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Archive for Maio, 2005

Os Chineses

Os chineses são atenciosos e simpáticos. Entra-se numa loja e vê-se logo um deles fazer um sorriso chinês e dizer "buondi", "bota" ou "bono". Não é que vendam café Buondi, botas de caminhada ou álbuns dos U2 (ainda que numa loja chinesa não fosse de estranhar venderem um coffret com os três juntos); o que ouvimos, realmente, são eles a dizer "bom dia", "boa tarde" ou "boa noite" à maneira deles. "Buondi!", "botá!", "bonô!".

Classifiquei o sorriso como "chinês" porque não há um adjectivo adequado no mundo ocidental. O sorriso do chinês, seja o do arrozal, o do restaurante, o do bazar, o do shaolin ou o do pudin Flan, é um sorriso muito peculiar porque ao mesmo tempo que é solícito, simpático e acolhedor também parece estar a dizer: "não compres nada e cravo-te uma tesoura nas costas". Pelo menos é a sensação que eu tenho quando entro numa loja chinesa. Até pode estar a atender uma criança pequena com totós, muito afável e diligente, que alguma coisa no seu olhar me diz que, se não comprar nada, serei trespassado com uma unha.

Muitos chineses possuem unhas grandes para defesa pessoal, para aparafusar os óculos e para guardar o lanche [LISA05]. A maioria deles possui igualmente um cabelo oleoso, escorrido, como se entornassem uma sopa de wan-tan na cabeça todas as manhãs. Shampoo de azeite [LISA05] não existe, nem na China. Não percebo este fenómeno e por isso às vezes teimo nele para me entreter. Numa perspectiva darwinista, terá o cabelo oleoso dado, algures no tempo, uma vantagem àquela raça sobre as outras? Por exemplo, é bem possível que tenham descoberto os fritos antes de qualquer outro povo, pois enquanto os outros precisaram de milhares de anos para conseguir processar a matéria-prima (a palma, a azeitona), o chinês já a possuía acabada – no cabelo. Nenhum ser vivo tem a capacidade de fritar uma banana com tão poucos recursos como o chinês: basta-lhe um pouco de fogo e escorrer o cabelo para dentro de uma frigideira.

O chinês trabalha, idealmente, 25 horas por dia e vive no estabelecimento. Não tem feriados. No tempo livre gosta de karaoke, video-cds de kung-fu e qualquer tipo de jogo desde que tenha apostas. O chinês é viciado em apostas. Qualquer coisa lhe serve, nem que seja apostar quem encesta mais crepes num minuto.

Adora o número 8 e tem horror ao número 4. Na China os prédios não têm quarto andar (porque não se vende [JORGE05]), assim como as matrículas dos carros. Mesmo um chinês a morrer de fome e frio numa sarjeta irá recusar viver num quarto andar, mesmo que seja dado, porque pode dar azar. Por muito que varie a inflacção nunca teremos "lojas dos 4 euros". O chinês nunca tem mais de 3 filhos, nunca compra dois pares de sapatos ao mesmo tempo e não vê a TVI. Se achar 4 piolhos na cabeça frita-se como um gelado e a família coloca as cinzas dentro de um jarrão de cerâmica pintada com dragões e nuvens.

É vulgar nos restaurantes chineses a presença desses jarrões enormes. São enormes porque podem abarcar uma dinastia inteira. Explicou-me uma vez uma chinesa, orgulhosa, que ela e a família tinham conseguido pôr todos os antepassados dentro de um pote, num cantinho do restaurante junto aos cágados.

Um restaurante, para ser chinês, tem de obedecer a certas regras que às vezes passam despercebidas. São elas:

– Duas lanternas vermelhas tipo balão, de papel, à porta;

– Uma bola rotativa de mármore ou um leão de pedra parecido com o Marco Paulo;

– Um nome oriental imperceptível ("Hua-Ta-Li", "Hi-Pin-Shan") ou um nome ocidental que não pareça um nome ("Muito Bom", "Boa Sorte")

– Decoração geral da mesma cor do Livrinho Vermelho de Mao;

– Uma fonte com cágados;

– Cadeiras gigantes e quadradas que encaixem hermeticamente nas mesas;

– Uma ementa com pratos numerados e um múltiplo de 8 erros ortográficos em cada página;

– Um quadro a pilhas com uma simulação de cascata;

– Empregados fluentes em língua chino-portuguesa;

– Jarrões de antepassados e amigos;

– Uma ou duas mesas redondas de jogo (centro rotativo);

– Copos de shot com fundos pornográficos;

– Uma garrafa de licor Lagarto em exposição;

– Caixas de caldo Knorr com sabor a cão.

Tudo isto se vende em kit nas lojas de Hong-Kong. Chamam-lhe o "kit de restaurante chinês para exportação".

Outra curiosidade dos chineses é a aparência. É quase impossível saber a idade de um chinês. Sou capaz de não dar mais de 70 a uma criança só por causa do tamanho, mas mesmo assim fico com dúvidas, dado que os velhos não são muito maiores. Os chineses além de velhos são pequenos, é outro facto. São todos pequenos e todos velhos. Desde há séculos que são os velhos, na China, a ter a fama de sábios, porque em verdade eles são os únicos a saber uma coisa: quantos anos têm.

