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Archive for Novembro, 2009

Ao Homem Comum

Não te desvies, homem comum. Não queiras mais, porque mais para ti significa menos para todos os outros. Não tentes espreitar sobre a multidão: não és alto o suficiente, nunca serás. Queres individualidade? Há já um conceito de individualidade pronto e embalado para ti, leva-o contigo como levas os produtos das lojas, que te oferecem garantia e segurança; desembrulha-o, segue as instruções sem engano e sentir-te-ás especial, terás ideias próprias, saberás finalmente o que Platão quis dizer com a alegoria da caverna, viverás momentos felizes convicto da tua condição de eleito com o privilégio de ver a luz. Tu e todos os teus iguais, homem comum, porque afinal todos têm os mesmos direitos.

Todos têm o direito de ser especiais. Numa sociedade boa como a nossa a igualdade de oportunidades aplica-se a tudo, até ao pensamento individual. É bom ter ideias, homem comum, mas não ideias contrárias a uma sociedade boa como a nossa. Seria imoral. Reprovável. Pior ainda, absurdo. Que seria da colmeia se cada abelha seguisse o seu caminho? É uma questão de sobrevivência do colectivo. Não pode ser. Se um membro não seguir as regras do clube deve ser advertido, ameaçado, expulso se necessário.

O que não quer dizer que não tenhas ideias próprias, homem comum. Tens a sorte de viver numa sociedade que preza a liberdade como um dos seus mais altos princípios. Tu podes, e deves, pensar, queremos que tu penses – dentro dos limites do bom senso. Dentro dos limites podes pensar o que quiseres, ter uma opinião que acredites ser tua, escrever com liberdade. Tudo é bom desde que não ponha em perigo a nossa ideia de sociedade. Entendes? Claro que não. É por isso que te damos respostas de escolha múltipla. Escolhes uma destas e não ocorres, por acidente ou teimosia, em erros graves de pensamento. É como a democracia: podes escolher entre k partidos representativos do povo e das suas formas de pensar. Como não há partidos que defendam formas perigosas de pensar, podes falar sobre qualquer deles e escolher o que quiseres. A ciência e a filosofia (a tua, homem comum) devem seguir o exemplo da política.

Quem defende uma ideia nociva é automaticamente classificado de louco antes de qualquer apreciação racional dos seus argumentos. Isto é muito bom, homem comum. Quando uma sociedade chega a este estádio age como um corpo são, criando defesas contra as doenças em qualquer parte. Uma vez que o tenham interiorizado, as pessoas (e não uma polícia ou qualquer outro mecanismo despótico!) expulsarão naturalmente os pensadores danosos, garantindo a sobrevivência do pensamento popular e saudável.

Repara que os nossos limites são generosos. Podes dizer mal do sistema à vontade desde que não apresentes alternativa credível. Não temos medo de que apontem as falhas, somos humildes, sabemo-nos longe da perfeição – o que não podemos admitir é que destruam os bons conceitos e as boas regras que nos servem de guia e de abrigo, a todos nós. Quem quiser ser individual a esse ponto que faça como Zaratustra e vá viver para a montanha.

Não precisas disso, homem comum. A individualidade tem muitos níveis e és mais feliz no nível 5 do que no 10. Nós zelamos pela tua felicidade e pela sua harmonia com a felicidade de todos. Vês os telejornais, lês os jornais, ouves a rádio? Tens lá muitas opiniões válidas. Escolhe uma hoje, e se te cansares dela escolhe outra amanhã. Defende-a como se fosse tua diante dos teus próximos que, por magia, ela passará a ser mesmo tua. Acredita em nós. E como muitos vêem, lêem e ouvem o mesmo que tu, é impossível que não tenhas apoiantes; sim, muitos escolherão a mesma opinião que tu, com esses sentir-te-ás integrado, enquanto os outros te darão o prazer do debate, a adrenalina da caça ao argumento, a alegre sensação de ter um espírito vivo. É uma cornucópia de felicidade e pensamento, homem comum, e tudo isto sem saíres do teu nível 5. Não precisas de mais, decerto, e menos ainda os outros precisam que precises.

