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Archive for Setembro, 2007

Da Morte – Cap. II

 

Pela forma como pairava o amigo parecia infeliz. K. sabia que tinha uma ou duas perguntas a fazer-lhe, mas já não se lembrava delas. Podia ter-lhe perguntado sobre a experiência post-morten, ter-lhe pedido uma descrição do outro mundo, quem sabe até filmá-la para posterior exploração cientifico-financeira; podia ter-lhe colocado as questões difíceis dos filósofos antigos, podia ter-lhe tocado para saber de que é feito um fantasma, e recolher uma amostra para análise laboratorial, ou simplesmente revelado a sua emoção por rever um amigo que julgava desaparecido para sempre. Mas a única coisa que se lembrou de dizer foi:

 

– Olá.

 

– Olá. – respondeu educadamente o espectro – Vejo que não te causo pavor, admiração ou curiosidade. Continuas tão descontraído como no miradouro, e não me espantava que começasses agora a falar das estrelas ou da lua de maneira profunda e grave, em vez de me questionares sobre o mundo dos mortos. Quanto vale a tua filosofia, afinal, se és indiferente a um dos maiores mistérios da natureza, um mistério que também tu guardas dentro de ti, o da vida e da morte?

 

K. pensou durante alguns minutos, sentado no chão. Parecia estar realmente a pensar julgando pela expressão de esforço que fazia.

 

– Custa-me admiti-lo, mas tens razão. É estranha a filosofia que corre no meu sangue. Há pouco lamentava o teu suicídio por prejudicar os meus diálogos em busca da verdade, e agora aí estás tu, cheio de respostas, e eu de fome. Não consigo, sob uma necessidade tão primária como a fome, pensar com objectividade. Que digo? – não consigo sequer prescrutar em mim qualquer vontade para além da de comer! Tu, ao longe, alternavas entre uma miragem de algodão-doce e outra de farófias. Eu sei que parece injusto, mas a natureza parece injusta: é uma desilusão que neste momento sejas uma coisa não comestível. Deus escreve direito por linhas tortas. Ficarias chateado se eu for a uma daquelas rolotes que vendem churros antes de falarmos? Acho que há uma a uns três quilómetros.

 

– Tenho tempo. Acompanho-te.

 

Os dois amigos dirigiram-se em silêncio à rolote, causando um enorme rebuliço ao chegar. Os que ali estavam fugiram em pânico, atropelando-se uns aos outros, alguns caindo várias vezes pela escuridão fora, até deixarem de se ouvir por completo. Depois de K. se servir, sentaram-se na esplanada, no meio da escuridão. A Lua parecia uma foice e tinha um tom cadavérico; não brilhava, como se temesse mostrar-se aos humanos. A água do rio, que passava a poucos metros, fazia-se profundamente negra para se esconder, sendo traída apenas pelos reflexos das luzes citadinas. As criaturas de maior sensibilidade, como as aves e os insectos, podiam adivinhar uma mostruosidade indefinida no ar, qualquer coisa sinistra e demasiado próxima. O próprio silêncio estelar, normalmente majestoso e indiferente, parecia ter uma intenção.

 

– Já acabaste? – disse o fantasma num tom ambíguo, muitas vezes usado neste patamar existencial e que podia significar tanto o acabar do churro como o da vontade de viver.

 

– Ouve, amigo. Quero esclarecer as coisas. Desde que apareceste tenho sentido avisos sucessivos provenientes do meu sexto sentido, que é o meu anjo-da-guarda, alertando-me para um perigo vindo de ti. Bem vejo que estás lúcido e que não és tangível, e daí posso deduzir que não és um zombie. Como me poderias comer o cérebro e os intestinos se não tens dentes sólidos nem um estômago capaz?

