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Archive for Junho, 2005

O Presidente desta República

O presidente é uma figura curiosa. O artigo 120º da Constituição define assim o presidente: "O Presidente da República representa a República Portuguesa, garante a independência nacional, a unidade do Estado e o regular funcionamento das instituições democráticas e é, por inerência, Comandante Supremo das Forças Armadas."

Devia haver uma nota de rodapé a dizer algo como: "qualquer semelhança com os presidentes eleitos desde há 20 anos até hoje é pura coincidência". Vejamos o actual, Jorge Sampaio. Jorge Sampaio, que fala fala fala sobre assuntos internos que dizem respeito ao governo ou às autarquias, jamais se opôs a políticas menos favoráveis da União Europeia. Por eliminação de causas racionais, podemos dizer que Jorge Sampaio decidiu não convocar eleições antecipadas após a saída de Durão Barroso por pressão da França, da Alemanha e da Inglaterra, que queriam o primeiro-ministro português para presidente da comissão e para isso precisavam de um entendimento. Sampaio obedeceu, mas quando as coisas estabilizaram na Comissão cedeu, então, aos seus segundos interesses, os partidários, causando caos no país com eleições antecipadas não justificadas e agravando o estado frágil da economia. É difícil imaginar menos talento.

Lembro-me também da questão do Iraque. O governo, que tem o poder de decisão, decidiu que Portugal integraria a força liderada pelos Estados Unidos. Mas não o presidente, que decidiu publicamente dar um segundo rosto ao país defendendo o oposto. Assim Sampaio interpreta, de uma forma muito própria, a "unidade do Estado" e o "regular funcionamento das instituições".

O artigo 127º, alínea 3, diz assim: "No acto de posse o Presidente da República eleito prestará a seguinte declaração de compromisso: Juro por minha honra desempenhar fielmente as funções em que fico investido e defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República Portuguesa". Ou seja, reparamos que a Constituição é para o presidente o que o código da estrada é para os condutores: algo abstracto, flexível, contornável e a que não é preciso prestar muita atenção. Para sermos sérios, a Constituição tem, em Belém, o estatuto de uma piada dos batanetes. O principal mal do país, que é o terceiro-mundismo, começa precisamente no topo da pirâmide republicana!

Como é especificado no artigo 133º, a competência do presidente é reguladora e representativa. Se as instituições não funcionarem o presidente tem poderes para as modificar. A Constituição não diz que o presidente se deve meter em todos os assuntos do Estado para que as suas opiniões ecoem nos meios de comunicação. Também não fala em "presidências abertas", um conceito inventado por Mário Soares para "reformular" o estatuto de presidente, tornando-o activo na sociedade por meios não especificados na Constituição (mais uma vez a lusitana tentação de fugir à regra irresistível, parece, em qualquer cargo).

No Dia do Bom Gosto (um dia que será assaz mais importante que o 25 de Abril) os portugueses ficarão fartos de ver presidentes da república, e ressalvo a palavra "república", a tentar comportar-se como pequenos reis representando o papel de descer do trono de vez em quando para ver como vivem os vassalos do seu reino… chorosos, preocupados, solidários, participativos, populares… fazendo de conta que a sua nobreza é tanta que transborda para o povo. Talvez para completar a ilusão continuem a chamar "palácio" à residência oficial do presidente da… república.

Pior que não ter consciência da Constituição é não ter consciência do ridículo. Qualquer homem deve saber quando está a agir de forma patética. Até um presidente da república portuguesa. É absurdo que o "homem mais bem informado do país" precise de andar de autocarro na IC19 em hora de ponta para ter a percepção que existem problemas de trânsito. É o mesmo que estar a dizer que nunca andou nas estradas, nunca viu televisão, nunca ouviu rádio de manhã porque vive algures fechado num palácio a jogar golfe. Pelo que surge a pergunta: de que horta clandestina foram desenterrar a criatura que se intitula como "homem mais bem informado do país"?

