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Archive for Junho, 2010

As Cerejas

Comi agora mesmo um generoso volume de cerejas, sentado à minha secretária, e abriu-se um portal no tempo. Com prazer regressei a um passado em que era pequeno, sem preocupações, e comia cerejas ao longo de tardes imensas como o rio e quentes como a areia, em casa da minha avó, na janela da sala.

Era a janela de um último andar em estilo águas-furtadas, bem posicionada, com uma excelente vista para a rua e algumas telhas a oferecer privacidade. Eu acreditava que dali conseguia ver o Adamastor dentro da torre de uma igreja e também que o edifício, construído pouco depois das invasões francesas, tinha sido feito com o propósito especial de permitir atirar coisas a quanto se movesse lá em baixo.

Nessas tardes de sol observava muito a humanidade, sempre para cima e para baixo, admirável, incansável no seu impressionante processo de evolução. Depois acertava-lhe com caroços na cabeça. Quando se deslocava em carros atingia-lhes (com estrépito) o capô ou o tejadilho. Se estava vento, que é uma coisa que dificulta a pontaria, juntava muitos caroços numa mão e fazia uma espécie de tiro de caçadeira, arremessando-os todos ao mesmo tempo para aumentar as chances de sucesso. E caso tivesse sorte com o calibre dos caroços podia inseri-los na minha afinada zarabatana e atirá-los com tal força contra os vidros da frente que podia imaginá-los a rachar.

(…)

[O diálogo continua no livro “Diálogos Imbecis”]

 

 

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Nós, As Ervas

As ervas selvagens, secas, ondulam ao Sol. Chega do fundo o som do mar, como deve ser. Lá em cima as nuvens são levadas pelo vento. Os meus pés caminham sem passado nem futuro.

 

Não é mistério nenhum, a vida, porque todas as perguntas são inúteis. Apenas estamos aqui, como as coisas. Não estamos por razão nenhuma. Não é importante que trilhemos um caminho, não podemos ser verdadeiramente grandes por quaisquer feitos, exemplares por quaisquer virtudes.

 

O nosso espírito, o espírito humano, tão capaz, tão brilhante, acontece num pequeno ponto azul do universo entre triliões de outros pontos. Sabemos isso. Um ponto frágil que em pouco tempo desaparecerá.

 

“- Se é raro, é especial. Que importa que rebente já a seguir se as coisas mais belas são também as mais fugazes? Que se foda Platão e os conceitos de eternidade. Bela é a paixão daquele jardim que já não existe, o calor da infância ida, a mãe que me morreu.” – reagem estes.

 

“- Insossa teoria dos descrentes e desapaixonados. Platão tem toda a razão, já conhecemos os deuses e voltaremos a conhecê-los; temos eternidade em nós, a energia que nos move é mais antiga que o universo. Ergo, vai-te foder.” – dizem aqueles.

 

Dizem, ou dizem e registam, ou dizem, registam e ainda atiram a mensagem para o espaço, e assim sobrevivem à verdade. E depois morrem na mesma, desaparecem, igualmente, como as coisas. O planeta majestoso que admiramos e protegemos, com todas as suas qualidades, a beleza impressionante das suas paisagens, a riqueza incontável das suas espécies, tem o mesmo destino de um tinteiro de impressora: o lixo.

 

As ervas, o mar e as nuvens sabem-no bem, e por isso não se impressionam, não têm fé nem escrevem considerações. Face a isso sabem o que vos digo, ervas, mar e nuvens? – Do fundo da minha alma, vão-se foder.

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“Eu vi um sapo… e comi-o”

 

O PS começou a sua jornada de glória com Mário Soares – alguém que pisou uma bandeira nacional, participou de forma criminosa na descolonização, jamais respeitou na Presidência o princípio da separação de poderes, nunca sabendo colocar os interesses do país acima dos interesses pessoais, e já violou a lei eleitoral duas vezes.

Azar? Não: Partido Socialista. O PS é uma fábrica de fenómenos. Depois de uma travessia de deserto vem a segunda glória: António Guterres. Apanha o país em ascensão e vê nisso uma grande oportunidade para capitalizar popularidade num estilo sul-americano: aumenta disparatadamente a função pública, faz as SCUT como quem dá uma prenda ao povo, “paga” a diferença dos preços do combustível para que não haja a mínima revolta social, promove o endividamento numa estratégia de usar qualquer recurso do Estado para fazer boa figura nas sondagens. Sai atropelado pela realidade, depois de não conseguir sustentar a mentira de um défice 4 vezes menor do que o real, deixando como legado pouco mais do que dívidas para as gerações futuras.

