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Archive for Abril, 2006

Sobre o cinema português e europeu

Para contornar cedo as falácias de confundir a árvore com a floresta, diga-se já que existem bons filmes portugueses, mas que isso é a excepção e não a regra, e por isso não se justifica o consumo desse tipo de cinema. Se formos remexer bem um cesto de fruta podre, é provável que achemos uma ou outra comestível, mas temos de sujar as mãos. Para se ver um bom filme português é preciso atravessar muito martírio de cinema intragável.
 
O cinema português segue, como um cão segue o dono, as tendências mais académicas do cinema europeu. Ainda não percebi bem porque é que o cinema europeu é em geral tão pouco apelativo, mas é possível que nem tenha uma via própria e que seja tão… peculiar… simplesmente para seguir uma via diferente do cinema americano.
 
A Europa não tem, de longe, o dinheiro, ou o talento, ou a organização, que os americanos possuem para produzir cinema de entretenimento para as massas. Então se calhar a estratégia é fazer o oposto: produzir cinema barato e entediante para as elites. Cinema que possa ser produzido por estúdios pequenos, por pouca gente, com pouco dinheiro. Que seja "intelectual", para que com um mínimo de recursos se consiga fazer algo que baterias de críticos pretenciosamente cultos possam no dia seguinte louvar com inteligência, suficiente para passar em brilhantes festivais de escol, ganhar prémios inteligentes que não se conhecem em mais lado nenhum do planeta e continuar a pedinchar subsídios para quixotescamente salvar a verdadeira arte da influência americana.
 
A via académica é a ideal para o cinema europeu, porque lhe permite produzir, academicamente, obras de arte academicamente reconhecidas sobre temas academicamente  geniais como um casting ou um encontro de estudantes. Claro que são obras de arte entediantes, com uma cor desmaiada de propósito, ou a preto-e-branco, talvez mesmo com grão, para que não se confundam de forma alguma com os "excessos plásticos" do cinema americano… Claro que só agradam aos críticos que pertencem ao mesmo clube e que têm, por conveniência, os mesmos inimigos. Claro que são desprezadas pelo público e pelas salas de cinema, os primeiros porque não querem pagar para ficarem deprimidos ou atordoados, e os segundos porque têm de lidar com um mundo não-académico e fazer negócio para sobreviver. E claro que se não fosse assim, isto é, se tentassem competir com Hollywood, o cinema europeu desaparecia. Ele precisa de engolir a sua insignificância e criar uma imagem exagerada, irrealista, disparatada de si mesmo para sobreviver.
 
Ainda não conheci ninguém que se oponha ao cinema americano que não tenha, entre os seus filmes favoritos, alguns de Hollywood. Chamar estúpido ao cinema americano é insinuar não só que lucrar milhões de dólares é idiota como que uma boa parte da humanidade é imbecil porque paga para ver parvoíces acéfalas. Mas mesmo que isso seja verdade, se o objectivo do cinema é entreter então nem sequer é um argumento. Se a estupidez entretém, é estupidez que o público vai pagar para ver. Por outro lado, a única fantasia que o cinema europeu não considera estúpida é ele próprio.
 
O cinema português faz lembrar o teatro de revista. Alguns actores, que nunca aprenderam a fazer outra coisa, continuam a dizer que o falhanço do teatro de revista está no público. Não conseguem acompanhar as mudanças na sociedade, não entendem as massas, não percebem que o que tinha piada há 30 anos não é o que tem piada hoje, e teimam em continuar a fazer coisas que, tirando eles, ninguém quer ver feitas, de mão estendida para o subsídio estatal. É isso que é imoral no país (diria mesmo anti-nacionalista): usarem dinheiro público para produzir coisas que o público não quer… Como é que um cinema que dizem ser tão superior não tem um mecenas privado, inteligente e culto como as películas, que o patrocine por amor à arte? É suspeito, muito suspeito.
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José Cid Nunca Mais

José Cid é um nome que fica na história da música nacional. Porque não se pode apagar a história. Tal como não se pode negar a peste negra na Europa do século XIV, não se pode negar a presença de José Cid na cultura portuguesa do século XX.

Por isso dou os meus parabéns a todos os sites e blogs que hoje divulgam músicas e vídeos de José Cid, pois estão a prestar um contributo importante às novas gerações, não as deixando esquecer. "É importante lembrar".

