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Archive for Novembro, 2008

O Que Não Sabemos Nós

 

bleepbook

Li recentemente o livro que teve origem no filme “What The Bleep Do We Know” ou “O Que Sabemos Nós”. Resume-se a uma emoção: é irritante. Sobretudo porque pretende ser uma teoria científico-intuitiva sendo apenas, na realidade, um cocktail de associações e inferências sem nexo enfiada pela boca abaixo segundo regras de marketing.

Os três autores começam por sugerir que cada pessoa faça perguntas importantes. A mim ocorreu-me esta: “o que acontece quando realizadores e produtores de cinema, discípulos de uma médium de nome JZ Knight que alega estar em contacto com o espírito dum guerreiro chamado Ramtha, tentam escrever um livro de divulgação científica dirigido ao mercado das massas ávidas de espiritualidade fast-food?”. O livro não responde a muitas perguntas, mas responde a esta. Isso fiquei a saber.

Não, não foi bem assim, pelo menos a princípio. Eu não sabia quem eram os autores e estava à espera de um texto de divulgação científica, com alguma especulação devidamente suportada por argumentos lógicos. Quem estiver a apostar nisso aproveite o inverno e use este livro como acendalha (se não estiver frio use-o como calço para móveis). Depois de algum tempo a ler comecei a sentir que algo não estava bem e fui ver na secção “Colaboradores” os autores das citações espalhadas pelas páginas. Encontrei cientistas “New Age” (um deles com estudos que provam que os ganhos nas slot machines sobem 2% nas noites de lua cheia), professores “New Age”, um padre, um tipo  que acha que a água sabe ler, uma médium e um espírito com 35 mil anos.

O livro começa por uma exasperante tentativa de preparar, ou “evangelizar”, o leitor (quando digo “começa” refiro-me à introdução e aos primeiros três ou quatro capítulos), extremando duas posições de forma maniqueísta: podemos escolher ser uma pessoa melhor, evoluir, tendo a mente aberta para os segredos que o livro vai revelar, ou podemos continuar a ser cinzentos, materialistas e crentes cegos da física clássica. Em suma, podemos abrir os olhos e ser uma pessoa como os autores ou continuar com eles fechados e continuar a existir como máquina – significando “abrir os olhos” aceitar sem espírito crítico tudo o que o livro nos vai despejar pela boca abaixo.

Este cuidado de esculpir à martelada o leitor não é o único nesta ruidosa mina de diamantes falsos. Há também o cuidado de o tratar como um aluno incapaz de tirar ilacções daquilo que aprendeu. Cada capítulo termina com uma série de “exercícios” do género TPC para que o leitor se discipline a cristalizar as grandiosas e complexas ideias dos autores. Pior que isso, surgem pelas páginas sofríveis e traiçoeiros laivos de humor que surpreendem como focos de bolor num queijo – assim que os detectamos já mordemos a fatia. Por exemplo isto:

«O cérebro gosta de surpresas. Após uma surpresa, a neuroplasticidade do cérebro sobe em flecha. É fácil ver porquê: suponha que está a passear na selva profunda e salta-lhe para cima a sua Tia Carlota de maillot. Surpresa!»

Apesar da falta de jeito o livro assume-se constantemente como percussor de novos paradigmas e uma iluminação tanto para a ciência como para as religiões (isto em apenas 320 páginas – aqui se pode ver até que ponto os autores acreditam que podem alterar a realidade através do poder mental ou até que ponto são mesmo lunáticos). Prepara-nos para grandes revelações que só espíritos “abertos” podem absorver; conta-nos logo como a ciência tem sido dominada por gente retrógrada e materialista, como as religiões se fecham sobre si mesmas não permitindo o progresso, como as pessoas são condicionadas desde pequenas a não fazer perguntas, a não se investigarem a si mesmas, a não sentirem curiosidade pelos mistérios. Tudo certo e positivo – o queijo vai-se comendo aos poucos e, tirando um ou outro foco de bolor, não sabe mal. Para depois fazer desfilar descobertas feitas por cientistas do século XX e as relacionar com a sabedoria antiga – os livros sagrados, as crenças místicas, nomeadamente as da Ramtha School, num frenesim de relações tão incomprovadas como absurdas. Aqui o queijo começa a saber a panado de vómito.

Os autores adoram a quântica, e Ramtha. No relativismo não tocam, apesar de ser o primeiro grande golpe na mecânica clássica. E detestam esta última, que debita as leis de um universo determinístico, previsível, de máquinas, e espelha o materialismo ocidental. Onde ficam as emoções, a consciência, nesse universo? Não eram capazes de se apaixonar pela sua torradeira (mesmo que ela fosse igual a eles). Para eles, a física clássica foi uma conspiração para fazer as pessoas acreditarem que não tinham livre-arbítrio. Assumem que a maioria das pessoas, ainda hoje, só reconhece a física clássica. Alegres a nadar no pequeno tonel da sua teoria não reparam que a física quântica foi criada por cientistas com o mesmo método com que se criou a clássica e a relativista, o método científico – Shrodinger, Bell e Heisenberg usaram o mesmo método que Newton. Não notam, sequer, que certas ideias especulativas que transcrevem são da autoria de cientistas e não de místicos ou realizadores de cinema “New Age”. Para finalizar, não reparam que a quântica não é recente e que não estão a dar por aí novidade nenhuma ao mundo. A equação de Schrodinger foi publicada em 1921, o princípio da incerteza de Heisenberg é de 1926, o paradoxo de Einstein-Podolsky-Rosen (EPR) de 1935, o teorema de Bell de 1964. Onde terão vivido os autores deste livro até descobrirem estes temas? Onde, para julgarem que a física se apoia, cegamente e sem debate, na mecânica clássica? A resposta é forçosamente uma de três : 18, 19 ou -350. No século de Newton, no de Maxwell ou no de Ramtha.

