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Archive for the ‘Horror’ Category

Malaca Casteleiro, “pai do acordo”,  para além de ser responsável pela versão “portuguesa” do surrealista dicionário brasileiro Houaiss e coordenador do sinistro dicionário da Academia das Ciências de Lisboa (o tal em que “eau-de-toilete”, só com um ‘t’, é considerada uma palavra portuguesa, tal como “stafe”, “icebergue”, “bué”, “cretcheu” e “guterrismo”…), também é… indiano.

Não tenho nada contra os indianos, nem contra os estrangeiros em geral, e participo dessa mentalidade de intercâmbio positivo do mundo civilizado. Mas as nações existem, como o respectivo património cultural, e todos gostamos que seja assim. Creio que ninguém ignora que existem fronteiras, e que ninguém quer que deixem de existir pelo menos a nível da sua cultura.

Um estrangeiro não pode ocupar qualquer função, em qualquer país. Não se admite um presidente estrangeiro, por exemplo, por razões óbvias. E por razões ainda mais óbvias não se devia permitir que decisões que afectam a língua de um país, património de muitas gerações, estivessem nas mãos de um estrangeiro. Muito menos um estrangeiro muito criticado pela comunidade científica e cuja obra revela desprezo pela língua que tem dificuldade em falar.

Alguém devia explicar que a Língua Portuguesa não é um argumento de Bollywood e que não suporta que se misture tudo lá dentro como acontece nos filmes indianos. Misturar tudo não é o que os portugueses querem e os portugueses é que são donos da sua língua – não os brasileiros e os indianos. Os portugueses é que a usam diariamente para trabalhar, comunicar, fabricar arte – o que é que um estrangeiro percebe disto? Melhor questão ainda: porque é que um estrangeiro terá de perceber alguma coisa disto? E por que apagão mental é que o seu voto terá maior peso na alteração da ortografia do que os de todos os portugueses?

Como é que a Índia, ou o Brasil, reagiriam se os seus políticos confiassem num português para decidir sobre a sua ortografia, contra os seus especialistas e contra o seu povo? É uma pergunta absurda – ninguém de bom senso pondera essa possibilidade. O único país em que algo como isto podia acontecer chama-se Portugal. E se é verdade que aconteceu na maldita “era Sócrates”, uma das mais desgraçadas e anti-patriotas da História, também é verdade que Cavaco Silva deixou que o Atentado entrasse em vigor e que os outros partidos não se opuseram. A culpa desta vez não é sobretudo do PS, é da classe política em geral, uma classe desprovida de vértebras, sem memória, sem amor pela cultura, sempre provinciana, sempre fascinada pelo gigante estrangeiro e encolhida diante dele. Uma classe que não merece ter nascido num país como Portugal… e que Portugal não merece que tivesse nascido.

Há sinais recentes, porém, muito positivos. Talvez tardios, talvez não, mas muito positivamente a alertar para a imbecilidade imposta deste acordo que não é acordo nenhum posto em vigor não só antes de todos os países da lusofonia o ratificarem como à margem de qualquer referendo e contra a maioria dos especialistas. Vasco Graça Moura, um dos poucos que sempre o denunciou publicamente, e na Assembleia, e tem feito quanto lhe é possível pela Língua Portuguesa, ordenou que o AO1990 não se aplicasse no Centro Cultural de Belém. É certo que não pode impedir que ele se aplique nos media, nas escolas, em todo o país, mas colocou o acordo no último sítio que os seus defensores desejariam: no debate público.

http://aeiou.expresso.pt/vasco-graca-moura-acaba-com-acordo-ortografico-no-ccb=f702768

Obrigado V. Graça Moura. Mas também os deputados do PSD Açores levantaram recentemente perguntas ao Governo sobre a utilidade deste AO, defendendo que entrada em vigor do foi apressada e pedindo mesmo a suspensão da coisa. Uma maneira politicamente correcta de mostrar que os Açores não querem engolir o estrume que nos estão a enfiar, a todos, pela boca abaixo.

http://ilcao.cedilha.net/?tag=mota-amaral

Somam-se também notícias e artigos nos blogs de gente comum, invisível, como eu, que lutam para que os filhos não aprendam a escrever nesse estranho e burlesco “acordês” (língua que no futuro será descrita como “variante do brasileiro”). Que lutam, se quisermos, pela liberdade de preservar o seu património contra a imposição estúpida, alheia à cultura e ao bom senso, de uma ortografia estrangeira. E iniciativas como esta: http://ilcao.cedilha.net/ .

