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Archive for Março, 2006

Algumas citações com nível

"I heard someone tried the monkeys-on-typewriters bit trying for the plays of W. Shakespeare, but all they got was the collected works of «Edições Avante!». "
– Bill Hirst (aperfeiçoado)
 
"Three o’clock is always too late or too early for anything you want to do. "
– Jean-Paul Sartre (1905-1980)
 
"Mr. Wagner has beautiful moments but bad quarters of an hour. "
– Gioacchino Rossini (1792-1868)
 
"Anything that is too stupid to be spoken is sung."
– Voltaire (1694-1778)
 
"I don’t know anything about music. In my line you don’t have to."
– Elvis Presley (1935-1977)
 
"No Sane man will dance."
– Cicero (106-43 B.C.)
 
"Happiness is good health and a bad memory."
– Ingrid Bergman (1917-1982)
 
"Friends may come and go, but enemies accumulate."
– Thomas Jones
 
"Every day I get up and look through the Forbes list of the richest people in America. If I’m not there, I go to work."
– Robert Orben
 
"Plato was a bore."
– Friedrich Nietzsche (1844-1900)
 
"Nietzsche was stupid and abnormal."
– Leo Tolstoy (1828-1910)
 
"I’m not going to get into the ring with Tolstoy."
– Ernest Hemingway (1899-1961)
 
"Hemingway was a jerk."
– Harold Robbins
 
"Nothing is wrong with California that a rise in the ocean level wouldn’t cure."
– Ross MacDonald (1915-1983)
 
"I don’t want to achieve immortality through my work; I want to achieve immortality through not dying."
– Woody Allen (1935-)
 
"Men and nations behave wisely once they have exhausted all the other alternatives."
– Abba Eban (1915-)
 
"More than any other time in history, mankind faces a crossroads. One path leads to despair and utter hopelessness. The other, to total extinction. Let us pray we have the wisdom to choose correctly."
– Woody Allen (1935-)
 
"Why don’t you write books people can read?"
– Nora Joyce to her husband James (1882-1941)
 
"I think there is a world market for maybe five computers."
– Thomas Watson (1874-1956), Chairman of IBM, 1943
 
"We are all in the gutter, but some of us are looking at the stars."
– Oscar Wilde
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O Pescador

(Uma peça de teatro sobre o valor da vida)

 

No cemitério:

– E se dançássemos sobre esta campa para mostrar que estamos vivos?

– Não sei, parece-me errado.

– A mim também. Não posso dizer que não é imoral. Mas também não posso dizer que não é divertido.

– És uma pessoa sensata. De facto deve ser divertido. Nunca tinha visto as coisas por esse ponto de vista. Vamos a isso.

 

Enquanto dançam uma polca sobre uma campa larga, sobre as flores esmagadas e as fotografias estilhaçadas do defunto:

– As pessoas são no fundo uma porcaria. Alguns parecem muito belos, outros muito inteligentes, outros muito poderosos, mas todos mostram a certa altura aquilo que são por dentro: um frágil e malcheiroso puzzle de lixo orgânico.

– E por muito bons que sejam, nenhum pode impedir que lhe dancemos em cima.

 

Calam-se, concentrados nos passos da dança, que têm de ser bem executados. O ritmo aumenta progressivamente. Com um toque casual de calcanhar, a lápide cai por terra. E sem perder o ritmo, já suados, recomeçam:

– Há aí uns tipos que andam a dizer que a alma nunca morre. Experimentem dar um tiro na cara de alguém para ver o que sobra da alma. Provavelmente até se vai antes do corpo. Nunca ouviste falar de morte cerebral?

– Não é assim tão simples. E se alma for, digamos, uma coisa sem manifestações carnais? Nesse caso não sabes nunca se a mataste ou não, porque nunca a viste viva.

– Não tinha pensado nisso. Mas para que serve uma alma sem manifestações carnais?

– Tecnicamente, para nada. Mas, se queres que te diga, já fico contente em provar que os corpos são amontoados de lixo.