*

Betsy

Apesar de muito falarem da imprevisibilidade quântica, e de louvarem o espírito aberto a novas possibilidades, a palavra “talvez” praticamente não é usada ao longo das páginas. Fiquei com a ideia de que o texto não era, ao contrário do cérebro e do universo, muito quântico, e que desde o início servia para atirar, sem método científico, as convicções fossilizadas dos seus autores a um público-alvo predisposto a levar com elas; que a intenção não era levantar questões honestas para abrir o espírito, mas empurrar perguntas forjadas para justificar respostas que os autores conceberam antes de qualquer pergunta. De um modo pouco subtil, muito pouco subtil…

Em muitas páginas há, colados quase sempre a cuspo, pequenos comentários da autoria dos próprios (William Arntz, Betsy Chasse e Mark Vicente). Raros são os que fogem ao pasmo boçal do ignorante – principalmente os da Betsy. Se transportassem, para a nossa era, um padeiro medieval e lhe mostrassem um fax a funcionar, ele teria impressões semelhantes às que a Betsy revela face não só à ciência do século XX como às ideias em geral. Pessoalmente acho óptimo que ela fique fascinada, porque o assunto é fascinante – mas tem mesmo que o registar em livro? Não poderia enviar um SMS a uma amiga e ficar por aí? Pessoas como a Betsy deviam ser encorajadas a poupar árvores. Veja-se este comentário:

«Passei a maior parte da minha vida com a cabeça enfiada na areia. Acordar preocupada com os sapatos que ia usar era a minha rede de salvação. Nunca consegui conformar-me com a noção de um tipo lá em cima a julgar-me e nunca aceitei honestamente a ideia de vir dos macacos. Sempre achei que deveria haver mais qualquer coisa. Mas isso era demasiado grande para eu considerar. Por isso, durante muito tempo deixei isso para “as pessoas espertas”. Agora percebo que a menos que acorde e participe neste diálogo, a ciência e a religião vão continuar os seus caminhos de elitismos, dogmas e tráfico de poder. Eu acho que eles precisam de ter um bom terapeuta matrimonial – NÓS!»

Resumindo, Betsy, depois de ter passado a maior parte da sua vida com a cabeça enfiada na areia, deixando a investigação científica para as pessoas espertas (apesar, atenção, de pressentir que existia mais alguma coisa no universo além de sapatos), decide dar um grande passo em frente e enfiar desta vez a areia na cabeça. Insinua enigmaticamente que a ciência e a religião serão alteradas (ou substituídas, não sabemos), por um qualquer grupo de pessoas que se subentende não serem religiosas nem científicas mas que não se faz ideia quem são ou o que vão fazer. Há mais informação na matrícula de um carro do que em toda esta “reflexão” de Betsy – e escolhi uma das mais favoráveis.

Infelizmente além de comentários soltos há todo um capítulo escrito por Betsy. Infelizmente para o leitor, como é óbvio, mas principalmente para o próprio livro. Composto por um punhado de impressões pessoais, mesmo assim o capítulo escapa por um deslize à total irrelevância. Ela conta, com mais pormenor, como passou de uma perspectiva sapatocêntrica do mundo e de uma fracasso-dependência para perspectiva quântica e o auto-controlo. Dá um exemplo: antes atrasava-se sempre para o trabalho porque apanhava sempre o mesmo autocarro escolar à frente durante o caminho; mas depois da iluminação percebeu o que de facto acontecia: esse autocarro era criado, num efeito quântico, pela sua própria mente para alimentar a sua fracasso-dependência. Outras hipóteses não vislumbra.

É estranho terem deixado Betsy publicar isto porque, tirando a natureza lunática do conteúdo, o que ela está a dizer é que, antes de perceber alguma coisa dos ensinamentos de Ramtha, de física quântica, enfim, antes de ter provado a sopa “New Age”, mesmo assim ela tinha poder mental para criar autocarros escolares à sua frente. E durante todo o livro nos querem vender a ideia de que as pessoas estão espiritualmente adormecidas e que por isso não conseguem aproveitar as potencialidades do cérebro, nomeadamente a de criar realidade – e que portanto precisam mais de consumir obras do género “O Que Sabemos Nós” do que de respirar. Mas Betsy, que na escala global de adormecimento estaria mais ou menos num coma, conseguia criar autocarros escolares todos os dias. Ou seja, não precisou de gastar dinheiro em sabedoria “New Age” para fazer milagres. Tal parece ser pior que uma contradição (por todo o livro os autores mostram que não se perturbam muito com isso): é um pisão de salto-alto na estratégia comercial.

*

Ciência vs New Age

É louvada, sem cerimónias, a capacidade mental humana, a capacidade de criar. Como para os autores a física quântica prova que a consciência humana pode alterar a realidade, eles imaginam um mundo em que milhões de consciências, desejando em uníssono, mudam tudo para algo muito melhor. É a teoria não muito nova (mas atirada como tal) do “todos iguais a mim” levada ao extremo: “se todos fossem iguais a mim, que percebi através da quântica e do misticismo que tinha livre-arbítrio e podia influenciar a matéria e alterar a realidade, o planeta não corria riscos, nem mesmo catástrofes naturais, e as pessoas seriam todas felizes para sempre”. Seria uma teoria boazinha, ainda que má, se fosse uma teoria, mas está mais longe disso do que a Betsy de uma frase inteligente. Para conseguirem chegar aqui apoiam-se num sistema de crenças – um paradigma do género dos que eles criticam – baseado numa das interpretações possíveis dos fenómenos quânticos e de muitas relações e conclusões precipitadas.

É pelo menos, a seu abono, uma interpretação válida, talvez a mais difundida: a dualidade onda-partícula, ou interpretação de Copenhaga. Quando o observador faz a medição, a onda colapsa em partícula. O que antes ocupava todo o espaço e se comportava como luz, por acção do observador “colapsa” numa posição específica, passando a comportar-se como uma partícula com massa. Eles pensam que no fundo o que isto quer dizer é que a realidade é produzida pelas nossas consciências, o que nos permite fazer milagres se acreditarmos muito nisso (o primeiro será justamente o de acreditar nisso só porque eles o dizem).

Existem, contudo, outras interpretações válidas das experiências. Uma delas é a da existência de infinitos universos paralelos, cada um correspondendo a um estado possível da partícula (neste caso não há “colapso” – as partículas obedecem sempre a funções de onda; o livro chega a descrevê-la num parágrafo breve mas dela não tira nenhuma ilação…); outra é a que diz que a observação não afecta a partícula e sim a capacidade do observador em fazer a medição (retirando assim a causalidade). Ambas são tão estranhas como a de Copenhaga, mas não tão sensacionais e ainda menos intuitivas. Daí o desprezo, talvez. A de Copenhaga é mais apelativa porque permite especulações do género “mente sobre a matéria”, um tema muito doce, bem como a existência intangível da consciência humana, e daí ser a preferida dos que querem ser os primeiros a trazer ao mundo a boa nova de que o conhecimento antigo, o dos livros sagrados e dos místicos, foi finalmente reconhecido pela ciência – o que lhes permitirá gritar “eu bem disse!” e substituir as universidades pelas tão almejadas e úteis escolas de torção de talheres e jogging sobre a água.