Talvez os presidentes sintam, desde Mário Soares, que os seus poderes constitucionais são limitados e por isso procurem outros, nomeadamente o conhecido por "quarto poder", os media. E talvez por isso se sintam tentados a regorgitar opiniões (geralmente vagas e tipicamente abstractas) sobre tudo, de tempos a tempos. Se assim não fosse a população esquecia-se deles. Se só aparecessem nas cerimónias, seriam acusados de fazer tanto ou menos que qualquer família real desta Europa. A triste verdade, que não aceitam, é que não têm de facto mais poderes que a Rainha da Inglaterra. Nem mais poderes nem tanto prestígio e muito menos influência internacional. O presidente português torna-se patético ao lado da rainha Isabel II, por exemplo. Lado a lado, é como comparar os Pastéis de Belém com a Abadia de Westminster.

Por isso o presidente precisa de continuar a falar e a ser artificialmente alimentado de alguma importância. O seu soro é a comunicação social. Se fala, aparece nas notícias, e se aparece nas notícias os lobbies curvam a espinha e também falam, uns porque se podem "atrelar", outros porque se devem defender do que falou o presidente, seja isso a coisa mais deslocada ou mais banal deste universo. E deste circo surreal se vai espremendo a importância do chefe de Estado, cuja missão se torna, não representar o país, não controlar as instituições, mas gerir a própria imagem – o objectivo principal, só para comparação, de um concorrente da "Quinta das Celebridades".

O presidente aparece na televisão preocupado, a "alertar" para os problemas. É assim que é apresentado. O grande chefe, o altíssimo líder, faz o favor de descer ao mundo dos seus protegidos para "alertar". Sozinho, ou melhor, apoiado pela eficiente equipa que o torna o "homem mais bem informado do país", o presidente já descobriu problemas no sistema educativo, na economia, nas finanças, na justiça, na saúde, nas touradas (que apoia salomonicamente, mesmo quando são contra a lei, com o argumento de que é preciso "unir a lei com a tradição"), na imigração e no trânsito.

O presidente parece ter descoberto tudo excepto duas coisas: as soluções e o facto dele próprio não passar de um reality show. Não lamento nada disso, pois cada um joga o seu jogo como acha que deve jogar, e como o deixam jogar. Lamento, isso sim, este paspalho ter andado no mesmo liceu que eu.

Pelo que me foi dito, apesar dos meus direitos à liberdade de expressão é crime ofender o presidente, principalmente em textos publicados. É crime porque não está de acordo com a lei. Que fique claro que o meu "paspalho" tem a mesma natureza de uma intervenção do presidente: para "alertar", no "bom sentido", com a "melhor das intenções". Por outro lado se Sampaio também não age de acordo com a lei, e todos temos direitos iguais, porque não terão as pessoas o direito de o designar como cabeça de trangolho, fantoche punheteiro ou tretas da porra?

Há um desequilíbrio. Se o Chefe Supremo inventa formas de fugir à lei, o homem comum segue-lhe o exemplo e chama-lhe bandideco sem espinha; se teme a opinião pública, é natural ser apelidado de coninhas ou cenoura podre; se cede a interesses estrangeiros, é dever patriótico apontar que é dos que gosta de ser enrabado pelo Inglês, pelo Alemão e pelo Francês, e por consequência de enrabar o próprio país, fazendo uma espécie de comboio à europeia. 

Parece um escândalo uma designação tão baixa para tão alta figura, mas qual é o crime mais grave para a Nação – um palavrão proferido na rua, num jornal, na Net – ou um badameco irresponsável que, na sua busca individual de popularidade dentro e fora do país, trata a Constituição como um pedaço de papel higiénico?

Não é possível ofender dizendo verdades. Portanto, chamar fantoche punheteiro a Jorge Sampaio não é uma ofensa. Jorge Sampaio é um fantoche, porque se deixa manipular pelos grandes da Europa, e também é punheteiro, porque os seus discursos são tão vagos e inúteis como as funções que deveria cumprir. Ofender Jorge Sampaio seria chamar-lhe, por exemplo, "patriota", ou "defensor do Estado de Direito", ou "homem com sentido de Estado", algo que não me ocorre fazer.

A presidência portuguesa, com ou sem Sampaio, é vaga e inútil. É uma tentativa falhada de substituir o rei por um republicano. É tudo falso: a importância, a veneração, a pompa, soa ao espectáculo de mau gosto de um novo-rico. O novo-rico tem dinheiro, mas não tem classe. Gasta o dinheiro todo na tentativa vã de comprar classe, quando isso não depende apenas do que o dinheiro pode comprar. Da mesma forma o presidente republicano tenta ter o estatuto de um rei e não consegue. Tenta de todas as formas, com altas designações, altas responsabilidades, grande pompa, vida num palácio, atenções principescas da comunicação social, mas falta-lhe qualquer coisa. Qualquer coisa essencial, ou não pareceriam tão patéticos todos os presidentes republicanos. 