Se, pelo contrário, desligares a televisão, calares o rádio, atirares fora o jornal, e inchares a cabeça na tentativa de expelir uma opinião só tua, o mais certo é ficares frustrado – ou por não conseguires nenhuma, ou por conseguires uma considerada absurda pelo público, daquelas que não se pode sussurrar ao mais fiel dos confidentes. Lembra-te que a nossa sociedade é educada e sã: ela reage a opiniões dessas desvalorizando-as e denegrindo justamente quem as profere. No fim ficarás sozinho, frustrado, troglodita, infeliz e convicto de que o teu espírito está mais morto que a pele de urso falsa que usas na sala para aquecer as patas. A tua opinião será como a boina rota aos pés do pedinte – com a diferença de ninguém lhe depositar um cêntimo.

Assim seja. Assim é. Nem se tivesses imaginação imaginarias a sorte que tens. Tristes dos que erram por labirintos intermináveis em nome de sonhos grandiosos ou ideias inovadoras, constantemente a tropeçar no Imprevisto e a bater com os dentes no Desconhecido. Brutos os que, da árvore da literatura, não seleccionam os frutos do seu tempo. Bárbaros os que não se deixam educar. Diz-lhes, homem comum: não é um prazer ler os livros mais vendidos e debatê-los com os amigos? Conta-lhes se não é um desafio mental extraordinário a comparação de preços e de modelos de produtos nas lojas, quase tão grande como o da dialética do desporto. Explica-lhes se não é uma missão elevada a separação do lixo, primeiro em casa, depois no bairro – plástico no amarelo, vidro no verde, papel no azul, pilhas no Pilhão, electrodomésticos no Electrão. Há coisa mais fundamental que a preocupação com o planeta que todos partilhamos e de que todos dependemos? E com os doentes com cancro? E os deficientes? E o racismo? E a pobreza? E a violência doméstica? E a impotência? Prega-lhes, homem comum, se o sentido da vida pode passar ao lado do dia da mãe, do pai, da árvore, da avó e do avô, dos namorados, da mulher, da criança, das bruxas, da Nossa Senhora, ou das ocasiões do natal e da páscoa, do carnaval e da passagem de ano, e todos os rituais que há para organizar, as prendas para comprar, embrulhar e ofertar, os bolos e outras delícias para fazer, a casa para embelezar… E ainda o teu aniversário, e o aniversário dos teus familiares, e o dos teus amigos, o do teu casamento, os jantares, as festas, mais prendas, mais dedicação. E os dias da tua religião, e os dias do teu país, como o da liberdade, em que podes passear todo o dia com alegria e flores, de braço dado com uma causa que é sem dúvida a tua porque estás ali, a gritar palavras de ordem contra o passado. E se apesar disto ainda existir vazio, diz-lhes, é porque procuraram mal. Procurem melhor e acharão uma razão especial para existir em cada dia, porque há dias mundiais, internacionais ou europeus para todas as causas nobres: o dia mundial da meteorologia, o dia internacional de recordação do tráfico de escravos e da sua abolição, o dia europeu sem carros… Muitos, tantos que é impossível alguém se entediar ao ponto de construir uma ideia própria a sério.

Tal como não vale a pena cada um andar a esfregar pedras para fazer fogo, não vale a pena cada um se dedicar a erguer o arranha-céus da moral do nosso tempo. Está tudo feito, só precisas de cuidar do teu apartamento neste imenso edifício. Os altos princípios morais do nosso tempo, homem comum, é deles que falo, sabes como é fácil cumpri-los: está tudo disposto para seres um campeão da moral sem grande esforço, à tua medida. Diz-me se não é simples para ti salvar o planeta: tens caixotes para separar o lixo em toda a parte – no bairro, na praia, nos centros comerciais -, podes comprar os teus próprios caixotes de salvação num hipermercado – juntamente com outros bens essenciais à sobrevivência moral, como os alimentos biológicos e o papel reciclado -, podes comprar artigos biodegradáveis, ter um painel solar no telhado… Podes assinar petições na internet contra a matança de focas e baleias. Podes tomar duches mais curtos para poupar água. São tantas as maneiras que, mesmo sem o saberes, alguma coisa já deves estar a fazer neste momento para salvar o planeta.

E o racismo, esse flagelo da nossa Europa, essa culpa que todos os ex-colonialistas terão de carregar às costas por tantos séculos quantos os que durou a escravatura? Como posso lutar contra o racismo, perguntas tu… É fácil: pegas nuns ténis e participas numa corrida contra o racismo. A única coisa que os racistas receiam mais que a igualdade, acredita, são corridas contra os seus preconceitos.

