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Archive for Dezembro, 2006

Contraponto

– Bom dia amigo. Que cara é essa?

– Sinto necessidade de expelir uma opinião sublime sobre mim.

– Excelente. Enquanto a expressas, se não te importas, faço o contraponto com
as coisas mais anormais que me lembrar.

– Sou um diletante que devaneia sem objectivo e raramente pensa alguma coisa
que se possa aproveitar, porque o meu pensamento é distante da realidade, é como
um vôo de águia sonhadora sobre o mundo, e tão alta está, tão imersa no próprio
voar e ver, que apesar de ver mais vê menos.

– Imagina aquela tipa do Ferrero Roche, com aquela seda amarela, aquela
postura de altíssima sociedade, a dizer ao criado: “Ambrósio, depois da
requintada dieta que me administraste necessito expelir uma coisa especial”, e
logo a seguir a levantar o vestido, a acocorar-se atrás de um arbusto e a
projectar litros de diarreia com a cor dos bombons a 20 metros de distância,
como os torniquetes que regam os estádios, entre puns monstruosos que fazem voar
bandos de aves.

– Nas florestas altas da minha inspiração o universo deixa de ser universo
para se transformar no Santo Graal. Não sobra nada da realidade quando sinto
isto, porque tudo se torna belo. O sofrimento e a morte, a violência e a
tortura, a perda de todos, a descrença, o desespero, mesmo um cadáver cheio de
larvas de mosca é beleza, uma beleza imensa e imortal, se a poesia vive em
mim.

– Sei de um mergulhador que usava daqueles fatos húmidos, de peça única, e
que estava com diarreia. Incauto, mergulhou mesmo assim, e lá em baixo começou a
sentir pouco controlo sobre o esfíncter e libertou-se uma enorme quantidade do
pestilento produto. Ora sabes como funciona um fato húmido de peça única: deixa
entrar um pouco de água que fica sob pressão entre o corpo e o fato, aquecida
pelo primeiro. Tem um fecho que veda até ao pescoço, pelo que as únicas partes
que podem expelir alguma coisa são os tornozelos, os pulsos e o pescoço. Imagina
agora o mergulhador a chegar à superfície… Sob pressão, a diarreia, espalhada
por todo o corpo, saía por estas partes, de tão grotesco modo que lhe aplicaram
a alcunha de “homem-merda”.

– Não consigo compreender a mente dos génios, esses que conseguem resumir a
um verso, a poucas pinceladas, a algumas notas, coisas que nos são tão íntimas,
que fizeram parte de nós toda a existência sem que as soubéssemos transmitir, e
súbito se revelam ali – neste poema, naquele quadro, naquela melodia de
aparência simples. É como se nos conhecessem melhor do que nós próprios, ou como
se revelassem o que nasce com todos os homens, essa Luz do divino que aguarda na
sombra.

– Sabes porque é que os velhos de Lisboa nunca se perdem? Porque para os
encontrar basta seguir os escarros. Só isso me explica que a moda dos
escarratórios tenha tão cedo terminado. Um batedor experiente pode saber mais ou
menos o tempo que um velho esteve num banco de jardim ou numa paragem de
autocarro pela quantidade e consistência dos ovos estrelados acumulados no
sítio. Em caso de dúvida, basta fazer uma análise de ADN à substância.
Assustador. Lembras-te daquela anedota do concurso de escarretas, que termina
com um português a sorver todas as alforrecas dos outros concorrentes e a lançar
uma gigantesca contra o alvo? Estas anedotas nunca são inocentes: o imaginário
popular tem sempre um fundo de verdade. Tenho pesadelos com essa imagem desde
pequeno. Este país tem os maiores peritos do mundo em escarretologia, os mais
profícuos lançadores, a mais bem preparada cultura. Temo que possam saber tudo
sobre a minha vida, desde a password do multibanco à cor dos meus chinelos, a
partir de uma cuspidela inocente, de um apertão de narina, de um burrié colado
no horário do comboio. De tal forma o receio que engulo toda a porcaria que
consigo. Acabei até com os lenços – se eles são os maiores escarretólogos, eu
serei o maior sorvedor do planeta.

– O mar, esse colosso. Observo e, ao sentir a energia impossível do Reino de
Poseídon em mim, surgem-me saudades de um mundo que não conheci, não sei se o da
Antiga Grécia, se outro anterior. Talvez a Atlântida não seja um mito, e sim o
nome de um deus antigo que habita em nós. E o mar é tão imenso que me eleva uma
vontade de chorar, e ver nas lágrimas o arco-íris, a presença do mistério
simples em todas as coisas.