 

– Antes de continuares com as asneiras, deixa-me tomar a iniciativa de relatar porque voltei a este sítio e estou a falar contigo. Como deves imaginar, não é muito comum os mortos falarem com os vivos, pelo menos da maneira como estou a falar contigo: sentado, com aspecto humanóide, voz e palavras. Muitos, receando pelo choque emocional que podem causar apresentando-se desta forma, possivelmente traumatizante, ou mesmo trágico, para com aqueles que amam, comunicam de maneiras muito mais subtis e ambíguas. Alguns optam, por exemplo, por se introduzir nos sonhos. Um sonho é sempre ambíguo. Não estando a pessoa desperta, nem a dúvida desaparece, nem a certeza é traumática. Toda a gente já experimentou alguns sonhos reais e hiper-reais. Sabem que o material dos sonhos pode ser o cruzamento de memórias e emoções diversas, e é difícil saber o seu significado ou o seu objectivo. Desmontar um sonho, mesmo para um Freud, é uma tarefa complexa e sem certezas absolutas. Quem poderá afirmar, e provar para si mesmo, que foi um fantasma verdadeiro que entrou no seu sonho e não um qualquer cocktail de memórias e desejos? E muitas vezes são mesmo fantasmas que assim se manifestam.

 

– Fez-te bem, morrer. Como aprendeste tanta coisa em tão pouco tempo? Parece que te suicidaste há anos, mas foi há poucas horas… Como é que sei que não estás a inventar tudo isso?

 

– Nunca saberás. O tempo ali é diferente… não, não quero falar disso. Nunca saberás e pronto. Mas não me interessa que acredites. Um amigo respeita tanto a opinião como o descrédito do outro. Fica apenas com a hipótese, e mais tarde, se (um estranho sorriso distorceu a boca do espectro ao proferir este "se") escreveres uma obra, podes citar-me se quiseres. Agora, se puder continuar…

 

– Continua, pois não é sem um grande prazer que te estou a ouvir.

 

– Pois bem, há outras formas de manifestação imaterial. Por exemplo, através de mediuns, pessoas com capacidade de sintonizar a mente em frequências especiais. A maioria não consegue fazê-lo, e portanto, por muito que acredite, não pode contactar directamente com a verdade. Tal como um cego de nascença acredita no que lhe contam que os olhos vêem, e acredita na visão, mas nunca possuirá a verdade que provém da própria experiência. Comunicar através de mediuns é uma habilidade bem urdida dos espíritos que não querem chocar os vivos. Os mediuns experimentam desde muito cedo o seu talento, e ao longo da vida acabam por se habituar aos mortos, pelo que estão preparados para comunicar com eles. E como estão vivos, estão também preparados para comunicar com os vivos. Eles são os cabos do telefone.

 

O fantasma fez silêncio para analisar a reacção do amigo. O amigo não teve reacção nenhuma, mas permanecia visivelmente interessado no discurso.

 

– Sim, há gente que nasce para ser um cabo de telefone – continuou – entre mundos. É claro que nem tudo é perfeito e as coisas às vezes falham. Quando é o próprio medium a invocar o espírito, ele precisa de ter a garantia (e muitos não se apercebem disto!) de que o espírito está próximo. Não existe uma frequência por espírito, como deves calcular. O espectro de comunicação é limitado. Todos os mortos ouvem nas mesmas frequências. Isto funciona assim: o medium emite ondas cerebrais com uma dada potência, que são melhor captadas quanto melhor for o sinal. Ou seja, são melhor captadas pelos espíritos mais próximos. Se o espírito estiver longe, pode nem sequer ouvir e outro pode responder por ele. O anonimato é demasiado fácil no espiritismo! Qualquer fantasma pode dizer "sim" ou "não" apagando uma vela, batendo numa mesa ou arrastando uma cadeira. Isso prova que há ali um espírito, mas não aquele com quem queremos falar. Mesmo com aqueles jogos de letras, em que o fantasma pode escrever arrastando um objecto qualquer sobre um alfabeto, como se estivesse a mandar um SMS, não são de todo seguros! O mais seguro, e quase ninguém o faz, será deixar um papel e uma caneta em cima da mesa e pedir ao fantasma para fazer uma assinatura, para posterior autenticação no notário.