Critica-se muito, aqui no ocidente, o abuso do trabalho infantil na China, mas é preciso reflectir se os próprios chineses conseguem distinguir uma criança de um adulto. Se calhar não conseguem e simplesmente empregam nas fábricas os candidatos mais económicos. Ninguém lhes tira que é mais lucrativo pagar salários de rebuçados e tamagotchis.

Os chineses são, em número, a seguir às formigas a forma de vida dominante no planeta. Há mais chineses que pedras da calçada. E são capazes e inteligentes, apesar do que se diz. Diz-se, por má língua, que a pólvora foi inventada na China para livrar o mundo dos chineses – só falhou a explosão. Também se diz que não foram os chineses que construiram a grande muralha da China, e sim os povos vizinhos porque não os suportavam. Mas a verdade é que este país prospera na economia mundial e por toda a parte vão aparecendo pequenas lojas e restaurantes como demonstração do seu domínio. A grande muralha, é certo, não se vê da Lua como antes se mitificava, mas se os chineses todos se abraçassem era bem possível que se assemelhassem, vistos de Marte, a um gelado frito.

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A abrilada mudou, sem dúvida, a censura. Mudou-a de lado. Para o lado esquerdo mais precisamente. Depois da abrilada a direita passou de sistema/ideologia a tabu/heresia. A gente da geração pós-25A foi educada a não dizer na escola a inclinação política, por receio de represálias. O actual presidente da república, como já disse, chegou a votar num terrorista de extrema-esquerda, o Otelo. Durão Barroso, ex-PM, foi maoísta (também foi criticado por isso pela própria esquerda, curiosamente). Muitas figuras que hoje povoam os partidos, da esquerda à direita, vieram de movimentos de extrema-esquerda educados no terrorismo e no bloqueio da sociedade, não no progresso. Os que mais repetem as palavras "liberdade" e "democracia" são os que mais têm a esconder.

Uma das estratégias do "vendedor de esquerda" é criticar os erros dos outros, sugerindo com isso, de forma subtil, que tem a solução milagrosa. "Se ele também sabe o que está mal" – pensa o povo – "então está do nosso lado e se estiver no poder vai-nos ajudar". Infelizmente, o que a esquerda geralmente quer é apenas fé e votos, e só tem soluções para si mesma. Para o país, para o próprio eleitorado, não tem nenhuma estratégia. É esse o magno plano para vencerem eleições, sejam quais forem : o bota-abaixo. E é isso que repetem todos os anos por altura do 25A. Diabolizam o antigo regime de tal forma que ficam a parecer santos. Dão imagem tão negativa da ditadura que fica a parecer que temos uma democracia. E pintam de cores tão negras a censura que o espectador iludido fica a julgar que vive em liberdade. No fim, parece que saímos do próprio inferno e reconstruímos (nós, o povo, pela mão da luminosa esquerda) o paraíso.

Qualquer pessoa que olhe em volta pode perceber as falsidades que infectam este discurso. Mas raras o fazem. As pessoas aceitam o que é popular com muita facilidade. Certas histórias transmitem-se como uma doença e são aceites como realidade, se forem populares. A versão cor-de-rosa da abrilada é uma delas. Outra é a da implantação da república. Pela lógica, se as pessoas odeiam o Estado Novo, deviam odiar o caos em que a república inicialmente afundou o país, obrigando-o a esse regime totalitário de mão forte. Se as pessoas rejeitam a ida de uma dúzia de paramilitares voluntários para o Iraque, deviam detestar a entrada de Portugal na Primeira Guerra, pela mão dos republicanos. Mas não. O dogma é que a república é uma coisa boa, tal como a abrilada. Certas coisas não se questionam – nem pelo homem comum, nem pelo jornalista, nem pelo político, nem pelo opinion-maker -, o que permite a manutenção de uma realidade virtual mesmo na era da informação. Outra coisa que o permite é o país ser muito pequeno, fisica e mentalmente, e possuir uma forma de funcionar semelhante à de uma aldeola.

Pois bem, nesta realidade virtual a direita é conotada com extrema-direita, ainda que isso não tenha expressão em Portugal (a formação de partidos com ideias xenófobas e racistas até é proibida nesta aldeia da liberdade, apesar do trotskismo e leninismo serem permitidos, bem como louvores a Estaline). E tanto Santana Lopes como Paulo Portas eram de direita.

Viu-se, como nunca, o preconceito primário anti-direita vir ao de cima durante o governo PSL-Portas. O preconceito vindo da aldeia da liberdade. De todo o lado: de jornalistas, da oposição, do próprio PSD. Principalmente do próprio PSD…

Antes de PSL ser empossado PM já choviam as críticas. Pegava-se em tudo: numa entrevista que tinha dado a comentar uma deslocalização de ministérios, na sua obra como presidente da câmara de Lisboa, no tempo em que se tinha chateado com uma estação de televisão e prometera sair da política… tudo foi usado contra PSL, por defender ideias diferentes, por ser diferente. No país da igualdade, a diferença é um crime.

