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Archive for Fevereiro, 2009

Não seria mais eficaz a memória transitar, sem perdas, de vida para vida? Arrisco dizer que além de mais eficaz seria imperativo que transitasse para que a evolução resultasse. Se não há memória de vidas passadas, não há pontos de referência. E se não há pontos de referência o que é que impede um ser de regredir em vez de progredir? “Melhor” ou “pior” só fazem sentido se soubermos o que estamos a comparar.

Há pontos de referência. Mas parece-me que cabe a cada um procurá-los. Se dependermos do exterior, da Ciência até para estas coisas, então talvez nunca se chegue a lado nenhum.

Se depender do sentimento ou da opinião de cada um é que nunca se chegará a uma teoria a sério. Pelo menos a uma teoria que possa converter, pela razão, um céptico num adepto.

No limite toda a crueldade é justificada neste sistema. Todas as vítimas merecem os males que lhes acontecem, todos eles justos e positivos – pelo karma acumulado de vidas anteriores. Tudo passa a ser explicado por um passado sem registos, com um conhecimento subjectivo que não está acessível, provas que não existem e lembranças vagas que podem ser facilmente confundidas com sonhos. “O bebé foi violado e assassinado? Ainda bem, porque mereceu. Até é bom para ele: quer dizer que está a evoluir. Se fosse mais evoluído tinha feito uns jejuns e poupava-se a este sofrimento, mas não, era um bebé que precisava de aprender. Liberte-se o agressor, que foi apenas uma ferramenta do universo.”

Discordo. Nem sempre a vítima “merece” cair nas mãos do agressor. Recorda-te que acima de tudo há sempre a lei do livre arbítrio… Na vida, não vês que há tantas regras e se as há por algum motivo é. Ainda assim, tanta gente as quebra e com consequências bastante nocivas para si e para os outros. Há sempre alguém que anda distraído, que quer fugir às responsabilidades ou que simplesmente é egoísta.

Às voltas no Google achei quem comparasse o karma à terceira lei de Newton, que diz que para cada acção há sempre uma reacção correspondente, oposta e da mesma intensidade. A diferença é que, ao contrário da lei de Newton, o karma não tem qualquer fundamento e não pode ser comprovado. Sejamos justos para com Newton e a genialidade de traduzir o que se observa por leis bem fundamentadas. O karma é mais comparável à verborreia d’”O Segredo”, que diz que para cada um dos nossos desejos existe uma reacção do universo. Diz, simplesmente… Sem argumentos, como os livros sagrados. As provas dadas não passam de um punhado de casos insólitos baseados unicamente em testemunhos pessoais e subjectivos, daqueles que podem ter 50 explicações possíveis.

Mas é de facto complexo considerar o livre-arbítrio, as leis físicas e o karma enquanto lei, tudo na mesma equação. Algo não bate certo. Imaginemos que eu estou a mudar uma lâmpada, ocorre um tremor de terra e caio do escadote abaixo. A lei do karma dirá que a queda foi uma reacção do universo a uma acção imoral que fiz nesta ou noutra vida (talvez eu tenha feito alguém cair de um escadote). Mas fui eu que decidi ir mudar a lâmpada, e se tenho livre-arbítrio isso quer dizer que não o fiz por influência da lei do karma mas unicamente pela minha própria vontade (à luz desta hipótese o karma não me influencia as decisões). O karma terá, então, encontrado uma oportunidade propícia para executar uma reacção quando eu estava em cima do escadote e mandou-me abaixo. Por outro lado, uma placa tectónica ter-se-á deslocado e causado o tremor-de-terra que me fez fisicamente cair. Qual foi, então, a causa da minha queda: o karma ou a placa tectónica? Terá o universo, para engendrar a reacção kármica, decidido fazer tremer uma cidade inteira só para que eu caísse do escadote? Ou será que a reacção se destinava a todas as pessoas da cidade, tal implicando que nesta ou noutras vidas elas fizeram coisas equivalentes a atirar pessoas de escadotes abaixo?

Não é por acaso que se chamam “mestres” aos que se atribui o entendimento destes temas, porque de facto deve ser necessária muita mestria para se dominar uma lógica que não existe.

Devemos pensar sobre isso. Que sentido é que a reencarnação pode dar à existência? Que tipo de mundo é que cria, ou que criamos com ela, se a levarmos a sério? Necessariamente um mundo sem justiça. Se a maioria acreditar que é o universo, ou um deus, que se encarrega da justiça ao longo das vidas, então tentar fazer justiça por nós será uma violação da lei universal ou mesmo um sacrilégio. Acaba-se com os tribunais, com todo o sistema judicial que inventámos, com as nossas leis. Cada um passa a fazer o que lhe apetece, fazer o mal passa a ser fazer o bem – sob qualquer moral. Massacrar uma pessoa será ajudá-la a evoluir. Causar sofrimento será  acelerar a evolução. “Mass murder” será sinónimo de “santo curandeiro”. 

Cada um é que tem de sentir que sentido quer dar à sua própria vida. Se for satisfatório imaginar que a complexidade do mundo que nos rodeia é fruto de um mero acaso, que vida e morte e mente e corpo são qualquer coisa com ponto final sem parágrafo, então está bem. Mas parece-me incorrecto que se afirme que o conceito de reencarnação seja o de retirar justiça ao mundo. É, até, exactamente o contrário. Ninguém sai “impune”, cada um é chamado às suas responsabilidades, para o bom e.. para o menos bom. As aulas que frequentamos para assumir essas responsabilidades é que podem não ter o professor com o perfil que se imagina, nem decorrem com  ritmo e características lineares para o vulgar pensamento racional. Os tribunais, tais como os conhecemos, são regidos por pessoas como as outras. Têm, de facto, uma responsabilidade acrescida pela autoridade e poder que lhe foram conferidos. Por conseguinte, passíveis de falhar ou de se deixar corromper. A virtude está em ser-se capaz de recusar sucumbir às tentações, que são  proporcionais ao tamanho da responsabilidade. A preocupação deverá ser connosco, saber quem somos e que caminho de vida queremos percorrer. Se os outros fizerem porcaria e nos atingirem, conseguiremos mesmo assim seguir em frente. A força interior obtém-se pela firmeza aos nossos princípios e à nossa consciência tranquila.