 

– No notário? Tenho estado a ouvir-te com atenção, mas parece-me que te contradizes, para não dizer que gozas descaradamente da minha ignorância. Por um lado defendes que os mortos não querem revelar-se abertamente aos vivos para não causarem estragos; por outro que os vivos querem ter a certeza absoluta de que estão a falar com um determinado morto. Espera aí, não há contradição nenhuma… Continua!

 

– Pois bem, assim é com os mediuns. Mas há espíritos que não confiam nos mediuns nem nos sonhos, e preferem interferir directamente com a matéria para comunicar. Muitos provocam ruídos para dizer coisas em código morse.

 

– Código morse… Que subtil.

 

– Por exemplo, o famoso ranger de portas, ou o arrastar de correntes, ou as batidas no sótão que se atribuem aos fantasmas, ou luzes que acendem e apagam, são na maior parte dos casos tentativas de comunicar em morse. Rangidos de pequena duração, um ponto; de longa duração, um traço. As batidas são telegráficas. É um método arriscado, porque poucos vivos interpretam estes sons sinistros como um mero código. Em vez disso ficam alarmados, assustam-se, fogem, cheios de emoções terríveis que perturbam uma interpretação lógica. Já tudo foi tentado para não assustar, mas parece não haver nada suficientemente inofensivo.  Por exemplo, muitos vivos têm pavor ao som da máquina de costura daquele a que chamam “fantasma da costureirinha” – que é na realidade um método usado por vários fantasmas: uma pedalada rápida, um ponto, uma pedalada longa, um traço. Há fantasmas que mexem na comida dos pratos para passar mensagens, nos flocos, nos restos de café. Outros mexem em areia, na terra dos vasos, ou mudam coisas de lugar na esperança de que os vivos percebam. Outros ainda, menos higiénicos, recorrem à disposição dos dejectos nas sanitas para dizer o que sentem. Mas alguns fantasmas têm-se apercebido da histeria e da falta de percepção dos vivos ao longo do tempo e mudaram de estratégia, aproveitando-se do fabuloso manacial de meios que as novas tecnologias oferecem. Já viste um filme chamado “Ruídos do Além”?

 

– Não posso negar.

 

– Pois bem, esse é um meio: gravarem mensagens em fita magnética. Infelizmente o VHS, os 8 mm e as próprias cassetes áudio, já foram praticamente substituídos por suportes digitais mais difíceis de alterar. Os fantasmas só conseguem alterar discos rewritable. Em compensação, há a Internet.

 

– Há fantasmas na Internet?

 

– Poucos, mas só porque muitos dos espíritos se libertaram do corpo antes da época dos computadores. Quase todos os mortos recentes – digamos, dos últimos 20 anos – usam a Internet para comunicar. Nunca recebeste emails que não sabes de onde vêm, ou convites misteriosos de gente que não conheces no Live Messenger ou no Skype?

 

– Já, é verdade. Mas podem vir dos vivos.

 

– Ou dos mortos, não sabes. É fácil enviar um email anónimo. Basta recorrer a remailers que lhe decepem o header e os reenviem para outros remailers até se perder o rasto. E é essa a grande conquista dos espíritos para poder comunicar sem assustar. Claro que se escreverem coisas muito específicas podem induzir estados de paranóia. Mas para um fantasma já é muito agradável escrever uma porcaria qualquer e ver que o destinatário lhe dá alguma atenção. Às vezes não existe muito para dizer e qualquer contacto é recompensador, por muito idiota que seja, como alguns desses mails que proliferam com campanhas do tipo “enlarge your penis”. Experimenta telefonar para um desses números. Se não existir o número, a origem é provavelmente fantasmagórica.

 

– Não sei se vou experimentar. Podem atender.

 

– Faz o que quiseres. E vírus? Há vírus inofensivos, que apenas se copiam a eles próprios, numa espécie de tentativa de sobrevivência. Quem julgas que os introduziu no sistema? Os mortos, pois claro. E interferências no televisor, nunca notaste? Os mortos podem influenciar facilmente um sinal de satélite ou de cabo. Se um relâmpago o consegue, imagina um morto.

  

– É por isso que a recepção perto de cemitérios é sempre pior.

