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Archive for Abril, 2011

O Programa Eleitoral do PS

O PS apresentou o seu programa eleitoral, uma vez mais cheio das coisas boas a que já nos habituou no papel. E a questão é: serão estes socialistas capazes de fazer cumprir o seu programa? A resposta é óbvia, tão trivial como deduzir a inanimidade de um rochedo. Mas posso estar errado – sou geralmente acusado de críticas desequilibradas à esquerda, principalmente ao PS. Talvez seja o meu ódio ao PS a falar. Talvez o rochedo tenha lá dentro a obra-prima que falta esculpir. Foi neste pensamento, embalado pela piada fácil que nasce do benefício da dúvida, que fui ler o anterior programa do PS, feito em 2009 e a pensar num governo até 2013. E constatei o meu erro.

Abre assim:

«As escolhas políticas essenciais colocadas aos portugueses são, pois, muito claras: entre um programa de iniciativas para vencer a crise tão depressa quanto possível ou cruzar os braços e ficar simplesmente à espera que a crise passe; entre prosseguir a modernização do País para preparar o futuro ou, ao invés, parar tudo e andar para trás; e entre reforçar as políticas sociais e o Estado Social ou fazê-lo recuar para a condição de Estado mínimo.»

Dois anos depois se entende que não se pode, senão por má-fé, acusar o PS de não ter cumprido o seu programa. Muita gente leu mal este parágrafo, assumindo que o PS defendia um programa de iniciativas para vencer a crise, prosseguir a modernização do país e reforçar as políticas sociais. Pois bem, hoje é claro que o que o PS defendia era cruzar os braços, parar tudo, andar para trás e recuar para a condição de Estado mínimo. O que, na íntegra, cumpriu!

Responder-me-ão alguns, mais bem informados, que a seguir isto está escrito:

«A nossa resposta é clara: parar, adiar, suspender, rasgar – não pode ser esse o caminho.»

Mais uma vez entenderam mal. O PS referia-se simplesmente à ordem destas medidas, que como se viu foi adiar, suspender, parar, rasgar: suspender a justiça, adiar a verdade, parar o país e só por fim rasgar a confiança dos credores.

Passemos ao mais forte trunfo socialista apresentado em campanha: a atitude:

«A mensagem que o PS dirige aos portugueses através deste Programa é, fundamentalmente, uma mensagem de espe­rança. Uma esperança que se fundamenta no progresso que o País já fez e que assenta numa confiança profunda nas capacidades de Portugal e dos portugueses.

(…)

Outros insistem em falar aos portugueses a linguagem do pessimismo e da descrença – mas do pessimismo e da des­crença jamais nascerá um programa político bom para o futuro dos portugueses.»

Tem a oposição, agora, a ousadia de afirmar que o optimismo, quando aplicado a universos paralelos, não resulta. A isto chama-se falta de fé. Deus escreve certo por linhas tortas. Estarei a exagerar ao vincular o programa do PS à vontade divina? Pensei que sim e descobri que não. Vejamos o que diz o embaixador dos Céus, essa igreja tão espiritualmente próxima do PS que se chama Igreja Universal do Reino de Deus (IURD):

«Se analisarmos a situação económica que enfrentamos, muitos de nós ficaríamos surpresos ao constatar que grande parte dos problemas começam connosco? Como? Simples, porque antes que qualquer coisa aconteça, o ser humano tem a tendência de visualizá-lo antes.

É assim que sucede, o pessimismo dá origem a tudo o que é mau e o optimismo, a esperança ou a fé, dão origem à coragem necessária para vencer e ao subsequente sucesso.

E tudo começa desta forma, pois tanto um estado de espírito como outro plantam as ferramentas para o sucesso ou para o fracasso.»

(em http://iurd.pt/vencer-o-eu/ )

 

Aí está. Tão próxima é a mensagem que levaria a crer que o programa do PS foi, em 2009, baseado em princípios da IURD. Ora isso não indica que, como a Bíblia, possui o cunho do Senhor e o peso dos Profetas?