– Não se pode ter tudo. Cada um faz o que pode e o resto é só com Deus.

 

Aumentam uma vez mais o ritmo, com batidas de calcanhar tão fortes que racham a tampa. O ruído é quase ensurdecedor, mas de repente cessa. Os dois amigos vêem uma luz sob as fissuras que abriram sob os seus pés e depois um fumo luminoso a erguer-se no ar até formar a figura de um espectro. E o espectro diz, numa voz cava e de assombro:

– O meu nome é Edmundo Gentio de Albuquerque. Fui enterrado neste local com a minha mulher, Maria Rosa de Albuquerque, em 1954, e estou aqui para vos ensinar, que ainda são jovens, o valor que tem a vida.

 

Os dois amigos descem da campa e escutam atentamente o espectro:

– Nasci numa pequena vila de pescadores, no litoral alentejano, onde os barcos partiam todas as noites e voltavam de manhã com o peixe fresco. Mas eu não gostava do peixe, não suportava o cheiro do peixe. Toda a minha infância fui obrigado sob pancada dos meus pais, que eram pescadores, a mexer no peixe que tanto odiava. E também detestava os pescadores, sempre rotos, sempre sujos, gente sem classe nenhuma, e sem gosto, que escolhia camisas de quadrados e quando não saía descalça à rua usava umas botas de borracha que me faziam esconder a cara de vergonha.

 

– »Devo dizer que éramos todos muito pobres. Nem todas as semanas havia comida, e quando havia era peixe, o peixe que não tinha sido vendido, já seco. Eu não suportava essa situação. Quero dizer, não me impressionava a pobreza, que eu vivia bem com a pobreza em si, mas com os pobres não, os pobres davam-me náuseas, todos à minha volta, com aquele cheiro característico dos pobres. Eu não podia viver ali. Por isso, aos 16 anos, decidi partir para Lisboa.

 

– »Lisboa era um lugar decente, cheio de fábricas, onde se trabalhava a sério, com máquinas, como os verdadeiros homens, e com grandes navios. Fiquei deslumbrado. Quis logo ir para operário e trabalhar numa grande linha de montagem, mas infelizmente naqueles tempos um pescador da província não possuía grandes hipóteses. Tinha de competir com gente que era treinada desde pequena, 18 horas por dia, a estar em linhas de montagem, a alimentar fornalhas, a carregar mercadorias, eu, que tudo o que sabia fazer era pescar.

 

– »Dormi duas semanas nas docas, a alimentar-me do peixe podre que era deitado ao lixo ou, por sorte, caía no chão. Era terrível o meu destino, pensei eu, e estava prestes a suicidar-me com uma espinha de bacalhau quando um milagre aconteceu: fui preso. A mendicidade era proibida nesse tempo, segundo me disseram, porque estudos científicos provaram que o tempo livre era um potencial gerador de conspiração contra o estado.

 

– »Na cadeia fui torturado. Pediram-me que contasse tudo o que sabia e como iniciei o meu discurso dizendo que era pescador numa vila distante partiram-me os dentes todos (não era isso que queriam ouvir, advertiram-me eles, sempre muito bem educados). A partir daí não pude dizer mais nada. Dois anos depois deixaram-me sair e obrigaram-me a ter um emprego. Na verdade, foi o próprio estado que me ofereceu esse emprego, orientado pela minha ficha de habilitações: puseram-me a arranjar peixe numa praça enorme onde chegava toneladas de peixe todas as manhãs. Para mim, um inferno vivo. As coisas corriam ainda pior. Pagavam-me em peixe e a minha casa era um cubículo com um colchão colado à praça, junto aos contentores onde despejavam o peixe podre.

 

-»"Pelo menos posso ver daqui as grandes fábricas cheias de máquinas e os guindastes altos, e ir alimentando o meu sonho" – disse eu. Duas horas depois ceguei por causa duma brincadeira estúpida com uma barbatana de peixe-diabo. As coisas continuavam a não correr muito bem.