Jorge Sampaio nasceu para trabalhar numa cave como contabilista, mas quis a sorte que chegasse onde chegou. Como diz o povo, principalmente o que o elegeu, "a sorte de uns é o azar de outros".

 

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Liberdade à Portuguesa

Diz o artigo 37º da Constituição:

"1. Todos têm o direito de exprimir e divulgar livremente o seu pensamento pela palavra, pela imagem ou por qualquer outro meio, bem como o direito de informar, de se informar e de ser informados, sem impedimentos nem discriminações.

2. O exercício destes direitos não pode ser impedido ou limitado por qualquer tipo ou forma de censura."

Muito bem, são coisas que ficam bem em qualquer constituição desta época da História. É uma regra de ouro que define a liberdade de expressão. Porém, sabendo do ditado preferido em Portugal, o "não há regra sem excepção", fui procurar a excepção. Não foi preciso ir a casos macabros ou à realidade quotidiana das instituições e das pessoas. Encontrei-a muito rapidamente – na própria Constituição:

Dita assim o artigo 160º:

"1

. Perdem o mandato os Deputados que:

d)

Sejam judicialmente condenados por crime de responsabilidade no exercício da sua função em tal pena ou por participação em organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista."

E dita o artigo 46º:

"4. Não são consentidas associações armadas nem de tipo militar, militarizadas ou paramilitares, nem organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista."

Temos nestes dois artigos, portanto, com todos os impedimentos e discriminações bem explícitos, a excepção à regra da liberdade de expressão: a ideologia fascista (curiosamente não fala da nacional-socialista, da anarquista, da marxista-leninista ou qualquer outra que também possa perturbar o normal funcionamento da sociedade). Dado que "ideologia" deriva de "ideia", pode-se dizer que o artigo 160º pretende impedir a classe política de ter ideias fascistas e o 46º a sociedade civil.

Portugal é o único lugar do mundo em que não se chama discriminação a uma regra do tipo: "tem-se o direito de ter quaisquer ideias, desde que não sejam estas e aquelas". Dirão alguns, para desculpar, que apesar da última revisão ter sido recente, em 2004, a Constituição é do tempo da guerra fria. Mas já não estamos na guerra fria há uns 15 anos. Os comunistas não conseguiram juntar Portugal à União Soviética. O regime ditatorial caiu há 31 anos (e nem sequer era fascista, se quisermos ser correctos, dado que Salazar não só venceu o movimento fascista no nosso país como não exerceu uma política sequer comparável à de Mussolini – e muito menos se aliou a ele durante a guerra). Portanto surge naturalmente a pergunta: "mas porque é que a Constituição discrimina este tipo de ideias"?

Dirão outros que essas ideias fomentam atitudes violentas e agitam a sociedade. Mas que dizer de outras ideias, a começar pelas opostas, de extrema-esquerda, que causaram muito mais mortos e desgraça no século XX que o nazismo e o fascismo juntos, e são das que mais perturbam as sociedades ao provocar a guerra entre classes? E do catolicismo, que durante séculos foi justificação para genocídio e tortura? E do islamismo, que serve para abençoar, nos dias que correm, bárbaros actos de terrorismo?

É fácil concluir que não são as ideias que são perigosas, são as pessoas que delas se aproveitam ou são por elas influenciadas de forma anormal. Certamente há pessoas que não deviam ter contacto com ideias. Nomeadamente as que produzem interpretações fundamentalistas e no dia seguinte querem arrasar os defensores de todas as ideias menos puras que as suas.

Não é preciso recorrer aos grandes textos para se demonstrar como uma influência se pode tornar perigosa dentro de uma mente perturbada. Li num jornal, há uns anos, que um adolescente espanhol, influenciado pelo jogo Final Fantasy, cortou a cabeça aos pais. Nos Estados Unidos aparece de tempos a tempos um caso em que um adolescente, influenciado pelas produções de hollywood, pega em armas e desata a disparar na escola.

