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Archive for Março, 2010

A Estratégia do PS – parte III

 

Diz a Bíblia do Rato que :

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– Se um escândalo envolve o teu partido, terás de envolver, por qualquer meio, com outro escândalo (ou idealmente o mesmo) o maior partido da oposição, mesmo que ele não esteja relacionado; dessa forma todos se afundarão no mesmo pântano, onde tens vantagem porque dominas melhor as artes da propaganda e da retórica.

– Nunca tomes medidas que causem impopularidade aos olhos do eleitorado; mas se, em caso muito excepcional, as tiveres de tomar, e não puderes atirar culpas a outrém, tem o cuidado de não admitir que são medidas impopulares; disfarça-as com outro nome. Mesmo que tal vá parecer ridículo aos olhos de alguns, lembra-te que muitos – o teu eleitorado – obedecem às leis da propaganda. Mas não fiques por aí: diverge, também, a atenção para esforços positivos do teu mandato, de preferência aqueles que possam dar a ilusão de contrariar, no futuro, as difíceis medidas que tomas hoje.

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Ora bem, o gang de Sócrates mostra-se devidamente programado. Por um lado, enquanto se indignam que o primeiro-ministro seja chamado à comissão de inquérito sobre o caso TVI (falando como se não existissem quaisquer indícios, numa realidade muito própria deles que pouco coincide com a dos factos) exigem a comparência da líder do PSD, que não tem qualquer relação com o caso, na mesma comissão. É uma espécie de "cheque" ao PSD – permitindo, dão espaço a que os socialistas lancem confusão dentro da comissão, e negando permitem a jogada de ataque do "então é porque tem alguma coisa a esconder", ou seja, espaço para os socialistas lançarem confusão fora da comissão. Resumindo o PS ganha sempre, com esta jogada, a possibilidade de lançar confusão. A ideia é juntar tudo no mesmo pântano e tentar fazer aqui o que fizeram na comissão de ética, dificultando por todos os meios a clarificação do assunto enquanto o tempo passa e outras coisas vão ocupando a curta memória popular.

Por outro lado, face às reacções negativas que o PEC está a ter em vários sectores da sociedade, um PEC agressivo porque tem de tapar, sem solidez, buracos feitos pelas governações socialistas (é mais ou menos como estar a fazer bricolage numa casa que está prestes a resvalar por uma montanha abaixo), o PS diz que não está a aumentar os impostos, que só está a aumentar a carga fiscal. Na prática irá, e enquanto remendo, mais dinheiro dos contribuintes para um Estado que não o sabe gerir, mas como "aumento de impostos" tem politicamente uma carga mais negativa junto do eleitorado, o PS refugia-se no "aumento da carga fiscal", como se isso não significasse igualmente uma sobrecarga da classe média.

Para cumprir na íntegra os Mandamentos do Rato, Sócrates tem viajado muito. Moçambique, Tunísia, Marrocos, Argélia… Assim vai fugindo do caso face oculta, distanciando-se geograficamente e respondendo, aos jornalistas que fazem questões alusivas, que é uma falta de respeito para com o país estrangeiro onde estão estar a abordar assuntos domésticos. Em Portugal os seus cães de guarda – Augusto Santos Silva, Francisco Assis, António Costa, Vitalino Canas, etc – vão fazendo a guerrilha combinada: a descredibilização dos depoimentos negativos na comissão de ética, a exaltação dos favoráveis, as tentativas de envolvimento do PSD e a indignação acordada quando alguma opinião ou pergunta levanta suspeitas sobre o dono. Sócrates também tenta, com estas viagens, contrariar o impacto do PEC e as críticas de que não tem qualquer ideia para salvar a economia, anunciando que está no estrangeiro para promover as exportações e assim melhorar a nossa economia.

E talvez vá continuar a viajar, por toda a parte, desde que seja longe, enquanto se falar do PEC e do afastamento de jornalistas (e que voltas tem dado o desgraçado, mais do que culpado, a tentar por um lado mostrar que não tem medo da verdade e por outro a evitar o confronto com ela por todos os meios). Não deixemos, pois, que os assuntos se apaguem – em nome da verdade e da justiça, sim, mas principalmente em nome da distância. Sabemos que para este último propósito, pelo menos, estão a resultar bem.

