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Archive for Fevereiro, 2007

Do Plástico

– Olá Mortápilas de Creta, sê bem vindo. Estou a fazer um chá de menta
delicioso, como fazem no Egipto, tão quente que é capaz de derreter aço. Aprendi
isto com Sólon, nos Mistérios de Elêusis.

– Não quero ser chato nem herético, mas dizem que beber bebidas quentes em
copos de plástico pode provocar cancro. Parece que liberta as moléculas nocivas
do plástico.

– Sim, eu sei. Tento porém ver as coisas pelo lado positivo. Primeiro, sou a
favor da liberdade, e segundo acredito que o mundo vai acabar muito antes de eu
ter cancro.

– É admirável, a fé. Tanto mais admirável quanto mais absurda.

– Pois é.

– Nesse caso aceito o chá, obrigado.

Mortápilas de Creta pega no copo de plástico todo inchado por causa do calor.
Uma pessoa normal ficaria em segundos com uma queimadura de segundo grau na mão,
mas Mortápilas tem sorte: um estado avançado de lepra protege-o da dor.

– Vamos, bebe, e a seguir mostro-te o meu próximo projecto.

O cretense fica sempre ansioso quando ouve a palavra "projecto", e bebe o chá
tão depressa que parte da boca lhe escorre para o chão.

– Mostra-me o teu novo projecto, Fídias.

Fídias aproxima-se de uma coisa e destapa-a.

– Aqui está.

– Mas é apenas um pouco de papiro com um pouco de cuspo.

– É isso mesmo, porém as aparências enganam. Não diziam também que o plástico
era apenas petróleo estragado exportado pela ilha do grande Rei Atlas? E hoje,
repara bem, serve para fazer copos descartáveis.

– É um grande avanço científico, reconheço. Explica-me então o objectivo da
tua nova invenção.

– Muito bem. Que Posídon me conceda a virtude da temperança, para que
controle o entusiasmo que é descrever esta soberba maravilha. Que Atena de olhos
de coruja me limite os adjectivos, para que não excedam esta vontade ilógica,
que luta no meu peito, de me comparar aos próprios deuses. Esse papiro que aí
vês é um apêndice da própria memória. Imagina que te queres lembrar de um
compromisso importante – a data dos jogos, por exemplo. Escreve-la neste papiro
que, por estar já dotado de uma cola fraca, pode ser colado ou descolado de
qualquer sítio facilmente.

– É um escarro.

– Um escarro é uma cola orgânica. Suja as paredes, sei bem, mas pode ser
aperfeiçoado. Como já notaste, o produto de uma constipação leve difere muito do
de uma que já atingiu os pulmões. Este último é mais espesso, resistente e
moldável. Portanto, onde falham as artes de Asclépio, vão acertar as inovações
de Fídias. Para um efeito estético mais aprazível tingirei o papiro com as
mesmas cores da cola, amarelo ou verde.

– Sem dúvida, Prometeu não dividiu o Fogo igualmente pelos mortais. Uns
ficaram com pouco, outros, como Fídias, ficaram com quase todo. Há assuntos
polémicos, cheios de opiniões contraditórias, mas neste toda a gente concorda
com a verdade: Fídias é um génio. Se o teu chá não me tivesse derretido quatro
dedos terias em mim o primeiro voluntário para testar essa maravilhosa
invenção.

Caminham lado a lado e saem para o claustro em silêncio. Ouvem-se algumas
borboletas. Mas Fídias mostra-se inquieto, hesitante em falar. Por fim decide
desabafar.

– Sabes, Mortápilas, eu tenho um passatempo. A ideia foi-me dada por
Péricles. Ele veio tomar chá e enquanto enfaixava as mãos disse-me: "ó Fídias,
arquitecto dos arquitectos, o teu ócio é uma dor que tenho. Porque não ocupas os
tempos livres, por exemplo, a fazer um templo para Atenas, uma coisa simples.
Sei que Ictinos e Calicrates também estão à procura de passatempos, podias
formar com eles uma equipa, tendo a autorização do líder máximo de Atenas".

– Não é por acaso que Péricles é esse líder máximo. As suas ideias são o ouro
de Atenas. O que respondeste?

– Estava aborrecido, por isso disse-lhe logo que sim. Uma pessoa tem que
ocupar os tempos livres. O templo não era tão necessário como os papiros
autocolantes, mas ocupava. Coloquei apenas uma condição.

– Qual?

– Que pudesse experimentar inovações nessa construção, como ajustes à
perspectiva para parecer mais simétrico, colunas esculpidas com figuras
decorativas, uma estátua colossal de Atena de ouro e marfim, e a união das
colunas ao tecto através de uma substância experimental chamada pólvora. Vou
também encher o centro com essa mesma substância, ao lado dos tesouros.

O cretense, maravilhado, não se conseguiu exprimir. O resto da boca
escorregou para o chão.

*

Epílogo

Esta história antiga sobreviveu às eras. Séculos mais tarde, Voltaire viria a
proferir a sua mais célebre frase: "não havia plástico no tempo dos gregos". Que
era falsa, porque também não havia plástico no tempo de Voltaire.

Ou melhor, as mais recentes investigações revelam que o plástico existia
muito antes de Fídias. Platão, no seu diálogo sobre a Atlântida, fala num metal
desconhecido, o oricalco, quase tão valioso como o ouro, que existia em
abundância no reino de Atlas. Platão enganou-se, não era um metal, e sim
plástico, que na altura, 10 a 15 mil anos atrás, era muito complicado de
fabricar, sendo por isso muito caro.

As mesmas investigações prosseguem com a afirmação arrojada de que o topo das
pirâmides de Gizé era feito de sobras de plástico atlante. O imaginário
colectivo deu-lhes a forma de cristais no século XX porque o cristal se
popularizou nesse período, tomando mesmo qualidades sobrenaturais como
influências sobre a saúde e sorte, enquanto o plástico se banalizou, produzido
em massa e usado em coisas como piaçabas.

É deste modo que a lenda vence a realidade. Mesmo que existissem viagens no
tempo, e se pudessem ver os egípcios a erguer plástico em nome dos deuses, as
pessoas prefeririam acreditar que a parte mais valiosa dessa maravilha do mundo,
as pirâmides, não era feita do mesmo material que o piaçaba comprado na loja
chinesa.

 

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