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Archive for Setembro, 2009

Escutai a Histeria

 

De vez em quando, e só porque convém a toda a gente, o país embarca, a arrancar os cabelos, numa viagem que nem o melhor artista surrealista seria capaz de engendrar. Desta vez é o “caso das escutas”. O caso tem origem num artigo meio secreto de um jornalista, que por sua vez é baseado em boatos, e que segundo o que o Presidente ontem disse nem tem nada a ver com escutas. Ainda assim para os jornalistas continua a ser o “caso das escutas”. Se não há escutas há boatos. Se há boatos há notícia.

Acredito no Presidente da República. Para além do curriculum que possui, onde não falta sentido de Estado (que distância das aventesmas político-partidárias que eram Soares e Sampaio!), é a parte deste “caso” menos interessada na sua existência.

Os jornalistas adoram casos ambíguos – a polémica especulativa deve ser 80% do seu sustento. Políticos/partidos em campanha eleitoral, ou pré-campanha, gostam ainda mais, porque lhe podem dar a leitura adequada (ou frisar que não dão nenhuma, como no caso do CDS) para arrecadar votos. Analistas e comentadores estão no céu, porque podem falar muito sobre cenários prováveis e improváveis, alguns jornalisticamente promovendo a polémica, outros politicamente fazendo leituras mais favoráveis ao seu partido. E o povo rumina o caso como se se tratasse de ficção barata em formato de telenovela, apreciando cada resto da aberração gastronómica.

Qual é a verdade? Qual é a relevância dessa verdade? Não importa. A indústria de entretenimento nacional estende-se dos media às mais altas instituições. E entretém, de facto. Pelo menos esse objectivo é cumprido. De repente a moda é, novamente, criticar o Cavaco. Primeiro criticaram o seu silêncio durante a campanha porque a influenciou (se tivesse falado durante a campanha fariam a mesma acusação). Depois criticaram-no por ir falar horas depois do que devia, isto é, no início de outra campanha, com o semblante grave de quem acha que isso é realmente relevante. E hoje criticam-no pelo que disse, porque começa uma “guerra institucional” e porque “não disse tudo”… Não lhes atravessa a hipótese da guerra já existir e ter sido começada pelo PS, como é insinuado, e erros do próprio staff do Presidente. Não querem pensar que sem a agitação artificial criada sobre o caso não seria necessária qualquer declaração pública. E que frustração não terem sido provadas escutas… O que é que se faz agora ao artigo meio perdido do jornalista que desconfiava de escutas? Que seguimento se dará a esse filão de ouro que podia contar com inúmeras reportagens coloridas com o imaginário do Estado Novo? Tanta gente a pensar em maneiras de introduzir o fantasma de Salazar na nossa vida política e é só isto que conseguem?

Resta-me uma questão : quem critica toda esta massa de desorientados que compõe a nossa indústria barata de entretenimento nacional pela histeria colectiva em torno de boatos? Quem pode dizer aos actores “vocês são histéricos” e aos espectadores “vocês são estúpidos”? A resposta é que mais vale recostar o corpo no sofá e aproveitar. Ontem um analista comentava, na RTP, sobre a segurança dos emails da Presidência, que “Cavaco dava relevância a um caso que qualquer anti-vírus podia resolver”. Não mencionou anti-spyware, firewalls, updates de segurança do sistema, política de passwords… Para ele um anti-vírus resolve tudo… mesmo sem conhecer a estrutura informática de Belém. Usar a palavra “anti-vírus” numa frase deve ser sido o apogeu tecnológico da sua carreira.

 

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Buraco de Esquerda

 

Estas eleições são um aviso a todos os que em Portugal prezam a estabilidade e a liberdade. O inexplicável impulso que a comunicação social tem dado a um partido outrora pequeno e radical chamado Bloco de Esquerda está a traduzir-se, cada vez mais, em votos e portanto em poder real.

O Bloco de Esquerda defende um modelo não democrático de sociedade, uma destruição da economia de mercado, uma repetição dos erros que levaram à pobreza e à desgraça muitos países comunistas. Defendem, também, uma saída da União Europeia (como é que este “pormenor” escapou ao debate público, sempre tão europeísta?). Apresentam contudo uma fachada de partido pseudo-moderado de centro-esquerda, capaz de competir com o PS, nunca afirmando nem desmentindo as verdadeiras intenções.

Em 4 anos subiram de 8 deputados (em 2002 tinham apenas 3…) para 16. Ou seja, sobem em progressão geométrica, multiplicam-se como ratos, praticamente duplicando o peso a cada eleição. Por pouco este ano ficavam em condições apetecíveis para um coligação com o PS, chegando assim ao governo.