 

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A Estratégia do PS – parte II

 

O PS entretem-se, agora, com a "Lei da Rolha" no PSD – um assunto interno, estúpido mas legítimo, porque votado internamente pelos membros desse partido. Pois bem, no PS existe algo muito pior, e desde a fundação: a Lei (implícita) do Conceito Único (CU para simplificar). É giro ver as mudanças na estratégia do PS, e o modo estalinista como actua.

Os socialistas, principalmente os que agora "trabalham" com Sócrates, agem como robôs. Depois de serem devidamente programados pelo CU, vêm cá para fora expelir todos a mesma coisa.

Ontem Augusto Santos Silva, em entrevista na RTPN, argumentou exactamente da mesma forma que Francisco Assis, dois dias antes, no debate com Morais Sarmento. Coincidência? CU.

Nova argumentação do PS: a teoria de que a comissão de inquérito tem o único propósito de "enxovalhar" o primeiro-ministro, tirando as seguintes ilações da comissão de ética (que nem sequer terminou ainda):

1. Que os "factos" ilibam Sócrates de qualquer crime, sendo os "factos" os depoimentos do actual director-geral da TVI e dos homens da PT;

2. Que os restantes depoimentos (nomeadamente do director do Sol, do Público, do Expresso, de Moniz, por sinal director-geral da TVI quando as coisas se passaram, e dos vários jornalistas que contaram histórias negativas para o PM) não passam de "opiniões".

A lógica do PS, que antecipa as conclusões da comissão de ética (apesar de tanto ladrarem contra a oposição para não tirarem conclusões antes de tempo…), é portanto muito simples: opiniões positivas = factos, opiniões negativas = conspiração. Vem na linha da posição tomada face às fugas ao segredo de justiça: fugas negativas = crime (não se comenta em nome da justiça), fugas positivas = prova (comenta-se em nome da justiça. É o caso do despacho do PGR feito depois dos envolvidos terem sabido, não sabemos por que portas, que estavam a ser escutados).

Em resumo, um partido desonesto, incoerente, de orientação estalinista, perigoso para a democracia, inútil para o país.

 

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Estado de Logro

 

Orgulho-me de anunciar, a bem dos críticos de cinema, que a sua existência tem um propósito: dar sinais sobre os filmes a evitar. Enuncie-se como princípio geral que quanto mais agradáveis as críticas dos críticos mais desagradável o filme para o público. Há excepções que confirmam a regra. “Hurt Locker”, em português “Estado de Guerra”, vencedor, entre outras distinções, dos óscares para melhor filme e melhor realizador, não é uma delas. É a própria regra que, qual espectro vingador, se materializa para nos embotar 131 minutos de vida mental.

Para uma crítica útil bastariam duas palavras: “a evitar”. Mas para quê escrever críticas úteis? Gosto de pensar que a diferença entre mim e um crítico é eu fazê-lo de propósito.

Arredemos então os especialistas e olhemos para o ecrã. Aqui vai. Apesar de preocupado por causa da quantidade fenomenal (6) de óscares entregues a esta obra, entre muitas outras distinções, comecei a vê-la querendo acreditar em frases como “um filme quase perfeito”, “um dos melhores filmes de guerra de sempre”, etc., e também embalado pelos poucos segundos que tinha visto do filme na cerimónia dos óscares e que prometiam algo interessante.

O filme começa com a brigada de minas e armadilhas a tentar desactivar uma bomba em Bagdad. Manda um robot, o robot tem um problema, manda o especialista, o especialista coloca explosivos para detonar a bomba e afasta-se. Nessa altura um iraquiano pega num telemóvel, à vista dos soldados, com ar suspeito e muito pouco lógico (nem disfarça um bocadinho). Os soldados reparam e, em vez de dispararem, repetem para ele largar o telemóvel tantas vezes que ele tem tempo para detonar a bomba, que atinge o especialista. Principia, portanto, muito mal, e não é porque o especialista morre. Comecei a desconfiar que estava diante de uma obra com sintomas de cinema europeu, isto é, uma soberba e arrojada realização para contar uma história menos interessante que o dia-a-dia de um pombo, dirigida apenas a elites com erudição suficiente para se enganarem a si próprias.