 

– Bom, podes imaginar mais exemplos semelhantes via rádio. Quero terminar a minha exposição de factos dizendo que existem espíritos menos cuidadosos, ou com outras intenções – K. observou um sorriso sinistro a carregar as “outras intenções” – , que se mostram aos olhos dos vivos, como eu, com esta espécie de truque que é o plasma.

 

– E o que é o plasma?

– Vocês, de letras, julgam que uma tempestade é uma peça de Shakespeare. Um plasma é um gás ionizado que tem um número suficientemente grande de partículas carregadas para se blindar electrostaticamente a si mesmo, numa distância que é relativamente pequena a outros comprimentos de interesse físico. É denominado o quarto estado da matéria.

– Não percebi, talvez porque a arte em excesso se me deposite nas artérias, como uma espécie de colesterol, e me impeça uma saudável circulação sanguínea na cabeça.

– Deixa-me arranjar alguma coisa simples que conheças para exemplificar… 

– Sim, assim uma coisa simples e trivial, como os grandes temas da literatura, para que eu perceba.

– Conheces, por exemplo, as estrelas – tipo o Sol? Estão cheias de plasma. Mas se nunca reparaste nas estrelas senão como objecto poético, o que é bem possível, dou-te um exemplo mais abrangente: o espaço entre elas. O quarto estado da matéria é o mais abundante do universo. Consiste num cocktail de electrões livres e iões a que podes chamar, se quiseres, um gás condutor. Se o exemplo é grande demais aqui vai um mais pequeno: lâmpadas fluorescentes.

– Já percebi, chega. Quero lá saber. Essa conversa já me está a dar náuseas. Em resumo, agora és feito do mesmo material de uma lâmpada fluorescente.

 

– Assim é. Agora preciso de saber, antes de continuar o meu discurso, o que pensas dele até aqui. Acreditaste nalguma palavra daquilo que eu disse?

 

– Estou cansado. Deixa-me dormir um bocadinho e já te respondo.

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Pedro e André

 

No "Guerra e Paz", de Tolstoi, Pedro Bezukov, um ingénuo, descarrilado da vida, filósofo, idealista e inesperadamente multi-milionário, e André Bolkonski, um príncipe rigidamente educado, outrora movido pela glória, ajudante-de-campo no exército russo e ferido em Austerlitz, debatem os altos valores da Maçonaria e a função do homem na sociedade.

Pedro, recentemente iniciado, é pela generosidade, pela ajuda aos mais pobres e desprotegidos. Por sua iniciativa é reduzida a carga horária dos trabalhadores das suas propriedades, construídas escolas e hospitais, elaboradas regras de protecção às grávidas, que ficam dispensadas do trabalho. Apesar de, na prática, pouco disto funcionar (são os próprios trabalhadores que acabam a construir as escolas e os hospitais, por exemplo, sobrecarregando ainda mais a carga horária), porque quem controla de facto as coisas, debaixo de si, não possui os mesmos ideais – profundamente estranhos e visionários na Rússia do início do século XIX. Pedro encontra-se absorvido por esses ideais. Para si a vida não faz sentido se não for para ajudar o próximo, e ele, sendo inteligente e rico, tem maior obrigação de o fazer.

André, porém, crê que o sentido da vida é a vida em si, e que cada um deve viver da melhor forma possível para si e para a sua família, preocupando-se apenas em não fazer mal aos outros. Em vez da visão idealista da igualdade dos homens possui a percepção realista das suas diferenças. Na sua opinião um camponês, por exemplo, foi feito para suportar o que faz e é mais feliz vivendo como um animal, ou seja, de acordo com a sua natureza. Fazer-lhe bem é não lhe fazer nada, é deixá-lo continuar como está, sem qualquer mudança.

Dentro dele há um grande amor pelo mundo e uma grande indiferença pelo homem. Caído em Austerlitz apraz-se em admirar o céu, de um azul que nunca tinha visto, em contraste, por exemplo, com as suas ideias sobre o Napoleão, que considera um homem fraco, e sobre o próprio imperador russo, Alexandre. Depois dessa batalha, retornado a casa, decide viver dois anos no campo, afastado da vida militar, da alta sociedade e do seu também forte ideal de glória. Sempre desiludido, melancólico, pensa mais na morte do que na vida, enquanto algo dentro de si – essa admiração pelos reflexos do Sol na água, pelo orvalho, pelo campo – vai cantando o oposto em sensações.

