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Archive for Outubro, 2005

"O Alquimista" é mais um daqueles livros incontornáveis do século passado porque se tornaram moda, decorando milhões de prateleiras pelo mundo inteiro sem uma razão literária.

"O Alquimista" é uma compilação de chavões, digna do seu autor, ele próprio um chavão. Se fosse um tratado de democracia poderia ter sido escrito por Mário Soares, Almeida Santos ou qualquer outro dos vazios demagogos de Abril. Se fosse um compêndio de medicina o autor podia ser o Taveira.

Mas de que trata, afinal, "O Alquimista"? Como nas restantes obras do autor, trata de tudo e de nada. Porque dizer alguma coisa concreta não é, obviamente, o objectivo de Paulo Coelho. O objectivo é vender livros proporcionando bons momentos espirituais ao leitor. Se para isso for necessário fazer uma versão infantil do Principezinho, qual é o problema? Coelho é brasileiro e o brasileiro é por natureza colorido. O que lhe importa, em essência, é a cor das coisas, não as coisas em si. Para ele até um pedaço de ranho é publicável – desde que pintado da cor certa. O seu verdadeiro ramo é o SPA, não a literatura. Os seus livros podiam ser vendidos com material de massagens, porque a sua função é massajar a própria alma até a adormecer por completo.

Paulo Coelho, diga-se a verdade, não é um artista porque não serve qualquer tipo de arte. Mas é um mestre naquilo que faz: escrever coisas que vendem. Ele escolhe a tonalidade certa para as suas histórias. É um profundo conhecedor da ignorância e das frustrações dos seus leitores. Ele consegue que o leitor mais burro e infeliz se sinta espiritualmente elevado ao ler as suas linhas, e isso é mestria. Apenas não é arte.

Paulo Coelho é um homem com vocação para pastor da IURD que "tresmalhou" para a escrita. Podia ter ido para o campo das revistas cor-de-rosa, mas optou, ou foi obrigado a tanto, pelo difícil caminho do livro cor-de-rosa. "O Alquimista" é a sua obra mais bem conseguida: é tão cor-de-rosa, tão vaga e tão portátil que se pode ler muitas vezes, em qualquer lado. Mais ou menos como comer um chocolate: sabe-se que estraga os dentes e engorda, mas é bom e por isso come-se na mesma. "O Alquimista" é agradável e bonito como um Ferrero Roché. Também faz mal, mas digere-se igualmente bem.

Do ponto de vista, digamos, da doçaria, é um bom livro. Do ponto de vista literário, só não é um esgoto de ideias feitas porque é pequeno demais. É talvez um "necessaire" de lugares comuns que se pode levar para qualquer lado ou usar para fazer aquelas apresentações aparvalhadas em powerpoint que se distribuem por mail aos amigos, todas cheias de coisas belas sobre a vida, a amizade e outras parvoíces populares, com uma ameaça no fim caso o receptor não faça forward para mais 50 vítimas.

 

"O Alquimista"

Resumo: um tipo esquecido parte à procura daquilo que ele próprio já tem.

  • Sobre o autor: Paulo Coelho é brasileiro.
  • Conselho: ler no SPA ou em substituição do jornal desportivo.
  • Capa: não me lembro. Não me lembro sequer se usei o livro quando me esqueci de comprar pinhas.
  • IA (Índice de Acendalha): fraco. É um livro pequeno, pelo que não demora muito tempo a queimar. Indicado para lareiras e recuperadores de calor, mas tem de ser usado com outras acendalhas.
  • Pontuação (de 1 a 10) : 5, assumindo que a capa está bem conseguida.
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    “Da República” – FP

    Ainda a propósito do 5 de Outubro, eis um texto do exemplar Fernando Pessoa – no seu melhor (os "bolds" são meus…) :
     