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A Simplificação

É o argumento mais atractivo oferecido pelo “acordo” para os “modernos” dos nossos dias: a simplificação. Ficam boquiabertos de pasmo, os “modernos”, perante a coragem de eliminar letras que não pronunciam. “Que coragem!”, meditam admirados, “Que simplificação!”.

Alguns notam que nem tudo é coerente, outros notam que muita coisa é incoerente, que nem todas as consoantes mudas foram removidas, como o ‘h’ no início das palavras, que a remoção não é respeitada pelo Brasil em casos como “recepção” e “concepção”, que o critério da “norma culta” é obscuro, que é mais fácil resolver uma equação diferencial do que saber onde aplicar um hífen, mas o objectivo da simplificação é demasiado atractivo para que se deixem levar pela correnteza do esgoto, e resistem. “Tudo pela simplificação!”, brada o seu espírito minimalista, “nem tudo é perfeito, é só o primeiro passo!”.

O corte com o passado é também visto, só por si, como uma coisa positiva – um sinal de progresso. Não sabem os minimalistas para onde progridem nem lhes importa tão insignificante detalhe, mas sentem que avançam porque algo muda, porque não há estagnação. Podem dizer-lhes que também o corpo muda com a morte, entrando em decomposição, que se mantêm presos na utopia como um fóssil na rocha. “Ordem e progresso!”, gritam, “ordem e progresso!”.

Ora bem, como rebater tal ânimo? Podem rebater-se argumentos – mas ânimo, ânimo a sério, é difícil. Alguém alguma vez demoveu um estilita de viver sobre uma coluna ou um crente da IURD de dar a dízima? Não, a solução não é rebater: é achar um caminho diferente para eles, um que não se cruze com a Língua Portuguesa e portanto não a afecte.

Podem ter muito mais simplificação usando a língua mais objectiva de todas, feita não pelo povo mas por sábios, como querem: o Esperanto. O Esperanto, simplificadores simplórios, é a vossa verdadeira língua. Passem a falar e a escrever em Esperanto e deixem de tentar “aperfeiçoar” um património que ignoram – deixem a Língua Portuguesa e a sua História de tantos séculos, já tão desgraçada pela revisão de 1911, e a infinita riqueza das suas imperfeições, em paz para que continuem a desfrutar dela os muitos e verdadeiros apreciadores de hoje e do futuro.

Adoptem o Esperanto, criminosos! Senão vejam o que vem a seguir vindo de vós e do vosso insaciável apetite por utopias. Talvez não cheguem ao cúmulo de alisar as paredes do Mosteiro dos Jerónimos para o simplificar (quem sabe!), mas porque o acordo de 1990 não atinge o vosso objectivo chegarão a isto:

– Removerão o “h” no início das palavras: “elicóptero”, “úmido”, “erdar”, “abilitado”, “iato”, “aver”.

– Mudarão “x” por “ch” ou “s” quando têm o mesmo som. Para quê duas formas de escrever o mesmo som? O acordo já dá uma resposta a isso ao determinar a ortografia pela pronúncia. É muito mais simples ter apenas uma forma. Passarão a escrever “chilofone”, “estraordinário”, “estenção”,”echelente”, “esceção”, “chisto”, “chadrez” e “chelim”.

– Mudarão “s” por “z” quando têm o mesmo som: “êstaze”, “pizar”, “ipófize”, “izocromático”, “izento”.