– As nuvens são apenas gases e no entanto conseguimos vê-las. Infelizmente
não conseguimos ver todos os gases. Estava noutro dia a imaginar como seria a
forma sólida de um peido, se tivesse forma. Ocorreram-me logo três hipóteses
óbvias: Eunice Munoz, Vitorino de Almeida e Odete Santos. Eunice Munoz induz a
ideia do hidrocarboneto silencioso mas potente, a que também se chama bufa, com
aquela boca de estíncter. Odete Santos é o peido longo e monótono, como uma mota
rasca a passar, que termina num fedorentíssimo lago de diarreia. Vitorino de
Almeida um daqueles peidos gigantescos mas estéreis, que etroam como o trovão de
um céu sem chuva, semelhante às suas composições. Tais considerações
ricocheteiam-me no espírito e causam-me, além de náuseas, um desfilar de
questões com relevo: será o peido semelhante ao seu dono? Que diz o peido da
fisionomia e da psique do peidorreiro? Poder-se-á fazer psicanálise a partir do
peido como se faz a partir da caligrafia? A peidologia tem futuro?

– Sem querer ser mal educado, terei que te interromper o raciocínio porque
esse discurso é nojento e perturbador. Vais longe demais. Mencionar a Odete
Santos é de um mau gosto desumano. Não é uma anormalidade, é um atentado. Esse
nome atinge a minha alma, que desaba do estado contemplativo para uma pocilga
infecta de seguidores de Estaline velhos, com cabelos vermelhos, voz de quem se
tentou suicidar várias vezes com anti-depressivos e a cheirar pior que um camelo
morto.

– As minhas desculpas…

– Não percebo a vossa intenção, homens banais. Porque não se contentam com a
vossa banalidade? Porque é que têm sempre de abandalhar o que é sublime, e de
confundir diamantes com cacos de vidro, e de arrastar para o pequeno esgoto
fétido que é as vossas vidas o que pressentem noutros de maravilhoso e
imortal?

– As minhas desculpas por não ter dito ainda a verdade. Tu és especial e
mereces ouvi-la. Se juntarmos a diarreia de Ferrero Roche com o homem-merda, a
Eunice Munoz, o Vitorino de Almeida, a Odete Santos, todos os escarros de Lisboa
e todos os neo-estalinistas, mesmo assim não conseguimos obter a nojeira
alquímica a que chamas “cérebro”. Por isso sinceramente to digo: amigo, os meus
parabéns.

– Não és um homem comum. Afinal, nos confins desta alarve humanidade, há
alguém que me percebe. Do fundo do meu coração um eterno
obrigado.

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Pinochet e Castro

«(…) Temo que a morte de Castro não seja tão condenável como a de Pinochet, e sim o oposto, pelo menos em Portugal… Os "humanistas de esquerda" parecem ter ainda demasiado controlo dos media.

Como é que se explica, por exemplo, para discutir política do Médio Oriente, porem frente-a-frente o Ângelo Correia e a Ana Drago? Continuam a convidar propagandistas de extrema-esquerda para debates supostamente sérios, passando a imagem de que a sua opinião é tão construtiva e democrática como a da outra parte… E a imagem passa.

Na maioria das vezes nem abordam os assuntos em questão, limitando-se a vomitar as cassetes anti-americana, anti-fascista (por ironia o fascismo é algo que nunca morrerá enquanto existir um comunista) e anti-burguesia. Toda a gente sabe isso, principalmente os jornalistas. Então para quê convidá-los? Outras razões haverá.

Ao menos a Ana Drago é gira… Mas quando convidam a "deputada europeia omnipresente com voz de junkie" Odete Santos, ficamos perante um filme de terror de baixo orçamento. Aquela sim, acredito que tenha comido criancinhas. Literalmente. Com a obsessão de lhes roubar o cérebro, órgão que perdeu nas escolas soviéticas quando lhe fizeram a lobotomia.

Da mesma forma que defende que Estaline foi um grande líder sofrendo pela propaganda do imperialismo ocidental, e que tem dúvidas que a Coreia do Norte "não seja uma democracia", o PCP nunca vai deixar de defender que Castro inventou "uma nova forma de democracia". O que por cá será uma opinião tão válida e humana como qualquer outra…

É estranho também não se falar no que se passa na China em termos de direitos humanos. É fácil encontrar na Net os relatos de tortura e as execuções públicas, mas ou o assunto se banalizou ou os canais de informação portugueses não estão para aí virados. Os vôos secretos da CIA são um atentado maior aos olhos dos jornalistas.

Mas, já agora, podíamos nós festejar essa data histórica para Cuba, quando acontecer. Tenho um Cohiba guardado para a ocasião. Somos poucos mas, citando Mao, "uma faísca pode incendiar toda a pradaria" :-)»

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E este é o meu voto
de protesto: uma publicação por email.

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