    «O observador imparcial chega a uma conclusão inevitável: o país estaria preparado para a anarquia; para a república é que não estava. Grandes são as virtudes de coesão nacional e de brandura particular do povo português para que essa anarquia que está nas almas não tenha nunca verdadeiramente transbordado para as coisas!
    Bandidos da pior espécie (muitas vezes, pessoalmente, bons rapazes e bons amigos – porque estas contradições, que aliás o não são, existem na vida), gatunos com o seu quanto de ideal verdadeiro, anarquistas-natos com grandes patriotismos íntimos – de tudo isto vimos na açorda falsa que se seguiu à implantação do regimen a que, por contraste com a monarquia que o precedera, se decidiu chamar República.
    A monarquia havia abusado das ditaduras; os republicanos passaram a legislar em ditadura, fazendo em ditadura as suas leis mais importantes, e nunca as submetendo a cortes constituintes, ou a qualquer espécie de cortes. A lei do divórcio, as leis da família, a lei da separação da Igreja e do Estado – todas foram decretos ditatoriais, todas permanecem hoje, e ainda, decretos ditatoriais.
    A monarquia havia desperdiçado, estúpida e imoralmente, os dinheiros públicos. O país, disse Dias Ferreira, era governado por quadrilhas de ladrões. E a república que veio multiplicou por qualquer coisa – concedamos generosamente que foi só por dois (e basta) – os escândalos financeiros da monarquia.
    A monarquia, desagregando a Nação, e não saindo espontaneamente, criara um estado revolucionário. A república veio e criou dois ou três estados revolucionários. No tempo da monarquia, estava ela, a monarquia, de um lado; do outro estavam, juntos, de simples republicanos a anarquistas, os revolucionários todos. Sobrevinda a república, passaram a ser os republicanos revolucionários entre si, e os monárquicos depostos passaram a ser revolucionários também. A monarquia não conseguira resolver o problema da ordem; a república instituiu a desordem múltipla.
     
    É alguém capaz de indicar um benefício, por leve que seja, que nos tenha advindo da proclamação da República? Não melhorámos em admninistração financeira, não melhorámos em administração geral, não temos mais paz, não temos sequer mais liberdade. Na monarquia era possível insultar por escrito impresso o rei; na república não era possível, porque era perigoso, insultar até verbalmente o sr. Afonso Costa.
     
    O sociólogo pode reconhecer que a vinda da república teve a vantagem de anarquizar o país, de o encher de intranquilidade permanente, e estas cousas podem designar-se como vantagens porque, quebrando a estagnação, podem preparar qualquer reacção que produza uma cousa mais alta e melhor. Mas nem os republicanos pretendiam este resultado nem ele pode surgir senão como reacção contra eles.
     
    E o regimen está, na verdade, expresso naquele ignóbil trapo que, imposto por uma reduzidíssima minoria de esfarrapados mentais, nos serve de bandeira nacional – trapo contrário à heráldica e à estética, porque duas cores se justapõem sem intervenção de um metal e porque é a mais feia coisa que se pode inventar em cor. Está ali contudo a alma do republicanismo português – o encarnado do sangue que derramaram e fizeram derramar, o verde da erva de que, por direito natural, devem alimentar-se.
     
    Este regimen é uma conspurcação espiritual. A monarquia, ainda que má, tem ao menos de seu o ser decorativa. Será pouco socialmente, será nada, nacionalmente. Mas é alguma coisa em comparação com o nada absoluto que a república veio a ser.»
     
     
    – Fernando Pessoa, "Da República"

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    Quando ouço o nome "Umberto Eco" ocorrem-me sempre três palavras: "barbudo", "pedante" e "prolixo". Com esta obra, porém, Umberto conseguiu ultrapassar a própria fama.

    O "Pêndulo" começa como todas as obras de Umberto: com uma gigantesca cascata de informação irrelevante para a história, conversas banais enfeitadas por uma cultura enciclopédica e surreal, e pouco conteúdo. Exactamente como nos outros livros do autor, ele quer dizer, ou melhor, berrar, logo ao início, que escolasticamente até Dante se assemelharia a um macaco se comparado consigo. As primeiras páginas são feitas para esmagar quem as lê através da projecção de uma violenta quantidade de informação escolástica – mais ou menos como a absurda quantidade de pedra de uma igreja serve para fazer temer os fiéis.

