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Archive for Setembro, 2005

 
LONGE DA FAMA e das espadas, 
Alheio às turbas ele dorme. 
Em torno há claustros ou arcadas? 
Só a noite enorme. 
 
Porque para ele, já virado 
Para o lado onde está só Deus, 
São mais que Sombra e que Passado 
A terra e os céus. 
 
Ali o gesto, a astúcia, a lida, 
São já para ele, sem as ver, 
Vácuo de acção, sombra perdida, 
Sopro sem ser. 
 
Só com sua alma e com a treva, 
A alma gentil que nos amou 
Inda esse amor e ardor conserva? 
Tudo acabou?
 
No mistério onde a Morte some 
Aquilo a que a alma chama a vida, 
Que resta dele a nós – só o nome 
E a fé perdida?
 
Se Deus o havia de levar, 
Para que foi que no-lo trouxe – 
Cavaleiro leal, do olhar 
Altivo e doce? 
 
Soldado-rei que oculta sorte 
Como em braços da Pátria ergueu, 
E passou como o vento norte 
Sob o ermo céu. 
 
Mas a alma acesa não aceita 
Essa morte absoluta, o nada 
De quem foi Pátria, e fé eleita, 
E ungida espada. 
 
Se o amor crê que a Morte mente 
Quando a quem quer leva de novo 
Quão mais crê o Rei ainda existente 
O amor de um povo!
 
Quem ele foi sabe-o a Sorte, 
Sabe-o o Mistério e a sua lei. 
A Vida fê-lo herói, e a Morte 
O sagrou Rei!
 
Não é com fé que nós não cremos 
Que ele não morra inteiramente. 
Ah, sobrevive! Inda o teremos 
Em nossa frente.
 
No oculto para o nosso olhar,  
No visível à nossa alma,  
Inda sorri com o antigo ar 
De força calma. 
 
Ainda de longe nos anima, 
Inda na alma nos conduz – 
Gládio de fé erguido acima 
Da nossa cruz!
 
Nada sabemos do que oculta 
O véu igual de noite e dia. 
Mesmo ante a Morte a Fé exulta: 
Chora e confia.
 
Apraz ao que em nós quer que seja 
Qual Deus quis nosso querer tosco, 
Crer que ele vela, benfazeja 
Sombra connosco.
 
Não sai da nossa alma a fé 
De que, alhures que o mundo e o fado, 
Ele inda pensa em nós e é 
O bem-amado.
 
Tenhamos fé, porque ele foi. 
Deus não quer mal a quem o deu. 
Não passa como o vento o herói 
Sob o ermo céu.
 
E amanhã, quando queira a Sorte, 
Quando findar a expiação, 
Ressurrecto da falsa morte, 
Ele já não. 
 
Mas a ânsia nossa que encarnara, 
A alma de nós de que foi braço,  
Tornará, nova forma clara, 
Ao tempo e ao espaço.
 
Tornará feito qualquer outro, 
Qualquer cousa de nós com ele; 
Porque o nome do herói morto 
Inda compele;
 
Inda comanda, e a armada ida 
Para os campos da Redenção,  
Às vezes leva à frente, erguida 
‘Spada, a Ilusão.
 
E um raio só do ardente amor,  
Que emana só do nome seu,  
Dê sangue a um braço vingador, 
Se esmoreceu.
 
Com mais armas que com Verdade 
Combate a alma por quem ama. 
É lenha só a Realidade: 
A fé é a chama.
 
Mas ai, que a fé já não tem forma 
Na matéria e na cor da Vida, 
E, pensada, em dor se transforma 
E a fé perdida!
 
P’ra que deu Deus a confiança 
A quem não ia dar o bem? 
Morgado da nossa esperança, 
A Morte o tem!
 