– Acabam com as duplas grafias. Na sequência dos critérios do acordo, para não se chocar a sociedade brasileira, líder do mundo lusófono, optar-se-á sempre pela grafia (mais moderna) desse país: “eletrônico”, “armônico”, “fato”, “intato”, “seção”, “anistia”, “sutil”.

– Mudarão “ss”, ou “s”, para “ç” quando tem este som: “preção”, “fição”, “açolar”, “oço”, “açado”, “çotaina”.

– Mudarão o “o” para “u” quando tem este som e não altera a pronúncia da palavra: “çulução”, “mução”, “pução”, “lutaria”, “pucilga”.

– Removerão a letra “q” do dicionário (25 é mais simples que 26), substituindo-a sempre pelo “k” nas palavras: “kuarto”, “kente”, “kuaze”, “parke”, “pakete”, “keke”, “purke”.

– Para maior simplicidade ainda o “c” será substituído também pelo “k” quando tem este som: “konta”, “kão”, “tako”, “kato”, “makako”.

– Mudarão o “e” pelo “i” quando tem este som.

 

Vejamos como ficarão por exemplo os 3 primeiros artigos da Constituição segundo a futura ortografia simplificada:

 

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Artigo 1.º
Repúblika Purtuguesa

Purtugal é uma Repúblika çuberana, baziada na dignidade da peçoa umana i na vontade pupular i empenhada na konstrução de uma çociedade livre, justa i çolidária.

Artigo 2.º
Estado de direito demucrátiko

A Repúblika Purtuguesa é um Estado de direito demukrátiko, baziado na çuberania pupular, nu pluralismo de echpreção i organização pulítika demukrátikas, nu respeito i na garantia de efetivação dus direitos i liberdades fundamentais i na çeparação i interdependência de puderes, vizando a realização da demukracia ecunômica, sucial i cultural i o aprufundamento da demukracia participativa.

Artigo 3.º
Çuberania i legalidade

1. A çuberania, una i indivisível, rezide nu povo, ke a exerce cegundo as formas previstas na Konstituição.

2. O Estado çuburdina-se à Konstituição i funda-se na legalidade demukrátika.

3. A validade das leis i dos demais atos do Estado, das regiões autónumas, du puder lucal i de kuaisker outras entidades públikas depende da çua confurmidade com a Konstituição.

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Portanto, exmos. criminosos simplório-progressistas, em vez de estragarem a língua dos outros transformando-a artificialmente por ignorância e decreto – adoptem uma melhor! Não se sintam obrigados a usar uma língua que consideram tão imperfeita como a Portuguesa – usem outra qualquer! Se vos sobra um milímetro de patriotismo, partam daqui para sempre unificados e simples – para o ilhéu das vossas asneiras!

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O Sr. Macaca Pasteleiro

Quem é o sr. Malaca Casteleiro?

Certos homens não foram decerto destinados, de nascença, a participar na memória colectiva que atravessa as eras e que denominamos por História. Um dos mais graves erros da sociedade humana é teimar dar, por vezes, a esses o que a natureza não lhes emprestou sequer, e torná-los subitamente importantes ao ponto de serem tema de conversa ou poderem estragar de facto alguma coisa com a sua atroz inépcia e fraca virtude.

Poder-se ia talvez fazer um tratado sobre a civilização tomando esta observação como ponto de partida e perseguindo a teoria de que a “quantidade de civilização” é inversamente proporcional às oportunidades cedidas aos desprovidos de mérito.

Sim, talvez se pudesse, mas por muito excelente que resultasse esse tratado seria sempre demasiado abstracto para que atingisse o meu alvo como ele merece. Portanto vou falar cirurgicamente, e apenas, de uma instância deste mal: a conjugação desventurada de ausência de talento e excesso de oportunidade que é o sr. Malaca Casteleiro.

O sr. Malaca Casteleiro é sobretudo duas coisas. Primeiro é o responsável pelo “Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea” da Academia das Ciências de Lisboa, que introduz na língua portuguesa palavras como “scanner”, “stand”, “stafe” (do inglês “staff”), “stresse”, “cretcheu” (importado do crioulo caboverdiano), “plafom”, “eau-de-toilette” (assim mesmo), “brífingue”, “icebergue”, “bué”, “croissã” e outras palavras que o sr. Malaca, nas suas jornadas pelo mundo, terá ouvido nas ruas e confundido com o português.