Resumindo, qualquer ideia política ou religiosa, qualquer livro, filme ou jogo de computador pode ser perigoso. O que torna ainda mais pertinente a pergunta: "porque é que a Constituição de um país que defende a liberdade de expressão discrimina certo tipo de ideias?"

A resposta é sempre a mesma: os desiquilíbrios provocados por uma revolução mal feita e pessimamente resolvida, que deixou a extrema-esquerda tomar de assalto lugares estratégicos da sociedade e nunca se preocupou seriamente com isso. É o "deixa-andar" tipicamente português que permite a descredibilização dos próprios princípios fundamentais do país, visível na própria Constituição.

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As panquecas enchem bastante, mas nada que se compare às do "Riverside View", a 5000km de distância.

"Melhores que Xau comido à colherada!" – opinavam efusivamente alguns comensais à boca cheia.

Assim saiu mais um artigo fresquinho sobre as comidas de Miraflores, restaurante Cup&Cino. Vide http://comidas.sprayblogg.no/comer/

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Álvaro Cunhal Morreu

Eis que, depois da esperança comunista, desaparece mais um dos seus últimos fundamentalistas: o popular, o simbólico, o persistente, o patusco Álvaro Cunhal.

Agitador e terrorista antes da revolução, herói da liberdade depois da revolução. "Herói da liberdade"? Terei percebido bem? Sempre houve um equívoco qualquer na projecção da sua imagem pelos geradores de opinião – e tem mesmo de ser um equívoco, dada a incapacidade mental desses senhores para criar ironia.

Após a instabilidade do pós-25A, ou seja, após a desastrosa tentativa do PCP para impingir uma ditadura de modelo soviético, foi como se tivesse havido um acordo para esquecer todo esse inconveniente período. Não houve guerra civil, logo a ideia do acordo é plausível. Não sabemos qual foi, sabemos apenas que a história está mal contada. O PCP, que tomou posse dos órgãos de informação e da propriedade privada, e queria uma ditadura ao serviço da URSS, tornou-se repentinamente uma força democrática com assento parlamentar, responsável, importante para o equilíbrio social, defensora dos trabalhadores, etc. Aceita-se, hoje, ou faz que se aceita, todo este rol de argumentos inventados para limpar a imagem dos comunistas, apesar da falta de coerência.

Foi uma mudança de estratégia do PCP. Ao ver que não conseguira o apoio popular, e que provavelmente não conseguiria nada pela força, Cunhal deixou para mais tarde a "grande revolução comunista". No fundo, regressou à estratégia antiga de se infiltrar e minar todos os alicerces do sistema, por dentro, para o fazer desabar, só que adaptada à democracia. Conscientemente ou não, é o que o PCP continua, ainda hoje, a fazer, com uma cara na Assembleia, nas Câmaras e em tudo o que vai conseguindo pelo voto, e outra cara nos sindicatos, nas associações de estudantes, nos teatros e nas associações que consegue controlar. 31 anos depois, o PCP continua frustrado, com a trela da democracia ao pescoço e sem a sua revolução concluída. A única diferença é que agora não está na clandestinidade e os seus membros não são presos quando destabilizam o sistema.

Alguns dizem que Álvaro Cunhal era um lutador persistente porque, apesar da queda do muro de Berlim e o desmantelamento da União Soviética – em suma, do falhanço monumental da utopia socialista -, continuava a acreditar nos seus princípios. Um lutador persistente, um louco, um falhado ou um autista? Talvez tudo junto. Tinha algo de quixotesco, Álvaro Cunhal. E algo de hollywoodesco também, pois parecia um lobisomem.

Que dizer mais, agora, que o homem morreu? Bom, duas coisas. Primeiro o luto nacional. Quando chegará o dia em que a parcela sensata da sociedade dirá "chega de brincar com a Nação"? Para quando dirigentes a sério? Seja quando for, nesse dia as honras terão de mudar de nome, porque até lá a esquerda já as terá descredibilizado a todas.

Em segundo e último lugar, uma mensagem para membros e apoiantes do PCP: camaradas, vós que idolatrais Álvaro Cunhal, agora sim é a hora de dizer – sigam o seu exemplo.

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A Quinta das Alarvidades

Gosto muito de ver a "Quinta das Celebridades". Vejo praticamente todos os dias, nem que seja um bocadinho.

