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Archive for the ‘Entertainment’ Category

Algumas citações com nível

"I heard someone tried the monkeys-on-typewriters bit trying for the plays of W. Shakespeare, but all they got was the collected works of «Edições Avante!». "
– Bill Hirst (aperfeiçoado)
 
"Three o’clock is always too late or too early for anything you want to do. "
– Jean-Paul Sartre (1905-1980)
 
"Mr. Wagner has beautiful moments but bad quarters of an hour. "
– Gioacchino Rossini (1792-1868)
 
"Anything that is too stupid to be spoken is sung."
– Voltaire (1694-1778)
 
"I don’t know anything about music. In my line you don’t have to."
– Elvis Presley (1935-1977)
 
"No Sane man will dance."
– Cicero (106-43 B.C.)
 
"Happiness is good health and a bad memory."
– Ingrid Bergman (1917-1982)
 
"Friends may come and go, but enemies accumulate."
– Thomas Jones
 
"Every day I get up and look through the Forbes list of the richest people in America. If I’m not there, I go to work."
– Robert Orben
 
"Plato was a bore."
– Friedrich Nietzsche (1844-1900)
 
"Nietzsche was stupid and abnormal."
– Leo Tolstoy (1828-1910)
 
"I’m not going to get into the ring with Tolstoy."
– Ernest Hemingway (1899-1961)
 
"Hemingway was a jerk."
– Harold Robbins
 
"Nothing is wrong with California that a rise in the ocean level wouldn’t cure."
– Ross MacDonald (1915-1983)
 
"I don’t want to achieve immortality through my work; I want to achieve immortality through not dying."
– Woody Allen (1935-)
 
"Men and nations behave wisely once they have exhausted all the other alternatives."
– Abba Eban (1915-)
 
"More than any other time in history, mankind faces a crossroads. One path leads to despair and utter hopelessness. The other, to total extinction. Let us pray we have the wisdom to choose correctly."
– Woody Allen (1935-)
 
"Why don’t you write books people can read?"
– Nora Joyce to her husband James (1882-1941)
 
"I think there is a world market for maybe five computers."
– Thomas Watson (1874-1956), Chairman of IBM, 1943
 
"We are all in the gutter, but some of us are looking at the stars."
– Oscar Wilde
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O Pescador

(Uma peça de teatro sobre o valor da vida)

 

No cemitério:

– E se dançássemos sobre esta campa para mostrar que estamos vivos?

– Não sei, parece-me errado.

– A mim também. Não posso dizer que não é imoral. Mas também não posso dizer que não é divertido.

– És uma pessoa sensata. De facto deve ser divertido. Nunca tinha visto as coisas por esse ponto de vista. Vamos a isso.

 

Enquanto dançam uma polca sobre uma campa larga, sobre as flores esmagadas e as fotografias estilhaçadas do defunto:

– As pessoas são no fundo uma porcaria. Alguns parecem muito belos, outros muito inteligentes, outros muito poderosos, mas todos mostram a certa altura aquilo que são por dentro: um frágil e malcheiroso puzzle de lixo orgânico.

– E por muito bons que sejam, nenhum pode impedir que lhe dancemos em cima.

 

Calam-se, concentrados nos passos da dança, que têm de ser bem executados. O ritmo aumenta progressivamente. Com um toque casual de calcanhar, a lápide cai por terra. E sem perder o ritmo, já suados, recomeçam:

– Há aí uns tipos que andam a dizer que a alma nunca morre. Experimentem dar um tiro na cara de alguém para ver o que sobra da alma. Provavelmente até se vai antes do corpo. Nunca ouviste falar de morte cerebral?

– Não é assim tão simples. E se alma for, digamos, uma coisa sem manifestações carnais? Nesse caso não sabes nunca se a mataste ou não, porque nunca a viste viva.

– Não tinha pensado nisso. Mas para que serve uma alma sem manifestações carnais?

– Tecnicamente, para nada. Mas, se queres que te diga, já fico contente em provar que os corpos são amontoados de lixo.