Mas basta o nome e basta a glória 
Para ele estar connosco, e ser 
Carnal presença de memória 
A amanhecer;
 
Spectro real feito de nós, 
da nossa saudade e ânsia,  
Que fala com oculta voz  
Na alma, a distância;
 
E a nossa própria dor se torna 
Uma vaga ânsia, ‘sperar vago, 
Como a erma brisa que transtorna 
Um ermo lago.
 
Não mente a alma ao coração. 
Se Deus o deu, Deus nos amou. 
Porque ele pôde ser, Deus não 
Nos desprezou.
 
Rei-nato, a sua realeza, 
Por não podê-la herdar dos seus 
Avós, com mística inteireza 
A herdou de Deus;
 
E, por directa consonância 
Com a divina intervenção, 
Uma hora ergueu-nos alta a ânsia 
De salvação.
 
Toldou-o a Sorte que o trouxera 
Outra vez com nocturno véu. 
Deus pr’a que no-lo deu, se era 
P’ra o tornar seu?
 
Ah, tenhamos mais fé que a esp’rança! 
Mais vivo que nós somos, fita 
Do Abismo onde não há mudança 
A terra aflita.
 
E se assim é; se,  desde o Assombro 
Aonde a Morte as vidas leva, 
Vê esta pátria, escombro a escombro,  
Cair na treva;
 
Se algum poder do que tivera 
Sua alma, que não vemos, tem, 
De longe ou perto – por que espera? 
Por que não vem?
 
Em nova forma ou novo alento, 
Que alheio pulso ou alma tome, 
Regresse como um pensamento, 
Alma de um nome!
 
Regresse sem que a gente o veja, 
Regresse só que a gente o sinta – 
Impulso, luz, visão que reja 
E a alma pressinta!
 
E qualquer gládio adormecido, 
Servo do oculto impulso, acorde, 
E um novo herói se sinta erguido 
Porque o recorde!
 
Governa o servo e o jogral. 
O que íamos a ser morreu. 
Não teve aurora matinal 
‘Strela  do céu.
 
Vivemos só de recordar. 
Na nossa alma entristecida 
Há um som de reza a invocar 
A morta vida;
 
E um místico vislumbre chama 
O que, no plaino trespassado, 
Vive ainda em nós, longínqua chama – 
O DESEJADO.
 
Sim, só há a esp’rança, como aquela 
– E quem sabe se a mesma? – quando 
Se foi de Aviz a última estrela 
No campo infando.
 
Novo Alcacer-Kibir na noite! 
Novo castigo e mal do Fado! 
Por que pecado novo o açoite 
Assim é dado?
 
Só resta a fé, que a sua memória  
Nos nossos corações gravou, 
Que Deus não dá paga ilusória 
A quem amou.
 
Flor alta do paul da grei, 
Antemanhã da Redenção,  
Nele uma hora encarnou o el-rei 
Dom Sebastião.
 
O sopro de ânsia que nos leva 
A querer ser o que já fomos, 
E em nós vem como em uma treva, 
Em vãos assomos,
 
Bater à porta ao nosso gesto, 
Fazer apelo ao nosso braço, 
Lembrar ao sangue nosso o doesto 
E o vil cansaço,
 
Nele um momento clareou, 
A noite antiga se seguiu, 
Mas que segredo é que ficou 
No escuro frio?
 
Que memória, que luz passada 
Projeta, sombra, no futuro, 
Dá na alma? Que longínqua espada 
Brilha no escuro?
 
Que nova luz virá raiar 
Da noite em que jazemos vis? 
Ó sombra amada, vem tornar 
A ânsia feliz.
 
Quem quer que sejas, lá no abismo 
Onde a morte vida conduz, 
Sê para nós um misticismo 
A vaga luz
 
Com que a noite erma inda vazia 
No frio alvor da antemanhã 
Sente, da esp’rança que há no dia, 
Que não é vã.
 
E amanhã, quando houver Hora, 
Sendo Deus pago, Deus dirá 
Nova palavra redentora 
Ao mal que há,
 
E um novo verbo ocidental 
Encarnado em heroísmo e glória, 
Traga por seu broquel real 
Tua memória!
 