 

-»Passaram-se 4 anos, mas nunca desisti de lutar para ser promovido a estivador. Aperfeiçoei a minha técnica de preparar o peixe pondo duas rolhas no nariz. Desta forma podia fingir que estava a cortar galinhas, lagartos ou outra coisa qualquer, como rolhas, com a minha imaginação desenvolvida de cego. E esses 4 anos foram os mais felizes da minha vida. Durante todo esse tempo a única coisa negativa que me aconteceu foi ter escorregado numa lampreia e ter partido a coluna contra um frigorífico. Não foi totalmente mau: ainda podia trabalhar e aceitavam-se estivadores de cadeira-de-rodas.

 

Os dois amigos escutam atentamente o espectro, sem desviar o olhar sequer. Um deles coça o nariz. A história é suficientemente interessante para fazerem o sacrifício de estar parados.

– E um dia aconteceu outro milagre, algo que, posso dizê-lo com frontalidade, mudou a minha vida para sempre. Uma moça chamada Maria Rosa, filha de um inventor milionário, apaixonou-se por mim e eu por ela. Foi amor à primeira vista, pelo menos para a vista dela, pode-se pensar, mas a verdade é que o meu ar enigmático e sedutor de cego paralisado com um peixe na mão a conquistou. Propús-lhe casamento e ela aceitou. Estão a seguir-me?

Os dois amigos acenam que sim. Estão muito interessados em ouvir o fim da história.

 

– Pois bem, e casámos, eu e a minha Maria Rosa, agora de Albuquerque. Soube que o pai dela era o maior inventor do mundo, e também cirurgião, e que tinha descoberto a cura para a cegueira e para a paralisia. Homem de grande generosidade, dispôs-se para me curar mas recusei porque tive receio de perder o meu charme. Gostava que Maria me empurrasse pela rua e os olhos sem pupila, segundo diziam, davam-me um não-sei-quê de classe, tanto que cheguei a desejar que os nossos futuros filhos fossem também cegos e paralíticos.

 

-»O pai, bom homem, não ficou aborrecido pela minha recusa: pelo contrário, ofereceu-me um emprego como escravo doméstico que eu não podia recusar. Depois eu e Maria partimos em lua-de-mel num cruzeiro. Toda a minha felicidade estava enfim garantida, pensei, e logo a seguir o barco afundou-se e fomos comidos por tubarões e outras espécies marinhas.

 

-»Esta foi a história da minha existência. Contei-a para vos transmitir o valor da vida – em verdade, a vida foi a única coisa que me manteve vivo e não é desprezável em quaisquer circunstâncias. A vida louva-se entre todas as desgraças porque é isso afinal que interessa: nós estarmos vivos. E eu sei disso porque fui pouco egoísta: pensei numa carreira, pensei na minha esposa, pensei em todas as coisas fúteis do mundo – em suma, aquilo para que devia usar a vida, em vez de a ter como valor mais alto e mais nobre que é. A vida não é uma ferramenta. Não se usa nem para próprio gozo – simplesmente não se usa. Eu sei porque morri e por isso vos aconselho, jovens: não menosprezem a vida. E para isso o procedimento correcto é ficar imóvel como uma pedra, sem movimento, sem vontade, muito quieto. Ser uma estátua erguida à vida – assim é que é. A vida é ser, e ser é uma coisa maravilhosa – preservem-na.

 

-»Perguntaram o que é a alma. É errado fazer perguntas. A mente deve ser mantida igualmente inactiva para que nenhuma ideia pretenda usar a vossa vida para um objectivo diferente de viver.

 

-»Bom, e agora que já vos ensinei tudo, transmitam-no a amigos que tenham, de preferência vivos. Eu vou voltar ao meu repouso.

 

O espectro desfaz-se em fumo outra vez e o fumo entra nas fendas da tampa, que se fecham deixando a noite sozinha, silenciosa e aliviada. Os dois amigos ficam imóveis durante um minuto. Depois sobem para cima da tampa e recomeçam a polca da parte em que a tinham deixado.

 

F I M

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