Não ouvi um argumento válido, isto é, que questionasse a capacidade de PSL para exercer o cargo. Posso ter tido azar. O que é certo é que argumentos irrelevantes choviam diariamente. Foi um autêntico apedrejamento público. Ainda hoje, já ele não é PM há 3 meses, ainda se ouve a crítica fácil anti-PSL. Faz lembrar o último mandato de Cavaco Silva. Quando os media, os sindicatos e variados lobbies se juntam à esquerda explicitamente politizada, conseguem denegrir qualquer um através da criação de uma realidade virtual. Aconteceu antes e continua a acontecer, para grande empobrecimento da sociedade.

Criticou-se o homem para impedir a obra. O rol de defeitos pessoais, ou simplesmente hábitos pessoais, de PSL fez correr muita tinta, muita mais do que o seu orçamento de estado, por exemplo. O argumento era geralmente o "irá fazer mal ao país se o deixarem". A consistência não importava. A presunção de inocência idem. Afinal só se dá o benefício da dúvida a gente de confiança, como um Guterres ou um Pina Moura. A esses pode-se entregar o país. Criticou-se Santana Lopes por se "aproveitar" dos media para ser poder… no entanto, relativamente àquele que com ele dialogava no mesmo espaço, no mesmo telejornal, e que hoje é primeiro-ministro, ninguém se lembra de dizer que se aproveitou dos media… Sócrates devia estar no programa com Santana Lopes por motivos completamente diferentes. Não era para se aproveitar dos media – era, dirão, para ajudar as pessoas com a partilha da sua vastíssima inteligência.

Sampaio, o homem mais bem informado do país, que tinha de saber o estado das finanças, pediu a Guterres que ficasse quando ele já se tinha demitido, apesar da derrapagem do Estado, do descontentamento da população e do próprio pântano político que o próprio Guterres admitia existir. Sampaio e o seu amigo Guterres… No entanto, ainda não tinham passado 4 meses, ainda não tinha sido apresentado o Orçamento de Estado, e Sampaio decidiu pôr termo à legislatura de Santana Lopes e Portas. Os media concorriam para atirar pedras ao governo, em particular a PSL, a oposição fazia barulho por tudo e por nada, Durão Barroso já estava bem instalado, os interesses da Alemanha, França e Inglaterra satisfeitos, portanto não havia impedimento, desta vez, para acabar com o governo. E assim foi. A pressa foi tanta que Sampaio dissolveu a Assembleia primeiro e só depois ouviu o Conselho de Estado (talvez para os informar, talvez pensando que esses indígenas de um mundo espiritual tão elevado podiam não ler jornais ou ver televisão).

Há duas coisas terríveis neste facto. A primeira é que nesses 4 meses nada se passou de visivelmente grave para o país, pelo menos por culpa do governo. O comunicado que Sampaio leu ao país não tinha nenhuma razão concreta para terminar o governo. Referia-se "ao que todos sabem", isto é, aos fait-divers empolados pelos media. Pequenos casos que, a serem causa de queda de governo, tinham feito cair todos os governos anteriores em menos de um ano. Os media e a oposição (distingo-os aqui só por uma questão de estilo) centraram a sua atenção, não no país, mas nos pequenos tropeções de um governo recém-formado (à pressa, segundo exigência do próprio Sampaio…). Dizem-se, contudo, patriotas. Todos os dias apareciam os números do desemprego nos telejornais com comparações a anos anteriores e as deontológicas insinuações de que a culpa seria dos governos PSD-PP (em Portugal não se entende muito bem o que é uma economia de mercado, ainda se crê que os governos de direita são os responsáveis por todos os indicadores económicos, e nessa base muito se debate – é mais ou menos como debater barragens no meio do deserto).

Hoje os telejornais falam de vez em quando nesses números, que continuam a aumentar, mas sem atribuir culpas… Apenas dramatizam, fazem grande preocupação, etc., como que a preparar terreno para as medidas duras que o novo governo (socialista, pois) terá que tomar… De repente parece que o governo, que há 3 meses atrás era responsável por toda a economia, saiu para fora dela e está apenas na posição paternalista de cuidar, de ajudar, de ser solidário… Bastou mudar de cor para se tornar independente e bom samaritano em vez de responsável! Capitalismo é com a direita, a esquerda é diferente. A esquerda só ajuda! Até o governador do Banco de Portugal, socialista mas imparcial, vem para os media fazer drama dizendo que o deficit para 2005 será de 6,8% e que por isso terão de ser tomadas medidas difíceis como aumento de impostos, que terão de ser suportadas pelas pessoas! E onde está o governo? Algures, como se não tivesse nada com isso, como se não lhe pesasse qualquer "obsessão pelo deficit". Isso é com outros. Primeiro o terreno é preparado: o discurso dramático (para o qual está também a contribuir outro dos socialistas imparciais, o tal Sampaio – é uma equipa de ouro), a desgraça, a tragédia que se abate dos céus… Segundo, virá brevemente o governo, qual salvador, com um conjunto de medidas milagrosas na mão para oferecer aos portugueses. Assim as pessoas não o podem culpar dos sacrifícios que terão de fazer – o governo não tem nada a ver com a crise! Ele está apenas a estender a mão para ajudar. Se as medidas não resultarem, bom, não se pode criticar um gesto de tamanha solidariedade. Culpe-se os demónios de direita, por exemplo, que são os responsáveis pela economia de mercado.