Vejo, contudo, no teu rosto um esgar de insatisfação com o que eu estou a dizer, como se me estivesse a esquecer de uma coisa importante. Não estou, só a deixei para o fim desta constatação. Sei bem, homem comum, que não queres apenas salvar o planeta – queres salvar também os pobres e dar uma vida melhor aos doentes. Mas também isso está sistematizado, para ti, para todos. Na civilização moderna é tão simples ajudar um pobre ou um doente como jogar no Euromilhões. Vê bem: tens inúmeras organizações a fazer o trabalho de ajudar, tudo o que tens a fazer é ajudar essas organizações. A civilização moderna prova-te que a caridade goza da propriedade transitiva: se A ajuda B e B ajuda C, então A ajuda C. Queres acabar com a fome no mundo? Enche por exemplo um saquinho do Banco Alimentar com arroz e outros alimentos quando fores fazer compras ao hipermercado. Há jovens à porta a dar e a recolher o saco, nem tens de o procurar. Tudo o que tens a fazer é meter embalagens de arroz lá dentro. Resumindo: aceitas o saco, entras no hipermercado, metes o arroz, pagas, devolves o saco, a fome no mundo diminui, és um campeão da moral. Não é fácil?

Se quiseres lutar contra o cancro podes também calçar uns ténis e fazer a mesma coisa que fazes contra o racismo, ou então comprar pinos e autocolantes. Se és daqueles que sai de casa não poderás escapar a uma campanha contra o cancro – não há sítio em que não te lembrem que deves contribuir – pelo que é muito fácil ajudar. Resumindo: sais para qualquer lado e vais andando até alguém te barrar o caminho e pedir a contribuição. Tiras a carteira, dás o que tiveres, recebes o autocolante, o cancro diminui, és um campeão da moral.

Lembrei-te poucas, mas há muitas maneiras de contribuir, cada vez mais. É uma caridade boa para ti porque te protege de doenças e choques culturais: uma caridade remota, abstracta, segura e higiénica. Na verdade não tens de te aproximar das próprias instituições de ajuda. Imagina que és agorafóbico ou não te apetece sair de casa porque está frio ou tens um jogo novo para a PS3… É um direito que tu tens e não deixarás de ser um campeão da moral por causa disso: todas estas organizações te dão um NIB para poderes contribuir através de uma natural transferência bancária. Podes exercer toda a caridade pela internet, no teu computador, enquanto ouves o último MP3 que pirateaste.

Benditos tempos. Por tudo isto, homem comum (e muito estou eu a resumir), sê feliz por duas razões: primeiro porque isso é indiscutivelmente bom, segundo porque não tens outra hipótese. Vai buscar as pipocas à máquina que compraste em promoção, senta-te em frente ao teu LCD de alta definição, observa o telejornal esticado em 16×9 e continua a repetir opiniões sábias, correctas e instantâneas como os teus pares. Mas não percas muito tempo. O Natal está, como dizem eles, “à porta” – organiza-te matematicamente, elabora uma estratégia genial para comprar as prendas antes da confusão da época, debate filosoficamente sobre o que vais escolher, usa toda a tua sublime intuição para acertar na prenda adequada a cada um, investiga os centros comerciais com o teu olhar de águia, faz convergir todos os sentidos nos doces que vais criar – e pelo caminho salva o planeta, os pobres e os doentes. Acredita em ti: fazes embrulhos com o sentido estético de um Michelângelo, és um Sherlock das compras, um Shakespeare dos cartões de boas festas, uma Madre Teresa da ajuda à distância. Aproveita porque a vida, homem comum, é como um carro de luxo: um privilégio.

Força.

 

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SOS

 

Essa cabaça apodrecida com apêndices banhada em gordura a que chamas corpo…
Esse novelo mal-amanhado envolto em estrume a que chamas cérebro….
Esse puzzle de estilhaços inúteis suspenso no vácuo a que chamas alma…
Sim, leitor ou leitora, é a ti que me dirijo, e com uma esforçada, sincera tentativa de ser respeitoso. Ouve na totalidade a minha confissão ou morre de imediato com uma escruciante evacuação anal. Não tenho tempo a perder. Por favor.