Pedro é, no fundo, fraco, incapaz de decidir por si mesmo. Tendo o pai falecido, deixando-lhe uma imensa fortuna, encontrou apenas abutres e invejosos na alta sociedade de Moscovo e S. Petersburgo. Foi-lhe empurrado um casamento que não teve coragem de recusar, e que ao fim de algum tempo resultou numa inevitável separação. Perdido, encontra subitamente na franco-maçonaria uma orientação e nos seus princípios se dilui como uma gota no mar. A sua generosidade não tem raiz na força e sim na fraqueza – é a maneira mais fácil de viver consigo mesmo, crendo que tem elevados objectivos em si próprio mas, na realidade, sendo apenas um meio que os outros usam, ricos e pobres, para o bem e para o mal. O bem que faz aos outros é tão somente um efeito colateral de existir à deriva.

Para muitos, hoje, alguém como Pedro será visto como um grande homem, um filantropo à medida dos actuais padrões da moralidade. Eu vejo-o como um cobarde que não teve coragem de se enfrentar a si mesmo, que migrou do seu ser para os ideais humanistas, que trocou o individual pelo universal. Sinto por ele simpatia, mas não admiração. "Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses" – é esta a máxima que, para mim, guarda a maior grandeza. Mas o lema de Pedro é diferente, de pequena dimensão, algo como "esquece-te de ti mesmo e conhecerás os ideais humanistas". É o lema de muita gente que se abandona para, por exemplo, se dedicar a alguma causa ou religião, ou simplesmente ajudar os outros.

Ajudar os outros é bom – para os outros. Não para nós próprios. Se a nossa alma migrar para corpos desgraçados, transformamo-nos em esponjas da desgraça alheia. É mais desgraçado o que ajuda do que aquele que é ajudado, porque acumula várias desgraças, enquanto o ajudado só tem a dele. A história de Cristo, o grande símbolo desta forma de perdição, é uma alegoria clara deste mesmo argumento: em troca de absorver os pecados da humanidade findou numa morte horrenda. No entanto, à custa das modas, é incrivelmente mal interpretado. Diz-se que a mensagem de Cristo é "ajudai-vos uns aos outros", etc., quando é precisamente o contrário: é um aviso: "não façam o que eu fiz ou vão ter o mesmo fim". Ajudar os outros tem graves consequências, eis o que nos contam os evangelhos. Os que a História reconhece como grandes humanistas ou são desgraçados ou são falsos. É impossível ajudar miseráveis e continuar feliz, se houver coração em quem ajuda. É impossível ir a África, por exemplo, dar tudo o que se tem e voltar em paz – sabendo, pela experiência, que toda a ajuda foi insuficiente e os problemas vão permanecer. Quem tem compaixão absorve o sofrimento alheio como um aspirador. Pode sentir-se um deus bondoso entre criaturas inferiores que mesmo assim não atinge a paz e a felicidade. A única salvação da caridade é o masoquismo.

André é uma personagem complexa. Racional em extremo, como o próprio Tolstoi, possui um aguçado espírito crítico que não se verga nem diante do pai, nem diante de generais e imperadores. Sabe o que fazer, como se relacionar, é um diplomata, mas não persegue facilmente ilusões. A sua face idealista resumir-se-á, talvez, a uma única ilusão ingénua: obter a glória no teatro de guerra. Mesmo sendo apenas ajudante-de-campo André sonha com uma grande vitória dos russos obtida através de um plano seu. Em Austerlitz cai empunhando um estandarte, uma das maneiras mais gloriosas de cair, mas as suas ambições vão muito além de um acto corajoso numa batalha desastrosa. Mais tarde, após os seus anos no campo, tenta reformular o Código Militar, e graças à sua habilidade diplomática e a fortes influências consegue-o, para logo de seguida se desencantar com o projecto e partir para o estrangeiro. Apaixona-se com grande intensidade por Natasha (de estirpe menos elevada), mas tal paixão segue o mesmo rumo de todas as outras: assim que a pede em casamento André começa a desencantar-se. Em vez de lutar pela relação, deixa-a desmoronar-se como aparente indiferença.