Conhecendo um pouco da história e da natureza humanas, não vejo como é que o fim da lei e da ordem estabelecidas pelos próprios homens possa dar algum resultado justo. Ou os crentes admitem que o livre arbítrio é uma ilusão, e que portanto todo o “mal” que as pessoas provocam é feito, não por elas, mas pelo universo/deus em nome de uma justiça transcendente; ou insistem na ideia do livre arbítrio e abandonam a da justiça kármica. Porque se as pessoas tiverem a capacidade de decidir e fazer mal o universo/deus deixa de as poder usar para aplicar a justiça kármica.

Mas talvez não tenha percebido bem. Talvez as pessoas tenham livre arbítrio e o universo se limite às natureza não-humana para aplicar a justiça kármica. Imaginemos uma pessoa a que acontece algo doloroso: se a causa desse mal tiver sido outra pessoa, dizemos que foi livre-arbítrio; mas se a causa tiver sido proveniente de um animal, uma inundação, uma doença ou outra coisa sem livre-arbítrio, dizemos que é o universo a fazer justiça. Será assim? Por um lado temos o livre-arbítrio a permitir fazer o mal, por outro temos as forças universais a corrigir a liberdade excessiva através da natureza. Ainda assim é estranho. Poderemos assumir as catástrofes naturais e as epidemias, por exemplo, em que morrem milhares aparentemente sem critério, como uma manifestação da infalível justiça divina? Para mim isso é uma ideia sinistra que mais se aproxima do Deus susceptível e vingativo do Antigo Testamento, que mandava destruir cidades se não lhe prestassem o devido culto, do que da verdade e da justiça.

Como em relação ao karma, também a reencarnação vem em vários sabores. Alguns consideram que todos os seres estão sujeitos a esta lei, outros que apenas os humanos lhe obedecem. Cada ser tem uma “alma” que vai migrando de corpo para corpo. Os hindus acreditam que as almas escolhem o corpo que querem encarnar, podendo recusar-se a fazê-lo quando, já muito evoluídas, percebem que os prazeres carnais não são suficientes. Então e se de repente todas as almas se recusarem a encarnar? Isto irá eventualmente acontecer quando todas evoluirem… O mundo carnal terá então um grande problema: vão começar a nascer bebés que não serão ocupados por qualquer alma. Mas os hindus não se preocupam com estes detalhes.

O conceito de reencarnação, tal como sudece com as religiões, tem várias interpretações. Esta está certa e a outra é que está errada? É como tentar ver se é a católica a correcta e a judaica errada… Ambas possuem um bocadinho do melhor e do pior… Não sei, estatisticamente, quantos espíritos se recusam a voltar a encarnar. No outro plano, as coisas não se quantificam como no plano em que estamos a habitar. Claro que haverá as que se recusam, daí dizer-se que ficam a pairar algures entre o céu e a terra, até terem um rasgo de lucidez. Não há pessoas mais teimosas que outras, umas que compreendem as coisas mais rapidamente que outras? Portanto, a questão que eu colocaria não era a de nascerem bebés sem espírito, mas sim como haverá tantos espíritos para encarnar se a população cresce de dia para dia?

É uma boa questão, a do crescimento demográfico. Não achei nenhum sítio que o explicasse, se calhar nem os livros sagrados se preocupam com tão ínfimo pormenor. Mas um crente pode facilmente argumentar que no início do universo foi criado um colossal “PEZ dispenser” de espíritos que, há medida que vão havendo corpos para habitar, vai sendo esvaziado. Ou outra parvoíce qualquer.

Penso que a abordagem do meio termo não se aplica às religiões. Cada religião tem um ou mais livros sagrados escritos por desígnio celeste – é a palavra de um deus ou deuses que ali faz desabar, sobre o humano ignorante, toda a verdade, sem concessões. Quem acredita no hinduísmo não pode acreditar no siquismo ou no cristianismo. Não pode sequer pensar que os seus livros não contam toda a verdade, que apenas estão 99% certos e o restante 1% de verdade está em livros de outras crenças. Não é assim porque são sistemas fechados de conhecimento. Não foram concebidos como um meio, como a ciência e a filosofia; antes foram concebidos como um fim. E a partir do fim não há mais nada.

Não, no hinduísmo não há pessoas a pairar entre o céu e a terra por teimosia ou falta de lucidez. Para os hindus os espíritos que já não querem reencarnar não são teimosos ou imbecis – são evoluídos (um mérito que temos de reconhecer nas religiões é a sua fenomenal capacidade de exprimir de tantas maneiras criativas e elevadas o conceito de imbecilidade). Para eles isso significa a libertação total das tentações carnais – o último estádio de evolução. O que seria muito bom que fosse verdade já que, mais tarde ou mais cedo, deixaria de haver hindus sobre a Terra (infelizmente os números, quase sempre adversos à fé –malditos sejam os números-, indicam uma tendência oposta).

Os siquistas acreditam que podemos regredir. Se o karma for muito mau, podemos reencarnar numa forma de vida inferior, como um animal ou um fantasma (?). Deduzo que aqui não exista escolha – reencarna-se como castigo ou recompensa. No limite da evolução a alma une-se a deus (que pode perdoar algum karma) e o ciclo de reencarnações termina. Fica por saber se esse deus consegue criar mais almas para preencher os corpos que vão nascendo. Se, pelo contrário, não existirem corpos suficientes para albergar todas as almas, será que estas ficam em lista de espera? E se uma alma tiver um karma terrível mas só existirem formas de vida superior para reencarnar? E se tiver um karma bom mas só existirem formas de vida inferior disponíveis? Nesse caso, o Ghandi poderia, por hipótese, reencarnar numa bactéria? “Temos pena, foste um homem bom e tudo, mas este estreptococus era o melhor que havia disponível… Para a próxima morre mais cedo”. 

Eis outra questão interessante, mas cuja resposta será a que melhor servir a cada um. Se existem vários Reinos, faria mais sentido que a reencarnação obedecesse a uma escala ascendente. Primeiro, experienciava-se o Reino Mineral, até se chegar à perfeição sob a forma do ouro ou do diamante. Depois, o Vegetal, culminando nas plantas que podem ser utilizadas para curar. Em seguida, o Animal, talvez o cão ou o cavalo possam ser o estádio máximo do seu Reino. E, por fim, o Homem. Não sei se será coerente falar-se em regressão no sentido de saltar do Homem para o Mineral, quando estagnação se ajusta melhor. Parar pode conduzir a uma inevitável regressão, faz sentido. Tendo um karma terrível para resgatar nesta vida, um espírito não necessita de entrar no corpo de um réptil ou de uma bactéria. Bastar-lhe-á vir, por exemplo, num corpo deformado ou hediondo. Ter de enfrentar o mundo “mascarado” com um corpo assim não me parece tarefa nada simples. E é para toda a vida.