A segunda coisa terrível na dissolução da Assembleia foi a reacção da sociedade à decisão de Sampaio. Por um lado os media, ditos imparciais, bem como analistas conceituados (dentro deste país, entenda-se), a aplaudirem a decisão sem jamais a questionar. Foram raros os que mediram os custos desta paragem do país para eleições em tempo de crise, mais raros ainda os que se perguntaram se o novo governo seria solução, e nenhum se chocou que a Assembleia tivesse sido dissolvida. O povo, digamos, viu-se a ir atrás de tudo isto como se de um reality show se tratasse, com espírito crítico nulo. Isto é o retrato de uma sociedade doente. Nem na Coreia do Norte todos pensam da mesma forma.

A democracia, em Portugal, ainda é vista de forma provinciana, como aliás muita coisa. É vista de forma distante, como uma coisa que brilha ao longe e é boa porque sim. É um cristal brilhante que se usa no dedo e não se sabe a origem, mas que tem o poder sobrenatural de curar. Assim é. As pessoas pensam que basta votar para se resolver uma crise. Se o governo não resolve a crise, não interessa o que fez, faz ou vai fazer, nem interessa o que a oposição propõe em alternativa: vota-se contra o governo e os problemas passam. Se não passarem, diz-se que "eles são todos iguais" e deixa-se de votar, ou vota-se noutros ainda. E por aí fora. Critérios racionais – não existem. Parece o jogo da cabra cega. Anda-se aos trambolhões a votar às cegas, a ver se dá alguma coisa… A democracia é boa porque é. Votar é a expressão do povo, e a escolha do povo está sempre certa… Assim se defende o português, desde o que passa os domingos a ver futebol na taberna ao mais bem formado dos analistas. Curiosamente, apesar de fazer sempre a escolha certa, o povo acaba sempre por se virar contra o governo que ele próprio elegeu… mas a ideia da democracia prevalece. Ideia… enfim. "Democracia", em Portugal, acaba por ser só mais um preconceito entre os muitos que existem.

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O governo de Durão Barroso durou dois anos, até Durão Barroso aceitar o cargo de Presidente da Comissão Europeia. Foi um episódio burlesco por várias razões. A primeira, os media e a esquerda, esses eternos comediantes: estando o lugar vago, fizeram uma campanha monumental (dentro do possível, dado que não passou além-fronteiras…) por alguém que não era candidato, que se fosse não sabia se aceitava e que nem a própria família política, dentro do Parlamento Europeu, apoiava: António Vitorino. Sobrou a dúvida se a mãe o apoiava.

António Vitorino tem mais ou menos o estatuto de messias dentro do PS, estatuto esse que os media tentam de vez em quando transpor para o grande público, apesar de ninguém perceber porquê. Talvez, quem sabe, por se ter demitido quando era ministro de Guterres. A demissão de um socialista é sempre dada como um grande sinal de honra, coragem e até democracia. Mas outros também se demitiram pelo caminho: Jorge Coelho, Ferro Rodrigues, o próprio Guterres… – e não gozam de tamanho estatuto. Então porquê Vitorino? Tal como a Nossa Senhora de Fátima, não pode ser explicado. É uma questão de fé. Substituindo os pastorinhos pelos media, é mais ou menos o mesmo fenómeno.

Noutras culturas, os honrados, os bravos, são aqueles que, apesar das dificuldades, se sacrificam, aguentam e atingem o seu objectivo. Na cultura socialista é diferente. Honrado é aquele que foge, porque a sua ausência beneficia os que ele estava a prejudicar. Noutras culturas, o herói é o que tira as dificuldades do caminho. Para os socialistas, o herói é aquele que se tira a si próprio do caminho, dado que a dificuldade é ele próprio. Mas Vitorino estava acima da honra, da bravura e do heroísmo. Aos olhos dos jornalistas e analistas, era um messias. E falavam com fé, pois em nenhuma altura quiseram justificar as suas afirmações com os interesses europeus. Jornalismo simples para gente simples. E ao alto o reluzente messias.

O messias, porém, não era apoiado pela sua família política, e se fosse estaria a ser apoiado pela minoria. O único que o apoiou foi Durão Barroso, o "inimigo". Os corredores deram umas voltas e foi o nome de Barroso que se tornou o mais apetecível aos interesses europeus (sejam eles quais forem). Em Portugal a esquerda, que outrora se escandalizava por Cavaco dizer que não tinha dúvidas, também não teve dúvidas: "traição!". De tudo se fez para arrastar Durão Barroso pela lama assim que aceitou o cargo. Afinal era a grande oportunidade da esquerda: o país em crise, sem primeiro-ministro, um presidente socialista, eleições à vista… A esquerda esfregava as mãos. Ela, que jamais levantou a voz para dar uma solução, a altos berros veio para os media protestar e achincalhar – com um sorriso ao canto do lábio. Denegriu quanto pôde o lugar terrível por que Durão trocava o país (contradizendo todas as afirmações sobre Vitorino o messias quando era "candidato"!). Viu-se o PS, que sempre foi europeísta, rebaixar ao nível do chão a Comissão Europeia! O PCP levantou os números da crise: desemprego (eles defendem uma sociedade em que o desemprego é proibido), obsessão do deficit. O BE foi buscar o aborto. Estavam felizes.

