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Archive for Março, 2011

As culpas

De quem são as culpas? Agora ouve-se muito de alguns que isso não interessa, que o que interessa é resolver os problemas daqui para a frente, numa clara tentativa de branquear a história recente a favor do PS… Também acho que o que interessa é resolver os problemas – por isso mesmo é fundamental saber de quem são as culpas (nem que seja só para não votarmos neles outra vez).

Portugal - dívida pública

Dívida pública portuguesa de 1850 a 2010. A subida em flecha a partir de 1975 foi causada pelo PREC (tem sido muito poupado pelos analistas, o PCP, mas foi graças a esse partido que o país teve de recorrer ao FMI pela primeira vez). A segunda subida abrupta vai mais ou menos de 1983 a 1985, governo do bloco central com Mário Soares como Primeiro Ministro. A terceira grande subida é a segunda legislatura de Sócrates, a que desgraçadamente se demitiu recentemente depois de miseráveis trapalhadas e abjectas mentiras.

Portugal - crescimento do PIB

Crescimento do PIB de 1900 a 2008. A única subida significativa desde o 25 de Abril de 1974 acontece na primeira legislatura de Cavaco Silva. A maior queda acontece a partir de 1995 – governos do PS com Guterres e Sócrates. Não conto com a meia legislatura PSD-CDS lá pelo meio, que terminada abruptamente pelo abandono de Durão Barroso e pelo oportunismo do presidente socialista não teve tempo nem para inverter a tendência nem para a piorar.

E a conclusão é… a culpa é claramente do PS e do PCP.

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Todos iguais?

Recordo dois momentos recentes, um protagonizado por Cavaco Silva e outro por Manuela Ferreira Leite, na altura líder do PSD.

Cavaco Silva, 10 de Junho de 2010:

«Cavaco Silva declarou esta manhã, durante a sessão solene do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades, que Portugal chegou a “uma situação insustentável” e que pela frente haverá “grandes trabalhos, enormes tarefas, inevitáveis sacrifícios”.»

Reacção de José Sócrates:

«Minutos depois, à margem do final da sessão solene, José Sócrates, em declarações aos jornalistas, recusou a classificação de Portugal viver uma “situação insustentável” e afirmou que Portugal estava sim numa “situação de dificuldade”.

“Como avisei na altura devida, chegámos a uma situação insustentável. Pela frente temos grandes trabalhos, enormes tarefas, inevitáveis sacrifícios”, disse Cavaco Silva.

José Sócrates, por seu lado, declarou que “estamos numa situação de dificuldade, como estão todos os países europeus, mas não estamos numa situação insustentável”.»

(Extraído do Diário de Notícias)

Manuela Ferreira Leite, 24 de Fevereiro de 2010:

«A presidente do PSD considerou hoje que Portugal está “rigorosamente no mesmo caminho” da situação da Grécia em termos económicos e que, se nada for feito, em dois anos poderá ficar em situação idêntica ou pior.

Manuela Ferreira Leite falava durante uma conferência promovida pela Câmara de Comércio Luso Francesa, num hotel de Lisboa.

“A verdade é que, não tendo nós os mesmos números da Grécia, estamos rigorosamente no mesmo caminho. E, portanto, a evolução do nosso endividamento, a evolução do nosso défice das contas públicas está exactamente no mesmo caminho que está a Grécia”, declarou a presidente do PSD.

“Isto é: não façamos nada e daqui a dois anos estamos com estatísticas tão más ou piores do que a Grécia”, acrescentou. Segundo a ex-ministra das Finanças, é por isso que Portugal está actualmente “sob os holofotes das instituições financeiras”.

“É evidente que os mercados e as instituições financeiras não vão permitir que haja um segundo país que chegue ao ponto a que chegou a Grécia. Portanto, quando vêem que estamos no mesmo caminho, o melhor é travá-lo já”, sustentou Manuela Ferreira Leite.

