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Archive for Fevereiro, 2006

A Inteligência dos Golfinhos

Diz-se que os golfinhos são inteligentes e apontam-se muitas razões. Eu só encontro uma: a de serem as únicas criaturas do planeta que, para além dos seres humanos não-católicos, fazem sexo apenas por prazer. Todas as outras razões são um delírio de generosidade para com os golfinhos.

Diz-se que são inteligentes, por exemplo, "porque vivem em sociedade". As formigas, os norte-coreanos e os amish vivem em sociedades muito mais complexas e organizadas e ninguém lhes aponta inteligência. A vivência em sociedade existe há milhões de anos. Muito antes de existir a inteligência, já as presas, por exemplo, tinham necessidade de actuar em grupo para conseguir sobreviver com maior sucesso. A associação entre inteligência e sociedade é profundamente estúpida e deve ter vindo com o pacote de preconceitos do humanismo, logo ao lado das virtudes dogmáticas do altruísmo.

Diz-se que os golfinhos denotam inteligência porque "são muito curiosos". Ser curioso é uma condição necessária para se aprender qualquer coisa, mas não suficiente. Há por aí muitos idiotas que são curiosos e não aprendem nada. Pode-se dizer que os leitores da "Ana Mais que Atrevida" e os espectadores dos Batanetes são curiosos. As minhas caturras são curiosas, olham para tudo o que é estranho, de forma a avaliar se dali pode vir perigo. Até as moscas são curiosas. As presas são assim. Já a curiosidade de um predador é diferente: ele quer saber se uma coisa nova é comestível ou não. Os golfinhos são curiosos talvez por outras razões, mas seja como for não aprendem grande coisa com isso para além de truques de circo – como os ursos, os cães e as araras. Saltam, produzem sons e tal, mas nunca vi um golfinho filosofar ou completar um sudoku.

Por fim, um argumento proveniente do grande Carl Sagan: o golfinho é o animal com o cérebro mais parecido ao humano, logo tem boa probabilidade de raciocinar logicamente. Não é bem assim. Um estudo recente mostrou que os dirigentes desportivos e os futebolistas têm cérebros ainda mais parecidos com os dos humanos e mesmo assim não conseguem um output racional. Outros animais têm cérebros muito maiores, como os elefantes e as baleias, e são ainda mais estúpidos que os golfinhos. Portanto não vão lá nem pela qualidade nem pela quantidade de massa encefálica.

Concluindo, não entendo a inteligência cetácea senão como mais uma prova da forte influência de Hollywood no mundo. Tal como filmes como o "Tubarão" demonizaram os tubarões (que, tirando o Branco, até são bichos sociáveis), outros filmes, que felizmente não me lembro, levaram o grande público a acreditar que o golfinho é uma espécie de cão sem patas, domesticável, fiel e inteligente. A moda golfinho atravessou o globo graças a Hollywood e sinistras campanhas de marketing que personificaram o animal. Hoje faz-se terapia com golfinhos, passeios para ver golfinhos, vendem-se CDs com o som dos golfinhos, fazem-se espectáculos onde a sua inteligência se revela célere e às piruetas…

As pessoas olham para um golfinho e ele parece que sorri, porque os cantos da boca são ligeiramente levantados. De imediato criam empatia pelo bicho. Se ele está num aquário, batem no vidro à espera de uma resposta inteligente que surpreenda. Se o animal olha para eles, está provado – comunica, é inteligente. Produz um som – tem talento. Dá uma pirueta no ar – é um génio. Persegue um barco – é sobrenatural.

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