Mas será que a matéria se ajusta às necessidades da reencarnação? Isto é, será que se um espírito com mau karma precisar de reencarnar num corpo deformado esse corpo deformado será criado, por milagre, para servir o propósito? E os pais desse “corpo”, como vão viver? Será que viverão felizes e descontraídos porque compreendem que o seu filho é apenas um meio para um espírito qualquer (que não conhecem) evoluir, ou será que vão lamentar muitas vezes a sua sorte terrível e, sobretudo, a sorte do seu filho?

Também o Cristianismo contempla manipulação genética para servir o mundo espiritual. O que é a Virgem Maria senão um bocado de matéria manipulado para servir os desígnios de Deus? Talvez ela tenha pensado, várias vezes, enquanto fugia ao infanticídio de Herodes, “maldito messias, não fosses tu e tinha uma vida normal”, e outras vezes, ao perceber que o messias era o seu filho, ou ao vê-lo sofrer injustamente, “que terei feito eu para merecer esta merda?”.

Resumindo, parece-me que a única forma destas teorias do karma e da reencarnação se manterem “em pé” é olhando apenas para o indivíduo e nunca para o sistema. Porque para fazer, por este meio, justiça a um indivíduo é imperativo injustiçar outros, é necessário tirar esses outros da equação para a coisa fazer sentido. Desde que se acredite que não existe mais ninguém talvez se possa crer no karma. Talvez o solipsismo ajude.

É curioso como tanto ênfase é posto no mundo espiritual e tão pouco no material quando ao mesmo tempo se diz que a evolução se faz exclusivamente sobre a materialíssima Terra – sobre o que fazemos ou não fazemos nesse plano inferior. Porque será a matéria o meio da evolução, das acções, das reacções, da justiça…? Talvez não exista outro meio enquanto não passamos de animais na escala evolutiva dos “kármicos”, mas quando chegamos a seres pensantes não seria mais lógico sermos julgados, com ou sem corpo, pela actividade intelectual? Se o mundo físico é secundário, porque interessa tanto que façamos boas ou más acções na Terra? Não seria mais importante termos bons ou maus pensamentos? E para isso é preciso reencarnar em matéria?

O budista não acredita na reencarnação, preferindo a palavra “renascimento”. Acredita que o fim de um ser é o início de outro, talvez por uma questão de energia ou outra coisa do género. O “eu”, no budismo, termina com o corpo. Não existem almas que transmigram. No entanto, em termos de karma, é quase a mesma coisa, com a diferença de ser pior. O karma será parte dessa energia que dá origem a um novo ser, pelo que se nasce culpado dos erros de outros. O budismo nem deixa, portanto, que o karma seja nosso, proveniente dos nossos erros noutras nossas vidas; em vez disso marca-nos à nascença, não sei com que critério ou justiça, com um karma proveniente de erros alheios de que não temos qualquer culpa, conseguindo ser ainda mais injusto e absurdo que o siquismo, o hinduismo e o jainismo. Ao mesmo tempo que proclama as suas belas verdades à volta do sofrimento, os seus nobres princípios e o seu caminho conseguido pela paz interior, o budismo vai praticando acupunctura com longas e afiadas bandarilhas. E os que crêem , dormentes, pacificados e vegetarianos, aplaudem e agradecem. “É melhor do que uma religião, porque não tem Deus…”, “É melhor que uma filosofia, porque oferece um caminho espiritual…”, dizem os budistas com um sorriso no rosto e os ferros nos chacras, confortados com uma ideia que lhes substitui gradualmente as paixões por sofrimento ou, pior ainda, pelo nirvana, que é coisa nenhuma.

Reencarnação ou renascimento… Parece-me mais um sinónimo que outra coisa. Mas isso é só um pormenor. Desconheço o que defende o Budismo em detalhe, mas do que dizes parece-me que está a falar da nossa responsabilidade enquanto elementos de uma família/sociedade/cultura/país… Os erros que a nossa “tribo” comete também nos dizem respeito e, inevitavelmente, afectam. Se o teu filho provocar um problema, também vais ser chamado à responsabilidade, não é? A diferença entre haver um Deus ou não haver é que, havendo um Deus, tudo o que acontece é vontade sua. Se for desgraça, ele é o culpado e o injusto. Se for graça, é uma festa! Não havendo essa figura, só podes contar contigo e com contigo apenas. Não tens linhas morais que te guiem, tens de ser tu a descobrir e a trilhar o teu caminho, com as suas consequências. Se correr bem, fazes uma festa. Se correr mal, só te tens a ti para responsabilizar. Além da questão do pecado. Deus condena tudo o que fizeres e impele-te a ser um desgraçado e sofredor a vida inteira. Vê o caso das mulheres – por termos mordido a porra da maçã merecemos as dores do parto e do sangramento mensal e por aí adiante; a igreja católica foi ao ponto de queimar como bruxas as mulheres que conheciam as artes do parto sem dor, porque era um sofrimento merecido. Ora, quando encaras a vida fora de uma religião, de um Deus, o conceito de pecado não existe. Escolhes as experiências que queres e deves ter para aprenderes o que achas que deves aprender. O que serve para uns, não serve para outros. Por isso, há que encontrar a medida certa para si. “Age correctamente, de tal forma que o teu comportamento se torne uma máxima universal” (Kant) Isto representa evolução, busca do auto-conhecimento, do respeito por si e pelos outros.

Não é bem assim. O budismo não diz “vamos todos descobrir tudo por nós próprios, incluindo a moral”. No budismo é preciso obedecer a princípios e regras de conduta, que é o mesmo que dizer obedecer a uma moral. Pode-se defender que essas regras são melhores ou piores do que as doutros credos, mas elas são uma parte essencial do budismo – tal como o conceito de karma para ameaçar os que não as cumprirem.

O “vamos descobrir tudo por nós próprios” chama-se filosofia. Kant estaria bem citado se não estivesse embutido num parágrafo a defender o budismo (pobre Immanuel, tenhamos dó).