Deste quadro surrealista se libertou Durão, mas infelizmente em péssima altura. A estabilidade adquirida até então, e a confiança no governo ganha pelos agentes económicos, foi uma vez mais posta em causa. Era altura de Sampaio, o presidente de todos os portugueses, tomar a primeira decisão relevante em 9 anos de mandato – para além de atribuir ordens honrosas aos jogadores da selecção por terem conquistado o segundo lugar e aos amigos.

Jorge Sampaio, o bom camarada. Ele que desfrutava de uma presidência normal, sem talento mas sempre bem vista por partidos e jornalistas (cujo critério, em verdade, é nulo no que diz respeito a declarações do PR, já que este não tem poder para satisfazer muitos interesses), de repente ei-lo o centro das atenções do país, do governo, da oposição. Centro, também, das pressões, nacionais e internacionais, dos que querem Barroso como presidente da CE. E que faz o homem? Silêncio. Encolhe-se. Vai decidir, mas encolhido como um caracol. Alguns dias mais tarde reúne com o Conselho de Estado, mais um órgão totalmente inútil da desorganização portuguesa. O Conselho de Estado é uma espécie de conselho de anciãos, mas sem anciãos. São os sábios nacionais. Os mais experientes. Os que passaram mas ficaram. Contudo, sem qualquer poder para além de aconselhar o PR. São como os conselheiros do rei, mas à borla. De certa forma, na prática servem apenas para carregar um pouco do pesado fardo que são as grandes decisões presidenciais.

Sampaio pondera: ele votou no Otelo, ele sempre foi de esquerda. Tem princípios inabaláveis. O pobre Ferro Rodrigues é seu amigo. A haver eleições, ele seria o próximo PM. Os partidos do governo, desgastados pela crise, nada podiam fazer para o impedir. Além disso, a solução alternativa era nomear um novo governo com Santana Lopes e Paulo Portas, ou seja, um governo ainda mais à direita, o mais à direita desde a abrilada. Portanto nada mais lógico que dissolver a Assembleia.

Por outro lado, a questão da Europa. Alemanha, França e Inglaterra haviam acordado numa única coisa: Durão Barroso. Sampaio ouvira Durão antes deste se demitir. Ouvira as alternativas antes de acontecer a crise política. E ouvira, sobretudo, a Alemanha, a França e a Inglaterra. Quem era ele para voltar atrás com a palavra dada a tais potências? Com que cara se apresentaria na próxima cerimónia, fosse ela uma conferência em Paris ou o casamento do Dumbo?

As respostas soaram bem alto na sua cabeça: "ninguém" e "de cenoura podre". Por isso Sampaio aceitou, contra a sua consciência e por alguns meses, o governo de continuidade de Santana Lopes e Paulo Portas. Por alguns meses, alguns pensaram que tinha sido por patriotismo, por interesse nacional, para evitar uma crise ainda maior. Mas seria uma questão de tempo até Sampaio se reencontrar publicamente com os seus princípios de guerrilha.

Ferro Rodrigues, que não teve qualquer papel nesta história, mesmo assim assumiu a decisão do PR como uma "derrota política e pessoal". E chorou. De todos foi o episódio mais patético. É como um espectador de um jogo de ténis assumir a derrota do jogo como uma derrota pessoal, fazer uma berraria e demitir-se do seu emprego, a chorar. Está para além de patético. Mas aconteceu. Note-se que Ferro Rodrigues poderia ter sido Primeiro Ministro de Portugal.

Várias figuras do PS destilaram veneno contra Sampaio em praça pública no próprio dia em que a decisão foi anunciada. Acusaram-no de "traidor", como tinham acusado Durão Barroso. Desconfia-se que para a esquerda todo aquele que bloqueia um interesse da esquerda é um traidor. A lógica que se pode daqui tirar é a seguinte: que a esquerda assume que as instituições dirigidas por gente do seu "clube" têm por dever servir, não o país, mas unicamente a esquerda. Daí a pressão feita sobre o PR durante os dias de indecisão (em que participaram, como é habitual, os sindicatos e as manifestações "espontâneas" de "populares"…), e daí o burlesco choque com a decisão. Por algum mal explicado fenómeno da história, quem sabe pelos confusos tempos da abrilada, a esquerda ficou a achar que possui este país. Cada vez que lho tiram mostra-se chocada, faz drama e tenta recuperá-lo sem olhar a meios. Se pudessem mudariam o nome do país como mudaram o nome da Ponte Salazar – de "Portugal" para "Capital de Esquerda SA".