“Nós estamos com um aumento do endividamento da ordem dos dez por cento ao ano, portanto, faltam-nos apenas dois anos para estarmos iguais à Grécia. Não nos vão deixar chegar lá. É bom nós estarmos todos conscientes de que a forma como se olha a Grécia é a mesma forma com que se olha Portugal”, rematou.»

Reacção do líder da bancada parlamentar do PS:

«Em declarações à agência Lusa, Francisco Assis considerou “absolutamente lamentáveis” as declarações da líder social democrata, “porque não correspondem à realidade e prejudicam a imagem do país”.

“Não há nenhuma comparação possível entre a situação portuguesa e a grega, mas também lembro que o PSD acabou de viabilizar [na generalidade] a proposta de Orçamento do Estado, reconhecendo que dava sinais claros de se avançar para uma redução do défice já no ano em curso”, sustentou o presidente do Grupo Parlamentar do PS.

Francisco Assis referiu depois que o aumento do défice verificado em 2009 “teve a ver com a resposta a uma gravíssima crise económica mundial”, dizendo que “há da parte do Governo português capacidade de resposta”a esta conjuntura.

“Afirmações apocalípticas, como as que foram feitas pela drª Manuela Ferreira Leite, além de não reflectirem a realidade económica e financeira do país, também prejudicam a credibilidade externa do país. Ainda estamos a falar de afirmações feitas pela líder do maior partido da oposição”, observou Assis.

Para este dirigente socialista, as posições da presidente do PSD “são tão lamentáveis por aquilo que significam em si mesmo, como podem prejudicar a imagem internacional do país”.»

(Extraído do Jornal de Negócios)

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A Queda de Sócrates

Sócrates é uma espécie híbrida de Gepeto e Pinóquio: uma criatura que tão bem manipula como mente. Neste contexto, que é Portugal, este “bem” não significa propriamente genialidade na manipulação e na mentira, porque não é preciso, visivelmente, genialidade num suposto líder para enganar a populaça: nesta capoeira velha a que se chama país continuam a bastar os talentos de um Alípio Abranhos.

Não capitulou ainda (porque faltam as eleições), mas caiu. Depois de mais uma cena de má qualidade da longa e desastrada peça de teatro que foi a sua “governação”, tentou novamente a fuga às responsabilidades e finalmente conseguiu. A oposição fez-lhe desta vez a vontade que lhe tinha negado no Orçamento de Estado de 2010 e nos dois “planos” de “estabilidade” e “crescimento” anteriores: não aprovou, disse “chega de mentira”, e com isso permitiu que Sócrates abandonasse o papel que menos sabe representar: o de primeiro-ministro. Novamente o guião principal do PS pode ser seguido sem desvios: o de culpar a oposição por todos os males.

Como já disse aqui, o PS tem uma natureza exclusiva de oposição, muitas vezes fazendo lembrar (o que arrepia) um qualquer partido de tradição estalinista. Não é, apesar do lugar-comum que se enfiou pelas goelas do povo abaixo, um partido de Estado. Com todo o seu calculismo político-partidário e estilo populista, o CDS-PP é muito mais de Estado do que o PS alguma vez foi. No Governo o CDS-PP já provou ser um partido muito mais responsável do que o PS. Outro lugar-comum forçado é a comparação constante do PS com o PSD. Também não existe comparação possível aqui. É possível comparar os 10 anos de Cavaco, ou os dois de Durão Barroso, à desorientação de Soares, ao pântano de Guterres ou à calamidade de Sócrates? Não. Quem o faz só o faz por voluntária ou involuntária cegueira. A barafunda dos governos PS só é comparável a uma coisa: ao PREC do PCP.