– Não se pode ter tudo. Cada um faz o que pode e o resto é só com Deus.

 

Aumentam uma vez mais o ritmo, com batidas de calcanhar tão fortes que racham a tampa. O ruído é quase ensurdecedor, mas de repente cessa. Os dois amigos vêem uma luz sob as fissuras que abriram sob os seus pés e depois um fumo luminoso a erguer-se no ar até formar a figura de um espectro. E o espectro diz, numa voz cava e de assombro:

– O meu nome é Edmundo Gentio de Albuquerque. Fui enterrado neste local com a minha mulher, Maria Rosa de Albuquerque, em 1954, e estou aqui para vos ensinar, que ainda são jovens, o valor que tem a vida.

 

Os dois amigos descem da campa e escutam atentamente o espectro:

– Nasci numa pequena vila de pescadores, no litoral alentejano, onde os barcos partiam todas as noites e voltavam de manhã com o peixe fresco. Mas eu não gostava do peixe, não suportava o cheiro do peixe. Toda a minha infância fui obrigado sob pancada dos meus pais, que eram pescadores, a mexer no peixe que tanto odiava. E também detestava os pescadores, sempre rotos, sempre sujos, gente sem classe nenhuma, e sem gosto, que escolhia camisas de quadrados e quando não saía descalça à rua usava umas botas de borracha que me faziam esconder a cara de vergonha.

 

– »Devo dizer que éramos todos muito pobres. Nem todas as semanas havia comida, e quando havia era peixe, o peixe que não tinha sido vendido, já seco. Eu não suportava essa situação. Quero dizer, não me impressionava a pobreza, que eu vivia bem com a pobreza em si, mas com os pobres não, os pobres davam-me náuseas, todos à minha volta, com aquele cheiro característico dos pobres. Eu não podia viver ali. Por isso, aos 16 anos, decidi partir para Lisboa.

 

– »Lisboa era um lugar decente, cheio de fábricas, onde se trabalhava a sério, com máquinas, como os verdadeiros homens, e com grandes navios. Fiquei deslumbrado. Quis logo ir para operário e trabalhar numa grande linha de montagem, mas infelizmente naqueles tempos um pescador da província não possuía grandes hipóteses. Tinha de competir com gente que era treinada desde pequena, 18 horas por dia, a estar em linhas de montagem, a alimentar fornalhas, a carregar mercadorias, eu, que tudo o que sabia fazer era pescar.

 

– »Dormi duas semanas nas docas, a alimentar-me do peixe podre que era deitado ao lixo ou, por sorte, caía no chão. Era terrível o meu destino, pensei eu, e estava prestes a suicidar-me com uma espinha de bacalhau quando um milagre aconteceu: fui preso. A mendicidade era proibida nesse tempo, segundo me disseram, porque estudos científicos provaram que o tempo livre era um potencial gerador de conspiração contra o estado.

 

– »Na cadeia fui torturado. Pediram-me que contasse tudo o que sabia e como iniciei o meu discurso dizendo que era pescador numa vila distante partiram-me os dentes todos (não era isso que queriam ouvir, advertiram-me eles, sempre muito bem educados). A partir daí não pude dizer mais nada. Dois anos depois deixaram-me sair e obrigaram-me a ter um emprego. Na verdade, foi o próprio estado que me ofereceu esse emprego, orientado pela minha ficha de habilitações: puseram-me a arranjar peixe numa praça enorme onde chegava toneladas de peixe todas as manhãs. Para mim, um inferno vivo. As coisas corriam ainda pior. Pagavam-me em peixe e a minha casa era um cubículo com um colchão colado à praça, junto aos contentores onde despejavam o peixe podre.

 

-»"Pelo menos posso ver daqui as grandes fábricas cheias de máquinas e os guindastes altos, e ir alimentando o meu sonho" – disse eu. Duas horas depois ceguei por causa duma brincadeira estúpida com uma barbatana de peixe-diabo. As coisas continuavam a não correr muito bem.