Apresento de seguida alguns excertos seleccionados de um membro da Comissão Científica do Ciberdúvidas que melhor do que eu tece algumas justas e certeiras críticas a esta obra onde o talento do sr. Casteleiro já se esboçava:

 

«St não é reprovável por não estar consagrado na tradição ortográfica; é, repetimos, que não há (nem nunca houve) na língua portuguesa palavras assim começadas, o que é muito mais grave. Stafe enferma do mesmo mal que stresse. Para evitar semiaportuguesamentos deste tipo, reprováveis, como vimos, o único aportuguesamento razoável, em português europeu, seria setresse, setafe e quejandos.»

«Aportuguesamentos do género da terminação inglesa -ing como -ingue são relativamente aceitáveis, nos casos em que tais estrangeirismos (ou neologismos externos, no dizer da ACL) são adoptados, como no famigerado brífingue, quando não se puderem ou quiserem evitar. Já eau-de-toilette é inadmissível num dicionário português; quando muito devia usar-se, como dantes, água de cheiro (uma vez que toilette, assim escrito, nada é na língua portuguesa). E toilete (assim mesmo!) não é português, porque se manda ler oi com o seu valor de em francês, e grafado só com um t, quando nesta língua é com dois!»

«Meter no Dicionário o termo cretcheu é rematado disparate: por um lado por tratar-se de termo do crioulo caboverdiano, por outro por conter o grupo tch, actualmente apenas dialectal, escrevendo-se sempre ch, mesmo que se pronuncie assim esporadicamente. Motivos ambos, pois, para não se dever ter registado num dicionário que se pretende normalizador da língua portuguesa.»

«Icebergue é aportuguesamento que só permite a pronúncia com i-; se queriam dar ao vocábulo aquela com ai-, só havia duas hipóteses racionais: deixá-lo em inglês, ou aportuguesá-lo de facto (aicebergue). Mais uma vez se nota o perigo dos semiaportuguesamentos!

Outro exagero, de índole muito diferente, é o acolhimento (de braços abertos!) do recentíssimo bué, autêntico monstro dentro do português, muito pior, na verdade, que a adopção do termo quilé, usado vulgarmente em calão, já há bastante tempo. Alguém disse com justa graça, a este respeito, que houve discriminação!»

http://www.ciberduvidas.com/controversias.php?rid=886

 

*

Pois bem, o desprezo pelo património, a ignorância de uma identidade, a falta de rigor científico, o ódio pela estética, em suma, a bandalheira anti-patriótica que se esboçava neste dicionário que não teve uma segunda edição revista, foi apenas o esboço, o primeiro passo, o ensaio, a preparação para a grande catástrofe que se preparava para abater sobre a Língua Portuguesa – a maior desde 1911 -, a que se chamou “Acordo Ortográfico de 1990”.

Apesar de nem o autor insistir no seu polémico e mal recebido dicionário, o visionário Malaca, talvez por vingança, nunca desistiu de atacar a Língua Portuguesa e foi afastado da Academia em 2006 por elaborar “dicionários escolares” conformes a um acordo ortográfio que nem estava em vigor (aqui se vê a tentativa de o empurrar a todo o custo).

O mesmo homem, o homem da “toilete”, Malaca Casteleiro, viria contudo, empurrado pelos interesses económicos e políticos de espíritos tacanhos e com o caminho aberto pelo desinteresse letárgico da população, a conseguir a vingança completa tornando-se o rosto nacional de um acordo ratificado com todos os países lusófonos à excepção de Angola. O pequeno homem da “toilete” tornou-se o pequeno deus da “deceção”.