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Vem Devagar Emigrante
por GRACIANO SAGA

"Imigrante vem devagar por favor,
temos muito tempo para lá chegar
e depois, lá diz o velho ditado:
Mais vale um minuto na vida,
do que a vida num minuto."

Passou-se no mês de Agosto,
este drama tão cruel
de um imigrante infeliz
Foi tanta a pouca sorte,
na estrada encontrou a morte
quando vinha ao seu país
Do trabalho veio a casa,
preparou a sua mala
e partia da Alemanha
Mas seu destino afinal
acabou por ser fatal
numa estrada em Espanha
Dizem aqueles que viram
que ele ia tão apressado
a grande velocidade
Foi o sono que lhe deu
o controlo ele perdeu
desse carro de maldade

Foi o sono que lhe deu
o controlo ele perdeu
desse carro de maldade

Trazia na sua mente
ir ver o seu pai doente
que estava no hospital
Na ideia um só pensar
o seu paizinho beijar
ao chegar a Portugal
Mas tudo foi de repente
partiu de Benavente
o drama aconteceu
Ele vinha tão cansado
de tanto já ter rolado
e então adormeceu
Nada podendo fazer
num camião foi bater
e deu-se o choque frontal
Seu carro se esmagou
e desfeito ele ficou
num acidente mortal

Seu carro se esmagou
e desfeito ele ficou
num acidente mortal

Ele não vinha sozinho
trazia também consigo
sua mulher e filhinho
Sem dar conta de nada
e naquela madrugada
morrem os três no caminho
Quando a notícia chegou
no hospital alguém contou
o desastre que aconteceu
Seu pai que tanto sofria
nunca mais o filho via
fechou os olhos morreu
Imigrantes oiçam bem
não vale a pena correr
porque pode ser fatal
Venham todos devagar
há tempo para cá chegar
e abraçar Portugal

Venham todos devagar
há tempo para cá chegar
e abraçar Portugal

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Foi o pobre Ferro Rodrigues, um político tão lamentável como incapaz, o mártir escolhido para sofrer nas eleições antecipadas de 2002. E assim foi. O PSD, com Durão Barroso, ganhou com maioria relativa. Como era impossível governar em tais condições, coligou-se com o PP de Paulo Portas e seguiram em frente com maioria absoluta. Verificaram o estado do país. Estava péssimo. Disseram, ao povo, o que os socialistas tinham escondido: um deficit de 4%, uma despesa pública mostruosa, e propuseram medidas. A oposição, munida de argumentos primários, acusou-os prontamente de alarmismo e de terem causado eles a crise económica… Apesar de terem deixado o país num estado crítico, tudo fizeram para que o novo governo não conseguisse endireitar as coisas.

E de facto não endireitou. Os fenómenos económicos não se resolvem num ano ou dois, principalmente num país tão necessitado de reformas como Portugal. Reformas que são impossíveis, senão pela Constituição, pela necessidade de popularidade fácil do Presidente da República. Era fundamental corrigir o deficit, e para isso cortou-se nas despesas. A esquerda, com um moralismo vindo não se sabe de onde, desde os sindicatos à Assembleia (até mesmo ao PR socialista), levantou-se em peso contra todos os cortes e alterações. Cedo estariam, também, a culpar o novo governo pelo estado das coisas. O desemprego, a subir em flecha, tornou-se uma fonte da juventude para partidos que nada mais tinham senão um passado negro. A esquerda não apresentou qualquer solução (o PS em particular até se descartou de culpas…) mas bebeu a crise até à última gota. Este é o campo preferido por este quadrante político, é o seu ambiente natural. Como o porco chafurda na pocilga, o homem de esquerda ergue a voz na crise. A especialidade da esquerda, talvez a sua única capacidade e identidade, é a oposição.

A extrema-esquerda rangia os dentes de raiva pela direita estar no poder, mas pulava de alegria pelo descontentamento popular. Eram eles que mais iam lucrar com a bendita crise internacional e as contas desorientadas de Pina Mora, assim como com o curtíssimo espaço de manobra com que o pior presidente da república de sempre limitava o governo. Os sindicatos controlados pelo PCP jamais pararam de ser usados como arma política (o comité central não distingue entre "trabalhador" e "desempregado": são ambos sinónimos de "arma") e o BE jamais se calou com os seus "nichos de mercado": a demonização da direita e a questão do aborto.

Mas o governo tinha coragem de enfrentar o descontentamento popular, a oposição e os media e foi, como pôde, avançando contra tudo e todos. Foram acusados nos primeiros meses de não cumprir o programa eleitoral (mesmo os economistas preferiam ignorar o deficit socialista recem-descoberto), mas tinha um programa para 4 anos. A ministra das finanças, Manuela Ferreira Leite, foi acusada pela oposição grosseira de ser um "Salazar de saias", mas recebeu elogios da Comissão Europeia pelo seu trabalho.