Precursor do que não sabemos, 
Passado de um futuro abrir 
No assombro de portais extremos 
Por descobrir,
 
Sê estrada, gládio, fé, fanal, 
Pendão de glória em glória erguido! 
Tornas possível Portugal 
Por teres sido!
 
Não era extinta a antiga chama 
Se tu e o amor puderam ser. 
Entre clarins te a glória aclama, 
Morto a vencer!
 
E, porque foste, confiando 
Em QUEM SERÁ  porque tu foste, 
Ergamos a alma, e com o infando 
Sorrindo arroste,
 
Até que Deus o laço solte 
Que prende à terra a asa que somos,  
E a curva novamente volte 
Ao que já fomos,
 
E no ar de bruma que estremece 
(Clarim longínquo matinal!) 
O DESEJADO enfim regresse 
A Portugal! 
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FP – D. Fernando, Infante de Portugal

Deu-me Deus o seu gládio porque eu faça
A sua santa guerra.
Sagrou-me seu em honra e em desgraça,
Às horas em que um frio vento passa
Por sobre a fria terra.

Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me
A fronte com o olhar;
E esta febre de Além, que me consome,
E este querer grandeza são seu nome
Dentro em mim a vibrar.

E eu vou, e a luz do gládio erguido dá
Em minha face calma.
Cheio de Deus, não temo o que virá,
Pois, venha o que vier, nunca será
Maior do que a minha alma.

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Emanuel Martins, o número 3

Análise numerológica de Emanuel Martins

 

Vejamos agora como a numerologia se aplica, por exemplo, a Emanuel Silva Martins, o original candidato do PS por Oeiras. O seu número é o 3:

People born under the number "3" will generally find themselves in an indispensable ingredient in the lives of those around them.

Sem dúvida. Emanuel Martins é candidato à autarquia de Oeiras. Como poderia sê-lo se não se considerasse um ingrediente indispensável? Ele é um revolucionário: promete obras grandiosas, capazes de meter os descobrimentos num tubo de Colgate. Mas promete também que o fará tranquilamente. Será uma "mudança tranquila", segundo as suas palavras. Com isto ele quer dizer que se preocupa em não chocar ninguém com mudanças. Vai mudar tudo, mas sem que ninguém se aperceba. Graças a Emanuel Martins, um dia os oeirenses abrirão a porta de manhã e pisarão surpreendidos o século XXV.

A human catalyst, they find solutions to both their own problems and those of others.

É exacto. Emanuel Martins tem fome de soluções. Tanta fome que é capaz de criar problemas novos só para achar novas soluções.

They have the gift of being social and they enjoy talking, writing, and travel to the utmost.

Não podia ser mais verdadeiro. Emanuel Martins fala a todos os oeirenses, escreve discursos e programas, viaja pelos sítios mais recônditos – como Barcarena, Queijas e Caxias. Ele é a socialização em gente. Ouve-se às vezes dizer que só faz monólogos, que nem o cão lhe liga, que as crianças fogem dos seus dentes e que o bom gosto existe – mas Emanuel sabe que a culpa é de um concelho injusto e preconceituoso, com maus ouvintes, más crianças e piores cães. Ainda assim não perde a sua determinação, porque ele é um número 3.

It will be important for them to know that they are what many situations and people need and are seeking.

A numerologia acerta uma vez mais no âmago de Emanuel: para ele é importante estar presente. Neste momento pode dizer-se que ele é quase ubíquo pelos seus cartazes espalhados pelos recantos do concelho. Ele está em todo o lado e não passa despercebido. Há mais placares com o rosto de Emanuel Martins e sua equipa do que pedras tumulares no cemitério de Oeiras.

They provide solutions.

Soluções faltam, é certo, no programa autárquico deste número 3. Mas não na sua cabeça. Para ele, o programa serve apenas para manifestar preocupações, e as soluções para se fazer fora do papel. Como se isso não bastasse para satisfazer este ponto, Emanuel considera-se, ele próprio, a julgar pelos cartazes, uma gigantesca solução com dentes.