Pouco interessava a Casteleiro que o acordo se fizesse à revelia dos povos, apenas para satisfazer os futuros caprichos brasileiros na ONU e a sua actual demonstração de liderança absoluta do universo lusófono. Casteleiro chegou até a argumentar que se tiraram as consoantes mudas porque seria demasiado violento, para a sociedade brasileira, deixá-las lá. Isto é a opinião do homem ideal para firmar o acordo com o Brasil. Para os políticos brasileiros era alguém que tinha a mesma noção de “universalidade” e desprezo pela etimologia/identidade, precavendo apenas os choques na sociedade brasileira, aberto a qualquer cedência e qualquer imposição por decreto em Portugal; para os políticos portugueses era ainda mais perfeito: era alguém da mesma espécie com esparguete cozido a substituir a coluna vertebral, obra feita na área e sem reputação a defender.

E Malaca Casteleiro submeteu-se a tudo como foi mandado. Não lhe interessava o acordo, a universalidade da língua e até pouco lhe importavam os interesses dos seus camaradas políticos. Queria, porém, a vingança. A vingança sobre os críticos, a vingança sobre os que o afastaram da Academia e, sobretudo, a vingança sobre a natureza, que o tinha destinado a tão pouco. Casteleiro provou à natureza que merecia ficar na História. Conseguiu essa vitória: fica registado como um dos que mais contribuíram para destruir o património linguístico.

*

Com toda esta “visão linguística” decerto o referido visionário não se importará que actualizemos, simplifiquemos e modernizemos também a ortografia do seu nome, e com o mínimo de alterações – trocando apenas um ‘l’ por um ‘c’ e um ‘c’ por um ‘p’, com o resultado coerente e unificado de “Macaca Pasteleiro”.

“Macaca” aceitará “Maluco” como dupla grafia por compatibilidade com a norma culta de diferentes regiões lusófonas,  e “Pasteleiro” poderá também escrever-se “Trapaceiro”, termo que relativamente a este personagem está devidamente consagrado pelo uso.

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11 Poias Ortográficas

É vagamente incómodo, e certamente irritante, andar num passeio salpicado por cocós de animais. Em vez dos olhos percorrerem o caminho atentos ao que os deleita, recolhendo em imagens a beleza das coisas como abelhas sugando o néctar das flores (para depois, quem sabe, produzirem o mel da arte), são obrigados a navegar rasteiros ao chão entupido de poias para que os pés, bem guiados, não tropecem em merda.

É certo que não é uma fatalidade, com cuidado e sorte chegamos limpos ao outro lado – mas é chato e perturbador. Pensamos: “que bom seria que os donos destes cães tivessem saído da civilização e não de um alfeire”, surge-nos como uma miragem a rua limpa e saboreamos, nesse imaginário pueril, quanto apreciaríamos passear sem matéria fecal entre nós e a beleza do mundo.

Igual sentimento tem o leitor que é obrigado a ler um texto escrito segundo o acordo ortográfico de 1990. Algumas palavras afiguram-se-lhe tão anómalas que tem de as evitar corrigindo-as na sua voz interior. Mas existem tantas, e tão grotescas, que desvia, para impedir os tropeções, toda a atenção destinada à beleza do texto.

Tal como o andante chega ao fim da rua, o leitor da aberração ortográfica chega ao fim do texto com igual irritação e pensamento: “que bom seria que os donos deste acordo tivessem no cérebro amor ao património em vez do buraco do cu”, e sonham com a facilidade impossível de recuperar a própria língua.

Pois aqui fique, para a posteridade, uma colecção de 11 poias ortográficas que já se começam a multiplicar e a chover, como se Zeus tivesse uma diarreia tropical, sobre o nosso já-muito-maltratado-desde-1911 património linguístico:

Poia 1: Adopção -> Adoção. Intuitivamente leremos “adução” e o cérebro tentará corrigir para a palavra mais próxima, “adoçam”. “Adoção” parece “adoçam” escrito por um adolescente descuidado, daqueles que produzem legendas para versões pirateadas dos filmes na Internet.

Poia 2: Acção -> Ação. Leremos “assão”, e o mais próximo será “assam”, um “assam” mal escrito pelo irmão mais novo do adolescente anterior.