 

-»Passaram-se 4 anos, mas nunca desisti de lutar para ser promovido a estivador. Aperfeiçoei a minha técnica de preparar o peixe pondo duas rolhas no nariz. Desta forma podia fingir que estava a cortar galinhas, lagartos ou outra coisa qualquer, como rolhas, com a minha imaginação desenvolvida de cego. E esses 4 anos foram os mais felizes da minha vida. Durante todo esse tempo a única coisa negativa que me aconteceu foi ter escorregado numa lampreia e ter partido a coluna contra um frigorífico. Não foi totalmente mau: ainda podia trabalhar e aceitavam-se estivadores de cadeira-de-rodas.

 

Os dois amigos escutam atentamente o espectro, sem desviar o olhar sequer. Um deles coça o nariz. A história é suficientemente interessante para fazerem o sacrifício de estar parados.

– E um dia aconteceu outro milagre, algo que, posso dizê-lo com frontalidade, mudou a minha vida para sempre. Uma moça chamada Maria Rosa, filha de um inventor milionário, apaixonou-se por mim e eu por ela. Foi amor à primeira vista, pelo menos para a vista dela, pode-se pensar, mas a verdade é que o meu ar enigmático e sedutor de cego paralisado com um peixe na mão a conquistou. Propús-lhe casamento e ela aceitou. Estão a seguir-me?

Os dois amigos acenam que sim. Estão muito interessados em ouvir o fim da história.

 

– Pois bem, e casámos, eu e a minha Maria Rosa, agora de Albuquerque. Soube que o pai dela era o maior inventor do mundo, e também cirurgião, e que tinha descoberto a cura para a cegueira e para a paralisia. Homem de grande generosidade, dispôs-se para me curar mas recusei porque tive receio de perder o meu charme. Gostava que Maria me empurrasse pela rua e os olhos sem pupila, segundo diziam, davam-me um não-sei-quê de classe, tanto que cheguei a desejar que os nossos futuros filhos fossem também cegos e paralíticos.

 

-»O pai, bom homem, não ficou aborrecido pela minha recusa: pelo contrário, ofereceu-me um emprego como escravo doméstico que eu não podia recusar. Depois eu e Maria partimos em lua-de-mel num cruzeiro. Toda a minha felicidade estava enfim garantida, pensei, e logo a seguir o barco afundou-se e fomos comidos por tubarões e outras espécies marinhas.

 

-»Esta foi a história da minha existência. Contei-a para vos transmitir o valor da vida – em verdade, a vida foi a única coisa que me manteve vivo e não é desprezável em quaisquer circunstâncias. A vida louva-se entre todas as desgraças porque é isso afinal que interessa: nós estarmos vivos. E eu sei disso porque fui pouco egoísta: pensei numa carreira, pensei na minha esposa, pensei em todas as coisas fúteis do mundo – em suma, aquilo para que devia usar a vida, em vez de a ter como valor mais alto e mais nobre que é. A vida não é uma ferramenta. Não se usa nem para próprio gozo – simplesmente não se usa. Eu sei porque morri e por isso vos aconselho, jovens: não menosprezem a vida. E para isso o procedimento correcto é ficar imóvel como uma pedra, sem movimento, sem vontade, muito quieto. Ser uma estátua erguida à vida – assim é que é. A vida é ser, e ser é uma coisa maravilhosa – preservem-na.

 

-»Perguntaram o que é a alma. É errado fazer perguntas. A mente deve ser mantida igualmente inactiva para que nenhuma ideia pretenda usar a vossa vida para um objectivo diferente de viver.

 

-»Bom, e agora que já vos ensinei tudo, transmitam-no a amigos que tenham, de preferência vivos. Eu vou voltar ao meu repouso.

 

O espectro desfaz-se em fumo outra vez e o fumo entra nas fendas da tampa, que se fecham deixando a noite sozinha, silenciosa e aliviada. Os dois amigos ficam imóveis durante um minuto. Depois sobem para cima da tampa e recomeçam a polca da parte em que a tinham deixado.

