Feeds:
Artigos
Comentários

Archive for Fevereiro, 2012

Malaca Casteleiro, “pai do acordo”,  para além de ser responsável pela versão “portuguesa” do surrealista dicionário brasileiro Houaiss e coordenador do sinistro dicionário da Academia das Ciências de Lisboa (o tal em que “eau-de-toilete”, só com um ‘t’, é considerada uma palavra portuguesa, tal como “stafe”, “icebergue”, “bué”, “cretcheu” e “guterrismo”…), também é… indiano.

Não tenho nada contra os indianos, nem contra os estrangeiros em geral, e participo dessa mentalidade de intercâmbio positivo do mundo civilizado. Mas as nações existem, como o respectivo património cultural, e todos gostamos que seja assim. Creio que ninguém ignora que existem fronteiras, e que ninguém quer que deixem de existir pelo menos a nível da sua cultura.

Um estrangeiro não pode ocupar qualquer função, em qualquer país. Não se admite um presidente estrangeiro, por exemplo, por razões óbvias. E por razões ainda mais óbvias não se devia permitir que decisões que afectam a língua de um país, património de muitas gerações, estivessem nas mãos de um estrangeiro. Muito menos um estrangeiro muito criticado pela comunidade científica e cuja obra revela desprezo pela língua que tem dificuldade em falar.

Alguém devia explicar que a Língua Portuguesa não é um argumento de Bollywood e que não suporta que se misture tudo lá dentro como acontece nos filmes indianos. Misturar tudo não é o que os portugueses querem e os portugueses é que são donos da sua língua – não os brasileiros e os indianos. Os portugueses é que a usam diariamente para trabalhar, comunicar, fabricar arte – o que é que um estrangeiro percebe disto? Melhor questão ainda: porque é que um estrangeiro terá de perceber alguma coisa disto? E por que apagão mental é que o seu voto terá maior peso na alteração da ortografia do que os de todos os portugueses?

Como é que a Índia, ou o Brasil, reagiriam se os seus políticos confiassem num português para decidir sobre a sua ortografia, contra os seus especialistas e contra o seu povo? É uma pergunta absurda – ninguém de bom senso pondera essa possibilidade. O único país em que algo como isto podia acontecer chama-se Portugal. E se é verdade que aconteceu na maldita “era Sócrates”, uma das mais desgraçadas e anti-patriotas da História, também é verdade que Cavaco Silva deixou que o Atentado entrasse em vigor e que os outros partidos não se opuseram. A culpa desta vez não é sobretudo do PS, é da classe política em geral, uma classe desprovida de vértebras, sem memória, sem amor pela cultura, sempre provinciana, sempre fascinada pelo gigante estrangeiro e encolhida diante dele. Uma classe que não merece ter nascido num país como Portugal… e que Portugal não merece que tivesse nascido.

Há sinais recentes, porém, muito positivos. Talvez tardios, talvez não, mas muito positivamente a alertar para a imbecilidade imposta deste acordo que não é acordo nenhum posto em vigor não só antes de todos os países da lusofonia o ratificarem como à margem de qualquer referendo e contra a maioria dos especialistas. Vasco Graça Moura, um dos poucos que sempre o denunciou publicamente, e na Assembleia, e tem feito quanto lhe é possível pela Língua Portuguesa, ordenou que o AO1990 não se aplicasse no Centro Cultural de Belém. É certo que não pode impedir que ele se aplique nos media, nas escolas, em todo o país, mas colocou o acordo no último sítio que os seus defensores desejariam: no debate público.

http://aeiou.expresso.pt/vasco-graca-moura-acaba-com-acordo-ortografico-no-ccb=f702768

Obrigado V. Graça Moura. Mas também os deputados do PSD Açores levantaram recentemente perguntas ao Governo sobre a utilidade deste AO, defendendo que entrada em vigor do foi apressada e pedindo mesmo a suspensão da coisa. Uma maneira politicamente correcta de mostrar que os Açores não querem engolir o estrume que nos estão a enfiar, a todos, pela boca abaixo.

http://ilcao.cedilha.net/?tag=mota-amaral

Somam-se também notícias e artigos nos blogs de gente comum, invisível, como eu, que lutam para que os filhos não aprendam a escrever nesse estranho e burlesco “acordês” (língua que no futuro será descrita como “variante do brasileiro”). Que lutam, se quisermos, pela liberdade de preservar o seu património contra a imposição estúpida, alheia à cultura e ao bom senso, de uma ortografia estrangeira. E iniciativas como esta: http://ilcao.cedilha.net/ .

Anúncios

Read Full Post »