Poia 3: Espectador -> Espetador. O que designava antes alguém que assiste a um espectáculo passa a designar alguém que espeta alguma coisa. Poderemos ler coisas como “neste jogo quem ganha é o espetador” ou “os espetadores habituais da Mariza”.

Poia 4: Sector -> Setor. Parece a abreviatura de “senhor doutor” que os alunos aplicam ao professor. O que era antes uma secção passa a ser o masculino de “setora”… Fácil será pisar esta poia antes que se chegue à longíqua conclusão do que realmente significa.

A etimologia de “sector”, do latim “sector”, foi preservada no francês (“secteur”), no espanhol (“sector”), no inglês (“sector”) e no alemão (“sektor”). Entre nós sempre se escreveu de acordo com a etimologia (nem a estuporada revisão de 1911 o alterou). No entanto o farol da língua, para os mestres do acordo, não está na arte destes velhos, bárbaros e atrasados países europeus – está na trunfa do Corcovado.

Poia 5: Activo -> Ativo. Ao deparar-se com isto o cérebro reparará que falta ali alguma coisa, que há um buraco algures na palavra, e irá procurar o que o pode preencher. “Ativo” tanto lembra “activo” como “altivo”, ou “aditivo”, ou ainda “aflitivo”. E chegará à conclusão de que é simplesmente corrosivo.

Poia 6: Excepção -> Exceção. Lê-se “excessão” e parece de imediato “excreção”. Excreção não está longe da verdade.

Poia 7: Acto -> Ato. O acto passa a confundir-se com a primeira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo “atar”: eu ato… Idem para “acta”, que muda para a terceira pessoa do singular do mesmo verbo. Percebe-se que os mestres do acordo levaram a sério o propósito de unificar quando se vê que a sua obra até unifica substantivos com formas verbais.

Poia 8: Há-de -> há de. Sem hífen o “de” vai passar a haver muitas vezes. “Há de” indica-nos que há qualquer coisa misteriosa que se designa por “de”.  Há estrelas no céu, há peixes no mar e agora, com o acordo, também há de.

Poia 9: Concepção -> conceção. Lê-se “concessão”. A Imaculada Concepção passa portanto a ler-se “Imaculada Concessão de Maria” e a significar algo que a Nossa Senhora autorizou (imaculadamente).

 

Poia 10: Recepção -> Receção

Leremos “recessão”, igual a “recessão” mal escrita… Será uma palavra maldita em qualquer empresa. Imagine-se que bem ficará em letras grandes na recepção do Ministério das Finanças.

Apesar da etimologia (latim receptio), decidiu tirar-se o ‘p’. Apesar desse ‘p’ ser lido no Brasil, decidiu não se dar grafia dupla à palavra. E apesar de não ter grafia dupla a Academia Brasileira de Letras decidiu não respeitar o acordo, continuando a escrever-se com ‘p’ no Brasil.

E assim se salvaguarda que qualquer decisão futura, como obrigar a escrever esta palavra em cirílico ou com as letras por ordem inversa, ou ambas, não causará qualquer estranheza no universo lusófono.

Poia 11: Egipto -> Egito

É das palavras “novas” a que mais se tropeça na RTP. O abrasileiramento de Egipto que acaba, como muitos outros, por entrar para o vocabulário ortográfico sem grafia dupla, é uma palavra feia como uma borra e em desacordo com a etimologia (latim aegyptus).

É interessante ver como o argumento do “consagrado pelo uso” (não-científico, pois em tudo se opta pela simplicidade) usado pelos autores do acordo para justificar excepções como a manutenção do hífen em “cor-de-rosa” (excepção no Brasil mas não em Portugal, bom aluno dos trópicos, exemplo da lusofonia, que obedece a tudo – mesmo ao que não é cumprido pelos que mandam), não se aplica no caso de consoantes mudas que sempre existiram na ortografia portuguesa.