Dirão que falhou alarvemente, que o défice astronómico de 2009 e 2010 é a prova disso, e a necessidade de ajuda externa pela iminência de bancarrota, que os portadores da Palavra eram afinal anões mentais, escravos do partido, rancorosos, arrogantes, cobertos pela suja lama da desonestidade e da mentira, não olhando a meios para se manter no poder. Falsos profetas! Bom, assim dizem, e está de acordo com os factos, mas dizem-no em 2011 e o programa valia até 2013. É preciso dar tempo ao optimismo para que funcione! Também Cristo foi acusado de ser um falso profeta, e desprezado durante mais de 3 séculos até se tornar o messias para mil e novecentos milhões de pessoas. Para o PS bastariam apenas mais dois anos para que surdisse do esgoto público o seu rio de esperança, fluindo puro sobre o leito do optimismo e desaguando também numa salvação. E quantas vezes o PS pediu a fé dos portugueses, da oposição, dos parceiros sociais!

Em vão. Hoje o país sofre, não de uma crise política e financeira, mas de uma ausência de fé. Quão errados estão os que medem o défice do país em euros! Quando a peste negra alastrou pela Europa também os padres deram avisos: o mal não era a doença mas a sua origem, que era a falta de fé. É regra universal que a heresia para com os valores mais sagrados faz chover desgraças do Reino Celeste. Assim tem avisado também, insistentemente, o Partido Socialista: ou nós ou o FMI, ou nós ou o perigo e a calamidade. E pelas sondagens parece que só um terço do país ouve os apelos, só um terço tem patriotismo e fervor para olhar além do horizonte, para ser temente ao governo!

Tal como o bom cristão sabe que tem, como Job, de aguentar tudo, todas as intempéries, todos os horrores e provações, em nome de uma vida além da vida, o bom socialista sabe que tem de aguentar o PS em nome da utopia.

«Redução da pobreza e redução das desigualdades – eis o principal resultado das políticas sociais do Governo do PS, em fidelidade ao seu programa e àqueles que são os valores de sempre do Partido Socialista.»

Outra verdade insofismável. A pobreza é uma coisa relativa: só temos menos se outros tiverem mais. A quantidade de gente atirada da classe média para a classe pobre é uma conquista do PS na redução das desigualdades e também na redução da pobreza. No dia em que todos forem pobres ninguém será, de facto, pobre a não ser que se compare com o vizinho espanhol ou marroquino. Para essa glória ser conquistada basta somente o PS continuar a vencer eleições.

«O Governo do PS nunca escolheu o caminho da resignação, antes se empenhou em ajudar o País a vencer a crise e procu­rou sempre estar próximo das famílias e das empresas, sobretudo as pequenas e médias empresas.»

Certíssimo. Ninguém pode dizer que este governo, através de impostos, de cortes e da máquina fiscal, foi dos que mais se aproximou das famílias e das empresas – principalmente das pequenas e médias.

« Sabemos que os portugueses não querem apenas protestar contra a crise – querem sair dela. E para isso podem conti­nuar a contar com a determinação, o projecto e o trabalho sério do Partido Socialista.»

Promessa cumprida. Toda a determinação, projecto e trabalho sério deste governo nos últimos dois anos foi, sem dúvida, colocar o país nas condições de receber ajuda externa e trazer o povo às urnas, se possível na mesma altura, para assim sair da crise.

« Justiça mais simples e desburocratizada

A simplificação e a desburocratização são, em si, um objectivo a prosseguir incessantemente em todas as áreas das po­líticas públicas. No caso da Justiça, têm uma repercussão significativa no aumento da celeridade da decisão judicial, mas também na redução de custos, na promoção do acesso e na melhoria da própria qualidade da decisão.»

