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Archive for Agosto, 2008

Diálogo com Toureiro

 

– Penso que a única maneira de proteger uma espécie em vias de extinção é massacrá-la em arenas – até à morte! – para satisfação dos amantes da arte!

K. fitou profundamente o céu. Um céu estival, quente, sem nuvens. Algumas andorinhas exibiam-se em acrobacias aéreas. Em baixo, no Eterno Murmúrio, o oceano continuava os seus trabalhos. Fazendo força com ambas as mãos na mesa da esplanada, empurrou ligeiramente a cadeira para trás, o suficiente para poder encolher as duas pernas e depois atirá-las bruscamente para a frente e atingir em cheio os joelhos do toureiro.

Podia ter sido muito grave: o toureiro puxou de uma bandarilha com a intenção óbvia de atentar contra mais uma vida, desta vez humana, mas felizmente estava sentado à beira de uma falésia e caiu ao longo de 200 metros. Bateu suavemente numa rocha, depois foi arrastado pelas águas. K. abeirou-se do precipício para se assegurar que estava tudo bem. Lá em baixo o mar azul refulgia com belos e invulgares brilhos. Julgou, a princípio, que vinham de uma água especialmente espelhada, mas acabou por reparar que era um efeito das lantejoulas que boiavam aos milhares. Uma mão divina embelezara o Paraíso com uma neve de ouro. Tudo acabara bem.

K. desceu até à praia e apeteceu-lhe um café. Apesar de ter feito uma boa acção, a melhor da sua existência, todo aquele calor fazia-lhe sono e tirava-lhe a concentração que ele precisava para se encontrar a si mesmo.

Depois de beber o café encontrou-se a si mesmo. Tinha achado, em pouco tempo, a Pedra Filosofal, e tinha-a transmutado, através de um simples processo de bodas químicas, numa sólida e definitiva união de corpo, alma e espírito, mas não se sentiu exactamente como lhe prometiam os alquimistas. Paracelso, Dee, Flammel, Lull, Bacon – pensou – eram pouco mais do que charlatães com uma grande imaginação, o que já era extremamente razoável. A única diferença entre a Grande Obra e uma casinha feita de palitos era que a casinha, pelo menos, era real, podia ser destruída, e depois disso ainda dava para esgravatar os dentes.

Deitou-se numa espreguiçadeira para ouvir o Murmúrio do oceano. Ao seu lado, porém, dois indivíduos desenvolviam uma conversa ruidosa de ideias feitas sobre assuntos rasteiros:

– O tabaco – dizia o primeiro – devia ser banido, não de lugares fechados, mas deste mundo. Assim, quem quisesse fumar, teria primeiro que cortar os pulsos.

– Mas – respondia o segundo – o objectivo da proibição de fumar não é preservar a vida, tanto a dos fumadores passivos como a dos irresponsáveis?

– É evidente que não. O objectivo é evitar que morram de cancro no pulmão. Ninguém falou em impedi-los de cortar os pulsos.

– Sabes o que eu acho realmente? Que é um assunto estúpido e desnecessário. É como o Vítor Constâncio falar…

– Concordo.

– …de energia nuclear para divergir do que é realmente essencial e preocupante, nomeadamente a crise económica que grande parte do mundo enfrenta actualmente.

– A crise económica, sabes como é que se resolvia? Tenho uma fórmula: CE.

– Comissão Europeia?

– Cruzadas e Escravatura. África já provou, demasiadas vezes, que não sabe tomar conta de si mesma, e a Ásia na prática não existe. Vês alguma divisão entre Europa e Ásia? Pois eu fui a Istambul de propósito para ver se havia. Atravessei o Bósforo em poucos minutos. Não há nada, nem uma placa. A Ásia não existe. A Europa vai de Portugal ao Japão. Portanto, os países europeus civilizados têm o direito, e a obrigação, de ocupar África e aquilo a que chamam Ásia, para aplicar os tesouros, recursos naturais e mão-de-obra com sensatez. Aplico a mesma lógica às américas: Estados Unidos e Canadá têm o dever de ocupar toda a América do Sul. Como as populações, em geral, não são sensíveis ao discurso dos economistas, será necessário dar a isto a aparência de um campeonato mundial de futebol ou de uma demanda religiosa. Daí estar a falar em Cruzadas.

– Pois, o que há é falta de vontade política. E as contratações do Benfica para a próxima época, já fecharam?

– Ouvi falar em factores psicossomáticos. Mente sobre a matéria, esse tipo de coisas. Vou ver se compro um anti-depressivo para curar estes calos.

– Olha pá, quem sabe sabe, e quem não sabe… Eu se calhar ia era dar um mergulhinho.

– É já.

K. observou as criaturas boçais dirigirem-se à água e, já longe, ouviu os seus gritos. Gritavam a pedir ajuda, que estava ali um homem despedaçado, esse tipo de despautérios. Sobressaltadas, as pessoas que estavam no bar correram logo para lá na ânsia de verem um ser humano sem vida. K. ficou sozinho até as pessoas perceberem que se tratava apenas de um toureiro. Depois voltaram todos para trás, alguns chateados por não terem uma história de jeito para contar, outros porque não podiam tomar banho naquela água poluída com sangue e lantejoulas. K. achou melhor sair sem captar atenções. Se desconfiassem que tinha sido ele, ainda era obrigado a pagar uma coima por poluição da orla costeira.

A caminho de casa o Sol descia e lembrava-lhe a morte. Qual era a diferença entre seres humanos e larvas, formigas ou bactérias? Havia um planeta pequeno, entre muitos outros, num universo vastíssimo, que estava pejado de pessoas – seis mil milhões de pessoas tão mortais e impotentes como qualquer outra coisa viva, um cocó cheio de moscas. Um gesto do universo, como a explosão do Sol, ou a queda de um meteoro a sério, e desapareceriam todas de uma vez, e com elas tudo o que criaram, e o resto continuaria a funcionar da mesma maneira, com a mesma majestade e todas as outras qualidades que se queiram dar. Como era possível, então, o arrojado chauvinismo em torno da espécie? Julgavam, muitos deles, que tinham sido feitos à imagem do criador do universo – que eram seus filhos, que sabiam os seus segredos… Pequenos idiotas sem decoro, nem percebiam que assim tratavam o seu criador como um pateta astronómico – o Pateta Astronómico.

A morte, a morte… Natural mas incompreensivel, certa mas dolorosa. Lembrou-se de um programa da Oprah em que um corte de cabelo especial tinha mudado a vida de várias pessoas. Um corte de cabelo, a vida inteira. Infelizmente o cabeleireiro mais próximo ficava a 20 km. Essa recordação despoletou outras, como às vezes acontece. Lembrou-se de outros programas da Oprah em que dietas, operações plásticas e gestões da economia familiar tinham alterado profundamente muitas pessoas, que outrora eram miseráveis e fugiam dos demais e agora tinham mudado, graças à apresentadora e aos seus próprios inclassificáveis esforços, para o oposto. Inevitavelmente dezenas de anúncios publicitários vieram à tona dizer precisamente o mesmo através de bebidas, chocolates, desodorizantes, laxantes, perfumes… Sim, era possível mudar a alma comprando um carro ou cuidando dos sovacos. A mesma alma que muitos defendiam ser essencial, imutável, resistente à própria morte – não resistia a um corte de cabelo se este fosse feito por um especialista.

Island with a palm tree Fim da primeira parte, possivelmente

 

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