Simpatizo com personagens como este André, que por não se perceberem muito bem parecem estar vivos. Não os conseguimos encaixar num estereotipo, e ao mesmo tempo notamos-lhes "virtudes imperfeitas" e incoerências humanas. André tem talento e desperdiça-o. Eis a mais altiva e excelente das arrogâncias: a daquele que atira fora o que muitos desejam. Não sei dizer o que o move – se uma ingénua, porque genuína, vontade de glória, se o próprio desencanto que o impede de fixar-se a uma só coisa.

O ponto fraco é ser demasiado humano. É bom, mas não é extraordinário. Se fosse extraordinário acabaria as tarefas e as paixões começadas, levaria as coisas até ao fim. Mas não o faz, por fraqueza. Revela uma enfermidade de espírito que, apesar de realista, tem menos impacto literário na minha forma de ler. É talvez demasiado realista para que me lembre dele assim que pousar o livro. Óscar Wilde, ou Vivian, no "Declínio da Mentira", tem toda a razão ao colocar a Arte acima da Verdade. A verdade é realista, a mentira é bela. Falta a André ser Diomedes, Eneias ou Aquiles.

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Da Morte – Cap. I

 

– Antes de vencermos os outros temos de nos vencer a nós próprios.

– Isso dito assim, fora de contexto, até parece verdadeiro.

– Tenho muitos talentos.

Calaram-se. Daquele miradouro a vista sobre a cidade era magnífica. Àquela luz, tão intensa, do poente, os telhados pareciam uma lagoa de ouro, apesar de serem mais feios que a Amália quando era viva. Depois deles, indiferente às mais inteligentes observações, o grande Tejo azulava a paisagem carregando nas costas um grande tesouro de pepitas de ouro.

– "Shadows and dust". A vida é só sombras e pó. Mas podem ser sombras de gigantes e pó de ouro.

– Sabes uma coisa? Somos amigos desde a primeira classe, não é verdade?

– Sim.

– Nesse caso não tenho o direito de te estragar a inspiração poética – por isso e por poder ser, como dizem alguns, uma manifestação divina ou fantasmagórica. Tenho, pelo contrário, o dever de apoiar o teu encanto neste momento de observação, e concordar com tudo o que dizes, mesmo que sejam declarações sem fundamento lógico, frases sem interesse ou torpezas sem verdade. Assim mandam os cânones da amizade, que eu defendo como à minha própria vida. Arrancaria os braços com um sorriso, amigo, se tu precisasses, por alguma razão, mesmo que sórdida, de dois braços. Repara nas lágrimas que me dançam nas pestanas: são elas o certificado de autenticidade das minhas palavras. Como dirias? Pérolas que brotam da própria alma.

– Não duvido, meu amigo. Mas como é que estragarias a minha inspiração poética?

– Assim. – ao dizê-lo saltou do miradouro, esborrachando-se contra um telhado duzentos metros abaixo. Por respeito, ou uma feliz coincidência causada por uma primitiva reacção de espanto, K. fez um minuto de silêncio como mandam as normas da boa educação nestes casos. Depois inclinou-se para ver melhor. Algumas pessoas corriam para o local, alarmadas, e ouvia-se já uma sirene. A queda fora feia. O corpo batera em algum sítio com violência suficiente para se partir ao meio. K. observou, com ironia, que os braços se mantinham agarrados ao tronco.