A grande vantagem que a ciência tem sobre os outros sistemas de conhecimento é que avança e não se ilude. O cientistas iludem-se, é evidente – aparece sempre um ou outro, no fim dos séculos, a anunciar que está próxima a “teoria do tudo e do resto” – mas eles não são a ciência. A ciência transcende-os e evolui imune às ilusões e às desilusões, além das pessoas e das modas. Leva “pancada” (críticas), corrige os erros, novas teorias substituem as antigas, e evolui, ao contrário dos sistemas religiosos e místicos, que não fazem perguntas difíceis, contornam as contradições e esperam, com maior ou menor retórica e barulho, que o mundo aceite pela fé as suas verdades marcianas.

A especulação também é feita no meio científico (ao contrário do que os autores insinuam – leia-se, como pequeno exemplo, o “Átomo Assombrado”), mas para ser útil tem de ser feita com bom senso. Não se pode perguntar, como fez um jornalista português, para quando temos o teletransporte de coisas vivas a partir de uma experiência em que (aparentemente) se teletransportou um fotão sem uma teoria explicativa. Não se pode deduzir que o cérebro humano tem a capacidade de dobrar as leis newtonianas a partir de uma experiência em que uma série de pessoas influenciaram, à distância, um gerador de números aleatórios (de forma a ser menos aleatório). Uma coisa é condicionar um gerador de números aleatórios, alterar o PH da água, etc., outra andar sobre a água, dobrar colheres (será que também funciona com esferovite?), comunicar por telepatia ou fabricar a realidade a partir do poder mental. Antes de se falar mais é preciso, primeiro, saber o que é que influencia o gerador de números ou o PH – se são as consciências, se outra coisa. Sendo a consciência, é preciso saber o que é isso. E tendo este conhecimento então derivar outro, porque especular no vazio é mais ou menos patético (na próxima edição deverão explicar como é que, todos juntos, usando as nossas consciências de forma eficaz, podemos ganhar todos a lotaria ao mesmo tempo, ou alterar a constante de Plank, ou desenhar um quadrado com sete lados). Se os autores não aprenderam isso com os físicos que entrevistaram sugiro que tentem a obra de Arthur C. Clark ou outro bom escritor de ficção científica antes de se anunciarem ao mundo como os arautos da clarividência. E que evitem citar muitas vezes um espírito com 35000 anos para reforçar os seus argumentos… Frases de Ramtha como “[A Terra] é o único planeta habitado da Via Láctea embebido numa enorme subjugação religiosa” são… qual é o termo certo? Frágeis? Duvidosas? Lunáticas. Isso.

Mas a verdade é que anunciam um novo conhecimento com arrogância e sucesso (não científico mas comercial). Este livro, e o filme correspondente, são um caso de sucesso porque foram/são consumidos por muitos, e louvados em parte da comunicação social (o que não é nada estranho). Faz parte de um movimento “New Age”. Não sei se lhe chame movimento, corrente, escola, conjunto de pseudo-ciências ou simplesmente manada de oportunistas… Mas parece fazer-se em 3 passos:

1.       Consumir ciência até descobrir os buracos nas teorias científicas (o que não é difícil, dado que a própria ciência, pela sua natureza, os revela); desta forma ganha-se uma aparente base científica, pode-se citar prémios Nobel, conseguir facilmente fazer morder o queijo e ainda sugerir o falhanço redondo da ciência na explicação de tudo;

2.       Preencher esses buracos com o bolor que for mais conveniente de forma a perfazer a “Teoria do Tudo e do Resto” que se quer. No caso do “New Age”, os buracos na mecânica quântica são os preferidos (no caso do Creacionismo serão preferidos buracos na teoria da evolução).

3.       Vender, vender, vender. Livros, filmes, conferências, workshops, se possível com campanhas gigantescas de marketing ao estilo d’”O Segredo”.

Richard Dawkins (um cientista a sério, autor de “O Gene Egoísta”) disse, sobre o filme que originou este livro, “’Quantum physics is deeply mysterious and incomprehensible. Eastern spirituality is deeply mysterious and incomprehensible. Therefore they must be saying the same thing.”. É um golpe mordaz e justo no tipo de raciocínio conduzido através das páginas. De facto os autores fazem associações tão precipitadas que parecem assumir que o leitor não tem espírito crítico. Começam, como já disse, por uma breve história da física quântica, devidamente seleccionada (a interpretação de Copenhaga parece ser a única que merece a sua atenção, mas sem explicarem porquê), salpicada de possibilidades fascinantes e misturada com experiências muito duvidosas (as experiências de Masaru Emoto e o “Efeito Maharishi”…), e não exigem mais do que esta sopa para fazer um “salto quântico” e dar veracidade a ideias místicas, explicar milagres, deus, fenómenos paranormais, andar sobre a água, criar a realidade com a consciência, etc..

*

Masaru Emoto, John Hagelin e o Efeito Maharishi

Masaru Emoto diz que a água reage à música, pensamentos, emoções… Ele põe um copo de água a “ouvir” música e mais tarde aparecem cristais maravilhosos na sua estrutura que ele fotografa. Cristais de gelo, porque a água só forma cristais quando solidifica, mas não põe muito ênfase no processo de congelação. O que lhe interessa é a beleza dos resultados (como se sabe a beleza é universalmente aceite como prova objectiva). Depois compara cristais resultantes de vários tipos de música para concluir que a água prefere a erudita, já que neste estilo os cristais são mais bonitos. E faz o mesmo para palavras. Põe rótulos a dizer “amor e gratidão”, “bom dia”, “vou-te matar”, “Adolph Hitler”, “Madre Teresa”, em cada copo e depois vai fotografar os cristais. Segundo ele, cada palavra tem uma “vibração” (?), a água compreende qualquer língua e reage (desde que devidamente congelada – se não for congelada a água não tem opinião) produzindo cristais feios ou bonitos de acordo com os conceitos expressos, ou com a “vibração”. É curioso um conjunto de moléculas saber tanto e poder fazer juízos de valor (absolutos, porque a água não tem cultura, religião, preconceitos – ou se calhar tem…), e também a possibilidade de tirar tanto conhecimento de um congelador. Não sou especialista em Emoto, mas pressinto (chamem-lhe um efeito quântico) que os conceitos de bom e mau da água devem ser parecidos ou com os dele próprio ou com os do público-alvo (provavelmente a segunda).