Inegável. Veja-se como exemplo a redução de custos conseguida no caso PT-TVI com a arquivação imediata do processo por parte do Procurador-Geral da República. E a celeridade no caso Freeport, interrompido a meio pelo mesmo responsável. Com o PS a Justiça tornou-se de facto mais simples, mais rápida e mais barata.

« O PS dará sequência ao processo de adaptação do sector ao novo contexto tecnológico e empresarial, procedendo:

• À aprovação de regras sobre a transparência, não concentração e pluralismo dos meios de comunicação social;»

Quem ousará rebater que o PS, através da Portugal Telecom, tentou regrar diversos meios de comunicação social, desde a TVI aos grupos Cofina e Impresa, de forma a alterar-lhes a transparência, a não concentração de temas contra Sócrates e o pluralismo de outros temas?

«Portugal deve bater-se por uma ordem internacional que valorize o multilateralismo como mecanismo central para o relacionamento e para a resolução dos conflitos entre Estados e como via para a solução dos principais problemas mun­diais.»

E o governo PS assim fez, alargando o multilateralismo a países conhecidos pela sua facilidade de relacionamento e de resolução de conflitos, como a Venezuela e a Líbia.

E por fim:

« O Governo privilegiará, como decorre do programa da Presidência Portuguesa da CPLP, a promoção e difusão da Língua portuguesa no Mundo»

Será possível desmentir os esforços eficazes que o governo PS fez neste sentido ao aprovar o acordo ortográfico? Ao fazê-lo passou a chamar língua portuguesa à língua brasileira – aumentando automaticamente o número de falantes para 190 milhões.

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Judite de Sousa

Judite de Sousa tem uma longa carreira na televisão, com fases de destacada popularidade. Apresentou o “Grande Informação”, com Mário Soares, a “Grande Entrevista”, “Notas Soltas” com António Vitorino, enfim, tornou-se normal ver as mais incontornáveis figuras da nossa praça em frente a Judite de Sousa. Jorge Sampaio concedeu-lhe a Ordem do Mérito. Actualmente mudou-se para a TVI, integrando a direcção de informação e começando um programa de entrevistas em prime time onde já foram Paulo Portas, Passos Coelho, vários presidentes de bancos nacionais e Teixeira dos Santos, com um nível de audiências considerável.

Em todos estes anos, e em todos estes pontos altos, só se pode apontar um problema a Judite de Sousa: não saber fazer uma entrevista. Sofre de incontinência verbal e metralha perguntas em vez de entrevistar. Em vez de esperar pelas respostas fuzila o convidado com mais perguntas. Se o entrevistado protesta replica que o tempo é escasso e força novas perguntas. E o espectador, em vez de terminar esclarecido, desorienta-se num espectáculo bárbaro, perdido entre estilhaços de raciocínios interrompidos, explicações incompletas, gaguejos, protestos, sobreposições de voz, imposições de perguntas e disputas de protagonismo.

Para Judite de Sousa o tempo de resposta máximo aceitável ronda os 5 segundos – menos do que é concedido a um concorrente do “Quem Quer Ser Milionário Alta Pressão”. Um interrogatório da polícia é mais civilizado, uma discussão de café mais esclarecedora. O seu conceito de entrevista é mais ou menos o do caçador que monta armadilhas e depois atormenta as presas para que caiam nelas rapidamente. O único objectivo parece ser ir lançando perguntas para o chão até o entrevistado, desorientado, escorregar numa delas e assim garantir o “caso do dia” para o dia seguinte, essa notícia bombástica, caseira, preciosa, que constitui a ração de sobrevivência do jornalismo nacional, que é um jornalismo de aldeia, de intriga doméstica, de pequeno escândalo.