– Talvez tenha levado demasiado a sério as minhas palavras – reflectiu K. para si mesmo – e elevado ao absurdo o desafio de se vencer a si mesmo. A culpa é minha. Sabia que era influenciável, não devia ter dito nada. E pior que isso, foi tê-lo feito enganado e com um provável sentimento de culpa. De onde terá tirado a ideia de que uma coisa destas estragaria a minha inspiração poética? Tudo é sublime e perfeito. Que falta de auto-estima a daqueles que não se acham sublimes e perfeitos! Não somos a obra de Deus, que é sublime e perfeito? Somos, portanto a humildade não pode ser uma virtude e sim um defeito, um dos maiores defeitos do herege, porque lhe turva a visão e o impede de se apreciar como obra de Deus, tão sublime e perfeita como Ele.

K. desceu a escadaria em direcção ao rio. Mesmo passados 40 minutos não conseguia deixar de pensar no amigo. As suas reflexões estavam sem controlo, ultrapassando e atropelando-se umas às outras, cada uma fervilhando de fortes emoções, como acontece aos principiantes. Sem se intimidar começou a traduzi-las em frases estruturadas, no meio da praça. Não era a primeira vez que isso acontecia.

– Eras meu amigo desde a primeira classe. Ensinaste-me a jogar ao berlinde, e agora ensinas-me quanto de Hamlet há na vida. Tudo é efémero. E curioso. Eu nem suspeitei que te ias suicidar – que dor eu sinto! Se suspeitasse, ter-te-ia perguntado porquê, e tu ter-me-ias respondido sem rodeios, como era teu hábito. Ai, não sabemos que espaço ocupam os amigos dentro de nós até os perdermos! Só quando desaparecem, como um rim ou um pulmão, é que temos consciência da sua importância. Temos consciência da sua importância, portanto, não porque tenham alguma vez importado no sentido absoluto do termo, mas pelo vazio que deixam em nós. Não gostamos de vazio. Mas porque não? Se não existisse o vazio as coisas ficavam todas coladas umas às outras, tanto que nem se podia distinguir um comboio de um chinelo. Era, se não penso mal, tudo uma e mesma coisa, o Uno elevado a um absoluto e sinistro absurdo.

Algumas pessoas estranhas à filosofia reparavam nele e faziam expressões de pena ao ouvir as barbaridades que proferia. Julgavam-no maluco e miserável e só não deixavam esmola porque estava de boa saúde. Mas K. não reparava que estavam ali.

– Tenho de argumentar contra mim mesmo, fazendo a vez do meu amigo que se suicidou. Pois bem, talvez não seja assim e existam vários tipos de vazio: um, o que separa os electrões do núcleo, e dois, o que sinto no meu peito. Seria esta a hipótese que o meu amigo me colocaria? Nunca poderei saber, logo o suicídio é prejudicial à filosofia. Mas poderão existir vários tipos de vazio? Se o vazio é aquilo que não é, existirão diversas formas de não ser? Como se poderá afirmar que dada coisa não é de forma distinta de outra coisa que também não é se nem podemos chamar coisas às coisas que não são? Como me é difícil, sob pesada angústia, raciocinar com clareza, vou tentar a empatia.

K. sentou-se no chão a tentar sentir-se como uma coisa não existente, durante tanto tempo que escureceu e a praça ficou deserta de curiosos. Ao levantar finalmente a cabeça reparou que tudo era negro à sua volta à excepção de um estranho bocado de nevoeiro, parecido com algodão sujo, a pairar à sua frente. Fazia-lhe alguma impressão, porque não gostava de coisas sujas, e fitou-o durante alguns minutos. O nevoeiro parecia caminhar. Às vezes parecia até estar a preparar-se para falar. K. decidiu que tal fenómeno merecia o uso dos óculos, apesar do trabalho que lhe dava procurá-los na mochila.

Quando finalmente pôs os óculos teve uma incrível surpresa: era o seu amigo que ali estava, ou o seu espírito, todo branco, como se lhe tivessem atirado um bolo de noiva ao nariz. Era mesmo surpreendente: os óculos ainda funcionavam, portanto as diopetrias não tinham aumentado. K. tinha-se convencido que as constantes leituras lhe tinham agravado a miopia, mas sempre que decidia colocar os óculos para verificar essa hipótese punha-se logo a pensar noutra coisa qualquer para não ter o trabalho de os tirar da mochila. Não era uma pessoa prática.

Fim do Primeiro Capítulo

 

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