As ideias de karma e reencarnação foram criadas para fins específicos – para impingir uma ou outra moral, para ameaçar os crentes de forma a não descarrilarem para outro sistema de crenças. Mas porque é que tantos acreditam nessas ideias? A resposta óbvia e feia é: porque são esculpidos a martelo para acreditar nisso desde a infância. Ou talvez, numa atitude mais lírica, porque o acaso não seja bem recebido. Precisamos de uma explicação para os males do mundo, e o acaso (ou o azar) não serve porque não podemos fazer nada para o remediar. Para o karma, o pecado, os demónios, existe esperança de cura. O abandono do espírito crítico e a clausura num sistema de crenças absurdo e sinistro passa a ser um preço justo a pagar por um remédio contra os males que nos aterrorizam. Com isso podemos comprar a esperança de um caminho de evolução que nos vai levar até um deus, ou pelo menos até um ser sem sofrimento – um bem maior que justificará e acalmará todos os sofrimentos da vida, incluindo a ausência de razão.

A religião é que não permite a discussão e a dúvida. Porque em si, através do seu livro sagrado, encerra tudo o que pode e não pode ser, o que está correcto e o que deve ser punido. A religião é que impõe a moral e o comportamento, sobretudo através do medo do desconhecido. A católica e a muçulmana têm sido mestres nesta estratégia de recrutamento de fiéis. Quando tens alguém que quer pensar por si, que não receia falhar nas suas escolhas e assume os seus erros como fazendo parte do seu percurso de vida, tens alguém que não aceita qualquer suposta verdade que lhe tentem impôr, não vive com medo do desconhecido e apresenta-se como alguém corajoso e capaz de se defender. O fiel submisso aceita tudo, até odiar quem a igreja lhe dita que odeie. Quando mais tacanho, melhor submisso. Se for muito estudado, provavelmente encarará a religião como uma forma de exercer poder sobre os fracos. Optando pelo gnosticismo e pelo conceito de reencarnação ou renascimento, estás por tua conta. Em cada instante, tens de afinar o equilíbrio entre emoção e razão. Portanto, muito longe disso que defendes (ausência de razão). A religião representa a refeição passada; o gnosticismo / reencarnação representam a refeição para mastigar.

Nem o hinduismo, nem o siquismo, nem o jainismo são gnósticos. São também religiões, como o cristianismo, o judaismo e o islamismo, padecendo das mesmas características. O budismo, não possuindo um deus sequer, não cabe na definição de religião; no entanto também tem os seus livros “sagrados” a que o crente não pode escapar e também não é gnóstico.

A confusão é no entanto inevitável porque os sistemas de crenças se alimentam uns dos outros. O gnosticismo é também um sistema de crenças irracional, só que (ainda) mais obscuro. Exige mais da razão, é certo, mas unicamente para se poder compreendê-lo e não para descobrir a verdade (é claro que quem, por preconceito, nele acredita dirá que ao compreendê-lo achará também a verdade, mas isso não é muito diferente de assumir que qualquer livro sagrado tem a verdade e que lê-lo é adquirir conhecimento).

A raiz do gnosticismo é cristã. Também ele é uma interpretação do Velho e do Novo Testamento. A diferença está justamente nessa interpretação, supostamente mais acertada que a das igrejas cristãs e outros movimentos. Os gnósticos defendem uma (ou várias?) leitura alternativa da Bíblia que, à luz de uma sabedoria antiga e hermética (querendo isto dizer que não é para qualquer um) que nenhuma religião possui (apenas os gnósticos), revela a verdadeira palavra de Deus.

Deus, para eles, é um conceito tão ambíguo como todos os outros. É certo que acreditam nalguma coisa desse género, algo que tem pelo menos o papel criador e regulador de Deus. De reencarnação e karma, no âmbito do gnosticismo, nunca ouvi falar. Vi um esquema, uma vez, num livro rosacruciano, que mostrava que esta vida na Terra era apenas uma parte pequena de toda a existência, mas não sei se isso implicava reencarnações ou não. Estou aberto a revelações.

Resumindo, só para chatear, o gnosticismo é uma espécie de religião cristã elitista. Possui um conhecimento que não pode ser entendido senão por gnósticos. A História mostra-o: desde que surgiu no século II foi sempre respirando, ao longo dos séculos, através de ordens elitistas e pejadas de segredos como os Templários, a Ordem de Cristo, as ordens rosacrucianas e maçónicas. Nunca foi (como poderia?) um assunto de massas.

Aparentemente, ao afirmar que o Homem se liberta através da Sabedoria, o gnosticismo parece defender a razão. Mas não é assim. A sabedoria de que o gnosticismo fala tem um carácter intuitivo e é adquirida, como se pode adivinhar, através do caminho gnóstico, ou seja, das interpretações gnósticas ensinadas pelas ordens gnósticas tendo por base obras antigas. Não pela razão. Quando a prova de um suposto conhecimento é estar escrito num livro antigo, e não numa cadeia de deduções lógicas baseadas na observação ou numa teoria comprovada, está tudo dito.

Reconheço, contudo, uma grande virtude no gnosticismo: a de falar por símbolos e interpretações obscuras. Em vez de revelar o que poderia ser um grande disparate à luz da ciência actual (como o das partículas de karma dos jainistas), sobe o nível de abstracção e fala por símbolos, enigmas e esquemas que merecem mil interpretações, escapando do ridículo e conseguindo ao mesmo tempo um efeito sublime nos nossos neurónios. É de longe mais criativo, e estimula muito mais a mente, do que as religiões de massas. Consegue ser neste aspecto superior a divertimentos como os legos e certos jogos de computador, e até a demonstrações matemáticas e exercícios de física, porque os símbolos, apesar de estarem altos no nível de abstracção, muitas vezes se ligam (como faz a poesia, mas dando a ilusão que explicam) a emoções profundas, partes de nós que acreditamos existirem na nossa essência e que subitamente julgamos ver, por magia, reveladas num esquema gnóstico. Não foram poucos, ou pelo menos pequenos (que sei eu destas estatísticas…), os artistas e até cientistas (como Newton) inspirados por esta arte de tocar o inalcansável.

Como método de conhecimento, lamento dizê-lo, mais se aproxima da verdade universal o almanaque “Borda D’Água” do que qualquer ordem gnóstica. O gnosticismo não tem método senão para chegar ao próprio gnosticismo. Pode funcionar como uma droga, para impulsionar, mas jamais para conhecer alguma coisa e muito menos para registar e transmitir eficazmente esse conhecimento (condição indispensável para que outros continuem o esforço honesto de atingir a verdade), como faz a ciência.