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O Estado da Esquerda

Portugal tem a pior dívida pública dos últimos 160 anos, a rondar os 100% do PIB; a dívida externa bruta passou de menos de 40% do PIB em 1995 para 230% do PIB em 2011; as dívidas das empresas equivalem a 150% do PIB; a taxa de desemprego é a pior dos últimos 90 anos, passando os 11%; na última década teve o pior crescimento económico dos últimos 90 anos. Portugal é hoje um dos 10 países mais endividados do mundo.

O Estado entrará oficialmente em bancarrota em Junho se não acontecer uma injecção de capital no país. Várias empresas de transportes já avisaram não poder, em breve, pagar salários. A maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, pediu aos utentes que contribuissem com os bens que já não consegue comprar. Os bancos exigiram a ajuda externa. Surgiu o boato de que as próprias Forças Armadas podem ter problemas financeiros.

Pedida a ajuda externa, FMI, Comissão Europeia e Banco Central Europeu encontram-se em Portugal a analisar os números e a negociar o pacote de ajuda com o governo e os partidos da oposição. É este o estado do país, fraco e miserável, pela terceira vez a precisar do FMI para sobreviver.

Vejamos agora o estado da esquerda.

Os partidos comunistas, PCP, BE e os Verdes (que são mais uma verruga do PCP do que um partido, para dizer a verdade), negam-se a negociar. Seja qual for a solução, para eles só existe uma maneira pública e outra velada para resolver a crise: a primeira é, pelo que dizem, renegociar a dívida, sair do Euro. Como Portugal já não tem qualquer peso internacional deduz-se que defendem também a bancarrota. A segunda, a verdadeira, ainda mais estúpida que a primeira, é a revolução e o caos que a permita, um novo PREC e uma ditadura comunista. E com estes argumentos cruzam os braços e negam-se a todas as responsabilidades, chumbando a ajuda externa da mesma forma que chumbaram todos os orçamentos de estado até hoje, fingindo estar à margem do sistema em vez de assumir as responsabilidades de ocupar um quinto da Assembleia. O PCP é notoriamente patético quando pratica este exercício de auto-marginalização para poder culpar os outros por tudo – o mesmo PCP que em 1975, em poucos meses, estoirou o país de tal forma que foi necessário recorrer ao FMI três anos depois.

O PS, já pedida a ajuda externa, engendrou um congresso em que não tocou nos problemas nacionais senão na tentativa de manchar a imagem de um ou outro adversário político, isto é, como estratégia eleitoral. A crise foi encarada assim: como estratégia. E o partido festejou, celebrou o seu amado líder, auto-motivou-se para as eleições num júbilo aterrador para quem olha para os números do país. Nos dias seguintes, já com os responsáveis da ajuda externa em Portugal, membros do governo e da bancada do PS convocam conferências de imprensa. Para fazer comunicados relevantes à urgente situação nacional? Não – para comentar que o líder do PSD recebeu de Sócrates a mensagem sobre o “PEC IV” pessoalmente e não por telefone (a mesma mensagem) e para comentar o facto do cabeça de lista por Lisboa do PSD não ter sido convidado previamente pelo PS (quem fez esta conferência foi Vieira da Silva, ministro da economia); em suma, pensando muito nas eleições e nada no país, como se nada de grave se passasse. O governo envia ainda para as reuniões com o FMI, não o ministro das finanças, mas o ministro da presidência, Pedro Silva “Babyface” Pereira, que percebe tanto da pasta das finanças como Hugo Chavez sobre o planeta Marte.

Se Guterres transformou Portugal num pântano, Sócrates fez o favor de o encher de lixo radioactivo. E numa pequena ilha lá no meio, cada vez mais pequena, o seu partido rejubila, alheio à realidade, elogia o líder, congratula-se a si mesmo, festeja as sondagens, desmente acusações, culpa a oposição, cria bodes expiatórios, lança desinformação e faz conferências de imprensa. Ao lado outra ilha, ainda mais pequena, luta para impedir qualquer tipo de solução que alguém possa ousar tentar. Eis o Estado da Esquerda.