Tenho um problema grave: não consigo comunicar nada de positivo. Não é que não veja beleza nas coisas, ou não sinta plenitude e felicidade, harmonia com os outros, com a natureza, comigo mesmo… Apenas não consigo comunicar isso que sinto de uma forma, digamos, delicada, estruturante, inspiradora. Por exemplo, leitor, gosto de ti ou não te dirigia palavra, mas apesar disso, e de não te conhecer, imagino-te como um comunista à espera de ordens do partido para pensar, alguém que sofreu uma lobotomia não-invasiva, ou que fez mesmo uma operação, por motivações estéticas, e trocou o cérebro por uma prótese de silicone. A única coisa positiva que consigo imaginar, adorado leitor de merda, é o silicone ter aumentado o teu QI em 10 pontos.

Já tentei tudo, e lamento. Preciso de ajuda – da tua ajuda, cabaça escrufulosa, herói dos leitores, ranho dos filósofos. Ajuda-me, diz-me como devo irradiar a minha alegria para aquecer os corações alheios, esses presuntos ainda a morrer.

Já me sacrifiquei de muitas maneiras. Tentei ver a Oprah dias seguidos. Li páginas e vi vídeos New Age, com todos aqueles tão maravilhosos como merdosos casamentos entre a ciência e a estupidez (uma espécie de noivas de Santo António em que centenas de brilhantes cientistas casassem com pega-monstros anões com a cabeça a cheirar a ranço), fui a uma missa católica, rezei numa mesquita, li partes da Bíblia, do Corão e do Segredo, até pensei ler livros do Augusto Cury (o que só por si já devia significar iluminação porque, segundo aprendi, nada acontece por acaso). Mas só piorei. Penso que alguns dos meus flatos são o resultado da tentativa de transmitir o arrebatamento absoluto da fé, o único resultado físico que consigo. Penso em Deus, em Alá, em Buda, e tanto quanto a minha alma se enche de luz os meus intestinos inflam de gás. Possivelmente na mesma proporção.

Tal cria nos outros a frustrante imagem de que não levo a religião a sério. A religião, a arte, a filosofia, tudo. É um verdadeiro problema porque são tantas as maravilhas que me assombram, e tão incontrolável a alegria que me anima diante delas, que gostaria que transbordassem – para que da minha fonte bebesse desde a mosca que põe os ovinhos nos cadáveres aos atrasados mentais que decidem por este país, passando, evidentemente, pelo pântano improdutivo e irrespirável a que chamam povo.

Entro na National Gallery, observo Os Embaixadores de Hans Holbein. Está tão perfeito, tão cheio de virtuosismos impressionantes, que me apetece cuspir-lhe em cima. Consigo retrair-me, mas com tristeza porque sei que, se alguém me pedisse um parecer sincero sobre o quadro, tinha mesmo de lhe cuspir em cima.

Ouço o “Du wollest dem Feinde nicht geben”, cantata BWV 71, e a música é mais invasiva que um tiro na cabeça – não pede licença, entra e toma conta do espírito, arranca-o para outro mundo e força-o a acreditar que é esse, o dos deuses, o verdadeiro, que aí pertencemos, que estamos finalmente acordados apesar do coma. Foi um obeso algo parecido com D. João VI (um demente que, para além de rei de Portugal – sintoma já de grave desarranjo – assaltava transeuntes e guardava coxas de frango nos bolsos) , belicoso, sem vida própria para além da fabricação compulsiva de músicas e filhos, que compôs esta magia. Provavelmente mal-cheiroso como todo o europeu setecentista. Será possível falar de Bach sem mencionar o cheiro? A resposta tortura-me: sim, é possível, já li duas biografias que não o mencionavam. O que quer dizer que o problema é meu ou das bestas acéfalas que escreveram as biografias, gentalha com o talento literário estrangulado pelo cólon.

Assim termino. Parece que ia continuar, não é verdade? E ia, mas lembrei-me que assim seria mais inconveniente. Fico humildemente à espera da tua opinião compreensiva, eventualmente portadora da cura, caro leitor positivo e bom. E quando ela chegar vou rir-me, e muito, por teres achado que valia a pena dar opinião. E se não deres rio-me na mesma, porque achaste que o teu silêncio podia significar alguma coisa. Não adianta parares de ler agora para fingir que não te deste ao trabalho, porque se já chegaste aqui leste tudo, quintessência do infrutuoso.

Relendo o texto percebo porque é que ninguém me ajuda. Percebo, percebo profundamente. Que sofrimento. Mostrar tão gravosa confissão vai prejudicar mais do que ajudar. Julgarão que é zombaria sem olhar a meios da minha parte. Não a irei, ó Sensatez, publicar.

 

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