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Archive for Outubro, 2009

O Mendigo

Vi o filme “O Solista” e fiquei com um desejo de expressar uma opinião como quem fica com vontade de bradar “foda-se” quando bate com um dedo do pé no cantinho da cama.

Pelo princípio… O trailer não esconde nada, podia mesmo ser considerado um “spoiler” se houvesse alguma coisa a estragar nesta obra. A história é básica: um génio do violoncelo tem um problema mental e afunda-se na tragédia da mendicidade; um jornalista descobre-o, usa-o como história interessante e torna-se seu amigo. Uma história não tem de ser complexa para se fazer um bom filme em torno dela, o problema é que o filme consegue ser ainda mais insosso, não criando nada nem aproveitando o potencial existente.

O principal ponto de interesse é a existência de um mendigo genial que vive fisicamente na fealdade da sarjeta e espiritualmente na beleza da música – uma flor no pântano, um diamante no cocó (consigo imaginar um cão a comer um diamante por engano depois desta história). Só que no fim do filme a única imagem que me sobra é a de um cocó a boiar no pântano.

Sendo baseado numa história real, só posso concluir que o realizador, o inglês Joe Wright, odiava de facto o violoncelista-mendigo e que só fez este filme para lhe pregar mais um prego no caixão. Toda a virtude e talento que ele pudesse ter é desmanchado em duas horas de burlesco, incoerência e má interpretação. Pode-se dizer que Jamie Foxx, no papel principal, pelo talento que mostrou ao fazer de mendigo e de violoncelista, foi escolhido pela parte da doença mental . Era suposto o personagem adorar profundamente Beethoven, mas as expressões que faz ao ouvir a terceira sinfonia fazem lembrar mais o Saw, porque são expressões de quem está a cortar a própria perna. E quando nos fartamos de procurar a serra concluímos que deve ser caganeira.

O desgraçado do jornalista (que papel injusto para Robert Downey Jr.) esforça-se por ver, nos esgares horrendos do mendigo, o conhecimento de um mundo superior e mais belo – quando a única maneira da cena ser convincente seria ouvir-se, no final, um autoclismo a descarregar.

O filme diz, constantemente, “este mendigo é um génio”, e exige que o espectador assine por baixo, sem provas. Não há nenhuma situação em que o mendigo se revele realmente genial. Ficamos a saber que toca violoncelo muito bem, que tem uma paixão por Beethoven, que era um autodidacta e não terminou o curso… O curriculum é só este. É um “podia ter sido o maior” – só que não foi. Não gravou discos, não deu concertos, recitais – vê-se, apenas, a sua participação (falhada) na Eróica de Beethoven. Ou seja, se não contarmos as suas exibições na rua ou no túnel, nunca foi um solista! Até o título é um logro.

No início ele só tem um violino com duas cordas, e o seu maior sonho era ter as outras duas. Isto seria bonito se o mostrassem a tocar alguma coisa de jeito com duas cordas, mas não. O realizador parece mais preocupado com a parte do lixo e da doença mental. Como o mendigo faz referência a Yo-Yo Ma e Itzhak Perlman o público há-de assumir que é brilhante – ou acreditar por piedade. Mais tarde o jornalista arranja-lhe um bom violoncelo com as cordas todas. E ele toca realmente alguma coisa num túnel cheio de trânsito. Podia ser bom – é insólito o suficiente para chamar a atenção. Com uma justificação decente, podia ser sublime. Mas que razão nos é dada para ele tocar num túnel? São duas: primeiro, porque dali vê melhor os pássaros a voar… Não conheço Los Angeles, mas duvido que um túnel seja melhor do que um espaço aberto para ver pombos. Segundo, porque Beethoven é para ser tocado com os sons da cidade, é uma espécie de espírito de Los Angeles… Se o primeiro argumento é patético, este é demente. Nem L.A. nem nada parecido com uma cidade como L.A. existia na Alemanha de Beethoven, e decerto ele não compôs para túneis cheios de carros. Do ponto de vista de quem aprecia música a ideia é atroz. Se já é má a cacofonia de tosses, espirros e cuspidelas entre os andamentos num qualquer auditório português, acrescente-se-lhe um monte de carros a acelerar e a buzinar. Resumindo, só vejo duas hipóteses para o personagem tocar violoncelo num túnel: a primeira é ter problemas mentais, a segunda é o realizador também odiar Beethoven.

O filme, apesar da produção americana, vai-se desenvolvendo segundo a velha tradição europeia de cinema que dita que tudo o que é banal pode ter muito interesse, desde diálogos e flashbacks inúteis a grandes planos de lixo que nada adiantam. O realizador parece ter gostado em particular do carrinho cheio de lixo que o mendigo empurrava e a que chamava lar. Dizia que era tudo o que precisava. Comovente, mas na vida real. Num filme é apenas chato. Patético. Não funciona. É desnecessário ver um mendigo e um jornalista a empurrar um carrinho cheio de tralha pelas ruas para ir assistir a um ensaio. Porque não ir apenas ao ensaio, poupando o público? É assim tão relevante que o génio violoncelista seja apegado ao seu lixo, e o jornalista a ambos?

Também não percebi bem os motivos do jornalista. Primeiro fazia sentido – não tinha nenhum assunto melhor para escrever, encontrou ali um caso insólito e esforçou-se por explorá-lo. Mas depois parece ficar fascinado pelo fascínio do mendigo e quer ajudá-lo a todo o custo… Porquê? Não houve nada que me convencesse, isto é, que justificasse essa boa vontade (obsessiva) do jornalista. O mendigo era o melhor violoncelista do mundo? Não. Tinha apenas um talento não desenvolvido. Se ele fosse ouvir um profissional, num sítio com melhor acústica do que um túnel, não ficaria mais convencido sobre a beleza da música?

As razões “humanas”… Não era fascínio, era piedade. Piedade por alguém especial, porque quantos, no universo dos mendigos, saberão tocar violoncelo? Está certo, seja piedade sorteada pela habilidade musical. Acreditemos que um jornalista tenha coração. Será mesmo? Não se vê, durante todo o filme, o jornalista dar comida ou bebida ao mendigo. Que homem piedoso é este que em vez de uma garrafa de água, um copo de leite, um hamburguer, dá violoncelos? E nem foi ele que o deu – foi uma leitora, sensibilizada pela história. Ou talvez a comida e a bebida sejam, para o realizador, coisas menos sensacionais que o lixo.

Agora atenção, que vou arruinar o filme a quem ainda não o viu. Não costumo fazer boas acções, mas aqui vai: no fim não acontece nada. Não senhor, o mendigo não fica curado nem termina a tocar numa orquestra (e muito menos como solista). Há um parente do mendigo que vai para L.A. tomar conta dele (não digo quem é para manter o suspense – e porque também não me lembro), ele passa a dormir numa cama e terminam todos a assistir à Eróica, todos pacíficos como focas à excepção do que está com espasmos de diarreia. Qual é a lição de moral tirada pelo jornalista? Que não vale a pena curar mendigos esquizofrénicos e dar-lhes uma carreira na música, porque tudo o que eles conseguem é mudar-se de um túnel para uma cama.

“O Mendigo” ou “Carrinho de Supermercado Cheio de Lixo” teriam sido títulos mais apropriados.

 

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