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Este post mostra como um jornalista da Al-Jazeera se sente mais incomodado com as mentiras de Sócrates do que 30% dos portugueses:

«I feel cheated. Big time. And by the leader of a Western European nation no less!

A few months ago, Jose Socrates, the prime minister of Portugal, was in Doha and made an appearance on Al Jazeera’s business programme Counting the Cost, which is fronted by yours truly.

Obviously I wanted to talk about Portugal’s precarious debt situation, and all the talk from markets and analysts that the country’s visit to the EU and IMF for a financial bailout was a foregone conclusion.

There’s a link to that specific programme and interview here.

Watch it, if you’ve got 10-15 minutes spare, and tell me if you think Mr Socrates was being genuine when he told me “we don’t need any kind of help but confidence”. And when he assured me that a financial bailout wouldn’t be necessary.

Because two weeks ago he was forced out as prime minister. Predictably so, I have to say, because garnering support for more austerity measures was always going to be politically difficult. 

But now, in what’s amounting to a parting shot, he’s ended up going to the EU and IMF for the very bailout which he told me he didn’t need!

Now I’m trying to figure out, Mr Socrates… (if you’re reading this)… did you lie to me, or did you just not know how bad the situation really was? 

Did you deceive, or were you delusional? Or were you just putting a brave face for the TV cameras?»

http://blogs.aljazeera.net/business/2011/04/07/prime-minister-did-you-lie-me

E nem sabes a metade, afortunado jornalista de um país longínquo…

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Conclusões breves do congresso:

– O PS arroja-se aos pés de Sócrates (ou “Zé”), pratica o culto do líder típico de ditaduras de terceiro mundo.

– Enquanto o país se afunda, necessitado de ajuda internacional, o teatro socialista rejubila e autocongratula-se por… sobreviver.

– Vitorino pareceu um cão a ladrar sob o efeito de LSD.

– O partido insiste na estratégia da estupidez e da mentira. Meia-dúzia de linhas de argumentação sem relação com a verdade foram repetidas ad nauseam – coincidência ou não, a mesma estratégia que usa para governar. 

– Ana Gomes parecia a minha porteira nos anos 80.

– Por fim uma coisa boa para equilibrar as críticas – António Costa disse uma verdade involuntária: “quem não sabe ser responsável na oposição, não vai aprender a ser responsável quando é governo”. É uma verdade que atinge, em cheio, o próprio PS desde a sua fundação.

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Foi achado o diário de Teixeira dos Santos. Este é um excerto verídico:

«Março de 2008 – A crise acabou, como já disse antes. Saímos intocáveis. Pertenço ao melhor governo de Portugal e o Primeiro comunicou-me por SMS que sou o melhor ministro das finanças de sempre. Decidiu baixar o IVA em Julho dada a condição próspera do nosso país.»

«Outubro de 2008 – Planeei 2009 com o Primeiro. Ele disse-me que o défice de 2009 será de 2.2% do PIB e portanto podemos aumentar a função pública acima da inflacção, 2.9% . É um homem extraordinário, que muito admiro. Com a sua intuição apurada não perdemos tempo a olhar para as contas.»

«Novembro de 2008 – O Financial Times elegeu-me como o pior ministro das finanças da zona euro. Mas porquê? O Primeiro diz que são manobras dos especuladores. Creio que também pode ser inveja.»

«Setembro de 2009 – eleições em breve. O Primeiro pediu-me para acreditar num défice de 5.9% para este ano e comunicar que o país está bem. As minhas noções de finanças foram positivamente alteradas depois do livro que o Primeiro me aconselhou a ler, “O Segredo”. Antigamente teria de analisar as contas, mas com esta eficaz ferramenta que me concedeu acredito, do coração acredito, e o universo não negará os 5.9% à minha fé profunda. As décimas serão postas mais tarde pelo departamento de realismo do partido. Vítor Constâncio também acredita no mesmo valor, é um homem sábio.»