They feel free to enjoy and express themselves and above all, share with others.

Ele sorri – nos cartazes, nas fotografias, nos comícios. E partilha o seu sorriso com a sua equipa, uma equipa tão audaz que parece ressuscitada do outro mundo: o zombie da Assembleia Municipal, a bruxa de Carnaxide, o vampiro de Porto Salvo, o Freddy Krueger de Barcarena.

Longe dos cartazes, mas "à distância apenas de um simples clic", podem ver-se também, alegres e sorridentes, os outros membros das suas heróicas e enigmáticas listas: o mestre Yoda, o Mr. Bean, o duende com pera, o alien de Roswell, o parolo com bigode de piaçaba, o betinho de alvos cabelos, o padrinho italo-lusitano e tantos outros.

These people generally let others to know and make use of their ability to solve and ease situations or problems that exist.

Talvez uma referência à promessa eleitoral de criar uma cidade digital, decerto mais uma alusão à vastíssima, omnipresente campanha eleitoral de Emanuel Martins. Ele inspira confiança. Os painéis dizem-nos ao subconsciente que há finalmente dentes para realizar as maiores obras de Oeiras, uma política com dentes, dentição de confiança e prosperidade, suficientemente grande para mastigar a "mudança tranquila".

O que dizer, em conclusão, de tantas coincidências, a não ser que não o são? A numerologia é uma ciência exacta e apoia Emanuel Martins.

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Os meus números

Não percebo muito de numerologia, mas desconfio que é um passatempo interessante. A primeira coisa que se faz quando se vai a um site desta ciência é, penso eu, aplicar as regras à pessoa que conhecemos melhor: nós próprios. Foi o que tentei fazer.
 
No entanto, há várias formas de obter o nosso número, e cada forma dá um número diferente, pelo que talvez possamos escolher o melhor. Se for assim, é uma vantagem da numerologia sobre outros sistemas mais rígidos de determinação de personalidade, como por exemplo grafologia ou signos do zodíaco. E se formos dar um nome a uma criança, podemos logo dar-lhe a melhor personalidade que acharmos, condicionando o seu número. O número pode ser resultante da vontade dos deuses ou dos pais.
 
Eu achei três números para mim. Provavelmente existem mais. Pela data de nascimento, o meu número é o 8:
 
Accomplishment and tangible power are very important to people with the life path number of "8". "Pie in the sky" is not their cup of tea. They want it now and in great abundance and they are more than willing to work very hard to get it. They easily rise through the ranks to assume control at the very top levels of management. They possess real "guts" or grit and a tangle with them is something no one wants a second time. They know exactly what you want and have every intention of getting just that. They may have a tendency to be less than exacting about the means that they use to reach the end goal they have in mind. People born with this number are generally decisive, forceful, good with money. They often lack feeling for those who stand in the way of goals. To strive higher, take control, seek power, status.
 
Isto, posso assegurar, não tem nada a ver comigo. Talvez acerte ao início, quando diz que uma tarte no céu não é a minha chávena de café, mas pouco mais. Não quero dizer com isto que a numerologia aplicada a datas é um disparate – também posso ter sido enganado sobre o meu aniversário, ou ter nascido na data errada.
 
Achando o meu número a partir do meu nome, no entanto, dá algo mais aproximado à imagem que tenho de mim próprio. Fi-lo com um alfabeto de 23 letras e um de 26, chegando ao mesmo resultado – o número 7:
 
Your life path number is a "7". You are one who dares to ask questions and wonder about the "why" of this world we live in. You like to think and ponder. Time spent alone is often a happy time for you. A life of teaching others is perhaps unavoidable for your eye is fixed to a distant star and the rest of us never can get enough of that type of news. Your dreams are the stuff poetry and drama are made from and your thoughts are from the worlds of philosophy. You will seek to know your self and to penetrate into the deeper mysteries of life and science. You can be aloof and too much to yourself. Others can but marvel at what you are up to. You are on an inner and spiritual quest and the mysteries of life are your domain.
 