 

F I M

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Postal de Natal Patético

Ouvi dizer que era Natal, e pelo sim pelo não quero aproveitar para te desejar um feliz Natal, um bom ano novo (não tenho aqui comigo um calendário, mas parece que é 2006) e também um bom Dia dos Reis, que já agora é a verdadeira data do nascimento de Cristo.

 

Caso não conheças a história, o Natal consta do nascimento de um rapaz num estábulo, filho de um carpinteiro e de uma casta senhora, que 33 anos mais tarde decidiu ser crucificado para salvar a humanidade.

 

E salvou.

 

Em menos de 2000 anos um franciscano inventaria o criativo presépio, um protestante a árvore de Natal que hoje se vende nas melhores lojas chinesas, e a Coca-cola o Pai Natal que hoje se pode ver espalhado como a gripe pelas varandas do país. A invenção da lâmpada e do plástico foram também contributos consideráveis para o desenvolvimento natalício, como podemos ver à noite em muitas janelas quando as conseguimos distinguir de centros comerciais.

 

Mas o que conta não é a história, é o que fazemos dela. Ao contrário do que se pensa, não é a Coca-cola, não é o plástico, a alma do Natal, e sim todos nós, segundo ouvi dizer. Devemos portanto fazer do Natal um acontecimento familiar e celebrar, não essas banalidades de discurso de miss universo de “ter pena dos desfavorecidos”, “contribuir para a humanidade” e não-sei-quê, mas aquilo que nós próprios temos de precioso, nós e os que nos são próximos, da forma mais feliz e mais pura: a nossa.

 

É uma questão de lógica. Se dermos o mesmo a todos, mesmo que seja pouco, o facto de sermos 6 mil milhões não só nos vai deixar pobres e cansados como vai tirar o significado ao acto. Se é tudo igual então nada é especial, e dar ou não dar vai resultar no mesmo, e o Natal acabará por ser tão extraordinário como ficar de baixa.

 

Portanto, nada de nesse discurso do “fazer o bem sem olhar a quem”, que nada tem a ver com a quadra natalícia. Nada de participar nessas campanhas de rua agressivas e deselegantes pela fome e pela doença. É verdade que os sacos do Banco Alimentar são resistentes, mas é preciso não ceder à tentação. É o Natal que está em causa, o Natal da família.

 

Porque não há coisa como um “Natal de todos”. O Natal não é de todos! Há um Natal por família, cada um especial à sua maneira. Como tal espero que teu seja o melhor de todos, a seguir ao meu.

 

FELIZ NATAL!

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A Quinta das Alarvidades

Gosto muito de ver a "Quinta das Celebridades". Vejo praticamente todos os dias, nem que seja um bocadinho.

A princípio pensava que me estava a afundar em estupidez, já que estes programas são como areias movediças: uma vez lá dentro já só é possível afundar. Por isso tentei convencer-me que só acompanhava tamanha aberração televisiva por razões inteligentes. Por exemplo, por interesse sociológico, dado que a Quinta é como um aquário de seres humanos, todos lá metidos sem poder sair e assim potenciando, acelerando, exacerbando as curiosidades próprias das relações entre pessoas, neste caso entre portugueses. Vemos lá dentro o que vemos cá fora, mas vemos melhor, de vários ângulos. Isso pode ser uma coisa inteligente. No entanto, tirando um ou outro geek da área de sociologia, duvido muito que alguém se interesse pelo programa por esta razão que se me gerou no cérebro para equilibrar a saúde mental.

Outra razão é o jogo. Ou seja, avaliar as estratégias por detrás do comportamento de cada jogador e ver como o jogo se desenrola. É uma razão mais plausível, porém tão falsa como a primeira.