Os media, com a sua bateria de sábios-analistas-comentadores-convidados (muitos do próprio PSD!), entra no jogo de Sócrates tão infantilmente como entrava no de Guterres. Talvez uma coincidência. Foca-se agora as alternativas do PSD e a necessidade do novo PEC para o país – e não se faz a história destes seis anos desastrosos do PS, do desvio de dinheiro do Estado para a campanha de 2009, dos esforços ilegais para condicionar jornais e televisões, das mentiras sucessivas de um ministro das finanças que nada mais é, há muito tempo, do que o bonifrate esfarrapado de um ventríloquo, da incompetência gritante da execução orçamental e, sobretudo, pelo prazer de focar o que é recente, a história das últimas duas semanas, nomeadamente o que antecedeu e realmente provocou toda esta crise política.

Sócrates já o tinha tentado no Orçamento de Estado: provocar o PSD para que este fizesse cair o governo. Depois do país chegar a um estado calamitoso, com os juros da dívida a subir a níveis incomportáveis, Sócrates já nessa altura parecia considerar que a sua única hipótese era reunir as condições mínimas para se fazer de vítima e culpar o PSD, usando as suas maiores armas, a comunicação social e a liberdade de movimentos que a ausência de princípios concede, para ser reeleito. Nessa altura algumas figuras de peso dentro do PSD intervieram e Passos Coelho foi praticamente obrigado a um acordo. Os socialistas teriam de fazer ainda pior – pior que uma execução orçamental absolutamente desastrosa e nunca explicada em 2010, revelada pouco depois de afirmarem que o país estava de boa saúde – para poder seguir a sua agenda partidária em paz.

Pois bem, 3 meses depois voltaram à carga. Vieram reclamar que a execução orçamental, neste trimestre de 2011, estava estupenda: tinham até uma folga de 800 milhões de euros. Um sucesso do governo (omitindo, como é óbvio, que tais receitas provinham do aumento de impostos e redução de salários), assim foi dito. Enquanto isto era dito o fundo europeu e o FMI achavam um “buraco” de 1400 milhões nas contas e o governo, às escondidas, preparava mais um plano de emergência. Com esse plano, apresentado lá fora, Sócrates comprometeu o país sem dar notícia ao PR e ao Parlamento. E isso gerou a crise. Ao ser discutido, Sócrates, e o Ministro das Finanças, sairam da Assembleia num completo desprezo pela democracia. Ao ser chumbado, Sócrates respirou aliviado, demitiu-se e voltou-se para as câmaras para fazer a única coisa que aprendeu na sua exageradíssima existência: oposição destrutiva.

O conteúdo do “PEC 4”, que tanto se quer hoje debater a par com as medidas alternativas do PSD, nada teve a ver com esta demissão. Esta demissão surge porque tinha de surgir algures no tempo. Tão insustentável era para o PS continuar com o ónus da governação como era para o país continuar com o PS no governo. É impossível, mesmo em Portugal, deixar uma corja como a de Sócrates a fingir que governa e a degradar a credibilidade do país dia após dia – com a desculpa do interesse nacional… A crise política tinha de estoirar. O interesse nacional tem, há muito, como prioridade máxima o afastamento destes indivíduos. Este caso deve fazer reflectir sobre uma das fragilidades capitais da democracia: o pior acontece quando o interesse nacional não coincide com o interesse da população.

Embora, enfim, isto seja apenas um jogo de palavras em torno de “interesse”. O povo português não tem “interesse” no PS, ou em Sócrates, ou mesmo no país. Tem interesse no seu poder de compra, nas suas condições de vida, no futuro dos seus filhos – mas sempre com uma visão muito limitada, que não abrange um plano a longo prazo, um país, uma virtude, uma ideia. O português fica-se pelo outro lado da rua. O seu país não é maior do que aquilo que vê da janela da cozinha. O universo -todo- cabe-lhe dentro de um televisor com 4 canais. E se não vota por interesse, este interesse, vota por automatismo, que exige ainda menos critério. Estas são as suas opções racionais. Tem ainda outra, a emocional, que é votar por reacção. Creio que é a predominante e que é a da massa de indecisos ao centro que acaba por decidir as eleições: ora votam no PS porque odeiam o que o PSD decidiu no governo, ora votam no PSD porque detestam o que o PS fez enquanto governou. São estes, curiosamente, que garantem a rotatividade dos dois maiores partidos e não deixam a democracia resvalar para as mãos de facções anti-democráticas. Talvez até possa concluir o seguinte: que o ódio, em Portugal, é o verdadeiro pilar da democracia. Ou, dizendo doutra forma, que neste país a democracia assenta no rancor.

