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Archive for Julho, 2011

O Banquete

– Limitados e mesquinhos, eis como somos. Se eu fosse fazer um retrato exacto sobre o ser humano que representasse toda a sua essência e esplendor, onde condensasse a sua argúcia e os céus de ouro da sua criação, a sabedoria bebida das estrelas, a coragem edificadora de impérios, e ainda todas as metas que quebrará quando, daqui a milhares de milhões de anos, atingir o cume da sua evolução… [gestos arqueados no espaço com ambos os braços, como tentando impedir sem sucesso a subida de uma monumental bola de sabão] …se eu fosse fazer esse retrato, em que já depositei muitas horas de actividade mental, sabeis que tamanho teria de ter? [Junta a cabeça do polegar à base da unha do indicador] Isto. E já contando com a moldura.

– Akakios, todos te ouvimos com deleite, julgo eu, mas não foi para isso que combinámos este banquete. O que foi, Diodotus, queres dirigir-te à mesa?

– Assim desejo Hermógenes. Apesar de não ser a razão principal desta reunião considero lúdico e interessante o tema levantado por Akakios. Creio que teremos uma boa entrada para esta refeição se o soubermos usar em nosso proveito.

– Ainda não falei e tenho de o fazer, desculpem arrancar-vos de modo tão bárbaro a palavra. Diodotus, tu não me conheces mas conheces o meu pai, Artemidoros de Siracusa. Sabes bem até que fronteira estica o antropocentrismo. Para ele até os astros existem por nossa causa, um deles para nos dar vida e os outros para nos aliviar tornando menos monótono o céu nocturno. E sabes como o seu temperamento impetuoso reagiria ao ouvir as palavras de Akakios, se aqui estivesse.

– Kalistrato, filho de Artemidoros de Siracusa, não é apenas pela presença, mas também pela fama, que te conheço. Diz-nos então como reagiria o teu pai a tais palavras antes de acendermos a lenha da discussão.

– Diodotus, sabes bem como ele reagiria: com a mão direita cumprimentaria Akakios, louvando o seu belo argumento, mas com a esquerda ergueria o seu hoplon e, num golpe circular, surpreendê-lo-ia destroçando-lhe a mandíbula. Isto porque estamos num jantar, porque dessa forma Akakios jamais comeria novamente. O meu pai tem um humor muito próprio.

– Muito próprio, sim… Mas pouco amigo da liberdade.

– Respondo-te, velho Simonides, com palavras do meu pai: “a vida sem liberdade é como um anti-humanista com mandíbula”. Esse grande homem, que nunca me cansarei de louvar, nada mais defende do que a liberdade.

– Muito bem, Kalistrato, mostras que és um fiel e competente embaixador da sabedoria de Artemidoros. Por isso, penso que falo por todos, e porque perguntamos que doce fruto terá amadurecido de tão prolífera árvore, gostaríamos que abrisses o debate, não com o escudo do teu pai, mas com as tuas próprias ideias. Se Akakios não está certo diz-nos, Kalistrato, porquê.

[Todos fixam o olhar em Kalistrato]

– Tenho de vos dar, antes do argumento, uma explicação. Possuo uma filosofia muito própria, desenvolvida por mim em segredo ao longo de muitos anos: a equifilosofia. É esta, e não outra, que rege todos os meus pensamentos e acções. Em resumo consiste em copiar a filosofia de outro e tomá-la como minha, neste caso a do meu pai. [Dizendo isto Kalistrato ergue o vaso do vinho sobre a cabeça e arremessa-o contra os dentes de Akakios, que tomba sem sentidos. Ficam os restantes a meditar sobre o facto]

– Amigo Kalistrato, a tua filosofia mais se assemelha a um desporto como o lançamento do dardo; também ela é exigente em vigor e pontaria e escassa em inteligência e temperança. É a verdade o maxilar de Akakios? Chega longe, mas não à verdade. Não chega sequer à boa educação elitista de que todos aqui nos orgulhamos. Todos menos tu, Kalistrato, semelhante ao teu pai até no irado torpor a que chamas pensamento. E para completar uma crítica justa tenho ainda de apontar a maior falha na tua equifilosofia: não foi um escudo, mas um vaso de vinho, que usaste para quebrar o maxilar do inimigo do humanismo; arremessaste o projéctil logo que pudeste em vez de criar, por manha, a surpresa; e fizeste-o por uma filosofia que não é o humanismo e sim uma imitação. E falhando tudo isto a tua equifilosofia revelou-se mal preparada, incoerente e absurda.

– Vês bem, velho Simonides, mas não o essencial. Esses inchaços doentes que giram nas tuas órbitas enganam-te com o acessório. Já que me forçam a ter a palavra, exponho a minha ideia: a filosofia não consiste nos meios, somente nos fins. Quando os aqueus conquistaram Tróia, alguém arrancou cabelos a debater se o engodo se parecia mais com um cavalo, um burro ou uma égua? Pouco interessa o que arremessei e como o fiz; o que importa verdadeiramente é que um comensal inimigo do humanismo deixou de poder articular o maxilar.

– Permitam-me, todos, que responda. Kalistrato, aquilo a que tu chamas “filosofia” o resto da humanidade chama “interesse”. A filosofia pressupõe um tipo específico de interesse, que é o interesse pela verdade, e mais nenhum. Abater inimigos de uma ideia não é filosofia, é obstinação. Mais ainda neste caso, em que a ideia vale poucas palavras, pois nada nos tolhe mais o raciocínio e a visão do que o auto-convencimento de que sabemos algo. Com que fundamento se coloca o Homem no centro do universo? Apenas com o fundamento de ser um homem vaidoso a dar a ideia. Com que interesse se coloca o humano no topo da importância de tudo? Somente pelo da própria vaidade.

– Confundes,  Agamedes, vaidade com razão. O meu pai, além de imenso na filosofia, era também um profundo matemático e os seus cálculos provaram que o centro do universo se encontrava num dos seus pés. Morreu antes de concluir se era no esquerdo ou no direito, mas aqui, diante desta migalha de ouro da grandiosa obra do meu pai, podeis atestar quão frágeis são os vossos argumentos e inúteis as vossas diligências mentais. Porque a vossa filosofia tão facilmente contraria a matemática como um anão rabdomiolítico ergue o Monte Olimpo.

(…)

[O diálogo continua no livro “Diálogos Imbecis”]

 

 

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