Ir a sites de numerologia prova quase tudo o que é dito. Há apenas uma imprecisão: não gosto de ensinar ninguém. Penso que isso nem está de acordo com o resto do texto, que descreve uma personalidade que gosta mais de levantar perguntas do que de dar respostas. Talvez seja uma gralha.
 
Mas este resultado foi obtido partindo do princípio que à primeira letra do alfabeto corresponde o "1". No entanto, como sou ignorante, pensei, porque não poderá ser o "0"? Fazendo "A" = "0", obtenho, seja com 23 ou 26 letras, o número 9:
 
The most significant feature of "9" is that the people born under this number are highly inspired, intuitive and creative. They see the larger picture and the global view in anything that appeals to them. They’re deep freethinkers and their mind easily gets around in the realms of philosophy and the spirit. Their body probably likes to roam too and may enjoy lots of travel during their life. You have a love of truth and honesty that is unequaled, and can’t tolerate things mean or short sighted. They are kind, gentle at heart, and extremely giving or generous. They seek to improve the world. They provide shelter for all the strays of the world. Their mind’s eye is ever focused on the distant star. They possess an inbred love of poetry, music, and the arts. They have deep understanding and great tolerance of others. They do have a remarkable way to dream the dream.
 
Vendo bem, tem alguma coisa em comum com o 7, com a diferença de que o 7 é mais "científico" e "racional" e o 9 mais "espiritual" e "sensível". A minha verdade pessoal é talvez esta, seja a numerologia uma ciência ou um disparate: valorizo muito o 7, ao ponto de tentar sê-lo, mas o que sempre fui, e sou, é o 9. Tirando a parte de procurar melhorar o mundo, é evidente.

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Achei no "Oeiras Tranquila" um comentário assaz pertinente (que subscrevo na íntegra), vindo de um pai legitimamente preocupado. Diz ele:

 

«Caro Emanuel Martins e todos os responsáveis pela campanha do PS em Oeiras: antes de mais, as minhas sinceras desculpas pelo que vou pedir, que não é de todo fruto de má intenção da minha parte. É o seguinte: a minha filha tem só quatro anos e assusta-se cada vez que se depara com um dos vossos painéis de campanha. Às vezes consigo ter tempo de lhe desviar a atenção ou tapar os olhos, o que nem sempre acontece pela localização inesperada dos mesmos. Ultimamente tenho evitado, inclusive, passear pelo próprio concelho, optando por Cascais ou Sintra, mas é difícil mesmo assim evitar que ela chore e por vezes fuja. Mais difícil ainda é evitar que de noite ela se lembre de um ou outro cartaz e se encha de pânico. Por isso, em nome tanto da minha filha como de todos os menores mais sensíveis da autarquia, peço-vos, sem intenção depreciativa, que insiram algumas melhorias estéticas na vossa campanha. Muito obrigado e felicidades.

 

Mário Alberto Renhanha»

 

Fonte:

http://www.oeirastranquila.com/web/

 

 

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O Erro de Sísifo

Compara-se a vida ao mito de Sísifo, ou vice-versa. Suspeito, porém, que já não é bem assim.

Sísifo foi condenado a empurrar uma pedra para o cume de uma montanha, continuamente. A pedra nunca chegaria ao topo, rolaria sempre para o fundo outra vez assim que estivesse próxima do seu destino. Não haveria descanso para Sísifo. A sua existência resumir-se-ia a um esforço quotidiano aborrecido, difícil e sem objectivo. Algo que tinha de ser feito, apesar de totalmente inútil.