“Se os crentes tivessem 12 lados, Deus seria um dodecágono.”

Em 1993 John Hagelin (físico de Harvard convertido ao misticismo) colocou 4000 pessoas em Washington a fazer meditação transcendental ao estilo Maharashi para que, com a força da mente, conseguissem baixar o crime violento na cidade durante o verão. Com causalidade questionável, a verdade é que o crime violento baixou e os homicídios aumentaram.

Maharashi era um yogi que defendia a tese de que pondo 1% da população a fazer meditação transcendental, em qualquer cidade, a taxa de crimes diminuiria significativamente. Chegou a propôr pelos media, aos americanos, que lhe doassem mil milhões de dólares para ele construir instalações para 40 mil yogis que, meditando em conjunto, repeliriam o ódio e dariam paz e felicidade ao mundo inteiro. Não conseguiu tanto, mas passou a haver uma universidade chamada “Maharishi University of Management”.

Nenhum estudo científico confirma estes “exemplos” de poder mental. Mas eu arriscaria que o “Efeito Maharashi” pode funcionar desde que acrescentemos uma pequena condição: a de elegermos para o nosso 1% da população todos os criminosos da cidade. Com os criminosos a fazer a meditação da paz 24 horas por dia a taxa de crimes era capaz de ter uma diminuição significativa e Maharashi ganhar, finalmente, o reconhecimento dos cépticos.

Se existe uma super-consciência divina a comandar o universo, ela saberá porque é que, por exemplo, não encarregou os místicos da produção de vacinas. Imagine-se o que aconteceria se o tivessem de fazer: um enchia seringas com água e colava-lhes um rótulo a dizer “vacina”; outro deixava-as vazias e sentava-se, em posição de lotus, a fazer meditação; outro talvez orientasse os espelhos, as portas e as janelas para fazer fluir um Chi favorável à produção de vacinas; outro ainda escolheria os componentes com um pêndulo. E quando as cobaias da produção morressem aos montes seriam acusadas de ser elas próprias as culpadas de tudo porque noutras vidas tinham acumulado um mau karma.

Imagine-se, agora, todo um mundo “New Age”, com médicos a diagnosticar doenças com base em fotografias da aura, magistrados a fazer justiça com um microscópio, um congelador e copos de água rotulados com o nome dos réus, o Barak Obama a tomar decisões com um pêndulo e o Banco Central Europeu a alterar as taxas de juro consoante o horóscopo.

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Dean Radin

O livro não perde muito tempo em cada ideia. Eu imagino o que é preciso para escrever um livro destes: resumir um monte de ideias em folhas soltas, metê-las num bolso e depois rolar por uma encosta abaixo. É garantido que os efeitos subtis do universo decidirão que ideias devem ficar nas calças ou na encosta e a melhor ordem para elas ao longo do percurso. Depois é só compilar em livro com muitas citações à mistura. Para saberem em que sítios deveriam colocar as citações terão usado uma técnica mais sofisticada: primeiro, espalharam o texto no chão; segundo, atiraram a Betsy do telhado,  com maços de citações nos bolsos, para cima do texto; terceiro, analisaram cientificamente onde é que a consciência colectiva preferiu as citações e editaram.

A vantagem que a técnica “trambolhão quântico” possui é a variedade, e a variedade é como uma lixeira: desde que se remexa bem encontra-se sempre alguma coisa útil. Na minha opinião o trabalho de Dean Radin destaca-se entre o dos outros cientistas “New Age” referidos, e pelo pouco que vi na Net até me parece uma pessoa mais cautelosa que os autores, porque especula, sim, e muito, mas com a consciência sempre presente de que a especulação não prova coisa nenhuma. Terei de ler um livro dele para me desiludir, mas adiante.

Radin faz pesquisa no “Institute of Noetic Sciences”. Isto soa logo mal. “Noetic” significa “voz interior”, ou “intuição”, algo nesse sentido, e está colado a “sciences”… A única ciência que se conhece (e sublinho “única”, já que o próprio Radin faz questão de a separar em ocidental e oriental, o que é absurdo – o método científico é sempre o mesmo e é válido em qualquer parte do globo) já contempla, obviamente e desde sempre, a intuição. Faz parte dos humanos. Einstein não teria criado a teoria da relatividade sem a intuição. Copérnico não teria criado a teoria heliocêntrica sem a intuição.

Creio que a diferença das “noetic sciences” é terem uma intuição virada para o folclore popular e não para algo plausível (o que não quer dizer que não estejam certos – o tempo o dirá). Pelo que pude perceber investigam fenómenos paranormais de um ponto de vista científico. Se feito de forma séria, pode ser uma tentativa interessante de separar o imaginário popular de fenómenos reais que ainda nos são estranhos – e é de senso comum que há muita coisa estranha. Mesmo que não seja feito de uma forma séria, acho o esforço muito mais valoroso e criativo do que o dos autores deste livro, que se limitaram a fazer colagens das ideias de outros.

Na minha opinião a ciência (a verdadeira) devia meter-se nisso para tirar do grande saco das crendices aquelas que são realmente credíveis e atirar o resto para o lixo juntamente com os enxames de charlatães (incluindo os “noéticos”, se for o caso) que há por todo o lado. Por outro lado compreendo que os cientistas, as universidades, os centros de investigação, não tenham a mesma intuição que os “noéticos” e, com a informação disponível hoje, achem que vale tanto empregar esforços no estudo da telepatia e da telecinesia como, por exemplo, no estudo de dragões, anjos e outras crenças populares sem vestígios de veracidade. Pessoalmente acredito que a ciência perseguirá a investigação do paranormal assim que tiver um indício forte de alguma coisa, e que o paranormal, à excepção de Betsy, será então tornado normal e explicável como já várias vezes aconteceu na História.

O livro cita Dean Radin sobretudo por causa das experiências com geradores de números aleatórios (GNA). Tendo vários GNAs espalhados pelo mundo, Radin diz que detectou padrões muito improváveis em determinadas ocasiões onde a atenção de muitas pessoas se terá focado num dado acontecimento. Por exemplo, no 11 de Setembro os GNAs começaram a gerar muito mais “uns” do que “zeros” (mesmo antes do 11 de Setembro isso aconteceu, o que é encarado como uma profecia colectiva, algo assim). Para os autores do livro (Radin é um pouco mais prudente) isto prova que uma série de consciências “focadas” consegue alterar a realidade.