Não podemos esquecer o holocausto, não podemos esquecer José Cid. Mais grave do que cometer um erro é repeti-lo. Por isso enquanto nos sobrar um milímetro de responsabilidade vamos repetir aos nossos filhos: "Bom gosto sempre! José Cid Nunca Mais!"

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O Paradoxo da Beleza

"O wonder!
How many goodly creatures are there here!
How beautious mankind is!
O brave new world,
That has such people in’t!"

"A Tempestade" – Acto V, Cena I – W. Shakespeare

 

A felicidade é como a música. Uma melodia entretém a alma com uma beleza que exagerando dizemos, por vezes, "não ser deste mundo". Assim é também na vida quando temos beleza: parece que vivemos noutro mundo. Assim é em toda a natureza: uma paisagem tropical, um pôr-do-sol, um rio a correr, invocam que há em nós de transcendente, como se recordássemos um outro mundo de beleza imortal. Como se Platão tivesse razão e antes de sermos homens tivéssemos sido deuses, com acesso às maravilhas divinas.

Como, então, não se ser assombrado ao afastar o véu da beleza e assitir àquilo a que chamamos "mundo real"? Seja pela filosofia, seja pelo desastre, esse véu desfaz-se mais tarde ou mais cedo. Mais tarde ou mais cedo perguntamos quem está a tocar aquela melodia, e como, e com que instrumentos, quem a compôs e porquê – e percebemos que afinal é humana, demasiado humana. As suas razões, entendemos, são mesquinhas. Descobrimos que o compositor era comunista, ou jacobino, ou necrófilo, e que a obra é o meio que tinha disponível para afirmar ao cosmos as suas depravações; desvendamos que o solista cospe para o chão e brama como um animal nas assembleias do Benfica; que a rapariga com voz de deusa já fez toda a orquestra metropolitana, que a flauta transversal já serviu para fins contra-natura, que o maestro vê a "Praça da Alegria" todas as manhãs.

Sabendo isto ficamos pasmados, sem perceber como é que tanta mesquinhez e depravação junta pode criar algo como música, a mesma música que não sabemos identificar mas que a alma insiste em designar como superior a nós e à lei do tempo.

Mas vamos supor que não temos muita curiosidade ou atenção. Acreditemos que a felicidade resulta do casamento entre a ignorância e a má memória (tese segundo a qual o ser mais feliz do planeta é o João Soares). Acreditemos, depois, que no meio de toda a nossa aparvalhada felicidade se parte uma corda do violino: as notas, que eram antes melodia, passam a ser apenas notas – uma hedionda diarreia de notas. Verificamos, menos alegres, que a música imortal é afinal tocada por instrumentos que se partem facilmente, ou por instrumentistas que desafinam. Em suma, que está sujeita a limitações físicas e corriqueiras.

"A Arte tem pés de barro!", protestam estes. "A Imortalidade é mortal!", vociferam aqueles. "A Beleza é feia!", esperneiam outros. Talvez isto nos remeta ao Concílio de Trento, quando se debateu com seriedade se Jesus de Nazaré urinava e defecava. Ou a uma questão mais dos nossos tempos: soltará puns uma top model? São questões que geralmente nos passam ao lado, mas que têm raiz no paradoxo da beleza: tão facilmente se imagina Jesus a largar o tronco numa cloaca como a Claudia Shiffer a estrondear hidrocarbonetos numa passerele. Não faz sentido, e no entanto sabêmo-lo provável. Nos sinuosos caminhos da nossa alma, o Salvador da Humanidade não tem esfíncter. No caso das mulheres belas a maioria dos homens, pelo menos, não as consegue imaginar sem esfíncter, mas imaginam que as suas bufas cheiram a Jadore. E assim o absurdo vai imperando sobre a realidade, porque a realidade, em si, é demasiado absurda, e se pensamos demasiado nisso tornamo-nos existencialistas.

A beleza é assim. Agora, para fazer uma ligação subtil ao início deste texto, a felicidade, na vida, também é assim. Estamos felizes e depois somos atropelados ou despedidos. Por muito que tentemos ignorar o absurdo da realidade, ele é real e mais tarde ou mais cedo, pelos rasgões da filosofia ou do acidente, lá surge, grotesco e bárbaro, sob o "manto diáfano da fantasia", coisa que nos parece muito absurda e injusta, e não consta que o omnicreador tenha livro de reclamações. Para ele "estar vivo" parece ser sinónimo de "crueldade". Por outro lado a felicidade, quando chega novamente, consegue eclipsar tudo outra vez, sem que tenhamos controlo sobre as nossas emoções e raciocínio. É como um jogo de ténis e nós somos a bola, sendo apenas atirados para um campo e para o outro. Humilhante.