Apesar disso continuei a acreditar no filme. Nem sabia se era uma falha ou não, dada a incerteza dos cenários reais. Afinal há estúpidos em toda a parte. Pois bem, o especialista é substituído por outro, um veterano (Jeremy Renner) tão veterano que não tem medo de nada, enfrenta tudo, ao ponto de não “jogar em equipa”, e está-se a lixar para os procedimentos instituídos. Uma personalidade pouco credível numa máquina militar (principalmente como especialista de desarmamento de bombas) mas que, em nome do cinema, se pode também desculpar se der uma boa história. Não deu, é pena. Os desmedidos cento-e-tal quilómetros seguintes de película são uma sequência de desmantelamentos de bombas interrompida por três episódios mais irrelevantes que a própria história.

Episódio 1: a equipa de minas e armadilhas, composta por 3 militares e que parece fazer de tudo sem apoio, anda pelo deserto quando se depara com um grupo de combatentes de elite ingleses (SAS). São então todos atacados por insurgentes, terminando numa batalha de snipers. Depois do primeiro tiro do sniper inimigo, o sniper das SAS não muda de posição (?) e é atingido pelo segundo. Os americanos (sem treino de sniper – são uma equipa de desmantelamento de bombas) substituem-no, acabam com os inimigos e ficam à espera durante muito… muito… muito… muito tempo antes de concluirem que já não há mais inimigos (pode julgar-se, pela sequência, que acreditaram que terão morrido de tédio ou velhice). Não sei quais são os procedimentos normais, mas é estranho não haver o avanço de um elemento para ver se há mais hostis (talvez dentro do humvee à prova de bala, por segurança…) ou, talvez mais lógico num contexto em que a supremacia americana é total, uma comunicação via rádio a pedir um reforço aéreo ou terrestre. No filme parece que o exército se resume a 3 soldados, que estão isolados no meio do deserto sem hipótese de comunicar, o que é muito absurdo porque a acção se passa no século XXI e estão totalmente equipados. É uma cena aborrecida, pouco credível e sem imaginação que provavelmente só está no filme enquanto cliché para criar camaradagem entre os personagens: a sua união de esforços para vencer o verdadeiro inimigo cria camaradagem onde ela não existia até então… espécie de versão patética de algo já muito visto.

Episódio 2: para mostrar a progressão dessa camaradagem a realizadora faz os personagens partilharem bebidas e socos no estômago. Num filme tão elogiado pela crítica é no mínimo bizarro que existam tantas cenas de encher chouriço. Esta camaradagem não muda nada na história, mesmo nada, e estas agressões amigáveis são um cliché enjoativo. Talvez o propósito fosse “aliviar” a tensão que o filme falha constantemente em criar.

Episódio 3: apesar de veterano, o especialista constrói uma relação com um rapazinho iraquiano que vendia DVDs. Numa missão encontra o rapaz morto com explosivos dentro do corpo para servir de “cadáver-bomba”. O veterano choca-se com isto como se nunca tivesse visto nada semelhante; sensível e desorientado, sai sozinho do quartel à noite seguindo uma pista que se revela infrutífera. Talvez na cena mais patética do filme invade a casa de um professor iraquiano e aponta-lhe uma pistola para o questionar sobre o rapaz dos DVDs. Sem medo, o professor convida-o a sentar-se à mesa, assumindo que é da CIA e que portanto é amigo (como se fosse normal amigos invadirem casas e apontarem armas). Gera-se confusão em ambas as partes. O “Sherlock” começa a duvidar da sua intuição e chega a uma conclusão definitiva quando a mulher do professor lhe acerta com um utensílio de cozinha na cabeça. Foge, vê-se perdido no meio de Bagdad e… não acontece nada. O método que usa para passar despercebido nas ruas (que certamente figura num manual militar) é: puxar o capuz para a cabeça e começar a correr como se não houvesse amanhã. Só descansa no quartel, onde o deixam entrar sem uma advertência sequer. Ao longo do filme este sargento quebra as regras que lhe apetece sem um processo disciplinar. Não há um único oficial que lhe chame a atenção. Parece, aliás, não haver hierarquia de comando e que os soldados se movimentam com total liberdade e impunidade – num filme que se reclama realista. Para terminar o episódio não há qualquer desfecho: a investigação não continua, o rapaz é esquecido, segue a procissão de disparates.