Radin faz mais experiências e as suas interpretações dos resultados levam a crer que provavelmente vários fenómenos paranormais não são meras invenções, entre eles: pressentimentos, telecinesia, telepatia, cura à distância e visão remota. E vai juntando uma grande quantidade de dados para tirar conclusões estatísticas.

Ora havendo experiências de que resultam uma grande quantidade de dados, duvida-se então de quê? Primeiro do método e depois da interpretação. Radin abusa de meta-análise, ou seja, pretende tirar resultados fortes de muitas análises fracas e não relacionadas entre si. Uma análise forte é tirada de experiências feitas repetidas vezes em condições controladas. A meta-análise é como pegar em vários estudos sobre os Lusíadas, por autores diferentes, em épocas diferentes, e fazer uma interpretação da obra a partir dessa amálgama. É fácil perceber que se puserem 10 pessoas a fazer esse trabalho o resultado serão 10 interpretações diferentes. E até é possível que na amálgama, algures, esteja a melhor análise de sempre, porém misturada com as outras provavelmente não terá grande influência no resultado final. Pode-se juntar a isso que muitas vezes as pessoas envolvidas nas análises tipicamente não sabem que estão a participar (no caso dos GNAs estamos todos envolvidos…), ou seja, que não há qualquer controlo sobre a experiência.

“Até um relógio estragado está certo duas vezes por dia.”

É matematicamente verdadeiro que num GNA as hipóteses de acontecer determinado padrão são mínimas – tanto o “mais uns que zeros” como outro qualquer (no entanto também é matematicamente verdadeiro que todos os padrões vão surgir com igual probabilidade se se deixar a máquina infinitamente ligada). Radin usa isto para tirar a coincidência do caminho e afirmar que há influência real de alguma coisa sobre o GNA, sugerindo eventos que captam a atenção mundial. Eu digo que não sei se há ou não. Se eu tiver um GNA, por hipótese, a gerar números aleatórios entre 0 e 9999, a probabilidade de sair o 1, o 5, o 97 ou qualquer outro é a mesma. Mas se for registando os números que saem ao longo do tempo e tentar fazer correlações, vamos supôr, com a proximidade de queijo, posso detectar um padrão – posso por exemplo ver que o GNA gera quase sempre números pares quando há queijo num raio de 20 metros. Publico então isso em livro enquanto hipótese. Outros, mais arrojados e ligados à indústria do entretenimento, pegam no meu conhecimento, tiram dele conclusões desonestas e fazem a revelação científica final: o cheiro do queijo cria realidade. Adicionam-lhe factos históricos intrigantes: a teoria bate certo com os tempos em que as pessoas diziam que a Lua era feita de queijo. Juntam-lhe uma explicação quântica: como o queijo é composto de partículas, e as partículas sofrem efeitos quânticos, o queijo tem necessariamente de ter um comportamento do mesmo género, o que corresponde não só à intuição dos autores como à opinião de um espírito com 35 mil anos. Quebram a barreira do cepticismo: os cépticos, além de serem máquinas cinzentas conspirativas, nunca provaram que a realidade não é criada pelo queijo. “Eles não sabem e não querem que ninguém saiba. Mas nós vamos devolver a magia ao mundo” – afirmam corajosamente. Betsy comenta que a sua vida mudou para melhor desde que passou a tapar a boca com um cheddar. Finalmente, após alguns testemunhos de apreciadores, anunciam a abertura da era maravilhosa em que toda a humanidade cheirará a queijo.

 *

Teoria da Conspiração

«Einstein gostaria muito de conhecer a Betsy, porque Einstein foi até ao fim da vida um opositor feroz da dualidade onda/partícula e a Betsy é um paradoxo muito mais certeiro que o EPR. A Betsy é a excepção que deita por terra a teoria quântica porque não respeita a imprevisibilidade. Segundo a teoria, tudo é possível, numa curva de probabilidades, até um observador entrar em acção e colapsar as ondas. Traduzindo, até alguém ler o que a Betsy escreve ela deve ter, quanticamente falando, uma probabilidade diferente de zero de escrever alguma coisa interessante. Verifica-se, contudo, que essa probabilidade é sempre zero, com ou sem observadores.»   RikSaint

Apesar do que disse até aqui é claro que os autores pensaram muito antes de publicar a obra. Não quiseram fazer uma coisa qualquer. Pensaram no que estavam a defender e tentaram engendrar justificações. Por exemplo, a grande tese do livro é que a realidade é um produto das consciências. Mas se é assim, e existem seis mil milhões de consciências só neste planeta, porque é que não se verificam alterações na realidade todos os dias? Inteligentes, os autores recorreram à teoria da conspiração: a colossal indústria de entretenimento dos nossos dias. Que consciências a criaram? Não dizem. Deduz-se que terão sido consciências que sabem que podem mudar a realidade, os seja, consciências de místicos, já que todos os outros estão sujeitos a velhos paradigmas, mas essa hipótese não é, numa manobra inteligente, explorada. Voltando ao entretenimento… Essa indústria é a maior arma que existe para adormecer as massas e afastá-las das grandes quesões do espírito. Como outrora o circo romano, as diversões de hoje criam uma dependência de que as pessoas não se conseguem libertar, e assim a realidade produzida é sempre a mesma.

Como é que se provoca dependência e se elimina o livre arbítrio? Estes autores não arriscam sem factos científicos. Primeiro explicam o que é a dependência através dos receptores das células. Uma emoção gera, no corpo, substâncias químicas que encaixam num dado receptor, provocando este ou aquele efeito. Se um receptor é usado muitas vezes, a célula torna-se dependente. Sendo assim, as pessoas ficam dependentes das emoções repetidas que a indústria de entretenimento lhes fornece, emoções que, para os autores, só podem ser sempre as mesmas. Um filme, seja ele qual for, desperta as mesmas emoções em milhares de pessoas, e milhares de filmes despertam a mesma emoção numa pessoa… O que é uma forma inteligente de provar o seu argumento cristalino, que caso contrário poderia ficar confuso e precisar de experiências, registos, observadores independentes e todas as outras chatices com que a ciência se auto-vitimiza.

“- Mas se formos por aí vamo-nos perder.
– Não faz mal. Para cá perdemo-nos também.”