 

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Recebi uma resposta interessante e elaborada (que agradeço) ao meu post sobre o karma e a reencarnação, à qual, por ser uma coisa rara, respondi. “Pois sim”, colocará o leitor, “mas que tenho eu com isso?”. Nada. Porém, só para chatear, vou aqui neste espaço partilhar todo o texto, incluindo o original (a cinzento), as respostas (a vermelho) e as contra-respostas (a preto). Depois do asterisco.

 

*
(asterisco)

 

O karma, como muitos conceitos metafísicos, é como uma barraca de gelados estragados: vem em diversos sabores e todos sabem particularmente mal.  

… E será que são os gelados que sabem todos mal, ou serão as papilas gustativas que, antecipadamente cépticas, não aceitam nenhum como saboroso?

Não é uma questão de gosto, mas de verdade.

O cepticismo – o bom cepticismo – justifica as suas posições. Não segue as linhas da fé, que encontra justificação suficiente em dogmas provenientes de livros sagrados ou de convicções pessoais e subjectivas.

Justifiquei, ao longo do texto, a minha antipatia não só pelas ideias de karma e reencarnação como pela forma como são introduzidas e mantidas nas mentes de cada um, que é idêntica à de qualquer preconceito inimigo da razão.

Algumas versões implicam um deus que pode aumentar e diminuir o karma de um indivíduo consoante os caprichos celestes; outras não implicam um deus, afirmando o karma como uma lei natural.

Sem propriedade académica, diria que, de uma maneira geral, o karma será uma lei natural. Naturalmente, qualquer corrente faz as suas adaptações, tal como as religões o fazem, cada um interpretando como entende.

O hinduismo é politeísta e o siquismo monoteísta. Segundo a página http://www.adherents.com/Religions_By_Adherents.html, o hinduísmo tem 900 milhões de crentes e o siquismo 23 milhões, ou seja, são mais do que as azeitonas e todos têm de acreditar que o karma é decidido por um ou mais deuses.

A diferença entre ser uma lei natural ou uma lei divina não é pequena. A existência de um deus é relevante porque esse deus pode abrir excepções à lei, enquanto na natureza as excepções não existem. O crente com deus tem de moldar a sua vida e o seu pensamento para satisfazer os caprichos desse deus, e se o fizer bem pode ter como recompensa uma diminuição significativa do seu karma mau sem ter trabalhado para isso (é mais ou menos como subornar com sucesso um juiz); o crente sem deus está sozinho com o universo, sem atalhos, em situação de igualdade com os outros, e tem de se desenrascar sozinho, carregando um ónus de responsabilidade muito maior.

O Jainismo enquadra-se no segundo grupo. Os jainistas pensam no karma como um monte de partículas microscópicas que andam à solta no universo e são atraídas pelas almas das pessoas (consoante as “vibrações” destas). Contem-se os séculos de evolução racional que se precisam de esquecer para acreditar nisto: é preciso crer que existem partículas com matéria muito próximas de nós que não se enquadram na Tabela Periódica nem são detectadas pelos mais avançados instrumentos. Os seres humanos conseguem, com o equipamento actual, saber a composição química de estrelas distantes – e no entanto não atingem a presença de partículas que andam à volta das suas cabeças como uma espécie de caspa microscópica. Talvez seja por serem atraídas pela alma, uma coisa também indetectável…

Infelizmente para os não-crentes no invisível, há coisas que dificilmente poderão ser comprovadas cientificamente. Aqui, entra o campo do ser e do sentir mais profundos ao qual uns serão mais ou menos sensíveis, de acordo com a sua capacidade de acreditar.

“Não-crentes no invisível” é uma designação imprópria para os que seguem a via científica do conhecimento. “Não-crentes”, simplesmente, é mais adequada, já que a ciência lida com o visível e o invisível e nunca se satisfaz completamente com o conhecimento adquirido (ao contrário da religião, que assume à partida que o seu “conhecimento” é o verdadeiro e tenta refutar ou abafar tudo o que o contradiga).

A física lida com partículas que apenas supõe existirem pelas teorias actuais, como as de anti-matéria; lida com hipóteses objectivas, não com certezas subjectivas. Um buraco negro é uma hipótese teórica. É impossível ver um buraco negro porque por definição não deixa escapar luz. Julgamos que existe um buraco negro aqui ou ali porque supomos que, à volta dele, girará matéria que liberta energia visível. Também não vemos os conceitos matemáticos – mas nenhum cientista vai recusar o uso da matemática só porque não a vê ou porque não pode pontapear conceitos com o pé como faz às pedras.

Os sentimentos, em si, não são uma boa fonte de conhecimento. Na verdade quando falamos de sentimentos estamos a falar de uma interpretação deles, já viciada pelos nossos preconceitos e modo de pensar. Alguém lhe ocorre pensar na reencarnação, ou no karma, só porque teve um sentimento especial, sem antes ter tido contacto com essas ideias? Penso que não. Teriam os pastorinhos visto Fátima se antes desse “evento” que foi a “aparição” não tivessem tido uma educação fortemente católica? Certamente não. Se tivessem tido uma educação islâmica julgariam ter visto um Maomé efeminado em vez da Nossa Senhora, e se tivessem sido criadas num ambiente mentalmente são teriam fugido do fantasma do Scooby Doo (depois de atirarem algumas pedras para ver se morria).

Com os sentimentos passa-se o mesmo. A interpretação que lhes damos depende dos preconceitos adquiridos, algo que é uma mina de ouro para qualquer sistema de crenças: uma vez que o crente seja “iniciado” irá converter sentimentos, sonhos, todo o tipo de impressões vagas naquilo em que já acredita, e tudo (excepto a razão) servirá para reforçar a sua fé. Ao contrário, o método científico questiona, testa e raciocina antes de tirar conclusões.

Algumas versões do karma dizem que apenas acções podem gerar karma (versão “rédea solta”), enquanto outras dizem que também os pensamentos o podem fazer (versão “rédea curta”).

Um pensamento gerar um karma? Se o fará directamente, não sei, não tinha pensado sobre isso. Porém, um pensamento pode ser bastante mais do que uma mera distracção mental, pode produzir efeitos. O bater de asas de uma borboleta no Japão não é capaz de provocar um tremor de terra no outro lado do mundo??