O interesse, de facto, é assistir a palhaçadas e zangas, quanto mais mesquinhas melhor. O facto é que se se tivesse de escolher um vencedor nem seria possível determinar critérios objectivos, porque o vencedor não é o que lava mais pratos, o que faz mais cenas ridículas, o mais humilde, o mais alegre, o mais trabalhador, o mais sábio, o mais carismático, o mais belo, o mais "fashion" ou o que lava os pés mais vezes. É, apenas, aquele que nunca foi expulso. As razões para isso são desconhecidas. É simplesmente, diria já, o mais popular ou o menos odiado entre o público – que vota através de um sistema de SMS. Pode haver vários votos da mesma pessoa, ou um voto que represente a vontade de várias pessoas, ou votos enganados, que vai dar ao mesmo. Talvez por isso nem se possa dizer que ganha o mais popular. Ganha aquele com maior número de apoiantes dispostos a gastar 60 cêntimos por mensagem. A verdade é que é mais fácil perceber quem ganha num jogo de berlinde entre crianças de 6 anos. A TVI nem divulga os números, apenas as percentagens, para não sofrer acusações.

Mas isso para o português é um detalhe irrelevante. Primeiro, porque em Portugal tudo funciona mais ou menos com o mesmo grau de objectividade e transparência. Segundo, porque o interesse deste programa são as palhaçadas e as zangas.

Pois bem, na qualidade de espectador queria agora emanar a minha importante opinião sobre os finalistas. Começo pelo Tino. Eu via o Tino nas Noites Marcianas, essa coisa televisiva, e gostava do seu estilo humilde, inteligente, dedicado e leal. O Tino é o beirão porreiro que nunca conhecemos. Um gajo fiche. Uma espécie em vias de extinção, como disse o Câmara. Na Quinta continua a ser, aparentemente, esse mesmo gajo fiche, ainda que num ambiente complicado, já que pouca compatibilidade possui com os outros hóspedes. Estava a apostar no Tino para ganhar o concurso. Infelizmente, um dia revelou que era comunista e até tentou impedir que se gozasse com o Jerónimo de Sousa. Essa atitude fê-lo desabar do Olimpo dos porreiros para a lama dos reles. Até pode ser boa pessoa, mas o papel de um comunista não é ganhar concursos, é ser expulso para a Coreia do Norte. Assim sendo, não voto no Tino. Tino, se me estás a ler, gostaria mesmo de acrescentar, no sentido mais construtivo: vai para o cu que te pariu.

Gonçalo da Câmara Pereira. Entre alentejano, político e fadista, só tem uma virtude: é monárquico. Mas tem um piadão. É daquelas pessoas que se diz: "apesar da idade tem um piadão". Não é bem piada, é graça. Gracinha, vá. Como na tropa. O alentejano tem um piadão tão grande como as praxes do exército. Faz partidas. Tem espírito jovial e levanta-se cedo. Percebe de animais. Parece um tipo porreiro até acordar os outros a bater tampas de lixo. É de um estilo que pode agradar a muita gente, mas não a mim. Quem age assim não tem respeito e é chato. É de afastar. Arreda, chato. Há muitos Câmaras no país, demasiados. São aqueles adultos que se comportam com a imaturidade de um miúdo de 15 anos. Se o Tino pertence a uma espécie em extinção, o Câmara pertence a uma espécie em abundância – a abater em nome da evolução. O Câmara tem muito jeito com animais porque é um deles. No momento em que escrevo isto o Câmara já não é finalista por um singular sinal de lucidez: o homem fugiu. Viu que, por ser nomeado pelo público, tinha poucas probabilidades de recuperar e foi-se embora, praticando uma manobra muito usada, curiosamente, por republicanos: a fuga para a frente.

Miguel Melo, o batanete. Nunca vi "Os Batanetes", mas aposto que é mais uma daquelas misérias televisivas para patetas em que patetas fazem de patetas e regorgitam textos patetas escritos por patetas. Mas o batanete não é pateta. É um tipo, como se diz… é um tipo "que se orienta". É daquelas pessoas que por ter "passado por muita merda" despreza a opinião alheia. Nada o surpreende porque já viu tudo, ou acredita que viu. Dos que julgam que a sabedoria e a moral são directamente proporcionais às infelicidades da vida. Segue a máxima: "sou triste, logo sei". O batanete é um tipo cool com o estatuto de palhaço, um estatuto bastante elevado na sociedade portuguesa. O homem faz rir. É uma ilha de riso no mar de desgraça português. Por isso é importante para crianças e velhinhos. Crianças e velhinhos que cada vez mais começam a usar telemóveis e dedicar o seu tempo livre ao envio de mensagens SMS para programas de televisão. O batanete é por isso um sério candidato à vitória. Mas a minha opinião é diferente. Correndo o risco de ser acusado de elitismo pela audiência da Praça da Alegria, afirmo que o lugar deste senhor é na Rua Augusta, no circo ou no telejornal da TVI.