Boris Vian, “O Outono em Pequim”

Então e depois? Depois os autores explicam o que se deve fazer para sair da dependência. A solução é sempre a mesma: a física quântica. Segundo eles cada pessoa tem dois “eus”: o eu material, determinístico, e o eu espiritual, quântico. A solução é, em cada decisão, ouvir o eu espiritual. Os receptores das células são alterados por efeito da consciência e a dependência fica resolvida. No meio disto descaem-se um bocadinho e insinuam que o eu espiritual vem “do passado”, ou seja, que reencarna ou algo do género. E outra vez usam a inteligência para não fazer mais perguntas. Para eles isto é uma teoria provada. A interpretação de Copenhaga existe, os receptores das células existem, a indústria de entretenimento existe e é grande – portanto só podem ter razão e isso estar tudo relacionado. E se têm razão, a reencarnação também existe, a realidade é um produto da consciência e pode-se andar sobre a água. Quem duvidar disto só pode ser cego e retrógrado.

*

“Boa Mike” – Os Testemunhos Habituais

Já li vários livros deste género, isto é, do género pretencioso-evangelizador, acerca de vários temas. Notei, em todos os que li, fossem de feng-shui, radiestesia, racionalismo cristão ou outra coisa qualquer, uma visão profundamente distorcida da realidade para a adaptar às crenças que estavam a vender. Em todos, como nos canais de vendas, se davam exemplos reais de pessoas que usavam o método, ou acreditavam na ideia, e só com isso conseguiam resolver problemas complicados ou mesmo alterar por completo a sua vida. Em nenhum exemplo se podia estabelecer uma relação de causalidade, mas para muitos chega como prova um raciocínio deste tipo:

1.       Se aconteceu X,

2.       E depois aconteceu Y,

3.       Então Y aconteceu por causa de X.

A conclusão não é lógica, mas quem estiver com predisposição para acreditar não vai exigir mais. Basta trocar X e Y pelo que se quiser. O X não varia muito de livro para livro, enquanto o Y se adapta ao tema. Por exemplo, sendo X = “eu sentia-me tão deprimido que me ia explodir com uma granada ao estilo dos japoneses na Segunda Guerra”, Y poderá ser:

– “mas coloquei um aquário em cima do roupeiro, encostei a cama à parede e fui feliz para sempre”, se o tema for feng-shui;

– “mas usei o pêndulo sobre um mapa, ele indicou-me onde estava a mulher da minha vida e fui feliz para sempre”, no caso de radiestesia;

– ou “mas um espírito com 35000 anos disse-me que eu me podia mudar a mim próprio, o que batia certo com a física quântica, e fui feliz para sempre”, no caso deste livro.

O exemplo anterior é inventado para ilustrar. Os que vêm na obra são, resumidamente e para além dos dos autores (que são ainda mais suspeitos):

– Uma mulher que domesticou um pássaro através do pensamento;
– Um tipo que aprendeu a bloquear os sintomas da febre-dos-fenos visualizando o seu próprio cérebro a produzir as substâncias adequadas para tal;
– E um caso de cura espontânea de uma doença que destroi progressivamente a visão. Esta cura não foi devida à obra em questão, e sim a uma visita a um círculo num campo de cereais, mas depois de ver o filme dos autores o ex-doente percebeu que tinha sido o seu poder mental a fazer o milagre. Acabei por não perceber se o campo de cereais ficou com algum crédito.

*

Outras Hipóteses?

Imaginemos que a hipótese central do livro, que é atirada como certeza, é plausível. Isto é, que a realidade é um produto das consciências. Tal levantaria muitas questões que não vejo serem feitas pelos autores. Talvez eu tenha adormecido nessas páginas ou talvez tudo o que eles queiram é um atalho que os leve os mais rapidamente possível desde a física quântica até uma explicação científica da alma, deus e fenómenos paranormais, culminando numa solução para todos os problemas da humanidade.

Eu faria, antes de avançar para tão arrojadas conclusões, estas humildes perguntas. Se a realidade é um produto das consciências…

1-      …como é que podem existir indícios de que o universo evoluiu, e inclusivé que existiu vida na Terra, antes de existirem seres humanos? Que consciências criaram essa realidade se não existia nenhuma?

2-      Se a consciência não for uma propriedade exclusiva dos humanos, que animais terão consciência? As galinhas poderão ter consciência e portanto possuir voto na construção da realidade? Nesse caso, porque é que não vemos galinheiros do tamanho da Estremadura e vemos tanta venda de frango assado?

3-      Na possibilidade de existir uma consciência primordial (deus ou deuses) que tudo criou (incluindo as nossas consciências), porque é que foi necessária uma evolução de milhões de anos, como mostram os factos, para existirem criaturas capazes de alterar a realidade?

4-      Ainda dentro da mesma possibilidade, será que a consciência dos homens pode alterar a realidade criada por esse deus? Se não pode, então tem restrições. Se pode, então a consciência de deus tem restrições. Havendo restrições, a realidade não pode ser totalmente criada pelas consciências.

5-      Transpondo o caso apenas para humanos: se duas consciências humanas criarem realidades dissonantes, qual é a realidade resultante? A primeira, a segunda ou uma fusão das duas? Seja como for, verificar-se-ão restrições. A criação da realidade tem de ter limites. Que limites são esses?

6-      Quando a humanidade acreditava que a Terra era plana, a Terra era plana?

7-      Se todos acreditarmos que a realidade não é quântica, ela deixa de ser quântica? Se acreditarmos que o livre arbítrio não existe, o universo passa a ser determinístico?

8-      A consciência de uma criança altera a realidade da mesma forma que a de um adulto? Nesse caso porque é que o Noddy, o Ruca e o Pai Natal não se cruzam connosco constantemente na rua?

9-      É possível as leis da física clássica e do relativismo condicionarem a criação da realidade? Isto é, ser mais difícil fazer uma pedra cair para cima do que para baixo? Ou é tudo igual? Se condicionarem, que quantidade de livre-arbítrio é que resta às consciências?

10-      É possível a uma consciência criar outra consciência? Se não é, é mais uma limitação.

11-      Porque é que há tantas pessoas que morrem de fome se a realidade é criada por elas? Isto é, se a realidade é um produto das suas consciências, e as suas consciências querem comer, porque é que a comida não aparece à sua frente? Será que os autores também explicariam isto pelo “vício” em certas emoções, ou seja, será que diriam que essas pessoas estão tão viciadas na fome que criam uma realidade que ameaça a sua própria sobrevivência?