“Uma procissão de disparates – como a guerra…” – responderá a elite a olhar para o infinito, no rosto o pesar de quem viveu muitas guerras, na mão a flauta de Perrier Jouet. “Merece três Globos de Ouro só pela metáfora”. E outro por servir de método inovador e alternativo para anestesia geral. É de facto um filme que não deixa ninguém indiferente – só letárgico. É um filme que tem impacto. Ainda me dói a língua das vezes que a mordi para me manter acordado.

Mas houve bons momentos neste filme. O oficial bonzinho, personagem tão profunda como um quadrado, a dispersar mirones com modos de gentleman, mirones que lhe deixam um presente explosivo (Destino tão cruel que merecia ir à Oprah). Ou aquele iraquiano que consegue incendiar facilmente um carro disparando contra o depósito, contrariando categoricamente os Myth Busters (um Myth Buster Buster?). As cenas de acção filmadas com câmara de mão, a cortar genialmente o enjôo da falta de ritmo com o enjôo do excesso de movimento. Ou ainda aquele taxi que desrespeita uma barreira de soldados, acelera em direcção ao herói e pára diante dele, sem que um único tiro seja disparado, para no fim, intimidado, ou não, recuar sem se ter percebido as suas razões. Ah, e…

Não, vendo bem não houve bons momentos. Nem em alta definição. Razão aos críticos, à Academia e às elites que, como as traças, circundam a luz seguindo o caminho do seu próprio cu: um fedorento logro.
 

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A única coisa que separa a nossa democracia de uma “democracia” sul-americana é a direita. Apesar da sua falta de unidade, dos seus elementos e clãs auto-destrutivos e sem visão de longo prazo, o PPD/PSD é um partido capaz de se organizar quando está no governo. O CDS/PP é uma coisa informe enquanto partido nacionalista de direita mas é responsável na Assembleia (e também o foi nos governos de coligação).

A esquerda, porém, por muitos anos que passem não se aproxima de uma maturidade democrática. O que se vê no PS, agora, faz lembrar os tempos de Guterres, que já faziam lembrar os de Mário Soares: uma política assente unicamente em propaganda mentirosa e retórica desonesta. A diferença é que já nem se preocupa que as mentiras estejam expostas na praça pública. Guterres afastou-se assim que percebeu que a realidade já não lhe dava margem para sustentar as mentiras. Sócrates, que mentiu ainda mais sobre as contas do Estado, e que abusou de recursos do Estado para promover o partido e controlar meios de comunicação (coisa que se sabe porque há provas a circular nos jornais), continua, com a maior cara de pau, no seu posto repetindo que é vítima de sucessivas conspirações da oposição, da justiça e dos media. Chega hoje ao absurdo demente de proferir que não vai aumentar impostos enquanto os aumenta à vista de todos.

A grande diferença entre o PS e a extrema-esquerda é que o PS não expropria terras e permite que se continuem a fazer eleições. No resto, no estilo de fazer política, na ausência de respeito para com as instituições democráticas e para com a Constituição, na incapacidade de transparência, na interpretação mafiosa da vida partidária, é igual.

Em relação à extrema-esquerda eu tenho um sonho. Sonho que um dia a extrema-esquerda, defensora de modelos que só trouxeram (e ainda trazem) desgraça a milhões, seja reduzida em Portugal àquilo que vale. Mas não sonho que isso seja feito como se decidiu face à extrema-direita, por decreto; sonho que a própria sociedade civil, pela inteligência e educação, o vai discernir. Não quero que se trate o país com antibióticos, e um decreto é só um antibiótico: faz a doença desaparecer numa geração mas não sabemos se voltará na próxima. Não, o ideal era o país se tornar imune aos extremismos, não deixando que nenhum alastrasse descontroladamente.

Mas é só um sonho. Nos tempos em que vivo ainda muita gente digere discursos do século XIX como sardinhas e toma gritaria por solução. Voltando à realidade…

Durante os meses em que Santana Lopes ocupou (legitimamente) o cargo de primeiro-ministro criou-se um ruído de fundo ensurdecedor para o destruir. Muita gente terá andado ocupada (e andou mesmo, incluindo gente do próprio partido e o governador do Banco de Portugal, para além de toda a esquerda, desde a esquerda de rua à do Palácio de Belém) a reunir lenha para queimar o herege. Um episódio de alegada pressão sobre a TVI para condicionar o programa de Marcelo Rebelo de Sousa levantou o vento que faltava à obra dos puros. O Presidente da República lá se arrastou, por fim, para acender a lenha – uma ironia cruel para um pobre homem que nunca teve o privilégio de uma faísca dentro de si mesmo.