A princípio pensava que me estava a afundar em estupidez, já que estes programas são como areias movediças: uma vez lá dentro já só é possível afundar. Por isso tentei convencer-me que só acompanhava tamanha aberração televisiva por razões inteligentes. Por exemplo, por interesse sociológico, dado que a Quinta é como um aquário de seres humanos, todos lá metidos sem poder sair e assim potenciando, acelerando, exacerbando as curiosidades próprias das relações entre pessoas, neste caso entre portugueses. Vemos lá dentro o que vemos cá fora, mas vemos melhor, de vários ângulos. Isso pode ser uma coisa inteligente. No entanto, tirando um ou outro geek da área de sociologia, duvido muito que alguém se interesse pelo programa por esta razão que se me gerou no cérebro para equilibrar a saúde mental.

Outra razão é o jogo. Ou seja, avaliar as estratégias por detrás do comportamento de cada jogador e ver como o jogo se desenrola. É uma razão mais plausível, porém tão falsa como a primeira.

O interesse, de facto, é assistir a palhaçadas e zangas, quanto mais mesquinhas melhor. O facto é que se se tivesse de escolher um vencedor nem seria possível determinar critérios objectivos, porque o vencedor não é o que lava mais pratos, o que faz mais cenas ridículas, o mais humilde, o mais alegre, o mais trabalhador, o mais sábio, o mais carismático, o mais belo, o mais "fashion" ou o que lava os pés mais vezes. É, apenas, aquele que nunca foi expulso. As razões para isso são desconhecidas. É simplesmente, diria já, o mais popular ou o menos odiado entre o público – que vota através de um sistema de SMS. Pode haver vários votos da mesma pessoa, ou um voto que represente a vontade de várias pessoas, ou votos enganados, que vai dar ao mesmo. Talvez por isso nem se possa dizer que ganha o mais popular. Ganha aquele com maior número de apoiantes dispostos a gastar 60 cêntimos por mensagem. A verdade é que é mais fácil perceber quem ganha num jogo de berlinde entre crianças de 6 anos. A TVI nem divulga os números, apenas as percentagens, para não sofrer acusações.

Mas isso para o português é um detalhe irrelevante. Primeiro, porque em Portugal tudo funciona mais ou menos com o mesmo grau de objectividade e transparência. Segundo, porque o interesse deste programa são as palhaçadas e as zangas.

Pois bem, na qualidade de espectador queria agora emanar a minha importante opinião sobre os finalistas. Começo pelo Tino. Eu via o Tino nas Noites Marcianas, essa coisa televisiva, e gostava do seu estilo humilde, inteligente, dedicado e leal. O Tino é o beirão porreiro que nunca conhecemos. Um gajo fiche. Uma espécie em vias de extinção, como disse o Câmara. Na Quinta continua a ser, aparentemente, esse mesmo gajo fiche, ainda que num ambiente complicado, já que pouca compatibilidade possui com os outros hóspedes. Estava a apostar no Tino para ganhar o concurso. Infelizmente, um dia revelou que era comunista e até tentou impedir que se gozasse com o Jerónimo de Sousa. Essa atitude fê-lo desabar do Olimpo dos porreiros para a lama dos reles. Até pode ser boa pessoa, mas o papel de um comunista não é ganhar concursos, é ser expulso para a Coreia do Norte. Assim sendo, não voto no Tino. Tino, se me estás a ler, gostaria mesmo de acrescentar, no sentido mais construtivo: vai para o cu que te pariu.

Gonçalo da Câmara Pereira. Entre alentejano, político e fadista, só tem uma virtude: é monárquico. Mas tem um piadão. É daquelas pessoas que se diz: "apesar da idade tem um piadão". Não é bem piada, é graça. Gracinha, vá. Como na tropa. O alentejano tem um piadão tão grande como as praxes do exército. Faz partidas. Tem espírito jovial e levanta-se cedo. Percebe de animais. Parece um tipo porreiro até acordar os outros a bater tampas de lixo. É de um estilo que pode agradar a muita gente, mas não a mim. Quem age assim não tem respeito e é chato. É de afastar. Arreda, chato. Há muitos Câmaras no país, demasiados. São aqueles adultos que se comportam com a imaturidade de um miúdo de 15 anos. Se o Tino pertence a uma espécie em extinção, o Câmara pertence a uma espécie em abundância – a abater em nome da evolução. O Câmara tem muito jeito com animais porque é um deles. No momento em que escrevo isto o Câmara já não é finalista por um singular sinal de lucidez: o homem fugiu. Viu que, por ser nomeado pelo público, tinha poucas probabilidades de recuperar e foi-se embora, praticando uma manobra muito usada, curiosamente, por republicanos: a fuga para a frente.