Lembro-me de uma noite na República Dominicana; estava escura e chuvosa, e cheia de relâmpagos que tanto caíam na terra como passavam de nuvem para nuvem. Um estimulante espectáculo para quem gosta de raios, como eu. A certa altura começou a chover a sério, o que fez toda a gente recolher-se nos seus bungalows e no hotel. Para mim foi a oportunidade de ter um pouco de paz. Aquela porcaria do Macarena, que era o que se tocava e dançava ad nauseam na altura, já me fazia vomitar, portanto levantei-me da cadeira e fui para a praia. Era preferível arriscar um raio na cabeça do que ouvir o Macarena novamente.

A areia estava cheia das crateras dos pingos, que caíam com força. O mar era uma mancha negra que se fundia com o céu, e só se via a espuma das ondas perto da praia, não pela Lua mas por causa das luzes, agora distantes, do resort. De poucos em poucos segundos caía um raio sobre o mar, ou passava no céu, e iluminava nuvens e água. A cada raio o céu era outro. Às vezes caíam muito perto, etroavam como se explodisse uma bomba e o chão tremia. O vento soprava forte, tão forte que dobrava os coqueiros. Era infernal. Aquela paisagem era o oposto da paisagem diurna de há poucas horas atrás, sem vento, cheia de sol e de cor e de água cristalina – e era, no entanto, o mesmo sítio, com as mesmas coisas.

Isto é um exemplo "light" para dizer que o Paraíso e o Inferno ficam no mesmo sítio. No mesmo universo, no mesmo planeta, na mesma criatura. Foram criados pelo mesmo deus. Mas não suportamos esse paradoxo neste "novo mundo" hedonista. É mais fácil, mais são, separar sem questões o bom e o mau, o belo e o feio, o feliz e o infeliz, e dizer que este lugar é belo, aquela pessoa boa, aquele animal feliz, aquela música imortal sobre o acidente terreno.

 

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Não sei quais são os números para os EUA, mas em Portugal há sintomas de analfabetismo funcional ("iliteracia", como dizem os jornalistas, ou "estupidez", como diz o povo) em 80% da população. O americano médio, pela imagem que transmite, parece ser bastante idiota, mas os EUA estão preparados para a imbecilidade: vem tudo escrito muito explicitamente, em toda a parte, de forma a que a pessoa mais mentecapta se possa orientar e não fazer nada de errado. É o paraíso dos idiotas. E no caso de isso não acontecer, existe lei e ordem. Em Portugal é o contrário: tudo é burocratizado ao máximo, quanto menos informação melhor e a lei e a ordem não funcionam. Se o PS não estivesse já no poder diria que Portugal se estava a preparar para ser tomado pelos estultos. Assim, só posso pensar que já o foi, e por vontade da maioria.
 
Nos EUA existem, como na Inglaterra e em qualquer democracia desenvolvida, dois grandes grupos partidários que asseguram a democracia em qualquer cenário de voto, por mais estúpido que seja; em Portugal deixamos grupos de extrema-esquerda tirar dividendos da estupidez geral, pondo em risco o ideal democrático.
 
Os EUA conseguem, como um todo, funcionar; no caso português, é um mistério que o país ainda exista depois de tantos erros ao longo da História. Como diz a famosa frase do cônsul romano, é um povo que não se governa nem se deixa governar. Parece que seguimos o ideal hippie ou algo do género. O ideal hippie, mas sem ideal. Até as tribos de África prezam os seus valores, por muito idiotas que sejam; os portugueses em geral substituiram os valores pela moda, e nem essa moda é portuguesa. Nem D. Sebastião lhes pode valer. Se o mito fosse real e D. Sebastião regressasse, para salvar Portugal ele teria que começar por expulsar os portugueses.
 
Por isso acho arriscado pôr tudo no mesmo plano por uma questão de "média". Diria que há sociedades que compreendem e aproveitam de forma positiva a estupidez popular, e outras, menos cautelosas, que se deixam arrastar por aquilo a que Platão chamava "a raiz do mal".

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