12-   Se é necessária uma técnica especial para mudar a realidade, e se essa técnica só é conhecida por uns poucos iluminados, porque é que eles não mudam a realidade de toda a gente para a dos seus ideais? Se não é necessária uma técnica especial, e portanto toda a gente consegue mudar a realidade através da vontade, então porque é que há tantos a viver em condições miseráveis, e tantos doentes que não se curam, e tantos frustrados que, por muito que desejem, não chegam onde querem?

13-   Porque é que a realidade dos cépticos não é mais real que a dos sábios “New Age”? Será que os cépticos não têm consciência?

14-   Porque é que este livro não se desintegra se sou eu que crio a minha realidade?

 

*

Conclusão

Concluindo, é um livro pobre que recicla, uma vez mais, uma fórmula de sucesso na nossa era – que se devia designar por “Era da Desinformação”. É, ao estilo d’”O Segredo” e outros, um prato de teorias “fast-food” que se aproveitam do vazio, ou falta de magia, que muitas pessoas sentem. É raro o cientista que sabe escrever para o leigo. Entre os que sabem, aquilo que podem escrever não consegue ser suficientemente sensacionalista e interessante para as pessoas de hoje. Por outro lado, os místicos sempre souberam comunicar com as massas e agora têm meios impressionantes para o fazer. E aproveitam. Estes, os “New Age”, apresentam-se como ponte entre o público e a ciência. Uma ponte bela, mas que não chega a qualquer margem nem possui alicerces. Não aguenta o mínimo peso, desaparece ao primeiro passo. Para muita gente, porém, contemplar a sua beleza de longe deve ser suficiente.

Termino com um comentário de Betsy:

«Sempre que sinto que tenho de mudar algum padrão ou hábito, sento-me e visualizo o cérebro e depois as redes de neurónios. Encontro as redes associadas a esse hábito específico e vejo-as a afastarem-se e desaparecer. Vejo o meu cérebro a refazer as ligações de algo novo.»

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Diálogo com Toureiro – parte II

 

O sol intenso e o canto das aves convidavam à reflexão sobre a morte. K. tentava perceber com todas as suas forças porque é que muitas pessoas, incluindo alguns amigos, tinham por lema feliz aquele que dita “vive cada dia como se fosse o último”. Seria o último dia assim tão agradável? K. não conseguia sentir felicidade imaginando que morreria no dia seguinte. Achava mesmo que, tirando a média de opiniões dos que já morreram, a maioria diria que o seu último dia foi de sofrimento porque a morte instantânea é a mais rara. A morte é um processo doloroso que geralmente não é passado a beber Coca-cola e a pensar sobre o fim do mundo, ou a fazer outra coisa divertida.

Lembrou-se que ele próprio, um dia, iria passar por esse processo e que os Lapões acreditavam que um espirro violento podia expulsar a alma pelas narinas, causando a morte. Não tinha muita relação, mas lembrou-se e ficou a imaginar a alma desfeita numa poça de ranho. Nem as tragédias gregas acabavam tão miseravelmente.

De súbito foi interrompido por uma voz cavernosa e entorpecida:

– Boa tarde, o senhor citadino terá visto por estas bandas um jovem um com elevados dotes tauromáquicos, que há pouco ofereceu três grandes corridas três aos aficcionados com touros da ganadaria da Herdade do Deus da Humildade e cujo toureio se baseia num misto de classicismo e irreverência?

Era apenas um campino. K. até gostava de campinos e quis responder de pronto, mas o dia estava mais propício para reflexões. Não lhe apetecia falar com ninguém, nem mesmo consigo próprio. Pensou, por cortesia, numa resposta adequada – podia ser honesto e contar o favor que tinha feito à humanidade, mas como isso podia parecer um pouco arrogante também podia mentir e dizer que não tinha visto nenhum palhaço emproado coberto de lantejoulas. Nenhuma delas, porém, o animava, e contornando o campino seguiu em frente sem responder.

– Citadino – cavernou o guardador de touros – rogo-lhe que não me ignore. Será que não conhece o temperamento irascível dos campinos em geral e da gente ligada aos touros em particular? Nós nascemos assim e não conseguimos dominar a nossa natureza, ainda que tentemos. O melhor que conseguimos é justificar retoricamente os nossos actos bárbaros, quando Deus nos dá a sorte de possuir inteligência e destreza nas palavras. Por isso não me irrite. Sou católico praticante, mas uma palavra a mais ou a menos faz-me quebrar vários mandamentos com esta vara.

K. ignorou-o e seguiu o seu caminho, desanimado. Ao longe, num campo de touros bravos, alguns cientistas da tauromaquia experimentavam novas formas de festa. Um provocava os animais com um lança-chamas, outro atirava granadas. Foi com tristeza no coração que K. observou o terceiro lançar algumas cápsulas de gás. Devia ser potencialmente mortífero, porque todos, tanto os touros como os cientistas, caíram no chão com um ar pouco saudável e uma expressão algo imóvel.

– É cruel ver como se comporta a fauna da tauromaquia. – disse alguém que também observava o espectáculo junto de K. – Cruel para o intelecto, cruel para o bom gosto. Vejo que também está chocado. Ah, não me apresentei: Eduardo Remamas, activista em prol dos direitos dos animais. Por vezes não sei o que estou a defender, se os touros e os cavalos, se os próprios toureiros, criadores, campinos, essa gentalha que julga que as espécies evoluem através da acumulação de brasões, títulos nobiliárquicos e lantejoulas sobre as bestas. Se um deles algum dia vir um touro todo coberto de lantejoulas, com o focinho emproado e o olho do cu a lembrar um qualquer brasão fidalgo, faz-lhe uma vénia, oferece-lhe um Cohiba e convida-o a jantar com a família.

K. não disse nada, mas sentiu esmorecer a disposição para a reflexão solitária.

– Por falar nisso – continuou Eduardo mexendo num bolso – quer um? Não é Cohiba, mas também é bom.

K. aceitou o charuto. Não fumava sem tomar antes dois comprimidos contra o enjôo, mas gostava do cheiro do tabaco.

– Obrigado Sr. Remamas. O meu nome é K. e estou a caminho do cabeleireiro. Estou, no entanto, muito triste e preciso de contar a alguém o meu dilema. É de senso comum que se desabafa melhor com um estranho, e você, sendo activista, é suficientemente estranho. Portanto, se não se importar, gostava de lhe dizer o que me apetece. Devo porém avisá-lo que estou num dia negativo e a imagem que tenho de mim mesmo, hoje, não é a melhor, pelo que pode ficar contaminado pela minha depressão.