E no ódio assenta a estratégia do Partido Socialista, pelo menos desde Guterres. Parasitas exploradores das fragilidades do hospedeiro, os socialistas crêem, e crêem bem, que basta despertar nas pessoas um ódio ao PSD para que o seu partido tenha sucesso. Não importa a história, a ideia, a coerência, a verdade, desde que se dê um bom motivo para incitar a populaça contra o adversário. E como isso não é possível quando eles próprios estão no governo durante muito tempo (normalmente um período de 6 anos), têm, em nome da sua própria sobrevivência, de se ir demitindo de vez em quando.

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O Patriotismo Popular

O que é a Pátria? Segundo o Priberam: “Terra onde a pessoa nasce ou nação a que pertence”. Não define, talvez, a ligação espiritual a essa terra ou nação, ou a tradição que compõe a identidade , mas é, na sua simplicidade, clara.

No entanto em Portugal, neste inquinado espírito democrático nacional empenhado em declarar diariamente a vitória da opinião sobre a verdade, existem diversas noções de pátria e patriotismo.

Já falei na dos socialistas: para eles “patriotismo” quer dizer “defesa incondicional do Partido Socialista”. Talvez lhe dêem também um sentido oculto chamado “maçonaria”.

Os comunistas não falam em “pátria” – porque é uma palavra de conotação fascista para eles, a fazer lembrar o Estado Novo. A própria História de Portugal é, para os comunistas, uma coisa meio fascista e por isso afastada como a peste dos seus discursos.

A direita, creio eu, não tem uma ideia errada de patriotismo. Mas não o defende nem pratica por receio de associação com o fascismo (num país de meios de comunicação dominados pela esquerda a direita tem de andar em bicos de pés e a sussurrar – que é uma condição aceitável para a nossa direita).

Tudo isso é apenas triste. Em nome da alegria gostaria de focar as noções de Pátria provenientes da populaça, essas sim originais e surpreendentes.

Há aqueles, muitos, para quem “Pátria” é sinónimo de “Selecção Nacional de Futebol”. Para esses o acto patriótico máximo é pintar a cara com as cores da bandeira republicana e ir para um estádio gritar pela selecção, ou colocar uma bandeirinha na varanda parecida com a oficial, ou desfraldar um cachecol verde e vermelho no automóvel. Não adianta dizer-lhes que Portugal é 771 anos mais antigo que a Federação Portuguesa de Futebol – porque respondem de imediato que somos antipatriotas por estar a tentar reduzir a dimensão inegável desse desporto nos dias de hoje e, no pior caso, que o estamos a fazer para apoiar uma selecção de futebol estrangeira.

Outros com mais sentimento dizem que patriotismo é exaltar, utopicamente, tudo o que é português. Ou seja, que tudo o que nasce em Portugal, ou vem de portugueses, é necessariamente melhor – desde a gastronomia ao tráfico de influências, desde a cortiça à corrupção generalizada, desde o vinho ao número astronómico de acidentes rodoviários. Calam de imediato quem aponte um defeito a Portugal: para eles Portugal não tem “defeitos”, tem “características”, vistas forçosamente sempre pelo lado positivo. Se se diz “Portugal tem um índice de corrupção preocupante”, eles rebatem: “há muitos países com corrupção mais grave”, e enumeram: “o Líbano, o Haiti, o Azerbeijão, o Sudão…”. Se apontamos o risco elevado das estradas portuguesas, não só rebatem com os países em que se conduz pior e se morre mais como ainda duvidam dos números – “quem os faz?”, “com que intenção?”.