É uma falsa questão, primeiro porque as borboletas não pensam, segundo porque bater as asas não é um pensamento e terceiro porque os tremores de terra não têm uma origem atmosférica. O exemplo do efeito borboleta é dado com um tornado e no contexto do sistema caótico que é a atmosfera. A atmosfera é caótica no sentido de ser imprevisível. Um pequeno acontecimento pode escalar e gerar um de grandes proporções. Mas isso não quer dizer que se possa culpar a borboleta pelo tornado. Ela é apenas uma variável na imensa equação atmosférica.

Seja como for, há evidentemente pensamentos que geram atrocidades, mas os pensamentos que geram karma são de outro tipo: do tipo dos que contradizem a crença. Muitas “fés”, e acho que é o caso, defendem-se da razão por meio de ameaças – ameaças profundas, incutidas nos crentes desde cedo, como é o caso do inferno e do mau karma, e é daí que vem o truque do “pensamento mau”. Também os cristãos são educados para acreditar que todos os seus pensamentos são ouvidos (e julgados) por Deus em real time. Vai dar ao mesmo.

O que é o karma? Um disparate sinistro? Um meio pouco subtil de obrigar o indivíduo a não pensar e agir contra um sistema de crenças? Uma cuspidela na virtude platónica da Justiça? Tudo isso e com sabor a mofo. O karma resume-se a uma lei de causalidade. Esta é a ideia principal: “tu tens o que mereces”. Se fazes o bem, és recompensado; se fazes o mal, és castigado. Dito por outras palavras porque a intenção (do universo, ou do deus…) não é recompensar nem castigar, parece que é apenas fazer o que tem a fazer, ou ajudar a evoluir, embora para o indivíduo o resultado seja igualmente doloroso.

Quem disse que o karma passa necessariamente pelo sofrimento? Os católicos (e talvez outros) é que defendem o pecado e o sofrimento, assinam a vida como algo temeroso. O karma só será doloroso para quem não aceitar que a uma acção sucede uma reacção. Se passares a vida a gozar com os outros, esperas regressar como um herói aclamado? A seu tempo, reconhecerás como agiste de forma infeliz para com os outros, e naturalmente ser-te-á dado (ou escolhido por ti próprio) um desafio para ultrapassares o que fizeste. Poderá não será algo do género olho por olho e dente por dente. O que significa passar a vida a gozar com os outros? Significa não respeitar nada ao redor, não ser capaz de dar valor ao que existe. E, depois, por que razão gozas com os outros? Que motivação? Sentimento de inferioridade, de superioridade? Só analisando a questão numa perspectiva menos linear poderás tentar compreender a reacção que advém de uma acção. Se ao aceitares o desafio o compreenderes e aprenderes com ele (p.ex., a respeitar os outros), é claro que não vai ser doloroso e é claro que resgatarás o karma muito facilmente. O problema é sempre aceitar aprender…

O problema é saber o que gera karma positivo e negativo. Gozar com os outros é mau? Porquê? Se gozarmos com pessoas más, isso é mau? Se há um plano do universo para castigar essas pessoas, não estaremos a fazer parte desse plano, estando assim ao serviço da evolução? E se gozarmos com pessoas boas, não estaremos também a fazer parte desse plano bom? Se estamos a gozar com elas é porque fizeram alguma coisa errada numa vida anterior. Senão não sentiríamos o impulso de gozar. Se sentimos esse impulso, é porque o universo assim o deseja, e não vejo que a perspectiva “kármica” permita alguma margem de erro ao universo (ou ao deus).

E se não tivermos consciência que estamos a gozar? Será isso igual a gozar conscientemente? As crianças gozam umas com as outras sem consciência disso. Não pensam se estão a fazer bem ou mal, apenas gozam – porque é divertido, porque as outras fazem o mesmo, porque… é um impulso natural. Num universo tão bem equilibrado como é o da reencarnação e do karma porque é que se nascerá com impulsos “maus”?

Em suma, não é diferente do cristianismo. Existe uma equivalência entre “bênção” e “karma positivo”, bem como entre “pecado” e “karma negativo”. A diferença está no meio de pagamento: no cristianismo temos o Paraíso e o Inferno, bem estar ou mal estar eternos; nos sistemas “kármicos” temos o pagamento na própria Terra (não sei se se poderá reencarnar noutros planetas…), em vidas posteriores.

É claro que, como muitos mecanismos de controlo, envolve a noção de bem e de mal, ou seja, exige uma moral de suporte. Se o karma é universal e se aplica a todos, não faria sentido que o bem e o mal fossem relativos. Têm de ser absolutos. E onde se encontram? Nos livros sagrados, inevitavelmente. Nos Vedas. Nos “Granths”. Mesmo o sistema panhonho e letárgico do budismo atravessa, por estes meios, o freio no sorriso dos seus crentes. “Queres diminuir o karma? Ora vê lá como… é de borla. Podes fazer coisas boas e sofrer com alegria no meio de muita luz ou então fazer coisas más e sofrer ainda mais, contrariado e envolto em escuridão.”

É possível libertar o karma de outras maneiras além do sofrimento involuntário e das “boas” (as aspas querem insinuar “sempre relativas”) acções: através do jejum, da mortificação do corpo, da meditação e do isolamento. É por isso que geralmente a religião é uma terra muito distante e disjunta da filosofia: porque quem começar a fazer perguntas inevitavelmente encontra, em vez de justificações, o absurdo. Imaginemos que um ser faz um monte de atrocidades numa das suas vidas, acumulando karma; porque é que na vida seguinte esse karma se há-de reduzir através do jejum? Que tipo de justiça possui um universo, ou deus, que perdoa crimes hediondos se o criminoso deixar de se alimentar durante uns dias? “Violaste e mataste 30 velhinhas? Não há problema – deixa algum tempo o estômago vazio e nada te acontecerá”.

Já pensaste que não é com o estômago empanturrado até ao limite que te surgem as melhores ideias? Já pensaste que não era depois de um cozido à portuguesa que ias fazer ioga e meditação? Já pensaste que quando tens o espírito “alimentado” (pensa numa coisa que te dê imenso prazer – ler um livro, jogar no computador) nem te lembras que tens fome??  Comentando o que dizes neste parágrafo, não sei onde foste ler tal disparate que diz que o jejum, por si, resgata o karma. É tão absurdo. Também não sei onde foste buscar essa ideia de que na pespectiva do karma não são admitidas dúvidas ou perguntas. Pois se a vida de um asceta e de um gnóstico cada momento é composto de uma reflexão, de uma questão, de uma busca. Logo, karma e evolução passam obrigatoriamente por se fazer perguntas – mas as perguntas certas, não as disparatadas.