    Basicamente, a história desenvolve-se do cepticismo racional para o metafísico absurdo. A única mensagem que se retira do livro, e que o autor realmente deseja passar, é que Umberto é a maior e melhor enciclopédia com barbas do planeta, seja no domínio físico ou metafísico.

    O artifício usado para manter o interesse, ou o estado de vigília, do leitor é um conjunto de pistas que alguém vai seguindo até ao desfecho final do grande e patético mistério com "m" maiúsculo. Até lá, os personagens vão viajando – não no raciocínio, não no tempo, não no espaço, mas pela biblioteca de Alexandria que povoa, de forma tortuosa, a cabeça de Eco.

    Com esta obra, sobretudo com esta obra, Umberto mostra que é um Fausto dos nossos tempos: que fez um pacto com o diabo, trocando a alma e a criatividade por uma enorme quantidade de compêndios.

    Analisando agora os aspectos negativos da obra, diria que é demasiado grande, que o fim é desajustado à história (o autor tenta concretizar, como Goethe, certos mistérios e símbolos das ciências ocultas, com o problema de não ser Goethe), o pêndulo é encaixado à martelada entre diálogos tão estereotipados como barrocos e, pior que tudo, li até à última página.

    "O Pêndulo de Foucault"

    • Resumo: um enigma patético é zelosamente guardado por sociedades secretas ao longo dos séculos mas está prestes a ser desvendado por um protervo com demasiado tempo livre.
    • Sobre o autor: como escritor Umberto Eco continua a ser um bom professor de semiótica.
    • Conselho: para quem pretender ler as obras de Lull, Paracelso, Dee, Bacon e por aí fora mas só tiver tempo para ler um resumo idiota embrulhado numa teoria da conspiração sem coerência.
    • Capa: não gostei. Péssima numa prateleira de tons quentes.
    • IA (Índice de Acendalha): bastante elevado, dado que é um livro grosso, com mais de 500 páginas, sem ilustrações a cores – indicado assim tanto para lareiras como para recuperadores de calor.
    • Pontuação (de 1 a 10) : 5 + 1 pelo elevado IA = 6

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    A Farsa do 5 de Outubro

    "A verdade tem poucos amigos e estes poucos são suicidas", escreveu Antonio Porchia. No caso português, não só tem poucos amigos como muitos inimigos.

    Talvez "inimigos" seja um termo demasiado forte quando se fala de uma população em que 80% dos indivíduos são analfabetos funcionais ("iliterados" como soi dizer-se). Curiosamente, somando os votos unidos de toda a esquerda nas últimas eleições chegamos ao mesmo valor, mas não é disso que trata este texto.

    É preciso distinguir, primeiro, entre a verdade factual, verdadeira, e a verdade popular, que é a mentira aceite, em dado tempo, como verdade. Só a primeira é que tem poucos amigos; a segunda tem muitos e a grande maioria deles nem saberá justificar tal amizade se lho perguntarem. É a verdade "que circula por aí", que se transmite de geração em geração, a da propaganda, a do mito, a do lugar-comum, a que é tão inquestionável como o suplício de Cristo. E é de facto inquestionável para a maioria das pessoas, simplesmente porque, de um ponto de vista social, é impensável questioná-la. Tal é proibido, se não de jure, de facto. Todos os que o fazem são postos à margem, tratados como loucos, como instigadores do mal ou, pior que tudo isso, como intelectuais.

    Podia com isto falar de muita coisa: do 25 de Abril, da Democracia, dos comunistas, do Estado de Direito, da Fátima Felgueiras ou dos "heróis da descolonização"… mas, tendo em conta o feriado próximo, só quero fazer uma breve referência à República.