A conclusão é que as pessoas não percebem o que é e o que representa o Bloco de Esquerda. Preferem acreditar na fachada e na propaganda dos media, é mais fácil, e depositam ali o voto por várias razões, todas erradas. Votam, por vezes, numa ou noutra “bandeira” do Bloco de Esquerda – transgénicos, homossexuais, aborto – esquecendo que uma alínea certa de um programa eleitoral não torna certo todo o programa… É como alguém comprar uma rebarbadora para cortar o cabelo só porque gostou da cor. Outros votam BE porque são, sempre foram, de esquerda e pretendem votar no PS, mas como sofreram (naturalmente) alguma perturbação com o governo de Sócrates, procuram outro partido de esquerda onde depositar o voto. Para estes a CDU é demasiado radical, ou fossilizada, ou mentecapta, sendo o Bloco de Esquerda a única “alternativa” “moderada”, “moderna” e “inteligente”, de “esquerda”, ao PS. É como a criança que vê um poço com uma placa a dizer “doces” e se atira lá para dentro.

Mesmo considerando que em tempos de crise os votos tendem a fugir do centro (isto é, dos que têm ou tiveram responsabilidades governativas), preferindo os discursos populistas e as promessas milagreiras dos que estão fora das decisões e da realidade, ainda assim a subida do Bloco de Esquerda é anormal, como é anormal que isso passe ao lado dos analistas. Algo está podre nesta democracia.

 

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Ajudem os comunistas

 

Quando afirmo que os comunistas têm uma visão distorcida da realidade atiram-me logo com o sofisma instituído de que tal opinião só pode ter razões políticas, sendo ela própria uma distorção da realidade. Não porque seja, mas porque é politicamente incorrecto dizer a verdade sobre os comunistas.

E a verdade é que desde a queda do muro eles têm repetido que o holocausto comunista, o terror e a miséria que o bloco soviético infligiu longos anos aos seus povos, nunca existiu. Dizem que é um exagero da direita, mera propaganda (a direita deve ter chegado ao extremo de falsificar documentos da KGB). E tanto o dizem que já se convenceram, a eles próprios, de que é a única hipótese credível. Na cabeça deles o comunismo não pode falhar nem mesmo quando falha. Estão e estarão sempre no caminho certo, com as ideias certas, e se não parecer assim é porque o monstro da direita está a atrasar o progresso da humanidade.

Eis a teoria geral em que se enquadra este episódio particular:

«O líder do PCP, Jerónimo de Sousa, afirmou terça-feira à noite que a EDP tentou impedir a realização de um comício da CDU em Ovar, por ter falhado o fornecimento de energia necessária para o evento.»

Com ou sem intenção de gracejo, esta é a invariável reacção num comunista a algo desfavorável. Leva-me a pensar que Pavlov só usou cães porque no tempo dele não havia bolcheviques à disposição – houvesse e os progressos na teoria dos reflexos condicionados seriam bem mais rápidos.

Se falha o fornecimento da energia num comício da CDU – acusai a EDP de sabotar o evento.

Se um pombo lança dejectos sobre um membro do Comité Central – alertai para mais uma tentativa reaccionária de sujar a imagem do Partido.

Se há um pêlo encravado na nádega – revoltai-vos contra a estratégia sombria dos grandes grupos económicos.

A falsa coragem de enfrentar perigos imaginários é a habilidade que encontraram para poder sobreviver no mundo moderno como se estivessem em plena Revolução Industrial. E quem os pode criticar? Todos nós. Podemos e devemos. A manifestação grotesca de tais aberrações é tão antiga e permanente que alguém lhe tem de diagnosticar uma patologia. Sei que é politicamente incorrecto dizê-lo, mas internem-se de vez os comunistas em instituições próprias. Apesar das aparências a Assembleia da República não é a indicada. Ajudem-nos.

 

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Jornal Nacional da TVI, 15 de Setembro

Bem diz Pacheco Pereira que a cobertura jornalística da campanha é exclusivamente orientada aos incidentes. A cobertura da visita de Ferreira Leite (e Sócrates) a Tomar/Santarém, no Jornal Nacional da TVI de 15/9, em estilo Joana Latino, é só um exemplo.

Começa por referir as "polémicas" com Miguel Relvas e Moita Flores. A jornalista começa logo por "entalar" Ferreira Leite perguntando sobre isso, adiantando que a líder do PSD "disfarçou a pergunta". Resumindo, o início da reportagem é um incidente produzido pela própria jornalista.