Contam-nos uma versão diferente da História. O império português foi para eles o maior de todos e ainda existe na língua falada e na relação de “irmandade” que supostamente temos com as ex-colónias. Ai de quem refira, por exemplo, o império inglês, ou a Commonwealth, e que Portugal só existe porque os ingleses foram nossos aliados em Aljubarrota e contra as invasões francesas; rebatem de imediato com o mapa cor-de-rosa, a inutilidade dispendiosa da família real e outros males dos ingleses, dizem que a História é escrita pelos que dominam e daí a pequena dimensão de Portugal no mundo, que a Austrália foi descoberta por portugueses e muitas outras coisas que fortalecem a sua causa. Não fogem de comparar Portugal com os Estados Unidos – com vantagem para o primeiro.

Tudo isto é comovente, toda esta sentida cegueira, esta subserviência plena a uma paixão, o problema é que é sobre uma pátria que não é a portuguesa, que nada tem a ver com a realidade e nunca existiu. É uma espécie de sonambulismo, um cocktail informe de alucinações e factos certamente doce para quem o toma – mas que não pode ter sabor para um verdadeiro patriota, que ama a terra real que pisa, pelas suas qualidades e apesar dos seus defeitos, a dos portugueses, e não uma utopia abstracta, perfeita nos seus preconceitos e de mais ninguém.

Por fim os que repetem o chavão “a minha pátria é a língua portuguesa” como se a eles se aplicasse, enquanto aplaudem o recente acordo ortográfico… A frase é de Fernando Pessoa, e para esse, o maior escritor português de sempre, e no contexto em que foi escrita (contra a reforma da ortografia em 1911), faz total sentido, tal como faz sentido a frase de Anaxágoras “a minha pátria é o céu” – porque a vida de Pessoa era a literatura e a de Anaxágoras a observação dos astros, a tal ponto que se lhes concede esse abuso, poético, de interpretação.

Ao vulgo, porém, a única coisa que se concede neste caso é o insulto. A sua pátria não é decerto a língua portuguesa, que ignora ao falar e escrever e despreza ao tolerar acordos impostos pelo Brasil; é, no máximo, um pouco da nação portuguesa, por ter herdado a falta de civismo e excesso de iliteracia que identifica o português, e um pouco do solo nacional, na forma de tapete, que é onde janta a ver televisão.

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Gostava que as pessoas se indignassem com o PS. Não sei, de facto, quantas se indignam – provavelmente mais do que fazem parecer os meios de comunicação e até as sondagens -, mas seja como for sempre quis dizer isto: não sei porque se admiram seus palermas.

Lembro-me de, após a carga policial na ponte sobre o Tejo, no tempo em que Cavaco Silva era Primeiro Ministro, de altos responsáveis do PS, segundo maior partido com representação parlamentar, passarem orgulhosamente as portagens para serem depois entrevistados no outro lado em frente a câmaras de televisão. Faziam, em consonância com Mário Soares, o Presidente de todos os socialistas de serviço, o discurso da revolta, da indignação, da luta (que queriam, na cabeça dos eleitores, semelhante à luta anti-fascista, como se as maiorias absolutas do PSD tivessem origem em golpes de Estado e não em eleições livres). 

Foi precisamente este o partido, com esta noção de democracia e Estado de Direito, que a maioria dos portugueses que foi às urnas em 1995 elegeu para governar Portugal. Guterres, na altura, tinha tudo: um PSD desgastado e desorganizado (após 10 anos de governação com maioria absoluta), que lhe garantia uma oposição simbólica, o partido unido aos seus pés, uma economia herdada em crescimento, obras por inaugurar e margem de manobra financeira no Estado que patrocinasse a sua popularidade. Tudo, enfim, excepto a maioria absoluta, a ética, a honestidade e a vontade de fazer alguma coisa pelo país (o socialista jura pelo partido, ou pela maçonaria, mas nunca por outra coisa qualquer).