«Novembro de 2009 – A Comissão Europeia previu que o défice será de 8%! Como se atrevem? Por acaso são eles que gerem as finanças deste país? Como é possível uma especulação tão imbecil? »

«Janeiro de 2010 – graças à descrença da oposição, que se traduz numa torpe heresia contra a Pátria, o universo confundiu-se e o défice passou de 5.9% para 9.4% do PIB em poucos dias. Não há limites para a maldade da oposição. Não gostarão deste país? Não desejarão futuro para os seus filhos? O Primeiro diz que eu tenho de aguentar estes números, justificá-los com a crise internacional, mas quando falei à imprensa só me ocorreu dizer que fiquei surpreendido. Porque é verdade, fiquei surpreendido! Como podia adivinhar?»

«Fevereiro de 2010 – foi-me diagnosticada uma doença mental. O médico disse-me que não me iria lembrar do nome dela, e de facto não me lembro.»

«Março de 2010 – vou apresentar a salvação do país, o Plano de Estabilidade e Crescimento. Estive toda a noite a decorar a argumentação para encostar o PSD à parede, mas o Primeiro não quer que me meta nisso. Prefere que decore algumas coisas do plano para responder aos jornalistas, principalmente o detalhe de ser um corte nas deduções e não um aumento nos impostos. Pela nossa honra nunca aumentaremos os impostos.»

«Abrir de 2010 – Sinto melhoras muito rápidas da minha doença. Já consigo fazer contas de somar usando os dedos das mãos. Quando as parcelas superam dois algarismos uso pingos de baba. Tenho algumas dificuldades com as de subtrair mas os progressos têm sido notórios. O Primeiro farta-se de me elogiar, diz que não podia ter encontrado um homem melhor para a pasta das finanças.»

«Maio de 2010 – Disse ao país que Portugal registou o maior crescimento económico da Europa no primeiro trimestre deste ano. Foi o primeiro país a sair da condição de recessão técnica e o que melhor resistiu à crise.»

«Maio de 2010 – Juros da dívida ultrapassam os 6%! Os outros ministros dizem-me que é mera especulação e não falta de confiança, mas o meu coração diz-me que é magia negra. Se o próximo leilão de dívida correr bem contratarei um bruxo para perceber a situação. Já expus a ideia a outros ministros que me garantiram conhecer alguns bruxos muito bons, de confiança, da sua própria família, gente com talento a começar, sem vícios profissionais e baratos, por apenas 5000 euros por mês e algumas regalias. Entretanto anunciaremos outro PEC.»

«Junho de 2010 – Contratei bruxos. Inicialmente pensei em 2, mas o governo convenceu-me a contratar 55, mais alguns ajudantes apontados por eles, um ou dois por cada. O número justificou um novo departamento. O equipamento foi um pouco caro, não sabia que a bruxaria só funciona no interior de automóveis topo-de-gama. Foi também formada uma comissão para analisar os resultados dos bruxos. Ao todo não faço ideia de quanto gastei, mas decerto pouparei mais do que isso quando souber o que está ao certo a causar a subida dos juros.»

«Julho de 2010 – Sou uma pessoa pontual e bom pagador. Porque é que tantos me acusam de estar atrasado e com défice?»

«Agosto de 2010 –  Não pararei de trabalhar na subtracção. Ontem consegui subtrair as mãos dos pés. Creio ter avistado um número parecido ao défice do ano passado antes de cair.»

«Agosto de 2010 – Reafirmei, como mandou o Primeiro, o sinal de grande encorajamento e confiança para a recuperação da economia portuguesa que é o facto do crescimento económico ter sido o dobro das nossas previsões no primeiro semestre: 1.4 em vez de 0.7! Os bruxos dão finalmente resultados, acelerando o pagamento dos desejos que fiz ao universo.»