Segue-se as habituais entrevistas aos populares, que valem como grandes sondagens para a jornalista produzir teoria geral. Ela afirma primeiro que um dos vice-presidentes do PSD foi bem convincente com o eleitorado, e para o provar pergunta a duas senhoras "se já estão convencidas", ao que elas respondem "estamos convencidas há muitos anos". Não se sabe de quê, e é de facto irrelevante, mas não importa. Mostra-se o tal vice-presidente a interagir com as senhoras, numa rua animada, provavelmente para mostrar a animação e pouco mais.

Depois avança a teoria de que a comitiva do PSD escolheu ruas apertadas para ter as ruas cheias. A jornalista na verdade não sabe as razões do trajecto escolhido – se foi por uma questão de imagem, se foi pelas zonas de maior comércio e mais gente ou outra razão – mas escolhe uma na mesma e dá-a como um facto. A interpretação jornalística de intenções dada como factos é uma coisa que dá geralmente cor a este tipo de reportagens.

De seguida a jornalista, perspicaz, acha um detalhe digno de nota: o carro onde Ferreira Leite entra encontra-se em frente ao Santander, que é "nem mais nem menos o banco espanhol para onde foi trabalhar depois de sair do Governo". A relação é assombrosa, o incidente é de ouro: será que mais ninguém notou? A ponte para a polémica das acusações de João Soares está feita. João Soares, num dos seus alucinantes raciocínios, tinha acusado Ferreira Leite de ser incoerente por estar a dizer que não quer servir os interesses espanhóis e no entanto ter trabalhado no Santander. Apesar da relação ser absurda, é polémica, e logo faz sentido tanto para João Soares como para os jornalistas.

Segue-se a polémica do TGV. Pouquíssimos trechos do que Ferreira Leite disse passaram durante a reportagem, e todos foram encaixados numa polémica qualquer. Há um princípio do jornalismo actual que diz: "não passarás nada sem um contexto de polémica ou de burlesco".

Passou-se à reportagem sobre Santarém, ainda mais joanolatinóide que a primeira. Polémica sobre Moita Flores à cabeça. O jornalista afirma a seguir que "Ferreira Leite não desiludiu nem convenceu", e para o demonstrar passa a opinião de dois populares, um que diz que ela é "a salvação para este país" e outro que diz que "vota PS". A intuição do jornalista é mesmo assim: não é preciso sondagens e análises, basta um ou dois casos e já sabe como se equilibra a opinião geral.

Depois um caso relevantíssimo: os comerciantes que tiram as mesas das ruas para as comitivas passarem. É entrevistado um deles, que tem mais tempo de antena que Sócrates e Ferreira Leite juntos na reportagem. Segue-se o surrealismo total: é dito que "a arruada de Ferreira Leite não foi cliente dos saldos", e dá-se a entender que se vendiam santos em saldo. E porquê? A lógica da jornalista deduz: "talvez por não ter comprado o tal santo a candidata laranja saiu agastada da cidade". O facto? Mais um incidente: Ferreira Leite parece aborrecida quando entra no carro. Nada mais é dito sobre isso. Fica a hipótese do santo como a mais provável. Se o tivesse comprado saía feliz.

Passa a Sócrates em Santarém. A ponte está feita: o santo. "Sócrates também evitou os talismãs, mas não os lugares comuns". Será habitual os cabeças de lista comprarem talismãs quando vão a Santarém? Não sabemos. Não interessa. É uma reportagem colorida e despretenciosa, isto é, sem pretensão de reportagem, eis tudo.

Seguem-se mais opiniões de populares: se acham Sócrates simpático, como foram ter ali. Perto disso pouco interessa o que Sócrates disse, que não é referido. O que os telespectadores pretendem ao ver um telejornal, no fundo, é divertirem-se.

O fim corresponde ao objectivo da reportagem, e por isso não desilude. Chega-se ao clímax da parvoíce. Focam-se dois cartazes de campanha, um do PS com Sócrates, outro do PSD com Ferreira Leite, e uma placa com indicações na estrada. O jornalista refere "a hora da verdade" e termina dizendo que "um dos dois ficará a ver Santarém por uns binóculos" (não será o Governo?), focando então os binóculos da placa que indica a direcção do miradouro…

Curiosamente no mesmo jornal a reportagem sobre a acção de campanha do Bloco de Esquerda, feita dentro de um helicóptero, é uma reportagem lúcida e temperada, quase profissional – faltou apenas não a tornar parecida com um episódio da National Geographic sobre pedreiras e conservação da Arrábida apresentado pelo Louçã. Que sorte a dos pequenos partidos.

 

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