    Mito: a República foi um passo de gigante indispensável para o progresso do país;

    Facto: a República foi uma farsa, estrangeira, francesa, imposta ao povo português por jacobinos violentos e mal formados.

    Bastaria ver que, hoje em dia, 8 dos 10 países mais desenvolvidos do mundo são monarquias para refutar a teoria do "progresso". Poderão retorquir os cépticos que são apenas monarquias constitucionais, mas a monarquia que se assassinou em Portugal em 1910 também o era. Quem não acreditar em historiadores, nem no Eça de Queiroz nem no Ramalho Ortigão, pode achar no site da Assembleia actas parlamentares, ou "camarárias" se preferirem, do século XIX : http://debates.parlamento.pt/monarquia.asp

    A que chamarão progressos esses "republicanos"? À maior instabilidade económica e política da história nacional, a chamada "Primeira República", em que os governos se sucediam uns aos outros num espaço de meses, dias ou horas? Em 16 anos a média foi de dois governos por ano… Talvez chamem progresso, quem sabe, ao golpe de Estado de 1926 dando a Portugal a sorte de ser controlado por uma ditadura durante 48 anos – uma ditadura também republicana, por sinal. Ou à entrada na guerra de 14-18, que os portugueses perderam mesmo estando do lado dos vencedores.

    Mas o mais provável, mesmo, para quem viveu a História, é o grande êxito da República assentar em imagens de mulheres com bustos descobertos a hastear bandeiras entre canhões. Numa época em que os homens se excitavam com os tornozelos das senhoras, quando por divina sorte a saia se levantava uns centímetros acima dos pés, a República e os seus símbolos deve ter sido uma refrescante, indispensável e evoluída sensação de liberdade.

    Seja qual for a realidade, o que aconteceu foi que um crime de lesa-pátria, nomeadamente o assassinato brutal de D. Carlos, foi apagado, esquecido, mais do que justificado com a vinda dessa fantástica moda parisiense chamada República. Os jacobinos, contentes, ocuparam finalmente os palácios e as propriedades reais, e o povo que num dia respeitava o Papa e saudava o Rei gritava, no dia seguinte, pela liberdade, legitimando com a sua benção todas as pilhagens dos jacobinos enquanto dizia adeus aos últimos jesuítas.

    Uma coisa é certa: o povo libertou-se. Libertou-se da Família Real, da estabilidade, da paz e da ordem. Coisas que mais tarde, através de um republicano chamado António de Oliveira Salazar, viria a recuperar com algum desagrado.

    Tudo fizeram, os republicanos, para reescrever a História. De tal modo que hoje, quando queremos ir buscar glórias nacionais, as vamos buscar ao período monárquico – Aljubarrota, os Descobrimentos, a queda dos Filipes – mas em paralelo mantemos que a República foi uma evolução indispensável e irreversível e até achamos bem comemorar o 5 de Outubro com canhões no Marquês de Pombal.

    E eis que, finalmente, chego ao núcleo deste texto: o 5 de Outubro. Muitas pessoas agradecerão o feriado à chamada "Implantação da República", mas o 5 de Outubro já era comemorado antes disso – muito antes disso. É uma data importante para Portugal, que justifica um feriado – mas não por algo tão irrisório como a implantação da República. 5 de Outubro de 1143 é a data do Tratado de Zamora, entre D. Afonso Henriques e D. Afonso VII de Castela, que marca a independência de Portugal e que se costumava comemorar como data de nascimento do país (ainda que o reino só tenha sido reconhecido pelo Papa em 1179).

    D. Carlos foi assassinado a 1 de Fevereiro de 1908. Até 1910, os jacobinos tiveram tempo para delinear o seu plano. Num evidente desrespeito pelas raízes da sua pátria, escolheram precisamente a data da fundação de Portugal para a sua "implantação da República", numa tentativa bem sucedida de apagar o passado monárquico. Como é mais fácil destruir do que construir, a chama da mentira que atearam em 1910 continua a alastrar ainda hoje, no mar de cinzas que é memória da multidão.

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