Nenhum outro castigo seria tão apropriado e tão terrível para Sísifo. Na vida, e depois na morte, Sísifo desafiou criativamente os deuses, deuses poderosos como Zeus e Hades. Quase a morrer, decidiu testar o amor da sua esposa ordenando-lhe que atirasse o seu corpo para o meio da praça pública, deixando-o insepulto. Mérope, obediente, fez isso mesmo: atirou-o para o meio da rua. Sísifo acordou no Tártaro, furioso pela obediência cega se ter sobreposto ao verdadeiro amor, e conseguiu persuadir Perséfone a deixá-lo voltar ao mundo dos vivos por três dias de forma a verificar se tinha sido sepultado. Perséfone deixou-o ir e ele, sentindo-se novamente livre, já não regressou. Foi a última vez que afrontou os deuses. Hermes descobriu-o e devolveu-o ao Tártaro.

Um castigo especial aguardava-o. O livre e rebelde Sísifo, que ludibriava os deuses com uma imaginação que nem diante da morte esmorecia, foi condenado a ser prisioneiro de uma tarefa repetitiva, inútil e desapaixonada. Para sempre.

Quando jovens, o nosso espírito é Sísifo antes de ser condenado. Mas chega depois a altura em que percebemos que não podemos desafiar os deuses, e pela pior das razões: não é por eles serem fortes, mas por nós sermos fracos. A nossa condição, os nossos sonhos, a nossa criatividade, as nossas paixões, são com o tempo ridicularizadas pelas tarefas mesquinhas que temos de fazer se quisermos garantir a nossa sobrevivência e a nossa posição em dada sociedade, em determinada cultura. Pior ainda, se quisermos garantir a imagem que temos de nós próprios.

"É a vida…" – toda a gente conhece esta expressão popular, sublime porque traduz em apenas três palavras todo o desconsolo dos aborrecimentos diários, toda a inutilidade necessária do quotidiano, todas as tragédias obrigatórias que temos de suportar. Não é preciso dizer mais nada, o interlocutor entende o que se quer dizer. "É a vida" : eis a pedra de Sísifo, ubíqua, natural, omnipotente como um deus cruel, a revelar-se.

Obedecer às burocracias, trabalhar para outrém, varrer o chão, aguardar em filas, respeitar horários, ter procupações com dívidas, com o futuro, perder alegrias, esperanças, pessoas… alguma criança pensa, sequer, em tamanho absurdo? Apesar de impossível e inexistente, o mundo que uma criança imagina é superior, mais lógico e mais real. É inalcansável como as mais valiosas pedras preciosas, dura tanto como um sonho, e pode inspirar-nos para toda a vida.

Resistir à pedra é uma empresa impensável, digna apenas de um louco. Construir uma fortaleza em torno da pureza, alheando a tudo o resto, transforma-nos em D. Quixote: um louco mais são que os sãos, absolutamente genial mas também solitário, incompatível, perdido, não-natural, pouco preparado para sobreviver. E embora literariamente seja inquestionável que ser um D. Quixote faz mais sentido, na realidade ser Sísifo é a única hipótese viável.

Apesar disso acredito que Sísifo evoluíu e já não serve de exemplo. Ou que serve, não sei bem (estou com tanto sono que não consigo pensar). Na ode grega, à estrofe e antístrofe segue-se o epodo, que é a união dos contrários. Dessa união nasce a harmonia. De livre e apaixonado, Sísifo passou a prisioneiro e quotidiano. Mas qualquer vida não é nem só uma coisa nem outra – é as duas. Qualquer um, em vez de procurar acomodar-se num ou noutro extremo, tem a tarefa de conciliar esses opostos seja qual for a sua sorte. Sísifo, provavelmente, ri-se do absurdo. Por dentro, contrariamente à vontade dos deuses, será sempre livre, e as suas paixões tiram à pedra o próprio peso. As esperanças, patéticas, moldam-lhe um destino de ouro.

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A morte é a curva da estrada,
Morrer é só não ser visto.
Se escuto, eu te oiço a passada
Existir como eu existo.

A terra é feita de céu.
A mentira não tem ninho.
Nunca ninguém se perdeu.
Tudo é verdade e caminho.

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