Rute Marques, aka B.B. [LIZA2005]. Ó, parecia diferente, a Rute Marques, quando apresentava aquela alarvidade do Olhó Vídeo ou algo do género, em que parecia uma doida com cio. Mas na Quinta parece sensata. Como ninguém consegue fingir 24 horas por dia, a não ser que seja esquizofrénico, diria que é mesmo sensata. Ou esquizofrénica. Ela reflete os gostos e os desgostos do público, que por isso gosta dela. Lá dentro define bem as suas fronteiras: nem entra muito na liberdade alheia nem se deixa ser invadida. É uma estratégia arriscada, dado que o público prefere a peixeirada à sensatez, mas tem sido bem sucedida. Ela e o palhaço constituiram uma dupla de sucesso, até agora imbatível. Talvez votasse nela se me apontassem uma semi-automática à cabeça e me obrigassem a escolher alguém, mas fico a pensar… Será que alguém merece ganhar uns milhares de euros só por ser sensato, ou seja, por uma pre-condição para a vida em sociedade? Era como dar um prémio a alguém por ter o olho do cu. Não seria justo pedir algo mais, como um talento?

Por último, a criatura que figura como subtítulo da grande obra de John Carpenter, "The Thing – Veio do Outro Mundo": João Chaves. Basta observá-lo cinco minutos para surgir naturalmente a pergunta: "mas de onde é que isto saiu?". De facto, João Chaves parece ter emergido de um buraco – num planeta distante. É de facto árduo de descrever com conceitos terrestres. Está para além do patético. Pelos movimentos que intenta executar dir-se-ia que está convencido de ser um modelo numa passerele de Milão, mas fisicamente é mais parecido com os seus cães (que parecem salsichas de churrasco com pernas, mais ou menos a versão horizontal e silenciosa de um colega meu). Julga-se belo e comporta-se de acordo com as suas ilusões. Belo, educado e evoluído. Em suma, um ser superior. João Chaves comporta-se como um super-homem sobre um pedestal, e é nessa qualidade que pedantemente fala aos que estão próximos. Choca-se com os comportamentos alheios como um nobre de Windsor numa selva africana. Acredita ter um espírito cheio de luz e de poder, capaz de ressuscitar pintaínhos, porque manuseia a Cabala. Se quisesse era capaz de pôr as vassouras a varrer sozinhas como naquela história da Disney. Mas ainda não quis. João Chaves prefere o queixume ao trabalho. Queixa-se das moscas, do calor e do mau cheiro como se jamais tivesse tido contacto com tais incómodos. Porém estas dificuldades não afastam este mestre cabalístico da sua obra fundamental: a crítica sem razão pura. João Chaves é desde que entrou o maior incendiário de discussões e situações aborrecidas. Como poderei eu, que tão pouco sei da mística hebraica, descrever este personagem, esta autêntica besta sem nexo, este buraco negro com estrume à volta, este, como dizer cabalisticamente, rabeta do caralho? A sua capacidade de viver em sociedade é óptima desde que essa sociedade não ultrapasse ele próprio e os dois cães. É chato, daquelas pessoas que não se suporta durante mais de duas frases. É surreal, tão surreal que parece uma caricatura queirosiana e levanta a questão de ter sido inventado pela TVI para agitar a Quinta. A sua vitória seria não só a prova de que Deus existe como também a de que Deus é gay, irritante, pedante, protervo, ridículo, incapaz de se relacionar com a realidade e com a forma de uma salsicha desenvolvida.

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