E foi como aqueles esfomeados que depois de uma revolução têm à sua disposição casarões, quintas e palácios: com a sua família partidária tomou conta do Estado barbaramente, espalhando os seus por toda a parte onde se sugasse um grama de riqueza. Todos acomodou com o luxo e a palermice própria dos alarves, criando um emprego, um cargo, um organismo público, onde fosse preciso acomodar mais um. Portugal foi transformado num cão-de-água gigante e belo, cheio de pêlo confortável  e sangue vigoroso; transformou-se no melhor hospedeiro de carraças da Europa.

 Guterres e os seus sorriram durante uma legislatura. Determinados a nunca baixar nas sondagens de popularidade criaram o rendimento mínimo garantido, criaram as SCUT, mantiveram artificialmente os preços dos combustíveis quando o petróleo subiu, apoiaram as famílias endividadas e outras medidas necessárias, feitas exclusivamente para a propaganda e sem olhar a custos. Ainda hoje muita gente não percebe que esses tempos foram a origem de uma crise, atendendo, como fazem os socialistas, a indicadores isolados no tempo e ignorando a existência de consequências a longo prazo. Por exemplo, se o défice estava controlado em 1996 e Guterres era então primeiro-ministro, tlim, as coisas associam-se automaticamente e esmola-se a Guterres esse mérito. A lógica popular, bem conduzida pelos espertos, é mais ou menos como a dança da chuva: se um índio dança e chove logo a seguir, conclui-se que foi a dança que causou a chuva. E sabendo-se em terra de cegos, os socialistas jogam muitas vezes com este tipo de “raciocínios” (outros o fazem também, mas são estes os mestres).

Na segunda legislatura, porém, o PS já não ficou imune a si próprio. Em 2000, quando Cavaco escreveu sobre o “Monstro” em que os socialistas tinham transformado o Estado, foi como se alguém tivesse dado um pontapé no vespeiro: todos saíram de lá prontamente para atacar Cavaco. No entanto uma crise iniciada com as eleições nos Estados Unidos (muito pequena face à que atravessamos!) veio dar razão ao antigo PM e perturbar o reino socialista, que não estava preparado para mais nada do que herdar uma situação favorável e ir fingindo que governava. Durante dois anos o PS tentou varrer o lixo para debaixo do tapete enquanto atirava areia para os olhos, na esperança de uma sorte qualquer que só eles entendem, mas o lixo acabou por ser tanto e tanta a areia necessária que Guterres, já coberto em mentiras como a do défice de 1% (quando na verdade era 4%), decidiu, numa das atitudes mais cobardes da História por parte de dirigentes políticos, fugir. Depois de muito tempo a defender que estava tudo bem e sob controlo, veio repentinamente dizer que se ia embora porque afinal a realidade era um “pântano político” – e deixou o país sem primeiro-ministro, em crise política aberta e com um défice 4 vezes maior do que tinha sido “previsto”.

Abstenho-me de contar o resto da história dado que já escrevi alguma coisa sobre isso. Direi apenas, em resumo, que o PSD teve novamente de se responsabilizar pelos problemas do país deixados pelos socialistas, e que os socialistas na oposição começaram logo por se desresponsabilizar (tão elevada é a sua ética e tão apurada a sua noção de democracia) com o argumento de ser Durão Barroso e o discurso em que disse que Portugal estava de tanga (referindo-se ao défice real que os socialistas, em conluio com o Banco de Portugal, presidido por outro socialista, tinham escondido até à altura). Segundo eles foi esse discurso que, ao retirar confiança às pessoas e às empresas, causou todos os problemas – disseram-no pouco depois, portanto, do seu antigo líder e ex-primeiro ministro ter admitido um “pântano político” e uma total incapacidade do partido continuar no governo.

Esta atitude do PS é a que se tem visto sempre, é o modus operandi do partido. Coisas como a honestidade, a verdade, o respeito pela inteligência do povo, não existem para o PS. Porque na sua visão a honestidade é um handicap, a verdadeira arma é a mentira e a propaganda, e o povo é simplesmente estúpido, crédulo e incapaz de pensar no que não aparece nos jornais do dia. E a verdade é que o PS, se consegue apesar de tudo tantos votos, deve ter alguma razão nisso. E deve ser a isso que chama democracia.