Para a esquerda portuguesa a competência ainda é algo tão estranho como as regras democráticas e a ideia do Estado de Direito. Lembro-me, por exemplo, de uma conversa publicada entre esse pobre homem chamado Ferro Rodrigues ("líder" do PS durante os tempos Durão Barroso) e o actual ministro da administração interna, António Costa, para moverem influências de forma a safarem um amigo, Paulo Pedroso, de uma investigação judicial de pedofilia. Dizia um ao outro: "estou-me cagando para o segredo de justiça" (SIC). A esquerda afirma-se patrona da democracia, mas nunca a direita se aproximou, sequer, a um tal desprezo pelas instituições democráticas. Outro exemplo é o de Mário Soares, aquela nulidade a que a imprensa gosta de prestar vassalagem, que usou no seu tempo a instituição da presidência da república para fazer oposição à direita. O mesmo se aplica ao menos talentoso Jorge Sampaio. Qual será realmente a ideia de "democracia" para esta esquerda? Ninguém percebe, mas parece ser definida mais ou menos como o "apoio do povo, dos lobbies e das instituições – à esquerda".

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Os nossos melhores jornais não passam de pasquins de aldeia se comparados com jornais sérios de outros países. A tendência de cada um é clara. O jornalista profissional português já não esconde quem é que apoia nesta e naquela notícia. São os jornalistas da "Capital" de Eça de Queiróz, os mesmos, mesquinhos, interesseiros, irresponsáveis e sem capacidade de produzir algo melhor que tablóides mal disfarçados. Demorará provavelmente muitos anos até a classe jornalística se libertar dos interesses partidários que ficaram, como carraças, colados um pouco a todo o lado desde a abrilada. Um dia o país olhará para o seu passado com agonia e a esquerda terá de se negar a si própria.

Foi Guterres, um líder tão carismático como gelatinoso do PS, que sucedeu a Cavaco. Os media declararam uma vitória estrondosa e o povo acreditou. Pois se Cavaco era tão mau como diziam, Guterres, pela mão da infalível democracia (um dogma de esquerda instituído é o de que a democracia é sempre esclarecida e nunca falha…a não ser no caso do referendo do aborto), seria o novo Pai dos Povos. Preocupado com tudo, desde a saúde à educação, até com as obras públicas que tanto criticava. Um dos seus piores ministros, um imbecilóide de nome João Cravinho, mostrava no agonizante fim gráficos a provar que tinha construído mais quilómetros de estrada que o seu antecessor… Quilómetros, mas não escolas. Tudo eram prioridades para Guterres. Razão e coração. Paixão pela educação. Diálogo. Foi feita uma campanha digna de figurar na capa de qualquer revista cor-de-rosa. Tudo seria perfeito, cor-de-rosa como o PS. E se não fosse, ao menos haveria um governo "humano" e "sensível" que se "preocupava".

A estratégia colou. O povo adorou a ideia de uma política amiga de todos, abrangente, tolerante e compreensiva. Nem sequer pensou que isso era impossível e incompatível com o desenvolvimento, para não falar de um Estado de Direito. O português adora favores e Guterres era uma espécie de merceeiro que fiava a toda a gente. Era o tipo porreiro que empresta dinheiro e se esquece no dia seguinte. Mais do que um PM, um amigo.

Em 4 anos Guterres conseguiu apenas disfarçar os erros e os buracos a que o seu governo conduzia o país. Mas conseguiu, e por isso pediu maioria absoluta em 1999. O PS foi o partido que mais criticou as maiorias absolutas, mas pediu-a na mesma. Defendia nos tempos de Cavaco, com mais conveniência que convicção, que a maioria absoluta gerava despotismo e arrogância; que um partido com maioria absoluta não ouvia os outros na Assembleia, e logo parte do povo era como se não estivesse representado. Era no diálogo que tudo devia assentar. Toda esta "filosofia" caiu quando a oposta podia satisfazer melhor as fomes do PS: a da maioria absoluta. E não houve cacique socialista, desde Jorge Coelho a Mário Soares, que não mudasse de opinião. De repente a maioria absoluta passou a ser "fundamental" para governar o país. Desde que fosse a do PS, como se cheirava no ar que podia ser. Era desta esperteza que o PS estava munido e bem armado.

E assim não foi, mas quase. O povo, embriagado pelo crescimento económico espontâneo (nessa altura o país ia a reboque de um muito favorável crescimento económico mundial e o governo desbaratava a herança cavaquista para satisfazer os lobbies) e embalado pelo discurso humanista do PS e dos media, facilmente se esqueceu que o país estava a ser governado como uma mercearia de esquina e que a despesa pública atingia valores preocupantes, ultrapassando 50% do PIB. E ofereceu 50% dos lugares ao PS. Mais um deputado, teriam maioria absoluta. Mais tarde, estes que defendiam ao início o equilíbrio na Assembleia viriam a queixar-se de não ter tido mais um deputado…

