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Archive for Janeiro, 2008

Homo Burjessus e a Irmandade dos Alarves

 

Apesar de alguns sinais de progresso, na população portuguesa continua a predominar o homo burjessus, uma criatura mentalmente situada no Paleolítico ainda que mais vaidosa e com menos apetência para a arte do que o homem desse período.

Sendo uma maioria bem instalada, o homo burjessus não quer perder estatuto nem poder, e vai conseguindo fazê-lo porque é uma maioria unida ("unidos pela selvajaria espiritual" poderia ser o seu lema, se achassem sentido num). Mas com a recente abertura de Portugal ao mundo, com a informação a chegar por canais diversos que não passam pelo intermediário burjessus outrora tão estrategicamente colocado, com as próprias universidades a fazer intercâmbio de professores, alunos e conteúdos com universidades estrangeiras, a manada atravessa um período difícil.

Incapaz de evoluir e de se adaptar a tempos complexos, o homo burjessus sente os avanços na ciência e na arte, o acesso à informação, a difusão cada vez maior de opiniões distintas, como ameaças, sem saber lutar com as mesmas armas. Tem ainda a vantagem do número, que lhe permite fazer pressão sobre as novas gerações para copiar os seus comportamentos e regredir 40000 anos, mas tal é por acidente e não por efeito de um plano pensado.

Na verdade esta espécie não é capaz de planear a longo prazo porque uma das suas características principais é a substituição do raciocínio pela reacção, da inteligência pelo instinto. Possui, no entanto, vários tipos de reacção para várias situações. Pode reagir com urros, ameaças, gestos violentos e ofensivos, atitudes mesquinhas ou linguagem grosseira. Os mais evoluídos chegam mesmo a usar uma forma de comunicação primitiva, hermética mas eficaz: mensagens nas casas-de-banho públicas. Para o homem comum são mensagens de difícil explicação, mas para o homo burjessus o significado é claro. Todas elas dizem a mesma coisa: "eu pertenço à Irmandade dos Alarves" – sendo a Irmandade dos Alarves o conjunto de homo burjessus que possuem o privilégio de conseguir comunicar.

Note-se que "casa-de-banho" tem um significado lato para aqueles que se aliviam em qualquer lado. Por exemplo, para muitos a própria Internet se confunde com uma imensa latrina onde se podem declarar, diariamente, membros da Irmandade. Os mais extrovertidos optam pelas revistas e jornais. A mesma mensagem predomina em formas menos evoluídas do que a escrita. Levar o cão à rua e deixar um rasto de detritos para marcar o caminho de volta, urinar na via pública em hora de ponta, conduzir como se estivesse sob o efeito de uma lobotomia, o "mundo do futebol" em geral e o alarmante jornalismo na televisão tornam-se exemplos recorrentes que provam hora a hora, mais do que as casas-de-banho, a extraordinária dimensão e influência da Irmandade no nosso país.

«Acredito que os valores de uma nação não perecem facilmente, apesar das épocas más. Antes ficam escondidos, como os sarcófagos egípcios ou os templos do Cambodja, até vir uma era mais iluminada que os desenterre e lhes devolva o brilho e a glória de outrora. Pode dizer-se que os cultos Celtas, as conquistas de D. Afonso Henriques e as descobertas da Ordem de Cristo estão hoje soterradas por uma horda maciça (ou "massiva", em vocabulário de jornalista) de broncos entorpecidos que individualmente não são nada mas que em grande número são como uma praga de insectos que destrói tudo quanto alcança. Felizmente só alcança a superfície.»

Não sei bem quem escreveu isto, acho que fui eu, mas subscrevo.

 

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