O resultado foi basicamente um golpe de Estado. É isso que se chama ao afastamento de um governo sem uma razão suficiente: golpe de Estado. É isso que certos socialistas dizem que existiria hoje (apenas hoje) caso Cavaco dissolvesse a Assembleia. Se quisermos medir o sentido de Estado, a qualidade democrática, digamos, das pessoas, comparemos a sua atitude no caso Santana e no caso Sócrates. Em algumas – assustadoramente muitas e em cargos de responsabilidade elevada – as posições são opostas. O que quer dizer que têm claramente interesses acima dos princípios democráticos e que nem se esforçam em escondê-los, quais políticos-gangsters de pequenas ditaduras.

Dificilmente poderemos ter um primeiro-ministro pior do que Sócrates, que consegue reunir numa só criatura a impudência de Soares, a falsidade de Guterres e a incompetência de todos os socialistas juntos. É o melhor líder para o PS e, por consequência, o pior para Portugal.

Uma nota depreciativa também para quem tenha decidido pôr no nome deste indivíduo o de um filósofo que pretendeu salvar as pessoas da mentira e da ignorância.

 

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Sim ao Aborto Ortográfico

 

Este blog não segue, nem nunca seguirá, o acordo ortográfico.

O ponto intermédio entre Portugal e o Brasil situa-se algures a meio do Atlântico, onde a única possibilidade civilizacional é a submersa Atlântida. Talvez então para os atlantes o acordo sirva para alguma coisa; para os outros, portugueses e brasileiros, tem por único préstimo aumentar-lhes o amor pela verdadeira cultura que possuem.

Argumentos contra o acordo? Basta um gigante: a literatura portuguesa. Mas que não se argumente. Não entreguemos o nosso património a jogos de azar. Se o tomarmos como indestrutível ninguém encontrará meio de o destruir (porque uma cultura não se constrói por decreto, porque falamos e escrevemos a língua que quisermos). Recusemos simplesmente o que tem de ser recusado. Se alguém avançar contra nós com a intenção de nos dar uma martelada acaso teremos de provar, antes de evitar a agressão ou contra-atacar, que marteladas na cabeça são nocivas? Assim é com o acordo ortográfico: não temos de provar, antes de recusar, que aquela mixórdia de regras é absurda e mais estrangeira à nossa cultura do que os iglus esquimós.

Acção. Acto. Objectivo. Egipto. Concepção. Sente-se algo de patriótico, hoje, ao escrever estas palavras em português. É um deleite constatar que “Os Lusíadas” não seguem o acordo ortográfico. É óptimo (óptimo) escrever “este aproveitamento político-patético da língua não passa de uma infecção (infecção)”.

Não consideremos pois este acordo nem que venha impresso em folha tripla suave e acolchoada – antes nos decidamos pela única atitude patriótica, piedosa e higiénica possível: puxemos-lhe o autoclismo para que regresse ao Atlântico.

 

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O Ateu-Armado-Em-Céptico

 

Muito português, talvez a maioria dos próprios eleitores, é ateu em relação à política. E pertence a uma espécie curiosa de ateu, o “ateu-armado-em-céptico”, que passarei a designar por AAEC. Apesar de depositar toda a fé na crença de que o mais aberrante lixo moral da sociedade acaba nos círculos políticos, diz-se distante, imparcial, céptico, e por isso mesmo capaz de um julgamento sábio e cristalino. A coisa que julga mais cristalinamente é esta: que ele próprio pertence a uma elite, a dos que não foram contaminados pela política e os interesses que sobre ela orbitam, dos que vêem tudo porque ninguém lhes tapa os olhos, uma elite, enfim, de homens livres, morais e politicamente correctos.

Para ele “política” é uma palavra que reúne mais ou menos todos os crimes previstos nas leis dos homens, dos deuses e possivelmente também da natureza. Se o mundo fosse coerente com as definições do AAEC ser eleito ou nomeado para uma posição no Estado deveria bastar para uma condenação a vários anos de cadeia, sendo o número de anos proporcional à importância do cargo, reforçada por uma despromoção significativa na árvore filogenética. O AAEC vive bem com as cunhas de familiares e amigos, e até de pessoas distantes, desde que não sejam políticos. A “cunha” é um termo que aplica, aliás, apenas a políticos, como eufemismo de “tráfico de influências” e geralmente embrulhada em adjectivos tão justos como incivilizados; quando se aplica ao cidadão comum prefere usar a palavra “favor”.