Ora bem, e depois de dois anos a colocar as finanças em ordem o PSD dá um tiro de canhão no pé, com a saída de Durão Barroso e o novo governo de Santana Lopes, abrindo a porta ao golpe de Estado constitucional dos socialistas – que obviamente, e com a aprovação tácita/imbecil da parte do PSD que odiava Santana Lopes, aproveitam para subir ao poder, desta vez com maioria absoluta. Sampaio não dá argumentos para a demissão do Governo mas o povo, levando pela corrente dos comentadores, crê que alguma coisa certa foi feita porque acredita que as profecias sobre Santana Lopes e a destruição do país se iriam realizar (e acredita porque elas são repetidas por muitos, incluindo gente do PSD e, mais uma vez, coincidência ou não, esse competentíssimo Governador do Banco de Portugal chamado Vítor Constâncio), e também que nas legislativas se vota em pessoas e não em partidos e programas como diz a Constituição, e portanto cada vez que um primeiro-ministro se afasta é forçoso que existam eleições “para devolver o poder ao povo”. É este o mesmo povo que os defensores da democracia, quando dá jeito, dizem “escolher sabiamente” nas urnas… 

Assim nasceu a nova e mais destrutiva fase dos socialistas no governo do Estado: a era Sócrates. Muito do que se viu antes, com Guterres (e nem vale a pena falar do Ferro “estou-me cagando para o segredo de justiça” Rodrigues), foi repetido por Sócrates nestes últimos 6 anos, de forma mais destrutiva para o país, ainda com mais uso da mentira, mais arrogância, maior desafio ao Estado de Direito e muito, muito mais apego ao poder. Sócrates não se importa de mentir às claras, nem que lhe chamem mentiroso, desde que continue a ser primeiro-ministro. Com perfil verdadeiramente criminoso (não lhe chamo criminoso – ou estaria em perigo – digo apenas que tem o perfil porque só um criminoso não se importa de não defender a sua honra em diversas situações muito suspeitas, com provas publicadas, nascidas de investigações e não de boatos) , não só mente como abusa de todos os meios para escapar à justiça, protegido por gente sua muito bem situada, em casos mediáticos como o da PT/TVI e do Freeport em que só um cego voluntário ou um acéfalo pode evitar uma conclusão (e sim, ainda que não o condene ao que merecia, uma conclusão sobre isto não só é legítima como saudável em qualquer cidadão que se preocupe com o país). Torna-se cada vez mais evidente que Sócrates não defende a sua honra simplesmente porque não tem honra para defender.

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A Voz de Cavaco

Grande Cavaco Silva. Mesmo os seus inimigos devem reconhecer o seu valor, principalmente nesta lama em que o PS transformou Portugal e em que já poucos se distinguem – ora por falta de valor, ora pelo excesso de retórica desonesta, calúnias e propaganda socialista em que está tudo soterrado.

O discurso de tomada de posse não foi apenas politicamente bom – foi um acto de justiça. Cavaco é ainda aquele que a esquerda mais teme e odeia, e com razão, porque é aquele que de facto dá voz aos que têm de observar calados ao desfile de mentira, estupidez e bandidagem de um Estado tomado por um partido mafioso, rasteiro e de má-fé. É o que tem credibilidade, o que é escutado, o que resiste, apesar de inúmeros ataques, à grande máquina de sujar da maçonaria socialista.

José Sócrates é um mentiroso profissional sem sentido de Estado, uma criatura invertebrada, um chico-esperto sectário, um parasita. Não um parasita qualquer: Sócrates é a última espécie de parasita que Portugal podia tolerar, é o verme errado no lugar errado, no momento errado, um vigarista em terra de cegos, alguém que não está interessado em acordos parlamentares, no funcionamento democrático das instituições, na transparência dos dados, no seu próprio país. É alguém que não tem mais talento além de mentir, que não sabe fazer mais nada senão vigarizar, que vive da manha e da esperteza saloia; é alguém que já não reage a acusações de mentira e de má fé porque já não as pode negar; e é o primeiro-ministro.

