemplo, as carraças terem pátria. Se assim fosse só se tinham a si mesmas para sugar, condenando-se à auto-destruição. Não, o cigano precisa de saltar de hospedeiro em hospedeiro, pelo que só faz sentido ser nómada.

Um amigo meu dizia que os ciganos eram feios como a Amália [JV1999]. Não posso concordar, os ciganos vestem-se melhor. Mas por outro lado não sei onde vão buscar as roupas. Será que existem secções especializadas para ciganos nas feiras?

Em suma, o cigano é ainda um enigma por explicar ou por expulsar. Em nome do conhecimento sou a favor de se preservar os ciganos e estudá-los num ambiente controlado, como uma redoma gigante, mas há quem seja menos tolerante. Note-se que ser contra os ciganos não é ser racista, porque os ciganos não são raça, nem é ser xenófobo, porque para se ser estrangeiro é preciso ter uma pátria. É apenas intolerância. De vez em quando aparecem casos nos telejornais de pessoas que querem expulsar os ciganos do seu bairro. Mas expulsar para onde? Não dizem. Ora uma questão mais importante que a origem ou a definição do cigano é saber o que fazer com eles. São úteis para alguma coisa além do contrabando? Podem ser escravizados? Podem ser estudados? É viável atirá-los para o espaço?

Aguardo comentários.

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Os Chineses

Os chineses são atenciosos e simpáticos. Entra-se numa loja e vê-se logo um deles fazer um sorriso chinês e dizer "buondi", "bota" ou "bono". Não é que vendam café Buondi, botas de caminhada ou álbuns dos U2 (ainda que numa loja chinesa não fosse de estranhar venderem um coffret com os três juntos); o que ouvimos, realmente, são eles a dizer "bom dia", "boa tarde" ou "boa noite" à maneira deles. "Buondi!", "botá!", "bonô!".

Classifiquei o sorriso como "chinês" porque não há um adjectivo adequado no mundo ocidental. O sorriso do chinês, seja o do arrozal, o do restaurante, o do bazar, o do shaolin ou o do pudin Flan, é um sorriso muito peculiar porque ao mesmo tempo que é solícito, simpático e acolhedor também parece estar a dizer: "não compres nada e cravo-te uma tesoura nas costas". Pelo menos é a sensação que eu tenho quando entro numa loja chinesa. Até pode estar a atender uma criança pequena com totós, muito afável e diligente, que alguma coisa no seu olhar me diz que, se não comprar nada, serei trespassado com uma unha.

Muitos chineses possuem unhas grandes para defesa pessoal, para aparafusar os óculos e para guardar o lanche [LISA05]. A maioria deles possui igualmente um cabelo oleoso, escorrido, como se entornassem uma sopa de wan-tan na cabeça todas as manhãs. Shampoo de azeite [LISA05] não existe, nem na China. Não percebo este fenómeno e por isso às vezes teimo nele para me entreter. Numa perspectiva darwinista, terá o cabelo oleoso dado, algures no tempo, uma vantagem àquela raça sobre as outras? Por exemplo, é bem possível que tenham descoberto os fritos antes de qualquer outro povo, pois enquanto os outros precisaram de milhares de anos para conseguir processar a matéria-prima (a palma, a azeitona), o chinês já a possuía acabada – no cabelo. Nenhum ser vivo tem a capacidade de fritar uma banana com tão poucos recursos como o chinês: basta-lhe um pouco de fogo e escorrer o cabelo para dentro de uma frigideira.

O chinês trabalha, idealmente, 25 horas por dia e vive no estabelecimento. Não tem feriados. No tempo livre gosta de karaoke, video-cds de kung-fu e qualquer tipo de jogo desde que tenha apostas. O chinês é viciado em apostas. Qualquer coisa lhe serve, nem que seja apostar quem encesta mais crepes num minuto.

Adora o número 8 e tem horror ao número 4. Na China os prédios não têm quarto andar (porque não se vende [JORGE05]), assim como as matrículas dos carros. Mesmo um chinês a morrer de fome e frio numa sarjeta irá recusar viver num quarto andar, mesmo que seja dado, porque pode dar azar. Por muito que varie a inflacção nunca teremos "lojas dos 4 euros". O chinês nunca tem mais de 3 filhos, nunca compra dois pares de sapatos ao mesmo tempo e não vê a TVI. Se achar 4 piolhos na cabeça frita-se como um gelado e a família coloca as cinzas dentro de um jarrão de cerâmica pintada com dragões e nuvens.

É vulgar nos restaurantes chineses a presença desses jarrões enormes. São enormes porque podem abarcar uma dinastia inteira. Explicou-me uma vez uma chinesa, orgulhosa, que ela e a família tinham conseguido pôr todos os antepassados dentro de um pote, num cantinho do restaurante junto aos cágados.

Um restaurante, para ser chinês, tem de obedecer a certas regras que às vezes passam despercebidas. São elas:

– Duas lanternas vermelhas tipo balão, de papel, à porta;

– Uma bola rotativa de mármore ou um leão de pedra parecido com o Marco Paulo;

– Um nome oriental imperceptível ("Hua-Ta-Li", "Hi-Pin-Shan") ou um nome ocidental que não pareça um nome ("Muito Bom", "Boa Sorte")

– Decoração geral da mesma cor do Livrinho Vermelho de Mao;

– Uma fonte com cágados;

– Cadeiras gigantes e quadradas que encaixem hermeticamente nas mesas;

– Uma ementa com pratos numerados e um múltiplo de 8 erros ortográficos em cada página;

– Um quadro a pilhas com uma simulação de cascata;

– Empregados fluentes em língua chino-portuguesa;

– Jarrões de antepassados e amigos;

– Uma ou duas mesas redondas de jogo (centro rotativo);

– Copos de shot com fundos pornográficos;

– Uma garrafa de licor Lagarto em exposição;

– Caixas de caldo Knorr com sabor a cão.

Tudo isto se vende em kit nas lojas de Hong-Kong. Chamam-lhe o "kit de restaurante chinês para exportação".

Outra curiosidade dos chineses é a aparência. É quase impossível saber a idade de um chinês. Sou capaz de não dar mais de 70 a uma criança só por causa do tamanho, mas mesmo assim fico com dúvidas, dado que os velhos não são muito maiores. Os chineses além de velhos são pequenos, é outro facto. São todos pequenos e todos velhos. Desde há séculos que são os velhos, na China, a ter a fama de sábios, porque em verdade eles são os únicos a saber uma coisa: quantos anos têm.

Critica-se muito, aqui no ocidente, o abuso do trabalho infantil na China, mas é preciso reflectir se os próprios chineses conseguem distinguir uma criança de um adulto. Se calhar não conseguem e simplesmente empregam nas fábricas os candidatos mais económicos. Ninguém lhes tira que é mais lucrativo pagar salários de rebuçados e tamagotchis.

Os chineses são, em número, a seguir às formigas a forma de vida dominante no planeta. Há mais chineses que pedras da calçada. E são capazes e inteligentes, apesar do que se diz. Diz-se, por má língua, que a pólvora foi inventada na China para livrar o mundo dos chineses – só falhou a explosão. Também se diz que não foram os chineses que construiram a grande muralha da China, e sim os povos vizinhos porque não os suportavam. Mas a verdade é que este país prospera na economia mundial e por toda a parte vão aparecendo pequenas lojas e restaurantes como demonstração do seu domínio. A grande muralha, é certo, não se vê da Lua como antes se mitificava, mas se os chineses todos se abraçassem era bem possível que se assemelhassem, vistos de Marte, a um gelado frito.

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