Aquilo que mais assusta um AAEC, para além da existência de políticos, é gente com opinião sobre política. Um ateu está sempre alerta face a potenciais ameaças, umas óbvias, outras subtis, que o possam atrair para a imensa pocilga dos ideais e dos interesses partidários. Vão resistindo, mas não sabem até quando, receiam resvalar. Um amigo, um familiar, um colega, até mesmo um analista na televisão, podem despertar um ideal, um interesse mais à esquerda ou à direita, uma vontade de que ganhe um ou outro partido, que o sistema mude, que o sistema se mantenha, que determinado dirigente tem uma qualidade. Um perigo! O ateu-armado-em-céptico não quer nada disso, quer manter-se isento, a tantos anos-luz da política como de Andrómeda, para a poder continuar a ver ao longe da mesma maneira, um borrão de pontos pequeninos todos iguais. Ele faz tudo para não ser puxado para detalhes do debate político, para qualquer zona onde precise de dar opinião, evita a qualquer custo ser contaminado – tapa, mesmo diante de factos, os olhos e os ouvidos, repetindo ad nauseam as suas máximas: “os políticos são todos iguais”, “os partidos são todos iguais”, “os jornais estão ao serviço dos partidos”, “a justiça está ao serviço dos partidos”…

Se alguém se revela contra o partido X o ateu responde automaticamente que só pode ser por interesse do partido Y. Não concebe que alguém imparcial vise, nas suas críticas, um único partido – para se ser imparcial tem de se achar exactamente os mesmos defeitos em todos os partidos. Em simultâneo. Senão incorre-se no risco de favorecer uns com críticas a outros, o que só pode acontecer, como está escrito na Bíblia do Ateu, por interesse partidário.

Se alguém anuncia interesse pelo país, ou faz mesmo alguma coisa positiva para o bem comum, o ateu grita que por detrás borbulhará necessariamente um interesse político-partidário mais sórdido que violar cadáveres ou, em alternativa, que a informação está manipulada. Uma das crenças mais fortes do ateu é a teoria da conspiração que envolve todas as instituições e media instrumentalizados (que para ele são mesmo todos) para controlar a mente e o dinheiro dos que ainda vêem e percebem alguma coisa.

Julguei, durante bom tempo, que no fundo no fundo esta distanciada elite queria tanto ou mais uma revolução do que os próprios extremistas. Enganei-me. Não se lhes pode propôr outro sistema – uma monarquia constitucional, uma ditadura – sem que apresentem uma expressão de paródia. Querem a república democrática, tal como está. E votam. O ateu vota repetidamente ora em branco, para mostrar que é democrata mas não se revê em qualquer proposta, ora num qualquer partido extremista, para mostrar descontentamento. O seu espírito serôdio e conformista não considera, sequer, mexidas na Constituição. Para não tocar na doença política não apresenta argumentos contra sistemas alternativos, apenas deixa cair algumas piadas do alto do pedestal da sua crença ateia – e apenas o faz porque encaixa o assunto na categoria de “comédia” e não de “política” (senão tapava os olhos e os ouvidos e voltava a repetir máximas). A sua ideia de monarquia não passa muito de imaginar a figura do actual D. Duarte sentado ridiculamente num trono, e a imagem que faz de uma ditadura também não vai muito além de um ou outro lugar-comum sobre Salazar. Não vou dizer que não se pode debater com um ateu a monarquia ou a ditadura: pode-se, desde que não se queira que esses sistemas abranjam muito mais do que o espectro de defeitos e virtudes de Salazar e D. Duarte.

Não lhe traz qualquer inquietação, portanto, acreditar num sistema democrático sem acreditar nas instituições que o mantêm e nos homens, e partidos, que o gerem. É como confiar todas as poupanças a uma caravana de ciganos e ir dormir descansado. Porquê? Como? Penso que toquei no âmago do AAEC com estas duas palavras: “dormir descansado”. Enquanto puder afastar assuntos políticos como enxota moscas, consegue viver uma vida que, apesar de espiritualmente não ser diferente de um grande sono, não tem mais agitação do que a estritamente necessária e natural. O preço são algumas contradições? É barato. Vamos embora.

 

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