«Setembro de 2010 – Anunciei um conjunto de medidas que incluem a redução de 5% da despesa total com salários em todo o sector público sobre os vencimentos superiores a 1500 euros mensais, congelamento das progressões e promoções na função pública, e de todas as pensões durante 2011, eliminação da possibilidade de acumulação de vencimentos públicos com pensões, aumento da taxa de IVA para 23% e criação de um novo imposto para o sector financeiro. Estive o resto do dia a tentar perceber porquê e ainda não percebi. »

«Outubro de 2010 – Acusam-me de ter feito a execução orçamental mais desastrosa de sempre. Não sei porque me acusam, eu nem sequer fiz contas.»

«Outubro de 2010 – O Primeiro pediu-me que redigisse, esta noite, algo que passasse por Orçamento de Estado para 2011. Tenho a noite toda por isso posso fazer um bom trabalho. A única coisa que me pode atrasar é ter de usar um computador.»

«Outubro de 2010 – Já sabia. Confundi o format do disco com o format do texto e pulverizei o trabalho de várias horas. O Primeiro sugeriu-me que usasse um template que o PS já tem preparado para estes casos e foi o que fiz, mas mesmo assim não consegui cumprir o prazo por 3 vezes. Disse-me que não fazia mal, que entregasse o que estava. Amanhã ninguém se lembra. Tirando estas atribulações correu tudo muito bem. Com o apoio, difícil, do PSD, não é possível os credores continuarem a desconfiar deste país tão estável. Posso por isso anunciar com toda a segurança que 7% seria o máximo sustentável para não se pedir ajuda externa. Pelos meus cálculos mais depressa o Tejo corre para a nascente do que os juros chegam aos 7%!»

«Novembro de 2010 – Juros da dívida a 7.3%! Começo a achar demais para ser bruxaria. É provavelmente uma configuração nociva dos astros. É isso que faz falta à máquina do Estado: astrólogos. Contratarei astrólogos.»

«Dezembro de 2010 – Contratei 40 astrólogos e, a conselho de camaradas, mais 10 especialistas em florais de Bach, 5 radiestesistas, 9 homeopatas, 30 peritos em visão remota e um fotógrafo de aura, para que se ache a doença deste país. Estou também a multiplicar contactos com a IURD. Pouco me importa que duplique a frota automóvel. Ninguém me poderá acusar de não ter feito tudo o que estava ao meu alcance para resolver a situação.»

«Janeiro de 2011 – O Primeiro apadrinhou todos os meus esforços mas diz que o exercício de governação necessita de um método mais seguro, com maior garantia de resultados, e insistiu n’”O Segredo”. É também aquele a que dou prioridade. Neste momento acredito que os juros descerão em breve para 0.75%.»

«Fevereiro 2011 – juros a 7.5%… O Primeiro diz que o universo errou numa casa decimal e que por isso serão necessárias medidas urgentes. Devemos porém dizer que a execução orçamental está a correr bem e até temos 800 milhões de euros em excesso, porque ele teme que a verdade cause o pânico geral e 8 é o número da sorte chinês. Do meu lado, como não posso contratar padres por causa dos meus irmãos maçons, contratarei xamãs se o TGV deixar alguma folga.»

«Fevereiro 2011 – O governo decidiu negociar um novo PEC, e com ele a ajuda externa. Mas o Primeiro não me deixa revelá-lo ao país. Ouvi boatos de que é para fazer uma manobra que permita, em eleições próximas, atirar culpas para o PSD. Nada disso. Perguntei-lhe e ele disse-me que é apenas para surpreender o país com a salvação, e que seremos erguidos em ombros pelo povo, invejados pela oposição. A ajuda externa só está incluída para podermos desistir dela dizendo que não precisamos. O Presidente da República pedir-nos-á desculpa pelo discurso de tomada de posse antes de nos cobrir de merecidas honrarias.»