Continua, porém, a escrever-se “egípcio” e “egiptologia”, palavras com a mesma raiz de “Egipto”. Se antigamente, em caso de dúvida, se podia raciocinar pela semelhança ou pela etimologia para assumir a forma certa de escrever, com o acordo em vigor (o tal que afirma simplificar) a fórmula de pensamento terá de ser esta:

– Adivinhar se a consoante se pronuncia numa “norma culta” que nem os especialistas conseguem definir;

– Adivinhar se, apesar disso, o acordo prevê alguma excepção para a palavra;

– Adivinhar se o vocabulário ortográfico em vigor decidiu cumprir o acordo e respectivas excepções ou se decidiu criar uma excepção marginal “consagrada pelo uso” (como nos casos de “cor-de-rosa”, “recepção” e “concepção” no Brasil).

Para os cumpridores do acordo a dúvida será, portanto, mais inteligentemente resolvida dando a um macaco algumas letras e pedindo que as atire ao chão e as baralhe com os pés – tudo menos desperdiçar tempo a raciocinar sobre ortografia moderna.

E desse ponto de vista o acordo de facto simplifica: ninguém que o queira cumprir vai gastar muito tempo a pensar antes de escrever. Claro que me vão responder: “mas vão faltar os macacos!”. Pois eu digo que não.

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O robô e a máquina de propaganda – Opiniao – Sol.

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Alguns episódios da campanha que ilustram o “espírito democrático” do PS, a sua receptividade a críticas populares e a consequente tolerância – para quem andou um pouco distraído nos últimos anos (e com os olhos completamente tapados nos casos Freeport, Face Oculta, roubo de gravadores…):

«Rui Beles Vieira, de 37 anos, foi conduzido à Esquadra da PSP de Faro durante o comício de José Sócrates no largo da Liberdade, anteontem à noite, por ter recusado identificar-se perante polícias à paisana. O homem, de visita ao Algarve, estava entre o coro de protestos que perturbou a manifestação socialista.

Em comunicado ontem enviado à agência Lusa, Rui Vieira, que trabalha como teleoperador em Porto Salvo, Oeiras, admitiu ser um turista que parou junto ao comício e se sentiu “indignado” pelo “discurso de mentiras”. Nega pertencer a qualquer partido ou movimento e garante que da sua boca apenas saíram frases acerca do PS, “referindo-me à condição precária de milhares de portugueses”.

Perto do comício estiveram dois elementos da Comissão de Utentes da Via do Infante (A22), empunhando um cartaz contra as portagens, e um elemento do Movimento 12 de Março (geração à rasca), apelando a uma auditoria às contas públicas. Os apupos destes e mais cerca de meia centena de populares perturbaram os oradores no comício, levando a PSP a identificar oito pessoas no local, a pedido da organização, e mais uma – Rui Vieira – na esquadra.»

http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/nacional/legislativas-2011/turista-indignado-por-detencao-em-comicio-do-ps

*

«No salão de festas, onde iria decorrer o almoço, quatro pessoas ligadas ao Externato (dois pais e dois jovens alunos), que tinham reservado uma mesa para oito pessoas, estavam sentados à espera de Sócrates. Foram reconhecidos por elementos do PS de Torres Vedras e autarcas locais, que os avisaram de que ali seria proibido qualquer discurso ou protesto.

Paulo Gonçalves, presidente da Associação de Pais, que estava à mesa, respondeu que o objectivo da sua presença ali era pacífico e pretendia apenas manifestar o descontentamento face à política do Governo para as escolas com contrato de associação: “A ideia seria levantarmo-nos quando Sócrates começasse a falar”, explicou ao PÚBLICO.

Contudo, depois de terem sido reconhecidos, foram rodeados por vários “jotinhas” e dois adultos que, segundo Gonçalves, o “ameaçaram” e começaram a “empurrar”. “Dada a minha condição física – tenho uma doença crónica e 60 por cento de incapacidade de movimento nas pernas – qualquer empurrão é violento”, disse.