O PS é um partido perigoso, perigosíssimo tendo alguém como Sócrates (e já agora Almeida Santos) no topo do partido e do governo, e em conjunto com um povo mal informado e de voto escassamente racional. É-o não só pelo que faz como pela mancha negra que deixa sobre a classe política no seu todo, e consequentemente sobre a democracia. A estratégia repetida de desvalorização ou mesmo eliminação de qualquer oposição (não apenas partidos mas também jornalistas, juízes e autores de blogues), através de propaganda, influência, abuso da máquina do Estado e até negócios que não encaixam no Estado de Direito, vai secando qualquer alternativa de poder e transformando um país de 868 anos num órgão adoentado de uma máfia, que chamam partido, de 38. Enquanto a população continuar a não ver, ou a optar por não ver, lutar contra o PS com as mesmas armas significa a destruição da democracia, e lutar contra o PS com as armas da democracia (refiro-me aqui à ética política, ao Parlamento, à Presidência…) significa a mesma coisa (na minha opinião a estratégia correcta seria sempre, por regra, nunca assinar acordos com o PS, pelas mesmas razões que não se negoceia com terroristas). Dado isto, o presente desastroso e, tirando 2-3 anos, a permanência do PS no governo desde 1995, daqui se pode deduzir até que ponto é fundamental o papel de Cavaco Silva.

O discurso causou notória reacção da parte da esquerda (incluindo nos partidos de extrema-esquerda, que odeiam ainda mais Cavaco do que Sócrates), cuja “disciplina” optou em massa por duas categorias de argumentos para demonstrar que o discurso não valeu: 1-a de Cavaco não ter dito tudo em relação ao presente, e 2-a de Cavaco não ter dito nada em relação aos 10 anos em que foi primeiro-ministro. Duas categorias que no fundo se agrupam numa única categoria: a do que Cavaco não disse. Comportamento normal em que a esquerda se refugia quando se sente acossada e não tem buraco onde se esconder: a de atirar pedras para evitar a realidade. Um sintoma comum às espécies fracas.

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Da Falsa Literatura

– Não sou como tu, complacente com todos esses que se afirmam escritores só porque sabem escrever. Pensarão mesmo que uma alma oca pode produzir algo com interesse, talvez por sorte? Qual a importância de contar com estilo quando não se tem nada para contar?

– Deus é a resposta. Secretamente todos eles acreditam que Deus lhes guia a mão, e a mente, quando escrevem, e por isso ao fazê-lo sentem-se uma elite de escolhidos e não é sem justiça que prezam as obras ditadas por Deus – obras que não têm de perceber porque são somente as marionetas.

– Tais argumentos apenas excitam a minha vontade de violência. São absurdos. Se um ser omnipotente quisesse produzir obras literárias o que o impediria de as fazer sozinho, sem recorrer a marionetas? Isso faz-me lembrar Hollywood e todo o folclore que orbita em torno de exorcismos e demónios… Para Hollywood o exorcismo tem sempre de ser feito aos gritos, como se Deus precisasse que lhe gritassem os textos sagrados até se decidir pela ajuda à vítima. Estás a ver? Uma pobre criatura inocente é possuída por um demónio maléfico, inimigo de Deus – e Deus, bondoso e justo, que tudo vê e tudo pode, fica à espera que um padre venha fazer gritaria com os textos sagrados. Talvez Deus prefira não intervir – a não ser que lhe berrem aos ouvidos.

– Não digas mais nada, já chega. Sou baptizado, crente e praticante, amo Deus e a Sua Igreja, sou irmão dos que O amam, toda a vida o fui, e o teu desrespeito por Ele está a dar-me tantas tonturas que nem consigo ver bem quantas balas tenho no revólver.

(…)

[O diálogo continua no livro “Diálogos Imbecis”]

 

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