Miguel Melo, o batanete. Nunca vi "Os Batanetes", mas aposto que é mais uma daquelas misérias televisivas para patetas em que patetas fazem de patetas e regorgitam textos patetas escritos por patetas. Mas o batanete não é pateta. É um tipo, como se diz… é um tipo "que se orienta". É daquelas pessoas que por ter "passado por muita merda" despreza a opinião alheia. Nada o surpreende porque já viu tudo, ou acredita que viu. Dos que julgam que a sabedoria e a moral são directamente proporcionais às infelicidades da vida. Segue a máxima: "sou triste, logo sei". O batanete é um tipo cool com o estatuto de palhaço, um estatuto bastante elevado na sociedade portuguesa. O homem faz rir. É uma ilha de riso no mar de desgraça português. Por isso é importante para crianças e velhinhos. Crianças e velhinhos que cada vez mais começam a usar telemóveis e dedicar o seu tempo livre ao envio de mensagens SMS para programas de televisão. O batanete é por isso um sério candidato à vitória. Mas a minha opinião é diferente. Correndo o risco de ser acusado de elitismo pela audiência da Praça da Alegria, afirmo que o lugar deste senhor é na Rua Augusta, no circo ou no telejornal da TVI.

Rute Marques, aka B.B. [LIZA2005]. Ó, parecia diferente, a Rute Marques, quando apresentava aquela alarvidade do Olhó Vídeo ou algo do género, em que parecia uma doida com cio. Mas na Quinta parece sensata. Como ninguém consegue fingir 24 horas por dia, a não ser que seja esquizofrénico, diria que é mesmo sensata. Ou esquizofrénica. Ela reflete os gostos e os desgostos do público, que por isso gosta dela. Lá dentro define bem as suas fronteiras: nem entra muito na liberdade alheia nem se deixa ser invadida. É uma estratégia arriscada, dado que o público prefere a peixeirada à sensatez, mas tem sido bem sucedida. Ela e o palhaço constituiram uma dupla de sucesso, até agora imbatível. Talvez votasse nela se me apontassem uma semi-automática à cabeça e me obrigassem a escolher alguém, mas fico a pensar… Será que alguém merece ganhar uns milhares de euros só por ser sensato, ou seja, por uma pre-condição para a vida em sociedade? Era como dar um prémio a alguém por ter o olho do cu. Não seria justo pedir algo mais, como um talento?

Por último, a criatura que figura como subtítulo da grande obra de John Carpenter, "The Thing – Veio do Outro Mundo": João Chaves. Basta observá-lo cinco minutos para surgir naturalmente a pergunta: "mas de onde é que isto saiu?". De facto, João Chaves parece ter emergido de um buraco – num planeta distante. É de facto árduo de descrever com conceitos terrestres. Está para além do patético. Pelos movimentos que intenta executar dir-se-ia que está convencido de ser um modelo numa passerele de Milão, mas fisicamente é mais parecido com os seus cães (que parecem salsichas de churrasco com pernas, mais ou menos a versão horizontal e silenciosa de um colega meu). Julga-se belo e comporta-se de acordo com as suas ilusões. Belo, educado e evoluído. Em suma, um ser superior. João Chaves comporta-se como um super-homem sobre um pedestal, e é nessa qualidade que pedantemente fala aos que estão próximos. Choca-se com os comportamentos alheios como um nobre de Windsor numa selva africana. Acredita ter um espírito cheio de luz e de poder, capaz de ressuscitar pintaínhos, porque manuseia a Cabala. Se quisesse era capaz de pôr as vassouras a varrer sozinhas como naquela história da Disney. Mas ainda não quis. João Chaves prefere o queixume ao trabalho. Queixa-se das moscas, do calor e do mau cheiro como se jamais tivesse tido contacto com tais incómodos. Porém estas dificuldades não afastam este mestre cabalístico da sua obra fundamental: a crítica sem razão pura. João Chaves é desde que entrou o maior incendiário de discussões e situações aborrecidas. Como poderei eu, que tão pouco sei da mística hebraica, descrever este personagem, esta autêntica besta sem nexo, este buraco negro com estrume à volta, este, como dizer cabalisticamente, rabeta do caralho? A sua capacidade de viver em sociedade é óptima desde que essa sociedade não ultrapasse ele próprio e os dois cães. É chato, daquelas pessoas que não se suporta durante mais de duas frases. É surreal, tão surreal que parece uma caricatura queirosiana e levanta a questão de ter sido inventado pela TVI para agitar a Quinta. A sua vitória seria não só a prova de que Deus existe como também a de que Deus é gay, irritante, pedante, protervo, ridículo, incapaz de se relacionar com a realidade e com a forma de uma salsicha desenvolvida.