O grupo que os rodeou escoltou as quatro pessoas até ao exterior. E foi então que se assistiu a grande discussão e confusão, envolvendo, entre outros, o vereador Carlos Bernardes e o presidente da Câmara de Torres Vedras, Carlos Miguel.

Segundo Gonçalves, foi Carlos Bernardes quem se mostrou mais agressivo, utilizando “linguagem vernacular”, além de lhes chamar “palhaços” e miseráveis”. A tudo isto assistiu o comandante da GNR local – aliás, nunca nenhum almoço da campanha do PS contou com tão grande efectivo de agentes da autoridade.»

http://www.publico.pt/Pol%C3%ADtica/gritos-e-confusao-a-porta-de-almoco-do-ps_1497010

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«O líder do PS estava a falar sobre “o sorriso na boca dos socialistas” e sobre a “luta com alegria e tranquilidade” desta campanha quando um homem, em cima de um banco, começou a gritar “mentiroso, mentiroso”. Sócrates deverá ter ouvido, mas não fez qualquer pausa na sua intervenção.

Mal se deu conta do protesto, um membro da comitiva socialista abordou-o e encaminhou-o para fora do largo. O indivíduo, um cidadão italiano fluente em português, saiu pacificamente. Ao PÚBLICO explicou que mora em Caneças e desconhecia a realização do comício do PS. “Achei que podia vir protestar, mas afinal não”, disse, reproduzindo ainda as palavras do membro da comitiva. “É melhor retirar-se para evitar problemas.”

Poucos minutos depois, num outro local, uma mulher, acompanhada pelo filho, gritou: “E os 150 mil postos de trabalho?”. Um dos jovens da caravana socialista deslocou-se logo para o lugar onde ela estava, utilizando uma grande bandeira como uma cortina para a ocultar. Ao PÚBLICO, Patrícia Quintão, explicou que está desempregada há um ano e é mãe solteira. “Foi-me reduzida a bonificação monoparental. Recebia 43 euros e agora recebo 20 euros”; explicou.

Quando Sócrates terminou a intervenção, Patrícia não estava muito longe do carro do primeiro-ministro demissionário, pelo que o “jotinha” encarregado de abafar o protesto mostrou-se bastante diligente ao acenar vigorosamente a bandeira – assim, Patrícia não poderia sequer ver o líder do PS. »

http://www.publico.pt/Pol%C3%ADtica/bandeiras-do-ps-abafam-protestos-em-canecas_1496979

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Campos de prisioneiros na Coreia do Norte (essa democracia segundo o PCP).

Ao que muitos, demasiados, responderão, como é da praxe que respondam quando alguém alerta para o perigo dos partidos de extrema-esquerda em Portugal: “mas eles não comem criancinhas”. E de facto o artigo não menciona que as comam.

http://edition.cnn.com/2011/WORLD/asiapcf/05/04/north.korea.amnesty/index.html?hpt=T2

«(CNN) — Public executions, death by starvation and torture are common in North Korean political prisoner camps, according to testimony given to human rights group Amnesty International.»

«Amnesty says the facilities occupy vast wilderness sites in the provinces of South Pyongan, South Hamkyung and North Hamkyung and house prisoners accused of criticizing the leadership, those believed to be part of anti-government groups and even those caught listening to South Korean broadcasts.»

«The report says tens of thousands are believed to be held at one camp simply because one of their relatives has been sent to a camp.»

«Tortures included placing a plastic bag over the head of a victim and submerging them in water, sleep deprivation, bamboo slivers under the fingernails, and suspending prisoners whose feet and hands have been bound behind them, witnesses said.

One former inmate told Amnesty how he and his father were forced to witness the public execution of his mother and brother, while a former prison guard detailed how inmates would eat snakes, rats and pig feed. One former inmate told how she had picked, cleaned and eaten corn kernels from cow dung.

Other testimony outlined how children at the camps were given minimal education and were often forced into heavy labor, sometimes working until they collapsed.»

«The report cites testimony from NGOs and refugees that claimed camps covered areas as large as 200 square miles and contained mass graves, barracks, worksites and other prison facilities.»

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