O jejum é cientificamente bom se realizado antes, e às vezes depois, de uma cirurgia. Fora disso, talvez faça uma limpeza ao corpo, que talvez seja boa. Mas fazer bem ou mal ao espírito, não sei. Isso das ideias dependerem do estado estômago faz-me lembrar o João da Ega, n’”Os Maias”, a dizer que só conseguia pensar depois do pequeno-almoço. Talvez ele esteja certo e o Ghandi errado, ou talvez o oposto. Que se faça um estudo científico: teste-se o QI a uma série de indivíduos antes e depois de um farto prândio para ver se há relação entre o estômago e a inteligência. A minha opinião pessoal é que é mais difícil reflectir com fome, porque a fome distrai, é uma voz que está sempre a dizer “panquecas”, “batatas fritas” ou outra coisa das que não ligam muito bem com filosofia. Claro que eu tenho o preconceito de ligar o espírito a “raciocínio lógico” e não a “nirvana”, que me parece ser a ausência de espírito. Talvez a ausência de comida case feliz com a ausência de espírito e vice-versa.

Os jainistas, confirmadamente, acreditam que podem reduzir o karma através de jejuns (http://pt.wikipedia.org/wiki/Jainismo). Concordo que é absurdo, tão absurdo como dizerem que existem partículas de karma magnetizadas por boas ou más acções, mas é o que defendem.

Dizeis que um asceta faz “as perguntas certas”… Mas o que são as perguntas certas? Para mim, são as perguntas lógicas. Para ele, são as perguntas que reforçam a sua fé e jamais a põem em questão. É livre para descobrir tudo no universo – excepto os seus próprios enganos.

Esta ideia torna-se, além de aberrante, sinistra e cruel quando se lhe junta a ideia da reencarnação (o budismo não o faz frontalmente, mas para o siquismo, o hinduismo e o jainismo, as outras grandes religiões da Índia, é um conceito assumido e fundamental). Neste contexto a reencarnação costuma ser um processo demente de evolução em que é suposto um ser aprender ao longo das suas muitas vidas sem se poder lembrar, na vida presente, do que aprendeu nas anteriores. Por um lado oferece um propósito para a existência, mas por outro retira tudo o que poderia dar sentido a esse propósito. O ser tem de evoluir dentro da sua vida corrente para aprender a lembrar-se de alguma coisa das vidas passadas – e saber interpretá-lo correctamente, senão só evolui por acaso. 

Estás diante de um jogo com algumas dificuldades e armadilhas, mas com um objectivo para alcançar. Se a priori te forem dadas as regras, o que irás aprender com ele? Se já sabes tudo, como poderás apreender, compreender e interiorizar? Talvez seja essa a razão por que a memória das vidas passadas não está totalmente activa. No entanto, penso que cada pessoa que se procure interiormente é capaz de reconhecer algumas coisas que poderá ter trazido de outra vida. Para isto, é necessário ter-se muita atenção no que se faz, no que se pensa, no que se deseja.

Isso é como não dar lições de pilotagem a uma pessoa, metê-la sozinha num avião e dizer-lhe: “agora apreende, compreende e interioriza. Procura dentro de ti a sabedoria necessária para voar. Tens, algures no cérebro, o brevet – medita e descobri-lo-ás”.

Até hoje ainda não apareceu ninguém que soubesse conduzir, ou fazer outra coisa qualquer que não venha com o ADN, sem aprender. Porque será necessário um sistema de ensino que exige, a um ser humano civilizado, tantos anos de aprendizagem, se o conhecimento transita de vida para vida e basta meditar para adquirir tudo outra vez? Ensine-se, então, a meditação, a busca interior, a evolução espiritual em vez de tudo o resto. Tirem-se as crianças da escola – para quê reaprender, através de um método que demora anos e exige esforço, o que já se sabe? Acorde-se, simplesmente, o conhecimento.

Mas não se acorda. Até o Dalai Lama precisa de professores convencionais. Apesar de se fazer teoria geral destas matérias são sempre uns poucos iluminados que têm (supostamente) acesso às leis universais da metafísica, não as conseguindo passar ao resto da humanidade porque ao resto da humanidade falta sempre alguma coisa necessária (tipicamente fé…) para absorver este “conhecimento”. Apesar do ser humano possuir o potencial que dizem parece que foi feito para não usar esse potencial, o que é um contra-senso. É típico o argumento de que só os que acreditam é que conseguem. A ciência não é, felizmente, tão exigente. Uma anestesia não exige que se acredite nela para funcionar, nem um carro, um satélite ou um acelerador de partículas.

É como se, ao entrar para a faculdade, as pessoas fossem obrigadas a sofrer uma lobotomia para perder a memória de todo o conhecimento que ganharam até essa altura, precisando depois de passar anos a tentar recuperar essa informação através de livros sagrados, meditação, hipnose e outras condutas prescritas sem justificação. Num universo que optimiza ao máximo os seus processos isto é no mínimo improvável. Se um deus estiver envolvido, é um deus vazio de bom senso que gosta de complicar a vida dos outros; em vez de dar sentido à vida (ou às vidas), como muitos defendem, a evolução através da reencarnação retira-o por completo, arremessando as criaturas para um carrossel kafkiano, um jogo sem nexo onde sofrem sem poder compreender as regras.

… retomando o exemplo do jogo, há jogos de computador que nem trazem instruções. Fazes o start e lá vais à sorte. Não é interessante procurar, descobrir, decifrar? Só não servirá para quem não tem paciência nem espírito aventureiro… O exemplo da lobotomia é fraco, porque traduz uma eliminação permanente; o refreio da memória quando se reencarna é temporário e, para algumas pessoas, muito ténue.