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(Pequeno excerto de um livro inacabado)

"Subitamente ceguei, vi qualquer coisa, um sombreado no meio da luz intensa; cobri a cara com os braços, não consegui fechar a janela e caí silenciosamente para trás. Desvaneceu-se a luz e o espaço estava o mesmo de antes, cheio de estrelas sobre negro, eu encharcado de luar, na rua os cães e os gatos, um carro ao longe, as árvores, um calor amplo, a pulsação ridícula do meu corpo. A pulsação, a pulsação… Lembro-me disso, Senhor, não sei porquê. Sentia o coração irrigar-me de sangue por dentro, e sentia tudo, desde a contracção cardíaca ao inchar e desinchar dos dedos, talvez até sentisse as pequenas células beber o oxigénio, renovar a vida. Nunca tinha dado tanta atenção àquilo, quero dizer, nunca o tinha sentido assim; já me tinha inspeccionado ao pormenor, mas com olhar científico. Cientificamente eu era uma bela máquina, mais bela ainda por poder ver, como o rosto num espelho, a sua própria beleza… Isso era belo, eu sabia-o, denominava-o belo, porém não o sentia belo. Tomava-me então a crítica e pensava em mil opções melhores para a Natureza – ou para Ti, Senhor, que existis apesar das crenças e das descrenças. Tudo tão imperfeito, afinal, pensava: porque haveria o Homem de precisar de dormir um terço da vida quando o mundo à sua volta era tão vasto que levaria cem milhões de vidas humanas a compreender, pelo menos? Não Vos parece um desperdício, essa ausência forçada da razão? A mim parecia. Também não percebia porque haveria forçosamente, eu, um génio, de defecar e urinar como todos os outros homens. Porque nos fizestes tão diferentes na alma e no entanto tão iguais no cheiro, Senhor? Sabeis o que é para um homem de alto pensamento ver-se sentado numa sanita, contra toda a ideia de liberdade, a fazer na essência o que os cães fazem na rua? Um poeta, por exemplo – que poema o salvará contra o próprio cheiro? A alma que escreve e a que defeca será sempre dupla. Para fazer um verdadeiro poeta, dizia na altura, bastava fazer as células iguais às das plantas e absorver toda a energia do Sol, não da comida. Eliminava-se de uma vez todo o sistema digestivo e um bocado do respiratório: só precisávamos do oxigénio à noite, talvez um pulmão bastasse. O corpo ficaria então com espaço suficiente para órgãos mais úteis como um segundo cérebro, que podia ser do tamanho de um estômago, e um terceiro cérebro do tamanho de um pulmão. Um ser assim não poderia ter três vezes mais razão que um humano normal, mas chegaria à verdade três vezes mais depressa; sondaria as possibilidades, os mistérios, as observações três vezes melhor; talvez para o apoiar pudéssemos ainda aproveitar algum espaço que restasse para pôr mais olhos ou ouvidos, ou outros sentidos além dos cinco que filtram informação do mundo."

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Poema inominado

Ao luzir no céu tão limpo o Sol claro
Como pra sempre e em toda a parte
Chega ao coração escuro um ponto raro
Que despede os raios de uma nova arte
Não conhecem destino em lado algum
Mas guardam mil destinos cada um.

Estranha é a Obra que se sente na Aurora
Sem que o verdadeiro dia jamais venha
E ter como vida só uma demora
À espera de uma coisa que se estranha
Com o ser ante as sombras duma gruta
Estátua oculta na pedra bruta.

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