«Março de 2011 – oficializei o “PEC 4” em Bruxelas e anunciei ao país as linhas gerais, que só não saíram na perfeição porque não consigo decorar muitas linhas. O camarada António Costa acusou-me de fazer a comunicação política mais desastrada e desastrosa que foi feita em Portugal, se não mesmo no hemisfério norte. Nunca pensei que fosse um homem cruel com portadores de deficiência mental. Creio que a oposição será mais compreensiva.»

«Março de 2011 – a maldita oposição! Chumbaram a salvação, deitaram o governo abaixo, como estão enganados! O Estado está falido mas pelo poder da mente conseguiremos governar sem ajuda externa, porque praticamos o exercício budista de acreditar neste país 15 minutos por dia. Eles não acreditam, interferem, confundem o universo. O Primeiro jura que jamais pediremos ajuda externa. Já disse que não governava com o FMI. Jamais pediremos ajuda externa!»

«Abril de 2011 – pedimos ajuda externa. O FMI entrará brevemente. O Primeiro foi reeleito secretário-geral do PS e vai a eleições.»

«Abril de 2011 – finalmente um elogio. Fiz hoje uma ressonância magnética à cabeça e disseram-me que eu era um fenómeno porque grande parte do meu cérebro é na realidade cortiça. Vou ser entrevistado pela Scientific American já para a semana. O Primeiro deu-me os parabéns, diz que tão bem posso servir o país nas finanças como nas exportações.»

«Abril de 2011 – o Primeiro precisa de mais argumentos contra a oposição para a campanha eleitoral, por isso a minha missão é atrapalhar o mais possível a ajuda externa. Disse-me para negar qualquer negociação com a oposição. Isso vai empurrar novamente responsabilidades para o outro lado e dar-nos-á folga para atirar, acusando-os de não querer resolver os problemas de Portugal. Respondi que não percebia como isso podia ajudar o país, e se a negociação não seria uma tarefa do governo, mas o Primeiro respondeu, com razão, que há muitas coisas que ressaltam na cortiça.»

«Abril de 2011 – José Sócrates disse ao país que afinal íamos liderar as negociações e nomeou o exmo. Ministro da Presidência para o fazer. Quando lhe perguntei qual era o meu papel, ele ordenou-me que me fingisse de morto. É o que farei, neste momento nem é muito difícil.»

«Abril de 2011 – Pedi para ir às comemorações do 25 de Abril mas não me deixaram porque, tal como me disseram antes do congresso, poderia estragar qualquer coisa. Mandaram-me viajar para norte. As minhas instruções são neste momento para não falar nem sair de casa. Só saí uma vez, espero que ninguém me tenha visto.»

«Maio de 2011 – Começo a desconfiar que carregarei solitariamente a cruz do desastre financeiro, talvez pelas palavras dos meus senhores: – “a culpa será implicitamente tua”. É pelo bem do partido e compreendo, não se pode dar terreno à direita. Almeida Santos prometeu-me uma condecoração socialista que se dá aos mártires, em nome do meu sacrifício.»

«Maio de 2011 – como os jornalistas já perguntavam por mim há muito tempo, o Primeiro decidiu que seria uma boa maneira de os calar uma aparição junto dele na comunicação do resultado da negociação da ajuda externa. E foi isso mesmo, uma aparição. Fui proibido de falar mas cumpri na perfeição o meu papel – como era suposto ter morrido fingi que era um fantasma durante todo o tempo e creio que fui convincente.»

«Maio de 2011 – tenho instruções do partido para ir plantar nespereiras no deserto do Sahara durante a campanha eleitoral. Dizem-me isto com a mesma cara com que me convidaram outrora para Ministro das Finanças, por isso não sei se estão a falar a sério. Mas irei com a mesma determinação.»

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Activos tóxicos

Um activo tóxico é uma coisa que custou muito e não vale nada, uma coisa de que muitos se querem livrar e que, para seu grande mal, não conseguem.

O governo PS é um activo tóxico.

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