Para a maioria das pessoas o exemplo da lobotomia funciona, acho, já que nada recordam de outras vidas. Mas é interessante essa perspectiva, a da reencarnação com enfraquecimento da memória (chamemos-lhe assim) dar interesse às vidas humanas. Talvez desse, se não viesse acompanhada da sinistra ideia de karma e evolução através de tentativa-e-erro. Como é que um crente na reencarnação e no karma pode ter a certeza que está no caminho certo? Como é que pode achar interessante um sistema que não lhe permite lembrar-se dos erros que cometeu e que, ao virar de qualquer esquina, lhe pode causar sofrimento devido a uma má acção que teve numa vida inacessível? Como é que um hindu que pense realmente nisto se pode sentir seguro na sua religião quando o caminho certo poderá estar no siquismo ou no jainismo? Se estiver enganado está totalmente lixado, mas não tem maneira de ter a certeza. A única defesa possível é enterrar a cabeça na areia, ou seja, nos livros sagrados e nas miríades de circunlóquios próprios dos ignorantes.

É possível, em teoria, o crente cometer o mesmo erro em todas as vidas se não tiver uma memória privilegiada e transcendente. Pode cometer o mesmo erro e corrigi-lo em todas as vidas sem evoluir um milímetro. Pode ser um Sísifo empurrando uma pedra montanha acima em cada vida, em cada uma chegando ao topo da maneira mais difícil e brutal – sem nunca inventar o guindaste. Um universo com leis destas é interessante, sim – para um Jorge Luís Borges, um Kafka, um Dali, um Boris Vian… É interessante para quem o viva na arte, jamais na realidade.

 

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O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia

O poema começa mal, com uma contradição. Mas, pensa o leitor benévolo, talvez a intenção seja introduzir uma grande ideia, “grande” no sentido de “contra-intuitiva”, que pareça um paradoxo mas afinal não o seja. Vejamos.

Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia,

Surge neste verso uma tentativa de explicar o paradoxo anterior, como se um paradoxo se pudesse tornar verdadeiro com uma explicação. Podia ser ao menos uma explicação subtil, que confundisse o leitor exigindo-lhe criatividade para desvendar a falácia; mas não é porque compara conceitos demasiado distintos: beleza e rio.

Ele afirma que o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela sua aldeia porque não é esse rio. Mas e se fosse, seria mais belo que ele próprio?

Talvez o poeta queira mostrar, no fundo e sem jeito, que não há comparação entre o Tejo e o rio que corre pela sua aldeia. Mas então, pergunto eu, porque é que os compara ao longo de quase todo o poema?

O Tejo tem grande navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai

Depreende-se daqui que o poeta pensa que todas as pessoas, sem excepção, sabem que o Tejo termina no mar (que não é um mar e sim um oceano), mas que poucas sabem que todos os rios terminam em mares e oceanos.  O poeta julga que o destino do rio da sua aldeia é secreto, um conhecimento a que só ele e uns poucos têm acesso, apesar de haver uma regra geral que se lhe pode aplicar para obter esse conhecimento e que é aprendida na terceira classe.

É um delírio poético, poder-se-ia dizer… Mas o que é que o poema tem que conduza a algum delírio, se ainda não fez até aqui senão constatar o óbvio depois de ter lançado um paradoxo, também ele fácil de desmanchar?

E donde ele vem.

É da nascente. Para se achar a nascente de um rio, basta segui-lo no sentido contrário ao da água. Para o poeta isso é ainda um segredo bem guardado. É possível que acredite que os livros da primária não fazem parte de um plano nacional de educação, sendo exclusivamente distribuídos na sua aldeia. Talvez pense que é um imperativo político, ou um desígnio divino, que aquela aldeia apenas possua os segredos profundos da escola primária. Ou talvez não passe de um caso de demência. Vejamos como prossegue:

E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Mais um engano grosseiro: um rio pouco conhecido não pertence a menos gente do que um mais conhecido. Todos os rios, neste país, pertencem ao Estado Português – ou pelo menos a parte deles que atravessa o território nacional.

E mais livre que o Tejo não será, já que está sujeito às mesmas leis físicas, como todos os outros rios existentes no mundo. Contudo o verso parece sugerir uma atrocidade geral: que as coisas que pertencem a menos gente são, por isso, mais livres. Mas como é que, digamos, uma árvore é mais livre se pertencer a um proprietário do que uma que pertence a dez? Tem mais liberdade para fazer o quê exactamente? Decidir quantos frutos é que quer gerar por ano? Erguer as raizes e ir ao shopping? A mesma questão se aplica aos rios ou a outra coisa qualquer. O que é um rio mais livre? É um rio que pode decidir correr para a nascente ou subir montanhas?

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

Partindo destes versos coloquei a questão a um aluno avançado, já na quarta classe, e ele sabiamente respondeu: “se todos os rios vão dar ao oceano, e se além do oceano há a América e a fortuna, então o rio da aldeia desse palerma também vai lá dar, se tiver água suficiente para chegar a algum lado”. Assim é.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

Tendo começado com uma incoerência, para o poeta é lógico terminar com outra. Depois de 20 versos que orbitam em torno do rio da sua aldeia, decide concluir que o dito curso de água não faz pensar em nada. Absolutamente nada – nem mesmo neste poema, que forçosamente terá sido escrito a pensar noutro rio qualquer.

Outra possibilidade é o autor estar a afirmar que todo o poema foi escrito sem pensar. Mas se foi escrito sem pensar porque haveremos de acreditar no verso que indica que foi escrito sem pensar?

As agressões à lógica vão-se revelando como matrioshkas. Mas não é apenas a lógica que sai atingida deste aglomerado incoerente de palavras; atente-se na amarga generalização aqui implícita: “não faz pensar em nada”. O poeta não escreve “não me faz pensar em nada”, ou seja, generaliza a torpeza mental a todos os seres pensantes, nos quais o leitor estará incluído. O que ele diz, de forma pouco subtil, é que nenhuma pessoa tem capacidade para pensar em alguma coisa relacionada com o rio da sua aldeia – nenhuma pessoa excepto ele mesmo, que não sem arrogância e presunção prova que o consegue escrevendo estes versos transbordantes de atropelos à lógica e generalizações hostis.

Alberto Caeiro é um artista cuja agressividade e narcisismo só são superados pela ausência de raciocínio lógico. Criado nos pastos, transporta a sua rudeza selvagem para uma poesia de índole violenta e absurda coberta por uma capa (rota) de falsa e bucólica inocência. É neste sentido um grande poeta. Os seus versos são como enxadas atiradas à cabeça dos intelectuais citadinos que, com os óculos partidos, sorriem sem dentes por sentir a paz que imaginam existir no espírito simples mas universal de Caeiro, algures entre as ovelhas e as estrelas, numa qualquer província ao ar livre mais quente e saudável do que os seus quartos sombrios.

 

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