Novamente um deserto – com um camelo lá perdido pelo meio chamado Ferro Rodrigues, que não negou ter dito numa conversa que se estava “cagando para o Estado de Direito” quando, com amigos seus (e no PS há, infelizmente para a democracia, gente muito unida), tentou safar Paulo Pedroso do caso de pedofilia por vias que não as legais. Houve ainda o episódio de novela mexicana em que Ferro Rodrigues chorou e se demitiu de secretário-geral porque o seu amigo Jorge Sampaio, então na Presidência, não dissolveu a Assembleia quando Durão Barroso deixou de ser primeiro-ministro (o que mostra bem o tipo de amizade que sempre imperou no PS e quanto tem a ver com os princípios de uma democracia o que eles esperam uns dos outros).

Mas depois nova glória: José Sócrates. O PS de José Sócrates é diferente: desinibido, extrovertido, moderno. Com ele o PS teve a sua primeira maioria absoluta, desabrochou e não tem medo de assumir a sua natureza alheia à democracia. Mário Soares fazia um discurso distorcido sobre valores para que o seu modus operandi não fosse tão óbvio; Guterres idem. Sampaio produzia discursos tão entrelaçados, confusos e aborrecidos que no fim achar qualquer ideia, qualquer coisa (digamos por exemplo o facto de ter feito um golpe constitucional contra uma maioria absoluta do PSD obtida em eleições), era como achar uma lêndia no esparguete. Mas Sócrates e os seus não são assim. Não têm medo de se revelar. Não lhes interessa que alguma coisa que defendam seja obviamente contrária à realidade ou ao que eles defendiam uma hora antes. Pouco lhes importa que crimes sejam revelados a público na forma de investigações criminais, escutas telefónicas ou mesmo gravações vídeo – eles negam, devolvem uma teoria da conspiração e continuam a fazer o que fazem melhor, que é destruição do país em nome do partido, com a mesma cara de pau. Ao contrário de Guterres, não têm qualquer pudor em mentir sobre o défice. No PS de Sócrates tudo se justifica em nome da sobrevivência política.

E no último fim-de-semana é que vimos quão universal é este “tudo”. É difícil, compreende-se, a um PS ter de lutar contra tantos tiros nos pés: argumentar a favor da inocência do seu primeiro-ministro (e outros…) contra investigações da PJ e provas publicadas, defender deputados que roubam material jornalístico quando uma entrevista os incomoda, fingir que uma crise profunda não existe ou que o governo não sabe de nada, negar o facto de terem mentido, em uníssono, sobre o défice português para ganharem eleições, anunciando-o a metade do que era… É, enfim, muito difícil, mesmo para este PS, lidar com isto, porque não lhes basta a cara-de-pau, também precisam de uma alma de pedra, com aquela moral, ética e empatia próprias do reino mineral. E por isso pensamos, nós, as vítimas, que só podem descer mais baixo se recordarem o verão quente de 75 e começarem a fazer política com outro tipo de actos terroristas, mais explosivos.

Pensamos, mas não sem erro. Neste fim-de-semana o PS conseguiu surpreender o país dizendo: “nós somos capazes de descer muito mais baixo do que temem os vossos piores pesadelos sem imaginação”, e dizendo isto apontaram um desertor e um traidor da Pátria para candidato a Comandante Supremo das Forças Armadas. Sim, o PS apoia Manuel Alegre.

É um tiro no pé monumental, e é um sapo que muitos socialistas engolem inteiro, enrolado com os talheres na toalha da mesa, mas o que é que o PS não faz para destruir o país? “Caímos, mas não sozinhos!”, é o lema. Eis o derradeiro acto terrorista: apoiar alguém que durante a guerra se passou para o lado do inimigo e denunciou posições portuguesas, fazendo companheiros de armas morrer em emboscadas. Uma pessoa que devia estar presa pelo crime de traição. Qual o melhor lugar para uma pessoa destas, segundo o PS? Comandante Supremo das Forças Armadas.

“Está-lhe nos genes”, dirão alguns, “afinal é um partido fundado por uma figura que espezinhou a bandeira nacional”. É verdade, e ainda assim é espantoso. Faz-nos perguntar onde é que está o homem que deu com a estatueta em Berlusconi para lhe oferecermos uma viagem a Lisboa e qualquer coisa da Atlantis.

 

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