Exactamente dois anos depois, quando Guterres apresentou a demissão "para bem do país", que estava "num pântano político". O segundo mandato do PS foi catastrófico. Começou pela nomeação de um ex-comunista onde jamais luzirá algum talento, Pina Mora, para as pastas menos apropriadas ao seu perfil: finanças e economia. Pina Mora era um político carreirista e um amigo, e Guterres achou que tal cocktail de retórica e lealdade seria adequado à defesa destes dois ministérios, que se adivinhavam difíceis pelos erros cometidos anteriormente e também por alguns indicadores menos favoráveis sobre a economia já em 99. Pina Mora foi um erro monumental. Anunciava, para 2001, um deficit de 1,1%, quando os números verdadeiros apontariam para mais de 4%. O próprio ex-ministro das finanças socialista, Sousa Franco, veio avisar que as finanças não eram tão mal geridas desde o tempo de Maria I. Guterres, astuto, viu que a coisa ia estoirar em pouco tempo e todo o governo, juntamente com o PS, seria chamado às responsabilidades. Era demasiado óbvio para se poder dar a volta com a retórica, como era prática no seu governo. E então, aproveitando o resultado desastroso das autárquicas, demitiu-se "por razões democráticas". Foi visto como um homem de bem. Todo o socialista que erra e se demite, aliás, parece ser um homem excelente aos olhos da imprensa, sabe-se lá com que lógica.

A estratégia do PS era clara para quem raciocinasse: não responder pelos próprios erros, culpar os próximos que viessem pela crise. Isto só seria possível num partido que tivesse os media do seu lado, como era o caso. Os media teriam de ser disciplinados. Não podiam fazer muitas questões nem aprofundar o estado do país e as suas causas. Foi exactamente isso que não fizeram. O que fizeram foi atirar-se ao novo governo como se não houvesse passado.

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Era uma vez uma esquerda de índole soviética, atrasada, irresponsável e bacoca, treinada para bloquear alternativas em vez de as apresentar. Era uma vez uma revolução que não foi uma revolução, e sim uma confusão que essa esquerda tenta perpetuar como indiscutível vitória sua – se não militar, ao menos moral. Era uma vez um país pequenino, corrupto e pejado de instituições terceiro-mundistas que funcionam à base de influências e não de regras. Era uma vez meios de comunicação tablóides influenciados pela tal esquerda atrasada. Era uma vez um povo sem capacidade crítica, manipulável por esses meios. Era uma vez os presidentes de esquerda que são sacos de chavões e não representam coisa nenhuma para além dos próprios partidos. Era uma vez Portugal.

Depois da abrilada a esquerda destruiu o país e mesmo a ala menos radical não o conseguiu recompôr. O "sonho democrático", a "vitória da liberdade", o "progresso", como se apregoa, foi cedo convertido a ameaças, bombas, reforma agrária, expropriações, roubos de toda a espécie, tortura e homicídio. O "sonho democrático" resultou afinal numa realidade anárquica, caótica e destrutiva. A "vitória da liberdade" foram uns comunistas apoiados pela URSS a torturar sem julgamento os PIDES, a expulsar jornalistas e a censurar jornais a seguir à revolução. O "progresso" foi Portugal na maior crise económica desde a Primeira República, a precisar de apoio do FMI por duas vezes. O PS, com Mário Soares, nada resolveu e sucumbiu à confusão.

Portugal entrou na era moderna pela mão de alguém que foi acusado de não ter atirado pedras à polícia nos anos 60 nem participado na rebeldia estudantil desse tempo: Cavaco Silva. Foi com ele que Portugal, no final dos anos 80 / início dos anos 90, realmente se tornou um país livre, com uma sociedade civil não sufocada, televisões privadas, e se tornou uma economia de mercado e construiu as bases do desenvolvimento, nomeadamente infraestruturas. Lembramo-nos, desse tempo, do que dizia a oposição: que a educação era mais importante que as auto-estradas, e que por isso elas não deviam ser construídas. Qualquer coisa construída, aliás, era alvo da crítica mais populista e demagógica, tanto por parte de políticos como por parte de "idóneos" jornalistas. Se um parafuso estivesse mal apertado, já não se falava da obra no telejornal, e sim do escândalo nacional do parafuso.

A tal se resumia a estratégia da esquerda. Qualquer semelhança com propostas para o desenvovimento do país era pura coincidência. Porque a identidade da esquerda, desde sempre, desde os comunistas à parte central do PS, sempre se definiu como contraponto moralista, humanista, progressista e outros istas de uma certa imagem da direita: uma imagem que tem sido fabricada pelos media e que se tenta colar sempre, convenientemente, à da ditadura salazarista, apesar da realidade ser muito diferente disso. Cavaco foi várias vezes comparado ao ditador, e no fim do seu último mandato já era tratado como arrogante, insensível e despótico, encarnação de Salazar ou pior. O povo foi atrás e votou PS. O PS era bom – porque não era o PSD. Hoje, 10 anos depois, Cavaco é o preferido para ser o representante e líder máximo da Nação, possuindo um reconhecimento incomparavelmente maior a figuras populares-no-seu-tempo como Guterres ou Mário Soares. Tal é fruto de ter acabado a campanha nociva feita pelos corrompidos e corrosivos media, e ter havido tempo para o pó assentar, tempo para reflectir. É uma mensagem importante que se tira daqui: a de que apesar de toda a propaganda falsa que se atire aos olhos, a História distingue o trigo do joio.

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