– Ora, Sr. K., conte-me o que quiser desde que não seja grotesco ou egocêntrico. Para isso já tenho pesadelos de sobra com esta ralé da tauromaquia.

– Então ouça. Para lhe contar o meu dilema terei de dizer, primeiro, que amar o impossível tem um encanto capital. Olho para a noite negra, sinto toda a escuridão dentro de mim, sustenho a respiração, o tempo acaba. Não é nem uma pausa na vida, porque o tempo acabou, a vida existiu. Sou um sonho, o sonho de um deus, sinto a faísca – e num instante crio o universo. Vejo e sinto todas as coisas ao mesmo tempo, amo-as porque me amo a mim. Eu sou todas as coisas. Sou, porém, impossível. Entende o meu dilema? O que me enche não é felicidade, isso é para os animais; é encanto, um fascínio mágico que é tão grande que me parece não poder caber em mim. As mais torpes coisas têm alma quando olho para elas: a minha alma. Eu dou vida aos mortos, vontade aos rochedos.

– Vai-me desculpar, mas isso é sensacionalismo.

– Não são correntes literárias que me percorrem as veias, sr. Remamas. Um sensacionalismo, sim, mas orgânico e implacável. A maldição. Quem me dera conseguir tirar das coisas apenas o que elas me podem dar. Mas a ambição é tão desmedida que não distingo entre uma esmola e uma benção; tanto me faz que me ofereçam uma pedra ou a Amazónia porque quero, de todas as coisas, a magia do Grande Mistério universal.

– No fundo, perdoe-me que o diga, o sr. K. é um nihiilista desesperado por se justificar. É ou não é?

– Talvez seja, talvez seja, e daí? Não é um rótulo que me vai dissolver este dilema. Sou hipersensível, tenho outros sentidos desenvolvidos e não sei lidar com esse privilégio. Imagine que eu guardo em mim o segredo final do universo e que, descobrindo-me a mim próprio, dou com isso. Não será peso demasiado para um mortal? E a quem é que vou contar se não existir ninguém igual a mim, e se existir em que linguagem comunico, se ainda não se tiver inventado linguagem para tema tão sobre-humano?

– Desculpe, talvez me tenha enganado. Talvez o sr. seja só um protótipo de pós-humanista. Experimente abranger outros com os seus ideais e torna-se um com facilidade.

– Então e isto?

Ágil, K. arremessou uma pá das obras à testa do interlocutor, que desabou num coma profundo.

– Será que agora posso falar do meu dilema sem ser interrompido com rotulações incautas?

Interpretando o silêncio como um sinal de aquiescência, K. prosseguiu.

– Quando era novo sonhava em escrever uma vasta e importante obra literária e, porque não, ser rotulado de "mestre da literatura". Mas sendo dotado de uma inteligência superior tinha consciência de que a fama poderia nunca chegar, ou chegar demasiado tarde, quando eu já me tivesse desiludido com a vida. Sendo assim, decidi antecipar-me: tentei desiludir-me o mais cedo possível com a vida para que, conhecendo intimamente esse estado de desilusão, o pudesse vencer com a minha inteligência e a minha vontade. Mais ou menos o que fazem os iniciados desta ou daquela ordem: morrer para renascer. Elaborar a primeira operação alquímica. Sim, isso. O problema era só um, e muito grande: como é que eu, que era eu, e me sentia eu, me poderia desiludir profundamente?

Além das palavras de K. nada se movimentava, ainda que pelas regras da eloquência ele fizesse uma pausa ou outra. Tinha atirado um paradoxo, ou assim julgava, e a ausência de respostas atiçava-lhe o entusiasmo. Subiu para uma pequena pedra.

– Nunca soube como fazê-lo. Por muito que me tentasse convencer que era mau escritor, aquilo que eu queria ler, o que me movia as entranhas da alma, era o que eu próprio escrevia. Também Shakespeare e outros o faziam, sem dúvida, mas não como eu. Dentro da categoria "sublime" há muitos níveis diferentes. Posso prová-lo. Quanto mais escrevia menos lia os outros, que cada vez mais se assemelhavam a pequenos subconjuntos do meu génio infinito. Num balão de ar quente, quando se ganha altitude, as pessoas lá em baixo ficam cada vez mais pequenas aos nossos olhos; assim era o efeito da escrita em mim, elevando-me a tal altura que um Goethe ou um Virgílio se tornavam pontinhos minúsculos no solo.

Uma cigarra doente cantou durante seis segundos e morreu.

– Tentava convencer-me muitas vezes que o meu génio era apenas uma ilusão de óptica do meu narcisismo excessivo – não para me convencer realmente, mas porque um grande escritor tem de ser humilde. Só um espírito corajoso confessa as suas fraquezas. Eu lamentava-me por não ter escrito a Bíblia junto dos meus amigos, mas em segredo sabia a verdade. Uma vez tive o estranho impulso de publicar… Quando olhei para o meu público potencial desisti. Nesses segundos creio que me poderiam chamar uma espécie de pós-humanista niihilista: sabia que aquela humanidade não servia e acreditava que ela ia evoluir para outra coisa. No entanto, a única evolução positiva que consegui antever a partir do conjunto dos homens foi a extinção absoluta por efeito dos seus próprios erros. Não é possível ser anti-humano se se reparar bem na capacidade humana de produzir erros cada vez mais colossais ao longo da sua história. Isso é uma grande evolução. Insuficiente, porém, para apreciar a minha obra.

Algumas formigas aproximaram-se da cigarra com o intuito de a transformar em provisões para o inverno, mas assim que lhe tocaram morreram também.

– E eis a génese da minha solidão, magno ónus do homem superior. Neste momento sou a única pessoa capaz de entender os profundos mistérios do universo e unir o Céu e a Terra. Mas como isso me parece aborrecido decido, diante das estrelas que vejo e das que não vejo, que o meu destino será fazer o bem a todos os seres vivos. Assino com a minha alma sobre a linha do horizonte. De hoje em diante suportarei o castigo de Atlas. Os Evangelhos passarão a ser a história de um semi-deus que aspirou a ser eu e não conseguiu. Serei a força dos fracos, a visão dos cegos… não consigo respirar.

K. caiu da pedra abaixo e morreu segundos depois. O vento trouxera um estranho gás do campo de touros.

 

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