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Archive for Dezembro, 2009

Feliz Natal Bom Ano

 

Feliz Natal. Santo Natal. Boas festas. Excelente ano novo. Boas entradas. Um 2010 cheio e promissor. Muito, muito, muito feliz ano novo preenchido com coisas boas. BateosinopequeninosinodeBelémjánasceudeusmeninoparaonossobem.

Como bons autómatos as pessoas repetem estas frases incessantemente nesta época do ano. Sintam-nas ou não, oferecem-nas a qualquer um, desde o familiar próximo ao mecânico da oficina. Não o fazem por bondade – não há nenhum fenómeno estranho que torne as pessoas repentinamente boazinhas em Dezembro, ao contrário dos mitos em que se acredita – mas por automatismo. Apesar do ser humano se caracterizar pela imprevisibilidade e pelo livre arbítrio, a verdade é que a maioria dos comportamentos são os comportamentos do grupo em que se insere, e são previsíveis.

São muito mais parecidas com computadores do que gostariam. Cumprem, com as suas insignificantes idiossincrasias, o algoritmo do grupo. Nenhum homem é uma ilha, sem dúvida, mas raros são tão importantes como o das palavras de John Donne: a maioria dos homens, na qual me incluo, têm a importância de uma sardinha num cardume. Não, maioria, os sinos não dobram por ti. É tão provável dobrarem por ti como esta ideia ser popular.

Quando me dizem “boas festas” eu respondo “igualmente”. No fundo sinto alegria em dizê-lo, porque quando estas palavras se trocam geralmente quer dizer que estamos no fim da conversa, mas não deixo de sentir a estranheza de estar a cumprir um protocolo desnecessário. Ninguém precisa de receber desejos de bom natal e bom ano novo.

Faz algum sentido comemorar uma rotação completa da Terra em torno do Sol? Já é estranho que se comemorem os solstícios e os equinócios. O Natal é, sob todas as máscaras, uma comemoração anacrónica do solstício de inverno. A partir daí os dias começam a crescer, a luz começa a vencer as trevas, e se é assim isto quer dizer que é no mínimo estúpido que se comemore o Natal no hemisfério sul. Mas que se lixe. Junte-se-lhe o Cristo dos apóstolos, o Pai Natal da Coca-Cola, o presépio de Francisco de Assis e a árvore de Lutero, uma troca de presentes em família, e acha-se, ainda que à pedrada, suficientes motivos para comemorar até nos polos.

Em relação à passagem de ano, contudo, que motivos podem existir? A tradição é fazer barulho, partir coisas, beber álcool – porque a Terra completou uma volta em torno do Sol. Não faz qualquer sentido. É um evento periódico, e depois? A rotação da Terra em torno de si própria também é, e as fases da Lua, e não andamos todos os dias ou todas as semanas aos gritos, a estoirar rolhas, a bater com tachos e a partir copos com uma felicidade paralítica na face induzida por uma aberrante obrigação de felicidade. Quem não soubesse que era tradição apanhava um grande susto na noite de ano novo, porque parece que toda a gente entra numa histeria em massa, escravos de uma alegria alienígena que os faz estar prontos a matar, se necessário, para que o novo ano seja melhor.

Pronto. Não consegui publicar isto antes do Natal, mas espero que tenha estragado ao menos as “entradas” a alguém. “Entradas”, que belo termo… Como se se entrasse algures… Entradas na alucinação, talvez. Com os argumentos com que proíbe as drogas leves talvez o Estado, um dia, proíba também certas tradições. Proibir… Que digo? Por Cristo, tive um ataque de optimismo. É contagiante esta alegria. Paro por aqui.

 

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