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Archive for Maio, 2009

História de Amor

 

Era uma vez um planeta chamado Terra e um satélite chamado Lua que se apaixonaram. Estava na natureza da Lua ter uma órbita certa em torno da Terra, sempre a mesma, e por isso, por muito que tentasse, não conseguia unir-se a ela.

Ao fim de muitos milénios a Terra teve uma ideia:

– Lua, se tivesses uma massa inferior, a minha força gravitacional atrair-te-ia até mim e poderíamos viver felizes para sempre!

– Sim! Mas não tenho… O que posso fazer?

– Lembrei-me disto: arranca alguns bocados do teu corpo, para reduzires a tua massa, e lança-os ao espaço. É uma troca justa: uma parte de ti pelo nosso amor. Não precisas da tua totalidade para ser feliz. Desta forma conseguiremos enganar a natureza.

A Lua pensou durante um dia e achou que o benefício era muito maior do que o custo. Arrancou então um pedaço que, após algum tempo a pairar no espaço, começou a ser atraído pela enorme massa da Terra e acabou por se espatifar no continente africano com uma potência equivalente a seis mil bombas de Hiroshima, atirando metade do Saara para a estratosfera. Ao ver a enorme nuvem de pó a cobrir o hemisfério sul a Lua ficou inquieta:

– Terra, olha o que eu fiz! Que desgraça! Arranquei um pedaço grande demais e causei uma catástrofe bíblica! Vou ter de viver com esta culpa o resto da vida! Além disso não ganhámos quase nada com isso, já que a minha órbita pouco se alterou. O que fazemos agora?

A Terra, optimista, respondeu:

– Lua, não há problema nenhum. É preciso ver as coisas pelo lado positivo: não havia outro modo de acabarem as guerras neste continente e ao mesmo tempo de se aproveitar a exagerada extensão do Saara para alguma coisa útil. O hemisfério norte, apesar de atingido, vai recuperar em poucos séculos e recolonizar novamente o sul do planeta. Experimenta tirar outro bocado, mas desta vez aponta para um dos polos, onde só há esquimós.

– E as focas, e os ursos, e todo o desequilíbrio ambiental que te vou causar, Terra? Se pudesse atiraria o meu bocado para longe do teu campo gravitacional, mas não tenho força para isso.

– Sejamos idealistas, porque afinal as ideias são a realidade da alma. O amor é um deus primordial, muito anterior às focas e aos ursos. E está dentro de nós, agora. Aproveitemos para lhe mostrar o tamanho da nossa devoção. Arranca qualquer bocado de ti – um qualquer, desde que não seja o coração – e oferece-o ao Deus.

– Está bem, Terra.

A Lua arrancou um bocado ainda maior que o anterior e atirou-o com força e pontaria. O pólo norte foi atingido com uma potência equivalente a onze mil bombas de Hiroshima, pulverizando os esquimós e as focas e desfazendo todo o gelo existente, o que veio a causar uma enchente colossal em todo o planeta. Foram construídos enormes campos de refugiados no topo de montanhas como os Himalaias e a maioria dos países costeiros desapareceu, incluindo a Austrália.

– E agora? – perguntou a Lua ansiosa.

– Agora esperamos. – respondeu a Terra com um olhar primaveril.

Numa aceleração lenta o satélite aproximou-se do seu planeta. Milénios de namoro estavam agora prestes a realizar-se num matrimónio eterno. A poucos quilómetros de distância, porém, a Lua reparou no que poderia ser um pequeno obstáculo ao romance:

– Não consigo parar.

A colisão frontal dos dois astros foi violenta, reduzindo os dois a um único e indistinguível monte de fragmentos volteando alegres no espaço. E foram felizes durante dois mil e quinhentos milhões de anos, até a explosão do Sol pulverizar todo o Sistema Solar.

 

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Aniversário

 

De que poço sem fundo brotam as tradições? Em que terra misteriosa lhe deram presença e voz?

Talvez num circo, um circo de loucos, um hospício, um conclave de idiotas, uma tribo de imbecis, uma lixeira de crenças – porque o único sentido que as tradições têm é continuarem tradições de raiz ainda mais remota. É, quem sabe, genético. Se os chimpanzés copiam os comportamentos uns dos outros porque não haveríamos de fazer o mesmo?

Falo concretamente do aniversário. Talvez a tradição venha dos gregos, que se terão inspirado na de outros mais antigos. Consta que todos nós, os que nascemos, temos algo sobrenatural que nos protege (algo que talvez, numa especulação muito barata, se tenha transformado no "anjo da guarda" de outras crenças) e a que temos especial acesso uma vez por ano. Por alguma razão não explicada (ou provavelmente nenhuma) a periodicidade é anual e o dia é o do nosso aniversário.

Talvez a coisa sobrenatural fique amarrada no ponto da órbita terrestre correspondente ao dia em que nascemos e já não se possa mover a partir daí; assim só está perto de nós uma vez por ano, quando a Terra passa por ali novamente. Mesmo assim não percebo porque é que alguns dias antes e depois do aniversário não tem uma influência semelhante, dado que a Terra não se move assim tão depressa em torno do Sol.

Anyway, tendo acesso privilegiado ao sobrenatural nesse dia, acendemos velas para comunicar com o outro mundo e pedir desejos extraordinários. Não bastando a irracionalidade de tudo isto, os tempos modernos sugaram-lhe, como ao Natal e outras celebrações, toda a poesia, sobrando apenas uma festa boçal de amigos e/ou familiares em que se dá ao aniversariante os presentes outrora mágicos.

Magia… a magia é que importa. Que se lixem os rituais contemporâneos. Deixemo-nos cair livremente no poço escuro, adorando na queda a brisa fresca de uma estupidez mais profunda. No Egipto o momento do nascimento era de fundamental importância porque ditava a alma do indivíduo, sendo por isso digno de celebração. Neste caso é o instante, e não o dia, que importa, por causa da posição dos astros. O chamado "mapa natal" diz-nos quem somos quando ainda nem temos capacidade mental para distinguir um comboio de uma sandes de queijo. O Oráculo de Delfos, que começa com "conhece-te a ti mesmo", podia ser substituido por "lê o teu mapa natal".

Já fiz mapas e nunca vislumbrei uma razão válida para a astrologia egípcia. Porque é que os astros não influenciam o indivíduo antes dele nascer se ele já está completamente formado dentro do útero, com cérebro e tudo, muito antes de sair cá para fora? E porque não depois? Melhor ainda, e mais coerente com o conhecimento científico: porque não na altura da fecundação, quando o novo ADN se está a formar? Talvez o argumento seja as forças universais serem disparatadamente mais fortes quando se nasce. Por alguma razão misteriosa, assim que nos cortam o cordão umbilical (?) os astros atingem-nos com tamanha força que nos moldam a personalidade. Um segundo antes tínhamos um cérebro de um Miguelângelo mas, raispartam, Marte encalhou em Virgem, a Lua em Sagitário e agora só podemos aspirar a engraxar sapatos no Colombo.

Farei anos em breve, como soi dizer-se. "Fazer anos, que expressão absurda", pensava eu há uns 20 anos atrás. Vendo o contexto em que está inserida, todo ele absurdo, hoje não faz grande diferença. Sem a magia em que não creio e sem a festa popular que não aprecio, um aniversário não passa de um vislumbre triste, um olhar de soslaio para o cronómetro de cozinha que rege a vida.

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